quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Seal é jazz

Seal e a mulher Heidi Klum
No fim dos anos 1980, falava-se muito de um cara chamado Adamski. Num cenário pleno de rótulos como dance/ acidhouse/ electropop/ technopop, esse bretão circulava pelos clubes ingleses com seus instrumentos eletrônicos debaixo dos braços, aparecia com frequência na MTV, enfim, era “o” falado. Em 1990, lançou um disco do qual uma das faixas dele se chamava Killer, cantada por um certo Seal. De hoje em dia, nem se fala mais de Adamski. Seal explodiu.

Quando Seal Henry Olusegun Olumide Adeola Samuel (esse é seu nome de batismo) ficou conhecido, passou-se a falar que era filho de um brasileiro com uma inglesa de origem africana. A verdade, dita por ele próprio, é que o avô por parte de pai era brasileiro. Bom, independentemente de que tenha sangue brasileiro, Seal impressiona; pelo tipo físico – é um homenzarrão, careca, de olhar profundo, um tanto triste e sério, tem o rosto marcado por um tipo raro de lúpus que deve ter contraído ainda jovem – e, principalmente, por uma voz (muito) especial, meio-rouca, que carrega certa melancolia.

Num primeiro olhar, seria improvável se imaginar que alguma música de Seal pudesse virar tema para intérpretes ligados ao jazz. Depois de saber que duas pianistas gravaram Kiss from a Rose – música que foi tema de um dos Batman –, constatamos que belas melodias sempre serão temas ricos à exploração e improvisação instrumental.

Rachel Z (esq.), e Julia Hülsmann (dir.)
Coincidentemente, os dois registros são de mulheres. Segundo, são de duas intérpretes que não estão ligadas ao mainstream do jazz. A gravação mais antiga que conheço é a de Rachel Z, de 2004. A marca dessa pianista tem sido a de procurar novos temas do universo pop e explorá-los jazzisticamente. Além de Seal, gravou Peter Gabriel, Sade, George Harrison, Johnny Cash e Sting.

A alemã Julia Hülsmann gravou alguns discos pela Act e, atualmente grava pela ECM. Como Rachel Z, tem procurado explorar temas no pop, como as de Nick Drake, Sting e Randy Newman. Enveredando por um viés mais intelectualizado, musicou poemas de Emily Dickinson e e.e. cummings. Julia é uma intérprete a quem devemos prestar atenção.

Ouça Kiss from a Rose por Julia Hülsmann.



Ouça a de Rachel Z.



Kiss from a Rose por seu compositor, Seal.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

35ª Mostra: Um mundo pouco ou nada misterioso

Como prefiro manter a constância de escrever duas vezes por semana, observações sobre alguns filmes que vi na Mostra de Cinema de São Paulo ficarão defasadas, mas entendo que, apesar disso, podem ser lidas fora do contexto do imediato.


Os amigos Andrej e Gregor
Uma Viagem. Um dos bons filmes exibidos, na minha opinião é Uma Viagem (Izlet, 2011). Andrej (Luka Cimpric), Gregor (Jure Henigman) e Ziva (Nina Rakovec) são amigos desde a adolescência. Antes da partida de Gregor para o Afeganistão em missão militar, os três saem sem destino no carro de Ziva.

Andrej tem Gregor como seu melhor amigo, um pouco, em razão de ter sido aquele que o “salvou” de uma situação, na qual foi posto pelado no meio dos colegas de escola. Ziva é a sua melhor amiga. A relação de Gregor com ela é mais ambígua, pois se sente atraído sexualmente, enquanto isso não acontece com Andrej, pois este é gay.

A qualidade desse filme dirigido pelo esloveno Nejc Gazvoda reside nas tensões que vão se desvelando. Os caminhos da “viagem” são “sem rumo” e percorrem atalhos inesperados e, por vezes, dolorosos. Ziva é uma moça cheia de energia, diverte-se muito com Andrej, provoca o desejo de Gregor numa espécie de jogo de aproximação e repulsão; e, no decorrer da história, perceberemos que ela o deseja também e que existe um “obstáculo” para que isso aconteça de fato. Outro momento de tensão é quando Ziva revela a farsa de seu “salvador”. Percebemos que, como o que ocorre entre os dois, muitas das nossas maiores convicções e sentimentos podem, muito bem, estar baseadas em premissas que podem não ser reais.

Depois de tudo, apesar de algumas verdades doloridas, a amizade entre eles continua. É um alento, até para os mais pessimistas.

O trailer de Uma Viagem.


Um Mundo Misterioso. O argentino Las Acacias foi agraciado com o Camera d’Or em Cannes e recebeu boas críticas na Folha de S. Paulo e em O Estado de S. Paulo. Luiz Zanin Oricchio diz que “Las Acacias é mais um exemplo de como o cinema argentino – ou pelo menos a parte dele mais visível para nós – é capaz de tirar o máximo do mínimo.” (OESP, 31/10/2011).

É certo que o olhar de alguns cineastas europeus nos mostrou um universo bem diferente do cinema cheio de histórias, “aconteceres” e ações. Através desse olhar, vemos a vida acontecer ou sendo revelada por gestos, frases e atos insinuados, em um processo no qual o espectador, de certa maneira, “preenche” os vazios e assim se constrói a história. Las Acacias (leia em http://bit.ly/vPkTEN) é uma mistura disso com os “road movies” de Wenders. Até por isso, o primeiro filme que me veio à lembrança foi No Decurso do Tempo (Im Lauf der Zeit, 1976), dirigido pelo alemão. Rüdiger Vogler é um técnico de projetores de cinema. Com seu caminhão viaja pelas cidades do interior consertando-os. Em um filme de cerca de três horas, somos espectadores de histórias que vão se passando “no decorrer do tempo”. Há uma cena reveladora que pode delatar – maldosamente – a minha percepção sobre esses filmes: Walter – é o nome dele – está com o caminhão estacionado num lugar ermo; faz a higiene (bem pouca) pessoal no caminhão, vai até um “matinho”, abaixa o macacão (pelo jeito, não usa cueca) para fazer cocô, literalmente; ficamos a observar o cocô saindo dele. Ainda bem que o filme é em preto e branco.

Nesse “nada acontecer” e acontecendo, como nos filmes americanos, o “nada acontecer” pode ser, literalmente, isso mesmo. Em outro filme elogiado por Oricchio – Um Mundo Misterioso –, Ana (Cecilia Rainero) pede um tempo para Boris (Esteban Bigliardi). Começa com um “quanto tempo” é esse tempo? Boris vai morar num hotel 2 estrelas, compra um carro velho, vai a festa, levado por um amigo, deixa de viajar porque está sem documentos, e depois, acaba indo para Colônia do Sacramento – do outro lado do rio da Prata, no Uruguai – atrás da mulher que lhe dera “bola” na festa; não a encontra e acaba passando o ano com o mecânico que está consertando o seu carro. Por fim, volta ao antigo apartamento em que morava com Ana e percebe que ela não tinha trocado as chaves, como tinha afirmado que ia fazer. Resumo: acontece um monte de coisas e nada de muito misterioso se realiza. O segredo da fechadura que não foi trocada faz pensar que tudo continua na mesma. Vai, a vida acontece, com um pouco de mistério, ou quase nada, mas acontece, mas ficar sentado quase duas horas no escuro e ficar a observar que os “mistérios” não são tão misteriosos, ah, é melhor ficar em casa lendo um bom livro e ouvindo boa música. De tanto falar mal, acabei esquecendo de citar o nome do diretor. Gravem: seu nome é Rodrigo Moreno.