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| O baixista Wang, Fort e o baterista Roland Schneider |
Apesar da presença forte de pessoas de origem judaica no jazz americano, tanto entre compositores como entre músicos, até há pouco, tínhamos reduzido número de nascidos na “Terra Prometida”: questão de tempo; afinal, Israel não existe há tanto tempo. O primeiro que deve ter ficado conhecido é o baixista Avishai Cohen. Tocou com Chick Corea e, como solista, gravou vários álbuns pela Concord Jazz. Mais recentemente, surgiram a excepcional clarinetista e saxofonista Anat Cohen e seu irmão Avishai (tem o mesmo nome do baixista, mas é trumpetista). Somam-se aos três, o baixista Omer Avital, e os pianistas Omer Klein e Anat Fort. Curiosidade: a repetição dos nomes “Cohen” e “Anat”.
Anat Fort, ao contrário dos conterrâneos emigrados, produz música que tende ao introspectivo. Uma suposição: pelo fato da música klezmer ser, essencialmente, “extrovertida”, esses israelenses gostam dos ritmos caribenhos e os incorporaram aos seus repertórios. Anat Cohen é um exemplo: dona de técnica exemplar, conhece e toca música brasileira (veja em http://bit.ly/nrcygW, onde toca Brasileirinho, e Bolo de Fubá, em http://bit.ly/n9D8jl).
Ao contrário de sua xará clarinetista, a outra Anat, cujo sobrenome é Fort, faz música “para dentro”. Como todos os que almejam projeção no mundo da música instrumental, foi para os EUA. Ganhou as graças de Manfred Eicher e And If é seu segundo CD pela gravadora ECM. O primeiro foi A Long Story, de 2004. Em sua estreia foi acompanhada pelo baixista Ed Schuller, o clarinetista Perry Robinson e pela bateria “abstrata” de Paul Motian. Não deve ser outro o motivo de Fort ter composto uma música chamada Paul Motian, que serve de abertura e encerramento do CD lançado em 2009. Acho que é o disco que mais ouvi neste ano; isso não quer dizer que seja o meu preferido. Significa que ouvi muito, até para me perguntar por que um disco com boas músicas não se fixa na lembrança e até hoje não tenho formado em minha cabeça se gosto ou não dele.
É um típico disco ECM: é belo, mas fica a sensação de que falta alguma coisa, um instante de catarse produzida pelo sublime, digamos. And If é um título apropriado: “E se?” É um pouco como os bárbaros do célebre poema de Konstantinos Kaváfis, que nunca chegam: “O que esperamos na ágora reunidos?/ É que os bárbaros chegam hoje. […] Porque é já noite, os bárbaros não vêm/ e gente recém-chegada das fronteiras/ diz que não há mais bárbaros.// Sem bárbaros o que será de nós?/ Ah! eles eram uma solução.” É a espera infrutífera de sermos acolhidos por um fato (ou um som) surpreendente.
É, mas a vida nem sempre é acompanhada de emoções fortes. O piano de Anat nos remete a paisagens desoladas. A faixa inicial de And If – Paul Motian (1) – é belíssima e nos incita a penetrarmos em seu universo. Em Clouds Moving, vemo-las a se mover em climas que lembram discos de Keith Jarrett, gravados em formato trio, dos tempos da Impulse e início de sua longa parceria com a ECM. En If parece um acalanto. E assim vai: belas imagens se formam em nossos cérebros imaginativos. Something ’bout Camels: que título interessante!; não “vejo” camelos nem desertos, mas viajo na abstração das notas do piano de Fort. If, é estranha: termina abruptamente. E assim vai. A última é Paul Motian (2). É como uma coda, um retomar do início, como uma audição circular em moto-perpétuo, que acontece ad infinitum sem nos causar sobressaltos. Ficamos a desejar uma “surpresa”, que nunca chega.
Anat toca Just Now, com o baixista Gary Wang e com Paul Motian, que mereceu, em seu último CD, uma música com seu nome.
Ouça Nu (nem imagino o significado dessa palavra); é a faixa mais “agitada” desse disco.

