quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Anat Fort e os sons da Terra Prometida

O baixista Wang, Fort e o baterista Roland Schneider
Às primeiras notas do piano de Anat Fort, a confirmação: é um disco da ECM. E quem sabe, outra constatação: são tantos os pianistas bons nessa terra… assim como tantos saxofonistas, tantos trumpetistas etc. E, apesar de alguns “eleitos” como Keith Jarrett, Brad Mehldau ou Herbie Hancock continuarem nas listas dos melhores, sempre despontam nomes novos. Conclusão: onde há tantos, muitos se destacam.

Apesar da presença forte de pessoas de origem judaica no jazz americano, tanto entre compositores como entre músicos, até há pouco, tínhamos reduzido número de nascidos na “Terra Prometida”: questão de tempo; afinal, Israel não existe há tanto tempo. O primeiro que deve ter ficado conhecido é o baixista Avishai Cohen. Tocou com Chick Corea e, como solista, gravou vários álbuns pela Concord Jazz. Mais recentemente, surgiram a excepcional clarinetista e saxofonista Anat Cohen e seu irmão Avishai (tem o mesmo nome do baixista, mas é trumpetista). Somam-se aos três, o baixista Omer Avital, e os pianistas Omer Klein e Anat Fort. Curiosidade: a repetição dos nomes “Cohen” e “Anat”.

Anat Fort, ao contrário dos conterrâneos emigrados, produz música que tende ao introspectivo. Uma suposição: pelo fato da música klezmer ser, essencialmente, “extrovertida”, esses israelenses gostam dos ritmos caribenhos e os incorporaram aos seus repertórios. Anat Cohen é um exemplo: dona de técnica exemplar, conhece e toca música brasileira (veja em http://bit.ly/nrcygW, onde toca Brasileirinho, e Bolo de Fubá, em http://bit.ly/n9D8jl).

Ao contrário de sua xará clarinetista, a outra Anat, cujo sobrenome é Fort, faz música “para dentro”. Como todos os que almejam projeção no mundo da música instrumental, foi para os EUA. Ganhou as graças de Manfred Eicher e And If é seu segundo CD pela gravadora ECM. O primeiro foi A Long Story, de 2004. Em sua estreia foi acompanhada pelo baixista Ed Schuller, o clarinetista Perry Robinson e pela bateria “abstrata” de Paul Motian. Não deve ser outro o motivo de Fort ter composto uma música chamada Paul Motian, que serve de abertura e encerramento do CD lançado em 2009. Acho que é o disco que mais ouvi neste ano; isso não quer dizer que seja o meu preferido. Significa que ouvi muito, até para me perguntar por que um disco com boas músicas não se fixa na lembrança e até hoje não tenho formado em minha cabeça se gosto ou não dele.

É um típico disco ECM: é belo, mas fica a sensação de que falta alguma coisa, um instante de catarse produzida pelo sublime, digamos. And If é um título apropriado: “E se?” É um pouco como os bárbaros do célebre poema de Konstantinos Kaváfis, que nunca chegam: “O que esperamos na ágora reunidos?/ É que os bárbaros chegam hoje. […] Porque é já noite, os bárbaros não vêm/ e gente recém-chegada das fronteiras/ diz que não há mais bárbaros.// Sem bárbaros o que será de nós?/ Ah! eles eram uma solução.” É a espera infrutífera de sermos acolhidos por um fato (ou um som) surpreendente.

É, mas a vida nem sempre é acompanhada de emoções fortes. O piano de Anat nos remete a paisagens desoladas. A faixa inicial de And IfPaul Motian (1) – é belíssima e nos incita a penetrarmos em seu universo. Em Clouds Moving, vemo-las a se mover em climas que lembram discos de Keith Jarrett, gravados em formato trio, dos tempos da Impulse e início de sua longa parceria com a ECM. En If parece um acalanto. E assim vai: belas imagens se formam em nossos cérebros imaginativos. Something ’bout Camels: que título interessante!; não “vejo” camelos nem desertos, mas viajo na abstração das notas do piano de Fort. If, é estranha: termina abruptamente. E assim vai. A última é Paul Motian (2). É como uma coda, um retomar do início, como uma audição circular em moto-perpétuo, que acontece ad infinitum sem nos causar sobressaltos. Ficamos a desejar uma “surpresa”, que nunca chega.


Anat toca Just Now, com o baixista Gary Wang e com Paul Motian, que mereceu, em seu último CD, uma música com seu nome.



Ouça Nu (nem imagino o significado dessa palavra); é a faixa mais “agitada” desse disco.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Quando Aretha Franklin era princesa

A jovem Aretha
Antes de se tornar a rainha do soul, Aretha Franklin foi princesa. Tinha 18 anos e fora contratada pela Columbia. O repertório era uma mistura de standards consagrados pelo cancioneiro americano e canções que caberiam mais no gosto popular: um pouco parecido com o que Dinah Washington estava fazendo até antes de morrer, em 1963. Mas o caminho de Aretha seria sedimentado em repertório um pouco diverso, deixando de lado um lado mais jazz. Depois que passou a gravar pela Atlantic, explodiu, emplacando sucessos definitivos como Respect (que foi gravada por Otis Redding também), (You Make Me Feel Like) A Natural Woman e Chain of Fools.

Em anos formativos ainda, era uma princesa de voz única. Essa lembrança dessa, ainda mocinha, ressurgiu na bela interpretação de Try a Little Tenderness, que fora antes cantada por Frank Sinatra e tornou-se definitiva com Otis Redding (às vezes, penso que não deveria ser cantada por mais ninguém, muito menos por Michael Bublé).