quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Tony Bennett e Diana Krall, um par perfeito

Parece cada vez mais fácil chegar aos 100 anos, mas a que custo? O importante é estar inteiro e bem de saúde. É o caso de Tony Bennett, o maior cantor vivo da atualidade. Aos 92 anos, mesmo tendo passado por uma fase em que consumiu boas doses de cocaína, está forte e pimpão, como diria um amigo. E mais: canta muito ainda, mantendo a bela voz que o consagrou. E ainda gosta de pintar.

Confirma sua boa forma em sua mais recente empreitada, “Love Is Here to Stay”, com Diana Krall, com o repertório de George Gershwin. Bennett se rejuvenesce em suas parcerias com intérpretes de todos os espectros. Fez muito sucesso “A Wonderful World” (Columbia, 2002), com a canadense kd lang. Em “Duets: An American Classic” (Columbia, 2006), divide os vocais com os pop John Legend, Barbra Streisand, Celine Dion, Sting, Bono Vox, Billy Joel, Paul McCartney, James Taylor, Stevie Wonder e outros. Como os duos que Frank Sinatra cometeu em seus anos derradeiros, quando sua voz era uma sombra do que havia sido, sucumbe aos apelos comerciais. A diferença com os de Sinatra é a de que a voz de Bennett era a mesma. Gravou ainda “Duets 2” (2011) e “Viva Duets” (2012), aproveitando a onda.

Os puristas torcem o nariz para Diana Krall. Com um início fulgurante, arrombando a porta do mainstream do jazz, a ex-aluna de Jimmy Rowles e protegida de Ray Brown, a canadense tocava muito bem piano, e se quisesse, poderia seguir por essa seara. O aprendizado com Rowles e poderosa influência da maneira de tocar de Nat King Cole, foi logo notada pela gravadora Impulse, logo depois de tornar-se um sucesso instantâneo em seu país natal. Como o mestre Cole, cantava, e muito bem. A exemplo dele, consagrou-se mais como cantora do que pianista. De hoje em dia, apesar de apresentar-se sempre sentada à frente de um Steinway, mais canta que toca.

No caso de “Love Is Here to Stay”, deixa o pianista é Bill Charlap. Bom, nem precisa mesmo. O filho de Sandy Stewart tem um dos trios mais respeitados da atualidade. É mainstream, que se diga, mas sua banda está uma que chegou bem perto da perfeição.

A perfect pair
Depois de terem cantado juntos em ocasiões esparsas nos últimos 20 anos, “Love Is Here to Stay” é o primeiro álbum deles juntos. Gravado no ano passado, acaba de ser lançado. É a reunião que muitos esperavam. Bennett é a majestade, no alto de seus 92 anos; Krall é a dama do jazz da atualidade, em que pesem o valor das experientes Dee Dee Bridgewater ou Diana Reeves. Um pouco por preconceito, é criticada. Popularidade causa dor de cotovelo e críticos acham que cair no gosto de um público mais amplo é devido a concessões ao mercado. Evidente que King Cole fez concessões, mas que beleza de cantor que foi!

Tanto Bennett quanto Krall cansaram de cantar o repertório de George Gershwin, mas em “Love Here to Stay, ambos interpretam pela primeira vez em discos “My One and Only Love” e “I’ve Got a Crush on You”. É uma surpresa

Há um enorme respeito, como não poderia deixar de ser, de Diana por Tony. “Ele não apenas canta essas canções. Ele sabe o que está dentro e fora. Ele é uma pessoa profunda em muitos níveis – às vezes você pergunta sobre coisas e ele diz o que acha. É um belo fenômeno emocionalmente.” É o respeito que Krall tem pela sabedoria de um intérprete que sabe tudo de música, sabedoria que amealhou por todos os anos que o tornou um dos grandes cantores de todos os tempos na história do jazz.

Bem, se Bill Charlap é um dos grandes ao piano e Bennett e Krall craques absolutos, poderia de esperar uma obra-prima. Não é. É um álbum agradável, com algumas pérolas distribuídas, ora pelos bons achados do pianista, belas combinações da voz cálida dela e da qualidade interpretativa dele. Comparando-se, não é genial como, por exemplo, o de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim, ou o de Betty Carter e Ray Charles, Ray Charles e Cleo Laine, ou Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Acho que, como diria minha amiga baiana, faltou um pouco de borogodó, aquela simbiose fervente que acontece inexplicavelmente entre dois seres.

Veja o clipe promocional do álbum, com os dois e o trio de Charlap interpretando a canção título.




Ouça o álbum. Um destaque é a excepcional interpretação de Krall em “But Not for Me”, com uma introdução que normalmente é cantada. A “inédita”, para os dois, “My One and Only”, é outro, pela combinação do piano e o clima relaxado entre os dois intérpretes. “Love Is Here to Stay” e “I Got Rhythm” são outras que destaco.