quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O mito Nico

Nico, antes do Velvet Underground
Imagine alguém que foi amiga de Jim Morrison, aos 17 anos foi contratada como modelo da Casa Chanel, namorou com Alain Delon, participou de La Dolce Vita, de Federico Fellini e La Tempesta, de Alberto Lattuada, foi fotografada em ensaios publicados na Vogue, Camera e Elle, teve ajuda de Brian Jones ao gravar seu primeiro single e cantou no disco que foi considerado o 13º melhor álbum de todos os tempos na “Rolling Stone's 500 Greatest Albums of All Time”. Essa moça “embeleza” a capa de Moonbeams, do fabuloso pianista Bill Evans. Essa moça tem nome. Chama-se Christa Päffgen. Ou melhor, chamava-se. Ou melhor, ficou conhecida como Nico.

Andy Warhol resolveu entrar no negócio da música e tornou-se empresário de uma banda chamada Velvet Underground. Faziam parte dela Lou Reed e John Cale. Ele achou que o Velvet precisava de uma “chanteuse”. O empresário era ele e os dois foram obrigados a “engolir”. Ambos só criaram problemas e Nico não ficou por muito tempo. Mas sua participação apenas deu mais beleza a Femme Fatale, All Tomorrow’s Parties e I’ll Be a Mirror.

Ouça Tomorrow’s Parties.



Conta-se que o namoro com Alain Delon não ficou apenas nisso. Dizem que Christian Aaron Päffgen, nascido em 1962, é seu filho. Delon nunca confirmou, e nem Nico. Nova e com a vida agitada, não podia e nem deveria querer aquietar-se para criar o filho. Ari, como Christian era chamado, foi criado pelos pais do ator. Os fatos falam mais alto do que a não confirmação dos dois.

Ter cantado no Velvet Underground e suas boas relações no show business facilitaram-lhe a vida. Logo mais, em 1967, lançou o primeiro solo. Em Chelsea Girl, Nico canta músicas de Bob Dylan, Jackson Browne e até de seus “inimigos” íntimos Reed e Cale. Na verdade, Cale continuou a cooperar com a alemã, apesar da antipatia inicial. Outro bom empurrão para a sua carreira, foi ter conhecido Jim Morrison, que a encorajou a compor. 

Ouça Chelsea Girl.



Ari, filho de Nico. Semelhança com Alain Delon
Natural de Colônia, Alemanha, Nico não sossegava o facho. Depois de passar uma temporada em Nova York, no início de 1970, foi morar na França quando começou a namorar com Philippe Garrel, e trabalhou como atriz em vários de seus filmes. No reino da música, suas relações apenas cresciam e com gente de primeira, como Brian Eno, Phil Manzanera e Kevin Ayers. Com uma turma dessas, impossível deixar a música.

O fato é que a Nico que a maioria conhece é a Nico do Velvet Underground. Não interrompeu de fato a carreira como performer musical, mesmo tendo trabalhado como atriz. Havia se tornado um ícone para as novas gerações de músicos.

Quando morreu em decorrência de um ataque de coração andando de bicicleta, em Ibiza, quando passava férias com o filho Ari, em 1988. Tinha 50 anos.

Ouça Ari’s Song, feita em homenagem ao filho. Está no álbum The Marble Index (1969). O som meio estranho é o do harmônio, que nada mais é do que um tipo mais simples de órgão, que passou a ser marca registrada de suas performances pós-Velvet.




Ao contrário do que se imagina, o vício de Nico não começa com a convivência com a turma da Factory, de Andy Warhol. Todo mundo era muito louco, menos ela. É o que disse. Passou a consumir heroína na época em que morou na França, casada com Philippe Garrel. Se é verdade a sua afirmação, aí é outra história. O importante é que, como aconteceu com Marianne Faithfull, o vício atrapalhou bem. Difícil saber se teria conseguido, não houvesse morrido, manter a carreira, como a inglesa que, mesmo com suas idas e vindas, entrando e saindo de clínicas, bem ou mal, continua gravando, com resultados até satisfatórios.

Uma afirmação interessante é a do diretor Paul Morrissey, um dos Factory Boys: “Nico parecia uma criança, era uma pessoa infantil, muito doce, mas as drogas deixaram-na medonha. Nos anos cinquenta, tinha sido uma modelo famosa por causa daquele visual loiro alemão. Mas com todo aquele veneno em seu organismo, ela quis ficar feia, porque, se você quisesse ser aceito no mundo da droga, devia ser repulsivo e fazer sons feios. Por isso ela se esforçou bastante pra parecer feia e fazer sons feios, mas era apenas uma trilha auto-destrutiva na qual ela entrou quando se ligou em heroína. Ela levou bastante tempo para morrer, mas na época já tinha parado. Estava usando metadona, mas provavelmente o organismo dela estava debilitado.” (Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nico). Nico era uma mulher belíssima e interessante. Ela não soube lidar com isso.

O lado “escuro” de Nico. Quando ainda estava viva, era citada como influência das novas gerações (que, hoje, são velhas), como Siouxsie and The Banshees, Bauhaus. Abriu shows dessas bandas emergentes e chegou a gravar um duo com Marc Almond, do Soft Cell pouco antes de morrer. Podia-se dizer que era um mito vivo. Mas os humanos possuem seu lado negro. Consta que Nico era uma típica ariana. Costumava referir-se a judeus de modo jocoso. Conforme um amigo, judeu, por sinal, considerava-se “fisicamente, espiritualmente e criativamente superior”.  Conta-se também que em certa ocasião insultou uma mulher mulata em um restaurante dizendo: “Odeio negros”. Bom, não são episódios que façam alguém admirá-la.

Nico não possui muitos discos em catálogo. A maioria do que existe depois que voltou à Europa, são registros de apresentações ao vivo. Existe muita coisa interessante no meio. A voz marcante, um tanto teatral, as músicas, geralmente, de uma dramaticidade angustiante, revela uma personalidade nunca menos que interessante.

Ouça Frozen Warnings, de Behind the Iron Curtain, de 1986.




Assista a um vídeo de 1982 em que Nico canta Heroes, de David Bowie.






terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Diego Figueiredo na guitarra e no violão

Diego Figueiredo, com Gilberto Gil
Menos conhecido em sua terra natal do que em certos países, Diego Figueiredo, paulista de Franca, é um cara boa praça, muito simpático. É um craque no violão, um dentre muitos que cá nasceram. O Brasil é o país do futebol e do violão. Bem tocado, é bom frisar. Desde Carlos Barbosa Lima, mais velho que Rogério Caetano, Yamandu Costa, Raphael Rabello e Marcus Pereira, apenas para lembrar de alguns, somos a terra das cordas, bem, posso estar exagerando.

Diego é inventor de uma forma de tocar o violão. Chama-se “siririca”. Tinha uns 14 anos e fazia violão clásssico. Quando estudava para toca uma música chamada “El Colibri”, descobriu que, em vez de usar o indicador e o médio, poderia usar o polegar para imprimir maior velocidade no dedilhado. Após uma apresentação, impressionada com sua técnica com o dedão, alguém perguntou-lhe se a técnica poderia ser usada só no violão ou para alguma outra coisa. Um primo de Diego, que ouviu a conversa e batizou-a de “siririca”. A história foi contada em um programa de Jô Soares. Se você quiser assistir – porque é muito boa, não só por isso, acesse pela internet https://globoplay.globo.com/v/3507956/. Nela, explica outra técnica: a “pinicada”. Um esclarecimento: parece que esta palavra caiu em desuso. É o mesmo que “beliscar”. Em um sentido semelhante, quando as blusas de lã (natural ou sintética) mais grosseiras irritavam no contato com a pele, falava-se que elas “pinicavam” ou que eram “piniquentas”.

Brincadeiras à parte, o cara é bom. A culpa de não ser tão conhecido é por viver a tocar em outros países e a música instrumental não faz tanto sucesso quanto a cantada. É um globetrotter, como o bandolinista Hamilton de Holanda.

Não é a primeira vez que Diego é citado nesse blogue. Em “Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo” , conto que foi considerado por duas vezes o melhor guitarrista no Festival de Montreux e impressionou o produtor Quincy Jones. Apesar da dificuldade de se encontrar um disco dele nas lojas — está cada vez mais difícil é encontrar lojas que vendem CDs, na verdade —, acessando seu site, vemos que tem vários títulos lançados. Vários foram distribuídos pela Atração Musical e, pelo menos um foi lançado pela Biscoito Fino: “Vivência” (2009). Neste álbuum é acompanhado de Eduardo Machado no baixo e Fernando Rast, Figueiredo toca exclusivamente a guitarra elétrica. É uma boa amostragem de sua versatilidade.
Em “Vivência”, um dos destaques é “Paschoa”.




Em outro CD, lançado em 2008, toca violão acústico com Robertinho Silva na bateria e Rodolfo Stroeter no contrabaixo. Saiu pelo selo dinamarquês Stunt. Neste, abordam clássicos do cancioneiro brasileiro como “Na Baixa do Sapateiro”, “Último Desejo”, “Lamentos do Morro”, “Berimbau”, “O Morro Não Tem Vez”, “A Felicidade” e “Consolação”. É sempre um prazer ouvir um bom violão, ainda mais com a batida de Robertinho.

Veja Diego a tocar “Lamentos do Morro”.




Outro clássico: “Na Baixa do Sapateiro”.