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| Jack e seu arsenal percussionístico |
Aos 74 anos, completados em agosto último, é ainda um dos melhores bateristas do mundo. E o melhor, continua a nos surpreender. Basta dizer que seus últimos dois álbuns, “Made in Chicago” (ECM 2015), com a ‘velha” vanguarda, que atende pelos nomes de Muhal Richard Abrams, Henry Threadgill, Roscoe Mitchell e Larry Gray, e o mais recente “In Movement” (ECM 2016), com os jovens Matthew Garrison e Ravi Coltrane, ambos filhos dos geniais, respectivamente, Jimmy Garrison e John Coltrane, demonstram que sempre esteve na ponta da evolução do jazz. Não é fácil. São mais de 50 anos como profissional.
Quando criança, estudou piano clássico com professores em casa e depois no Chicago Conservatory of Music. Entrou na cena musical como pianista e baterista. Teve os horizontes ampliados a partir do contato com músicos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), o mais importante centro da vanguarda do jazz.
Passou pouco tempo na banda de Charles Lloyd, a mesma que teve outro membro em início de carreira e, como ele, genial. Por obra do destino, os dois, DeJohnette e Keith Jarrett, com o baixista Gary Peacock, no futuro, iriam formar um dos trios mais consagrados e longevos.
Os caminhos de Keith e Jack foram se cruzando em vários momentos. Tocaram com Miles Davis nos anos 1960 e depois partiram para brilhantes carreiras solo. O primeiro lançou seus primeiros discos pelos selos Atlantic e Impulse. Jack lançou, em 1968, seu primeiro como líder: “The Jack DeJohnette Complex”, pela Milestone, e logo depois, “Have You Heard” (1970). Passou para a Prestige e lá saíram “The Sorcerer” (1974) e “Cosmic Chicken” (1975).
Os dois passaram a gravar também pelo selo ECM. Jarrett lança seu primeiro LP em 1971: “Facing You”. No ano seguinte, com DeJohnette, em duo, gravam “Ruta and Daytia”. Se não me engano, é a última vez que toca algum instrumento eletrônico. Aqui, desdobra-se no piano acústico, elétrico, flauta e órgão. Jack toca bateria e vários instrumentos de percussão. Não foi um disco que teve tanta receptividade, mas é muito bom, principalmente, por ser bem experimental e ter a percussão como protagonista.
Ouça “You Know, You Know”, uma das faixas mais interessantes, com Keith ao piano elétrico.
Primeiros na ECM
Depois desse álbum, DeJohnette participa de “Timeless”, de John Abercrombie. Grava mais alguns com o guitarrista como membro da banda Gateway.
Em seu primeiro como líder, na ECM, “Untitled” (1976), sua banda Directions conta com John Abercrombie, seu companheiro na Gateway, Warren Bernhardt nos teclados, Alex Foster nos saxes soprano e tenor, e Mike Richmond no contrabaixo. A maioria das composições ou é de DeJohnette sozinho ou em parceria. Há poucos bateristas que compõem, comparados a outros instrumentistas, mas Jack é um caso à parte, por ter aprendido a tocar piano, além de arranhar no saxofone. É por isso também que a sua bateria apresenta um colorido tonal. Manfred Eicher conseguiu imprimir uma marca, que até ficou conhecida como “ECM sound”. “Untitled” não foge à regra, e é uma grande estreia de Jack nessa gravadora.
Um grande tema é “The Vikings Are Coming”. Ouça.
Jack participou de vários álbuns de outros do cast da gravadora, como Kenny Wheeler, Bill Connors, Gary Peacock e Terje Rypdal, dentre outros. Com o seu Directions, lançou “New Rags” (1977).
Ouça “Seasons”, do brilhante álbum em que o baterista toca com Miroslav Vitous e a guitarra impressionante de Terje Rypdal. Esse álbum, lançado em 1979, é uma de suas grandes participações.
Novas direções
Com nova formação – Lester bowie no trompete, Eddie Gomez no baixo, e o mesmo Abercrombie na guitarra –, lançou o álbum “New Directions” (1978). Seria ainda lançado uma ao vivo dessa banda, em 1979, o “New Directions in Europe”.
Ouça “Silver Hollow”, com DeJohnette ao piano, em composição própria. O trompete é de Lester Bowie.
É de 1980 o melhor disco de Jack DeJohnette, na minha opinião. Fiquei chocado quando ouvi pela primeira vez. Deixou de ser Directions e montou a Special Edition, com músicos mais ligados à avant garde: David Murray no sax tenor e na clarineta baixo, Arthur Blythe no sax alto, Peter Warren no baixo e violoncelo, e Jack, an bateria, piano e melódica. Duas das composições são de John Coltrane (“Central Park West” e “India”), e as três restantes, de sua lavra: “One for Eric”, “Zoot Suite” e “Journey to the Twin Planet”. As referências, ou homenagens, são claras. A primeira, para Eric Dolphy, precocemente falecido, um gênio no sax alto, flauta e clarineta baixo; a segunda, para Zoot Sims.
Ouça a genial “One for Eric”.
“India”, de John Coltrane, é outro destaque, com Johnette ao piano, no início. Atenção ao solo de David Murray na clarineta baixo e de Arthur Blythe no sax alto.
Como Jack DeJohnette’s Special Edition, lançou mais dois álbuns de estúdio – “Tin Can Alley” (1981) e “Album Album” (1984) – pela ECM, igualmente bons, mas não como o primeiro. Também, seria demais, porque é um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos. Com formações diferentes, o comum é o contraste entre instrumentos de sopro mais agudos e mais graves. Em “Tin Can Alley”, Chico Freeman toca sax tenor, e John Purcell o alto e o barítono, além dos dois na flauta. No seguinte, são três: Purcell no alto e no soprano, David Murray no tenor, e Howard Johnson na tuba e no sax barítono. Pela ordem, o primeiro é o melhor, o último é o segundo, e “Tin Can Alley”, o menos bom. Em “Album Album”, temos uma outro tema genial, que vale o disco inteiro.
É “Ahmad The Terrible”. outra referência a um grande músico. Ouça. Os saxes são maravilhosos.
O outro caminho
Para quem imaginava que DeJohnette e Keith Jarrett não mais se encontrariam, engano. Lançaram “Standards 1”, pela ECM, em 1983, com Gary Peacock no contrabaixo e estava formado um dos trios mais longevos da história. São cerca de 20 álbuns lançados pela ECM. O último, se não me engano, é “Somewhere”, de 2009. Nada impede que voltem a gravar juntos. Vamos esperar.
Septuagenário, Jack não para. O último álbum lançado é coisa fina, como se dizia antigamente. Foi comentado neste blogue. O link está no primeiro parágrafo.
