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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A primeira vez de Robert Fripp e David Sylvian



Robert Fripp é um dos meus ídolos. E faz tempo. Lembro bem de quando ouvi In the Court of the Crimson King pela primeira vez, em um formato que hoje poucos conhecem: o tal do LP, abreviatura de “long playing”. Como os importados eram muito caros, o meu foi de uma edição nacional, da gravadora Continental, horrível, cheia de chiados. Na música título não era problema, “ruidosa” como era, mas consegui ouvir direito Moonchild apenas quando surgiram os CDs.

O KC é uma criação de Fripp. A banda gira em torno dele, mesmo que os holofotes se direcionem aos cantores. Foi assim, no início, quando o vocalista foi Greg Lake, e depois, John Wetton e Adrian Belew, e, pouco menos, com Gordon Haskill e Boz. Cada um deles marcou uma “fase”.

A banda passou por uma fase brilhante com Wetton ao contrabaixo e David Cross ao violino e viola, e o genial Bill Bruford, com Larks Tongues in Aspic, Starless and Bible Black e Red.

Fripp resolveu desfazer a banda logo depois. Retornou triunfalmente com a entrada de Adrian Belew, na guitarra e vocais, Tony Levin no baixo elétrico e stick bass, e o mesmo Bruford. Discipline, Beat e Three of a Perfect Pair não envelheceram. Trinta e cinco anos depois, ainda ouço-os com enorme prazer.

O estilo único da guitarra de Fripp
No grupo Línguas de cotovia na galantina, administrado pelo Alex Antunes, por ocasião da apresentação do King Crimson, em setembro, surgiu a discussão de quem poderia ter influenciado Fripp. Um dos participantes observou que, em alguma entrevista, referiu-se à John McLaughlin. Pode ser, mas não foi para tocar parecido. Se com muitos dá para se dizer que tenham sido influenciados por Jimi Hendrix, Jimmy Page ou Jeff Beck, seu caso é bem único. Tem um estilo único, tão único que é difícil dizer quem toque parecido com ele. Talvez Jakko M. Jakszyk, que, atualmente, é um dos membros do KC.

A primeira vez de Fripp e David Sylvian
No fim dos anos 1980, Fripp convidou David Sylvian para ser parte do KC. O guitarrista já tinha participado de um dos melhores discos do ex-Japan: Gone to Earth (1986). Seria difícil. Desde que partira para a carreira solo, com ótimos álbuns, ser um sideman, mesmo que fosse do KC nåo devia estar em seus planos.

Fripp, mesmo líder inconteste do KC, sempre aceitou de bom grado tocar em álbuns alheios. Comendo pelas beiradas, sempre deixou a sua marca, mesmo sendo apenas um convidado. Suas participações ou como coprotagonista atestam a minha afirmação. São insequecíveis em “I Advanced Mask” e Bewitched (Andy Summers), No Pussyfooting, Evening Star, e em uma série de participações em álbuns do genial Brian Eno, Peter Gabriel, 1978, do ex-vocalista do Genesis e em Scary Monsters (and Supercreeps) de David Bowie.

Sylvian não aceitou o convite, mas propôs que fizessem um disco juntos. Saiu assim The First Day. O nome de Sylvian está grafado em destaque, e o de Fripp, menor.

A carreira de Sylvian está associada ao Japan. Surgiram na onda do glam rock.  Vestiam-se com roupas extravagantes, usavam maquiagens pesadas. Todavia, além das aparências, eram muito bons, como foram também Roxy Music e David Bowie.

Desde a estreia, com Adolescent Sex (1978), ficou claro que o modo de vestir era um detalhe, comparado com a qualidade musical de Sylvian (vocais, guitarra e, depois, sintetizadores), Richard Barbieri (teclados e sintetizadores), Mick Karn (baixo), Steve Jansen (bateria) e Rob Dean (guitarra). Gravaram poucos discos. O último foi The Drum (1981).

Depois da separação, lançou Brilliant Trees (1984). Neste e em seus álbuns posteriores, ficou claro que o Japan era ele e o resto, apesar do talento dos músicos. Voltaram a reunir-se para gravar o álbum Rain Tree Crow (1991). Foi a derradeira.

Há um parentesco sonoro entre Rain Tree Crow com The First Day. Entre os dois há uma diferença de menos de dois anos. Como sempre, vocalistas tendem ao protagonismo. Não seria, entretanto, “The First Day” tão bom sem a presença do mago da guitarra e dos frippertronics. Sua genialidade como músico está demonstrada em Bringing Down the Light, que fecha o álbum, única composição em que não divide autoria com Sylvian.

Lançaram depois Damage, fruto da excursão Road to Graceland. É melhor ainda.
Com algumas inéditas, é um disco vigoroso, variado ritmicamente. A faixa inicial, de mesmo título do álbum, é uma super balada, comparável à Forbbidden Colors, composta por ele e Ryuichi Sakamoto, e à Ghost e The Night Porter, da época do Japan.

Ouça os dois em Damage.




Rain Tree Crow era gelado, cheio de experimentações eletrônicas. The First Day e Damage eram quentes. A guitarra esquizofrênica, às vezes, puro lirismo, de Fripp era o diferencial. São responsáveis por isso também Trey Gunn no stick bass e Jerry Marotta na bateria, no primeiro, e Pat Mastelotto, no segundo.

Os dois ainda voltaram a reunir-se para gravarem Approaching the Silence (1999), bem experimental. São viagens cinematográficas, algo parecido com outros de Sylvian.

Ouça Darshan (Road to Graceland).




The First Day é outra obra-prima. A guitarra de Fripp é simples e genial.




Veja-os em Blinding Light of Heaven.




O gênio de Fripp em Bring Down the Light.



quinta-feira, 24 de maio de 2018

Um ser de outro planeta chamado David Sylvian

David Sylvian é estilo na música e no visual
Há muito tempo, empolgadíssimo por ter comprado na Music Box, uma pequena loja na Praça Villaboim, em Higienópolis, São Paulo, o álbum Brilliant Trees (1984), veio um amigo que supostamente era um conhecedor de música erudita, bem, até que entendia, mais que eu, naquela época. Conhecia David Sylvian como um dos membros do grupo Japan. O resultado não foi dos melhores. Disse algo como “que cara afetado” e ainda gozou de mim cantarolando algo imitando Sylvian. Como ele gostava e tocava piano até que bem, coloquei as partes em que Ryuichi Sakamoto, Steve Nye e Richard Barbieri tocavam piano ou sintetizador. Não funcionou. Não me afetou também pela razão de que tinha gostado muito do disco em que tinha músicos participantes como Jon Hassel e os citados antes, Holger Czukay e Kenny Wheeler.


Ouça a música título.



Uns anos depois, 1986, talvez, fui a Nova York e comprei meu primeiro tocador CD player. Além de cerca de 60 LPs comprei cerca de 20 CDs para estrear o aparelho. Um deles era Gone to Earth. Fiquei absolutamente hipnotizado e maravilhado desde a primeira audição. Ouço com emoção até hoje Laughter & Forgetting e Before the Bullfight, duas faixas em sequência antes da música título, com solos sublimes de Kenny Wheeler ao trompete e flugelhorn. O violão e a guitarra de Bill Nelson é outro destaque.

Nunca sabemos direito o por que de elegermos os nossos álbuns preferidos dentre os milhares que ouvimos. Existem questões sentimentais, conjunções de quando ouvimos pela primeira vez etc. Mas fato é que é um dos meus “desert island records”.

Tudo é muito perfeito em Gone to Earth, desde a bateria excepcional de Steve Jansen, as “atmosferas” de Richard Barbieri, as participações de Ian Maidman no contrabaixo e de Mel Collins no sax soprano.

Ouça Laughter & Forgetting, que fica perfeita com a seguinte (Before the Bullfight). A guitarra e o violão de Bill Nelson são destaques, junto ao solo de Kenny Wheeler.



terça-feira, 2 de julho de 2013

O quase disco de Peter Murphy e Mick Karn

Mick Karn e Peter Murphy (esq. p/dir.)
O som da banda Bauhaus não possuía alguma relação com a lendária escola de artes, design e arquitetura que existiu na Alemanha pré-nazista. O clima soturno e a voz cavernosa de seu líder Peter Murphy chamava mais para uma personagem nascida na Transilvânia. Se houvesse alguma ligação com a escola alemã, a música, quem sabe, pudesse ser rotulada de construtiva, minimalista, qualquer coisa assim, e nunca gótica, como ficou conhecida. Pois, em um filme que virou cult – Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott – a abertura era com Bela Lugosi Is Dead, uma das mais conhecidas da breve carreira da Bauhaus (sobre o filme, veja http://bit.ly/Vbaw6j). Tudo a ver: a música com a história de alguém que precisava de sangue humano para continuar imortal. A banda teve vida breve e Peter Murphy seguiu carreira solo com relativo sucesso.

Na mesma época, surgira outra banda que marcou e ganhou ardorosos fãs, o Japan. Mais pelo estilo afetado de se vestirem que pelo som, foram associados ao movimento New Romantic. O mais conhecidos dessa vertente foram Duran Duran e Culture Club, de Boy George. Em termos sonoros, privilegiavam bastante os sons sintetizados. Surgiram na esteira do Roxy Music e de David Bowie. O mago dos sintetizadores do Japan era o tecladista Richard Barbieri. O resto da banda era composto pelo genial David Sylvian, o baterista Steve Jansen e o baixista Mick Karn. A banda acabou em 1981. Gravaram ainda Rain Tree Crow, mas não mais como Japan.

Sylvian, seguiu carreira solo com grandes discos e gravou com Ryuichi Sakamoto e Robert Fripp. A conhecida Forbidden Colours (ouça em http://bit.ly/18c5L3w) usada como tema para o filme Merry Christmas, Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima, é de Sakamoto e a letra é de Sylvian. Mick Karn partiu para a carreira solo e gravou alguns álbuns com David Torn, Bill Nelson e com seus ex-companheiros Jansen e Barbieri.

Em 1984, Peter Murphy e Mick Karn, com Paul Vincent Lawford, montaram o Dalis Car. O nome foi tirado de uma canção de um disco de Captain Beefheart. Murphy e Karn pouco se encontraram e ficaram um e outro trocando e enviando fitas de gravação. Mesmo assim, o álbum The Waking Hour ficou bem interessante, muito em razão da boa combinação que resultou da voz de Peter Murphy com o baixo fretless de Mick Karn. Fora que a capa é um primor: usaram uma imagem do pintor Maxfield Parrish.

Muito, mas muito tempo depois, resolveram gravar um segundo álbum sob o nome Dalis Car. Em 2010, Murphy anunciou a (re)união no Twitter. Por uma fatalidade, apenas algumas músicas foram gravadas. Mick Karn foi diagnosticado com um câncer em estágio avançado e morreu em 4 de janeiro de 2011. As cinco faixas resultaram no EP InGladAloness. Além dos dois, participam Steve Jansen na bateria, Jakko M Jakszyk nas guitarras, Gu Zheng e Theo Travis no saxofone e flauta, Gill Morley, no violino, Ellen Blair, violino e viola, e Pete Lockett e Paul Lawford nas percussões.

InGladAloness, até por Artemis Rise, que é uma variação de Artemis, quarta faixa do primeiro álbum, é quase que uma continuação. Li uma crítica na internet destruindo o disco, ridicularizando a voz de Murphy. Não se por ser fã dele e do estilo do fretless de Karn e por gostar muito de The Waking Hour, gostei bastante desse segundo. E mais uma vez, a capa é um primor: é de Jaroslaw Kukowski.

O EP inteiro está no youtube.

Faixa 1: King Cloud.




Faixa 2: Sound Cloud.




Faixa 3: Artemis Rise.




Faixa 4: Subhanallah. O vocal é de Sengul. O disco foi mixado em Istambul, Turquia.




Faixa 5: If You Go Away. Despertou o Jacques Brel de dentro de Peter Murphy.