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terça-feira, 24 de junho de 2014

Maria Bethânia e o amor

Maria Bethânia e seus belos cabelos brancos
Antigamente, o amor era excludente, exclusivo. Gostar de alguém significava excluir o outro. O meu amor era por Gal Costa. Não existia mais nenhuma cantora. Se fosse gostar de outra, minhas preferências recairiam em Sylvinha Telles, que estava morta, e nunca por Elis Regina ou por Maria Bethânia, vivas. A paixão por Caetano Veloso e por Gilberto Gil – os baianos, por coincidência? – era um problema para amar Chico Buarque. Talvez menos por Edu Lobo, nem tão antagonista, na minha mecânica mental.

Stalinistas como Jorge Amado odiavam trotskistas. O baiano chegou ao ponto de criar um personagem chamado Abelardo Saquila em Os Subterrâneos da Liberdade, para atacar e denegrir o nome do trotskista Hermínio Sacchetta. Golpe baixo. Um outro stalinista de carteirinha teria um comportamento menos odioso. Segundo o estatuto do Partido Comunista, no artigo 13 proíbia-se o contato dos comunistas com a “canalha trotskista”. Oscar Niemeyer costumava reunir os amigos em seu escritório. Só gente da esquerda. Mesmo com a vigência do artigo 13, Oscar continuava amigo de um arquiteto… trotskista. Os camaradas reclamaram. Oscar respondeu-lhes que continuava amigo dele porque ele era só “canalha”; então, tudo bem.

Muitos anos depois disso tudo, na década de 1970, em plena ditadura militar, as coisas não tinham mudado muito: stalinistas de um lado, e do outro, os trotskistas. Os partidários do primeiro eram membros ou simpatizantes do Partidão, retrógrados e sendo nacionalistas, gêneros como o samba eram a manifestação mais importante na cultura brasileira. Ah, e liam Amado. O “outro lado” era internacionalista, gostava de rock’n’roll, libertária, lia David Cooper, Wilhlem Reich, Ronald Laing, gostava de Merlau-Ponty, Claude Léfort e, como ninguém é perfeito, achava Marilena Chauí o máximo. Bom, isso são outros tempos. Depois de concluir o curso de arquitetura na FAU, prestei vestibular para estudar filosofia, só para ter aula com ela. Na década de 1970, Nelson Rodrigues era odiado por ser de direita, apesar de obra significativa como dramaturgo e jornalista. Hoje, e não é pela ascensão da direita, esta sim burra e mal educada, é adorado e incensado como revolucionário pela esquerda. As coisas mudam.

Bethânia e Gal Costa. As duas nasceram na Bahia. E Bethânia, apesar de irmão de Caetano Veloso, seguiu por trilhas diferentes. Veio antes para o Sudeste e surgiu como um foguete substituindo Nara Leão no musical “Opinião”. Possuía uma voz forte e presença carismática. Não dava para ignorar. Nara, por sua vez, era uma mocinha um tanto tímida, dentucinha e, todo mundo dizia, tinha os joelhos mais bonitos do Brasil. Era filha de um advogado classe média, que hoje poderia ser incluído, segundo as novas divisões sociais, dentre os membros da elite branca mal educada. Em sua casa, outros filhos da elite branca mal educada se reuniam para tocar e cantar. Assim nasceu a bossa nova, movimento da classe média mais e menos abastada.

Gilberto Gil, filho de médico, portanto, da elite, estudou administração de empresas e veio trabalhar em uma multinacional americana, em São Paulo. Veio depois Caetano; e depois, Gal. Caetano virou a tal da MPB de cabeça para baixo introduzindo guitarras elétricas ao defender Alegria, Alegria com uma banda de jovens cabeludos argentinos. Gil, mais conservador, no princípio, foi contra a eletrificação da MPB. Participou até de passeata contra as guitarras e a favor da pureza da nossa música. O anti-americanismo era forte. Mudou. Defendeu Domingo no Parque com um brilhante arranjo de Rogério Duprat, numa mistura de orquestra de cordas com os elétricos e jovens Mutantes.

Descobriram uma voz doce, afinadíssima e delicada em Domingo, LP lançado pela Philips em que cantava com o leão manso Caetano Veloso. Em pouquíssimo tempo, já sob nuvens tropicalistas, lançaria-se como uma menina de cabelos à la Angela Davis, rosto redondinho, meio hippie, e dando seus gritinhos. Nesse meio tempo acontecia uma revolução na Amériaca com Jimi Hendrix e Janis Joplin. Provavelmente, a Gal que emergia ouvira Janis e, sob as asas do “segura que vou ter um troço” Wally Salomão, montou um show antológico chamado Fa-tal A Todo Vapor. Aí, tinha soltado a garganta em canções belíssimas de Jards Macalé e do próprio Wally.

Maria Bethânia, por sua vez, seguia seu caminho, um pouco distante dos anos quentes dos finas dos anos 1970. Com Fauzi Arap, montou shows memoráveis. Eram dramáticos, ou melhor, teatrais, com Maria misturando poesia da mais alta qualidade com música. Minhas objeções quanto a pegar o espectador pela catarse, apesar de achar interessante, e um certo fervor preconceituoso tipo “é isso ou aquilo” e nunca as duas coisas ao mesmo tempo, fizeram-me, no máximo, ouvir os discos e nunca ira a um desses shows. A gente sempre tem do que arrepender. Hoje, sinto não ter visto nenhum deles.

Do mesmo modo que não perdia oportunidades de ver e ouvir Gal, caetanista de carteirinha, tinha dificuldade de gostar de Chico Buarque. Como castigo vem a galope, arrumei uma namorada que o adorava. Todo o tempo em que ficava em sua casa, um disco de Chico recém-lançado rodava na vitrola. Devo admitir que não foi de todo o mal, digo, ficar a ouvi-lo.

Bethânia, a revelação. Com o tempo, tornando-me menos sectário, lidando melhor com os opostos político-culturais, meus ouvidos ficaram mais tolerantes. Em 1978 fora lançado o LP Álibi. Nessa altura, estava com outra namorada, e para o meu desgosto, gostava de Bethânia. A música título, de Djavan tocou muito no rádio, assim como Explode Coração, de Gonzaguinha. Se não ouvia em sua casa, quando ligava o rádio no carro, lá vinha Bethânia. O disco vendeu mais de um milhão de cópias, coisa rara em se tratando de MPB. E, vai saber por que, adorava ouvir a mais que brega Negue (na verdade, isso revela o meu lado brega). Passava os dias a cantar o refrão. Era o resgate de um ícone do brega. Adelino Moreira não era um desconhecido. Vendia milhões de discos, como Jair Amorim, nas vozes de intérpretes como Altemar Dutra e Agnaldo Timóteo. Adelino era tão brega que, mesmo milionário, continuava a morar em São Cristóvão, um subúrbio carioca. Para fazer juz ao dinheiro amealhado, construiu uma bela casa… com a piscina na frente. Era a forma de mostrar que era rico e que fazia sucesso.

Sem que percebesse, discos de Bethânia começaram a habitar a minha casa. Passava de uma dezena. Tinha a obrigaçação de escutá-los. Mas passou muito tempo até que, sem dar-me conta, estava ouvindo com frequência o CD Âmbar (EMI 1996). Ficava emocionado com o seu Chão de Estrelas, aquela que muitos consideram a música com o verso mais belo da MPB: “E tu, tu pisavas no astros distraída”. Impressionara-me já a primeira faixa: Âmbar. E a composição era de Adriana Calcanhoto. A amiga Andressa a adora. Mesmo levando em conta o seu bom gosto, nunca havia dado muita importância ao seu juízo. Chico César é outro compositor que combina lindamente com Maria Betânia. Invocação, com belíssimo vocalise de Virgínia Rodrigues, é outro destaque. E a faixa seguinte é outra bela contribuição de Calcanhoto, com Uns Versos. Comentei com um amigo que andava ouvindo muito Bethânia. Percebi um olhar meio estranho. Depois de alguns segundos perguntou se eu estava bem. Sem que eu respondesse, arrematou: “Mas isso passa logo”, como se eu estivesse com algum problema.

Ouça Âmbar.




Ouça Chão de Estrelas.




Meus Quintais. Neste mês Maria Bethânia lança mais um álbum. Não muito tempo atrás, saiu um duplo – Cartas de Amor – ao vivo. Meus Quintais é o primeiro após a morte da mãe, dona Canô. Na imprensa e nos releases, a tônica é morte da mãe e o clima melancólico de Meus Quintais, e como o título sugere, um disco “interior”, com os “pés na terra”, e memorialista. Mas Bethânia sempre foi assim, talvez; antes mais dramática e agora, mais serena, no entanto, sempre intensa.

Bethânia pediu a Chico César uma música. O paraibano enviou-lhe Xavante e Arco da Velha Índia. Impressionante como funciona. Ouça Xavante.




Adriana Calcanhoto, quando soube que César estava compondo para um novo disco de Bethânia, enviou uma mensagem: “Ciúme de Chico César.” Depois da “cobrada”, não teve saída. Ainda bem. Compôs Iara. A pedra de toque foi a junção de um texto de Clarice Lispector. Foi a última contribuição de Fauzi Arap, diretor teatral daqueles antológicos shows da década de 1970.

Ouça Iara / Uma Perigosa Yara




O fecho é com um belíssimo Dindi, faixa bônus.





Veja o vídeo release do novo álbum.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Caetano 70

Caetano, Dedé e Moreno na capa de Jóia
O aniversário já passou, mas não poderia deixar de falar qualquer coisa sobre Caetano Veloso. Afinal, por muito tempo, foi meu ídolo maior. Arrefeceu, como sói acontecer na vida. Quando relançaram Transa em edição especial – LP em vinil de 180 g, CD e capa original – lembrei que, em 1972, quando saiu, não tinha virado o disco da minha vida porque estava mais para Led Zeppelin e Yes do que para a música brasileira. Claro que a chamada MPB não era completamente desconhecida. Um dos primeiros discos que minha mãe comprou, quando ainda morávamos em Passos, Minas Gerais, foi o de Chico Buarque cantando A Banda, em 1966. Acho que era a única pessoa da cidade que possuía o disquinho. O “disquinho” era um negócio chamado “compacto simples”: um objeto de vinil preto com 7 polegadas de diâmetro contendo uma música em cada lado. Isso é pré-história e quem tem menos de 40 anos nem sabe o que é. Minha mãe deve ter comprado por sugestão de algum vendedor, é possível, pois, como não existia televisão onde morávamos, coisas como os festivais da Record e o fenômeno Beatles chegavam apenas por meio de uma revistinha chamada Intervalo.

No ano seguinte, havia me mudado para São Paulo e tive a oportunidade de assistir ao meu primeiro Festival de Música Popular da TV Record. Ficaram registrados no meu HD, de forma indelével, Chico Buarque, bem sério, e o MPB4 cantando Roda Viva, Nana Caymmi abraçando e beijando um constrangido Gilberto Gil pelo segundo lugar de Domingo no Parque, Roberto Carlos cantando Maria, Carnaval e Cinzas, de Luis Carlos Paraná, Edu Lobo e Marília Medalha cantando Ponteio, o Quarteto Novo, que os acompanhava, e, principalmente, Caetano Veloso cantando Alegria, Alegria, com uma banda obscura de rock argentina. O refrão final – “eu vou/ por que não?/ por que não?” era otimista em um tempo em que a juventude não sabia se era ou não feliz e aqueles cabeludos tocando instrumentos eletrônicos eram um diferencial, como eram Os Mutantes, que acompanharam Gil em Domingo no Parque.

Na mesma TV Record havia um programa comandado por Blota Jr. chamado Esta Noite Se Improvisa. Ele dizia uma palavra e os concorrentes deveriam apertar uma campainha ou bater num sinete, não me lembro agora, se soubessem de alguma canção que a contivesse. Lembro que, quase sempre, os finalistas eram Chico Buarque e um rapaz de cabelos encaracolados chamado Caetano Veloso. Outro que ia sempre bem era Carlos Imperial. Nasceu na mesma Cachoeiro do Itapemirim de Roberto Carlos. Era um cara gordo, um tanto histriônico, compositor (A Praça, grande sucesso, na voz Ronnie Von, era sua), produtor, apresentador, e chegou até a ser eleito vereador pelo PDT, de Leonel Brizola. Ainda sem conhecer uma única música que tivesse gravado, tornei-me fã de Caetano. Torcia sempre por ele. Pura empatia. Anos depois, Chico Buarque disse que, em várias ocasiões, inventava uma letra e uma música e Blota Jr. caía direitinho no truque.

Transa tinha sido lançado um ano antes de Índia, de Gal Costa. Assisti ao show desse disco no auditório da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Foi inesquecível por várias razões. Por Gal, primeiro. Era pura sensualidade. Deve ter sido o primeiro show que vi dos então chamados “baianos”. Outro, foi uma apresentação de Gilberto Gil no Teatro das Nações (não existe mais), na avenida São João. Era enorme e apenas 20% das cadeiras estavam ocupadas. O show começava à meia noite e foi até as quatro. Inspirado, Gil se estendia em longos improvisos. Oriente (“Se oriente rapaz/ pela conselação do Cruzeiro do Sul…”), deve ter durado uns 40 minutos. Antológico. Sobre o show de Gal, leia http://bit.ly/Qw8Zkc.


De volta ao Transa
Os designers gráficos tinham resolvido “viajar” nas capas. O Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento, era um cartão ovalado que, dobrado, tinha formato quadrado normal dos LPs. O envelope interno continha folhas de cores diferentes com as letras e a ficha técnica de cada faixa.

A capa original de Transa, concebida por Álvaro Guimarães, era um “discobjeto”; vinha até com instruções de montagem. Quatro faces resultavam em um display triangular; e ainda tinha a brincadeira com a palavra “CAI”, inspirada no diminutivo pelo qual Caetano era chamado: “Cae”.

Deixei um pouco de lado meus Led Zeppelins, tão amados, e Transa virou o disco da minha vida, por algum tempo. Conhecia-o de cor. Até hoje gosto de cantarolar Mora na Filosofia, de Monsueto, do jeito de Caetano, bem dramático. Adorava cantar refrões como “quem tem vovó pelanca só”, ‘pé dentro pra fora, quem tiver pé pequeno, vá embora”, “nine out of ten movie stars make me cry/ I’m alive”, ou outro, citação de Sodade Meu Bem, Sodade, de Zé do Norte: “os óio da cobra verde/ hoje foi que arreparei/ se arreparasse a mais tempo/ não amava quem amei.”

Grande Macalé! Sua participação em Transa é vital. Como diz Caetano, abrindo um solo dele em Nine out of Ten: “Fala, Macal” ou, “Vai, Macal” (meus ouvidos, de tanto som alto, me enganam um pouco). Outras participações são de Gal Costa e da ainda desconhecida Angela Ro Ro tocando flauta em Nostalgia. No CD do box completo lançado pela Philips não consta a lista dos músicos participantes de Transa. Esquecimento?

Em 1975, lançou dois álbuns ao mesmo tempo: Jóia (com acento, ora pois, pois) e Qualquer Coisa. Sempre polêmico, na capa de Jóia, estampou uma pintura em que eram retratados nus, ele, Dedé, sua mulher, e o filho Moreno. Foi vetada pela censura e a genitália do compositor ficou “tampada” por um casal de pássaros. A capa de Qualquer Coisa tem como referência Let It Be, dos Beatles; só que em vez de Lennon, McCartney, Harrison e Ringo em cada moldura, são variações em distorções cromáticas de uma mesma foto de Caetano. A capa de Jóia deve ter sido inspirada na imagem de John Lennon e Yoko Ono estampada em Unfinished Music No. 1: Two Virgins. A referência dos Beatles sempre foi presente. Antes, Caetano lançara o seu “álbum branco”, também.

E não faltam canções dos Beatles. Com Qualquer Coisa homenageia o radialista, apresentador e compositor José Messias (Madrugada e Amor), Chico Buarque (Samba e Amor), Jorge Ben (Jorge da Capadócia), Lennon e McCartney (Lady Madonna, Eleanor Rigby e For No One), e Bola de Nieve (La Flor de la Canela e Drume Negrita), quando este cubano ainda era um ilustre desconhecido entre nós, brasileiros. Qualquer Coisa é despojado, enxuto, econômico. Seu principal parceiro é Perinho Albuquerque.

Jóia também é. As melhores são aquelas que, em si, são sínteses. As canções se formam por repetições: “Meu bichinho bonito/ Meu bichinho bonito/ Meu bichinho bonito/ Tudo é mesmo muito grande assim/ Porque Deus quer/ Minha mulher/ Minha mulher/ Minha mulher” (Minha Mulher); “Esse Deus dos fetos/ Das plantas pequenas é a luz/ Saindo pelos olhos/ De minha amiguinha linda/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha linda/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha linda” (Pelos Olhos); “Pássaro in/ Pássaro pairando/ Pássaro momento/ Pássaro ar/ Pássaro ímpar/ Parou pousar/ Parou repousar// Pássaro som/ Pássaro parado/ Pássaro silêncio/ Pássaro ir/ Pássaro ritmo/ Pássaro voou/ Pássaro avoou/ Pássaro par/ […] Parou pousar/ Parou repousar…” (Asa, Asa); “Lua, lua, lua, lua/ Por um momento meu canto contigo compactua/ […]/ Branca, branca, branca, branca/ A minha, nossa voz atua sendo silêncio/ Meu canto não tem nada a ver com a lua” (Lua, Lua, Lua, Lua); “Beira de mar/ beira de mar/ Beira de mar é na América do Sul/ […]/ Copacabana, Copacabana, louca total/ E completamente louca/ A menina muito contente toca a Coca-Cola na boca/ Um momento de puro amor/ De puro amor” (Jóia); “Asa, asa/ Asa, asa/ Não ter asa, pedras no fundo do mar// Água, água/ Água, água/ Barbatana, seixo/ Rolando no leito// Chama, chama/ Chma, chama/ Nada, nada/ Sonho afogado no ar// Asa, asa/ Asa, asa/ O vento entra pela casa/ Pedra de sono na cama” (Gravidade).

Pela repetição e variações que criam movimentos ondulantes, Caetano, em Jóia e em algumas faixas de Qualquer Coisa, se aproxima do conceito reichiano (de Steve Reich, o músico, e não do psicanalista Wilhelm). Outro que se valeu da construção minimalista foi Brian Eno. Uma frase do inglês sintetiza muito bem esse conceito: “Repetição é uma forma de mudança”. Alex Ross, no livro O Resto É Ruído (Companhia das Letras, 2009), cita o que chama de “gesticulação minimalista [de] se concentrar em um só acorde” citando uma canção de Bob Dylan: “ And it’s a hard, and it’s a hard, and it’s a hard, and it’s a hard, and it’s a hard rain’s a-gonna fall” (pág. 532).

Duas músicas de Jóia sintetizam bem esse conceito: Pipoca Moderna e Gua. Há um texto de Caetano em Alegria, Alegria (Pedra Q Ronca), “Uma Caetanave organizada por Waly Salomão”, sobre elas.

Gilberto Gil, em 1967, depois de uma passagem por Recife, PE, veio com uma fita com o som da banda de pífanos de Caruaru. No texto, Caetano descreve: “Eu venho tentando me abandonar às palavras cantáveis, ocultas aqui ali, desvelar algumas, desvelar-me para elas. Venho sonhando com um canto que seja o som como a visão do visionário”. Caetano quase “despersonaliza” a palavra, sem que se percam suas significações, em repetições fonéticas que vão se transmutando: “E era noite de nem noite de nego, não/ E era ne de nunca mais/ E era noite de ne, nunca de nada mais/ E era nem de negro, não/ Porém parece que há golpes de pê, de pé, de pão/ De parecer poder/ E era não de nada além/ Pipoca ali, aqui, pipoca além/ Desanoitece e amanhã tudo mudou/ Pipoca ali, aqui, pipoca além/ Desanoitece e amanhã tudo mudou”. O milho pula ali, acolá, além.

Gua vai mais além. “Essa sílaba gua surgiu tantas vezes seguidas e de tal modo se comportou como núcleo desse átomo que eu pensei que ela era o jeito de se expressar o que não sei explicar da relação mítica entre ibu-alama e a água, as águas. Os lugares que eu amo – guamá-belém, iguape-pedrinho-baía de todos os santos, recôncavo de santo amaro – são elementos, qualquer coisa íntimos, desse que só eu sei e tudo é ritmo, tudo é inútil e não deveríamos temer coisa alguma.” (págs 161-162). A letra de Gua é a expressão do mínimo: “ Água/ Guamá/ Iguape/ Ibualama”. Com apenas quatro palavras, Caetano “inventa” mil palavras, como nos cantos renascentistas e barrocos em que, com poucos versos seus cantores criavam variações, como em Audi coelum, em Vespro della Beata Vergine, de Claudio Monteverdi, ou Erbarme Dich, Mein Gott, da Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach. É quando a palavra vira música por sua própria sonoridade e por meio de diferentes encadeamentos e repetições.

A USP era uma bela universidade. Espero que continue a ser. Como “complemento” a uma das matérias optativas da FAU, um de nossos professores conseguiu que a escola pagasse um ônibus para irmos a Salvador, “estudar” sua arquitetura do período barroco. Pois, após a conclusão da disciplina, em dezembro, fomos nós. Logo na primeira parada, alguém teve a idéia de comprar uma fita cassete – foi o antecessor dos aparelhos de CDs e mp3 – depois de termos descoberto que o ônibus possuía o tocador. Claro que a escolha deveria ter algo a ver com a Bahia. Aquela coletânea em fita cassete foi a trilha sonora de uma viagem que durou quase 40 horas. Cansou. Até hoje não suporto ouvir Meu Nome é Gal (“Meu nome é Gal/ e pretendo me corresponder com um rapaz…”).

Essa primeira vez em Salvador, que deveria ter durado apenas dez dias viraram trinta. “Abandonei” o curso em sua conclusão e fiquei na casa do Sérgio, no bairro da Federação, com alguns amigos do meu e de outros anos, por “coincidência”, todos militantes ou simpatizantes da chamada Libelu (Liberdade e Luta), e duas moças da direção da tendência no Rio Grande do Sul.

Durante o tempo em que fazíamos o nosso périplo curricular (afinal, estávamos lá para conhecer igrejas, fortalezas, etc.), enquanto conhecíamos o Carmo ou o Pelourinho, passávamos os dias a cantar algumas músicas de Bicho, que havia sido lançado há pouco. Eu e uma amiga ficávamos cantando Tigresa, Odara e Alguém Cantando. Conhecia o disco de cor. Saudosos dias. E, como disse desde o começo, cada disco novo de Caetano se tornava o disco da minha vida. Pouco tempo depois de Bicho, foi lançado Mico de Circo, de Luiz Melodia. Melodia me deixou dividido.

Vamos ouvir e ver Odara, neste primeiro dia do ano 2013. Nesse vídeo, Caetano canta com Gilberto Gil.

Obs: como não estou em casa, não estou conseguindo anexar o vídeo. O link dele é: http://www.youtube.com/watch?v=9v4rCCSozPM


terça-feira, 27 de novembro de 2012

As montanhas moventes de Billie Holiday e de Gal Costa

Gal Costa, Billie Holiday e as flores
Mover montanhas, o inamovível. “Inamovível” porque não existe “imovível”. Esta palavra seria um neologismo, como a expressão “imexível”. Por que não serem agregadas à língua portuguesa? Apesar de “inamovível” possuir um sentido levemente diferente, significa sim, “o que não se pode mover”, ou melhor, “que não pode ser removido”, segundo o Aurélio.

Pois, se alguém diz que moverá montanhas, esse alguém dirá que a chamam de louca. Verdade. E montanhas não são “moventes” pois elas, por si, não se movem. Podem ser removidas, mas quando canta “eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei”, promete o impossível, assim como quando diz “eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei”. Sim, diz que é louca, “louca de amor eu serei”. Mas não se diz que o amor não conhece limites?

Crazy He Calls Me é de autoria de Carl Sigman (música) e Bob Russell (letras). Foi composta na metade final da década de 1940. O registro mais antigo que conheço é o de Billie Holiday. Gravada em 21 de novembro de 1949, o arranjo é de Gordon Jenkins. Logo que foi contratada pela Decca, os arranjos de orquestra ficaram a cargo de Toots Camarata, músico da casa. Mas isso foi em 1944. Nos registros de 1949 a coisa melhorou bem. Além de Jenkins, outro bambambã – Sy Oliver – foram os arranjadores.

Poeta e ensaísta, Augusto de Campos, tradutor de Stephane Mallarmé, Paul Valéry, W.B. Yeats, John Keats e e.e. cummings, tem seu nome ligado à música popular brasileira pelo poema de John Donne – Elegie: Going to Bed –, intitulada, simplesmente, Elegia, musicada por Péricles Cavalcanti e cantada por Caetano Veloso, e por duas “versões” (em vez de “tradução”, é o que se usa normalmente, se bem que não cabe bem a Augusto de Campos) que foram lançadas em Caras e Bocas (1977), álbum de Gal. Esse disco é posterior ao primoroso Cantar (1976).

Apenas para completar: Augusto de Campos é autor de Balanço da Bossa e Outras Bossas (Perspectiva), uma publicação capital para se entender o período da MPB dos anos 1960 e 70.

Solitude, clássico de Duke Ellington, não teve o título vertido para o português, dada a força da palavra no original. Na versão original, vários versos são rimados, como em “Dear Lord above/ Send back my love”, ou “I sit in my chair/ And filled with despair/ There’s no one could be so sad”. É quase impossível uma tradução repetindo certas rimas. O brasileiro chega perto nos versos: “Eu sento e espero/ E me desepero”.

Transcrevo a letra de Augusto de Campos: “Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser moverei/ Louca me chamam/ 
Sim, sou louca/ Louca de amor eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como o ar que move a palha/ E abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso lhe ensinar/ Eu te darei pra sempre/ 
Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei.”

Ouça Louca Me Chamam na bela interpretação de Gal.




Interpretações no original

Grande Anita O’Day! Cantava muito.



Uma interpretação que não fica devendo à de ninguém é a de Dinah Washington. É de 1954 e tem um lineup de primeira: Herb Geller no sax alto, Richie Powell no piano; George Morrow no baixo e Max Roach na bateria. A gravação é de 1954.



Billie Holiday.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Torquato Neto às três da madrugada

O anjo torto Torquato

Agora, com o horário de verão, três da madrugada serão quatro. A diferença não vai estragar a poesia dessa letra “Três da madrugada/ Quase nada/ Na cidade abandonada/ Nessa rua que não tem mais fim/ três da madrugada/ tudo é nada/ a cidade abandonada/ e essa rua não tem mais/ nada de mim.../ nada/ noite alta madrugada/ na cidade que me guarda/ e esta cidade me mata/ de saudade/ é sempre assim.../ triste madrugada/ tudo é nada/ minha alegria cansada/ e a mão fria mão gelada/ toca bem leve em mim/ saiba:/ meu pobre coração não vale nada/ pelas três da madrugada/ toda palavra calada/ nesta rua da cidade/ que não tem mais fim/ que não tem mais fim.”

Há dias que ando à procura do meu exemplar da primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria, livro organizado por Wally Salomão, de Torquato Neto. Como livro não tem asa e, raramente empresto livros, um dia, eu acho. Pelo menos, o compacto simples que vinha encartado está guardado. Eram duas músicas, uma em cada lado. As duas são composições de Carlos Pinto com letras de Torquato Neto: Três da Madrugada, cantada por Gal Costa, e Todo Dia É Dia D, com Gilberto Gil. Ficaram inéditas em CD por muito tempo. A gravadora Dubas, de Ronaldo Bastos, lançou uma coletânea de composições do poeta e escritor piauiense, em 2002, trinta anos após a sua morte. Estão lá.

Todo Dia É Dia D é excepcional, mas Três da Madrugada, com Gal no vocal e o violão econômico e “duro” de Gilberto Gil, é mais que excepcional. Gal foi ficando fanha de tanto eu ouvir o disquinho: sua voz foi sendo dilapidada pelo diamante da agulha Shure da minha picape Technics.

O livro com o disco havia sido lançado em 1973. Imagine então o tempo de espera até que fosse lançada a versão em CD, com a voz de Gal, limpa como era na primeira vez em que ouvi no compacto simples. Nesse meio tempo, a banda paulista meio jazz, meio qualquer coisa, mas de gosto apuradíssimo na escolha do repertório, o Nouvelle Cuisine, cantou Três da Madrugada. É uma interpretação também excepcional. Está em Novovelho, lançado pelo selo Eldorado, em 1995. A voz de Carlos Fernando está fazendo falta. Há muito não grava nada, até onde sei.


Algumas palavras sobre Torquato
Daqui a pouco, no dia 10 de novembro, fará 40 anos que Torquato se matou, um dia depois de fazer 28 anos. No bilhete que deixou, pede que “não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar.” Thiago era o filho pequeno, que tinha apenas dois anos.

Uma das mais belas e breves parcerias foi com Edu Lobo. Pra Dizer Adeus foi gravada em 1967 no LP Edu e Bethânia (1967). Ouça.



 Lembro de Caetano contar a história de como inspirou-se para compor Cajuína em um show. É o nome de uma bebida vendida engarrafada no Nordeste. Não é gaseificada, pois então, imagino que não seja considerada refrigerante. Não lembrava dos detalhes e procurei alguma referência em Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997). Passei página por página, e nada. Recorri à internet e no blogue de Jorge Bastos Moreno há um relato do compositor sobre como surgiu a canção. Quem quiser lê-lo na íntegra, está disponibilizado em http://glo.bo/RNQB8P. Vou dar uma resumida. Cajuína foi composta depois de um encontro de Caetano com o dr. Eli, pai de Torquato, em um hotel em Teresina, anos após a morte dele.


Torquato chegou a morar na Bahia e foi um dos nomes importantes no disco Panis et Circensis, sendo autor de várias letras. Tudo era mais “quente” naquele tempo e andaram se estranhando – Caetano e Torquato. O piauiense andou disparando sua metralhadora giratória verbal para todos os lados e terminou por se distanciar de muitos amigos. Caetano, quando soube da morte de Torquato, ficou abalada, mas não chorou. “Me senti um tanto amargo e triste, mas pouco sentimental.”

Quando, anos depois, encontrei o dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”


Ouça Três da Madrugada, com Gal Costa.




E na bela interpretação de Carlos Fernando, com o Nouvelle Cuisine.



PS: achei o livro. Estava na minha estante com as publicações relacionadas à música e ao cinema, que fica no banheiro social. Estava na fileira “do cinema”. Um trecho que sublinhei: “Uma palavra é mais do que uma palavra, além de uma cilada. […] As palavras inutilizadas são armas mortas e a linguagem de ontem impõe a ordem de hoje. A imagem de um cogumelo atômico informa por inteiro seu próprio significado, suas ruínas, as palavras arrebentadas, os becos, as ciladas.” (in “Marcha à revisão”, pág. 23. Torquato Neto. Últimos Dias de Paupéria. Editora Livraria Eldorado Tijuca, Rio de Janeiro, 1973)

terça-feira, 5 de junho de 2012

Lágrimas negras para Nelson Jacobina

Jacobina e Mautner, muito jovens
Na vez em que vi Nelson Jacobina mais de perto – coisa de meio metro – foi por ocasião na qual acompanhava a gravação dele com Jorge Mautner na TV Bandeirantes. Devia ter ido falar com alguém no estúdio e fiquei a observá-los. Isso aconteceu lá pelo início de 1980, se não me engano. Estavam gravando um número musical a ser apresentado em algum programa noturno. Eram só os dois: Mautner e o violino, e Jacobina com seu violão. Geralmente, essas gravações são um tanto chatas. Ficam repetindo as tomadas, o músico interrompe, o diretor também, etc., até acharem que ficou bom. Não vi Nelson abrir a boca uma única vez durante a sessão. Parecia um anjo: cabelos compridos, muito encaracolados, olhos claros a observar o nada, e bem magro.

Por onde Jorge ia, lá estava Jacobina, sempre calado, com seu violão. Foram parceiros musicais, sempre, com alguns episódios de “infidelidade” – com Caetano Veloso, Gilberto Gil e mais alguns – do profeta do “Kaos”.

Pela internet, fico sabendo que Nelson Jacobina morreu às 6h45 da quinta-feira, no último dia de maio de 2012. Lutava contra um câncer havia 15 anos, que no processo de metástase lhe atingira o pulmão há cerca de dois anos. Não sabia; nem que estava tocando com a Orquestra Imperial. Provavelmente, a música mais conhecida composta por Jacobina e Mautner seja Maracatu Atômico, nas interpretações de Gilberto Gil e a de Chico Science e Nação Zumbi. Mas não existe coisa mais bela que Lágrimas Negras. Cantada por Gal Costa, é um daqueles clássicos definitivos. Essa canção está em Cantar, um dos melhores discos da carreira da brilhante Maria das Graças.




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Mautner canta, Jacobina acompanha: Lágrimas Negras



Ouça a música com Nina Becker, lançada em Vermelho (2009), a contraparte de Azul, que saiu simultaneamente.



A letra de Jorge Mautner é pura poesia e rica em imagens.

Na frente do cortejo/ O meu beijo/ Forte como o aço/ Meu abraço/ São poços de petróleo/ A luz negra dos teus olhos/ Lágrimas negras saem, caem, doem/ Lágrimas negras saem,caem, doem/ Por entre flores e estrelas/ Você usa uma delas como brinco/ Pendurado na orelha/ Astronauta da saudade/ Com a boca toda vermelha/ Lágrimas negras saem, caem, doem/ São como pedras de moinho que moem/ Roem, moem/ E você, baby/ Vai, vem,vai/ E você baby/ Vem, vai, vem/ Belezas são coisas acesas por dentro/ Tristezas são belezas apagadas/ Pelo sofrimento/ Belezas são coisas acesas por dentro/ Tristezas são belezas apagadas/ Pelo sofrimento/ Lágrimas negras saem, caem, doem/Lágrimas negras saem, caem, doem.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Louca me chamam Gal Costa e Dinah Washington

Simplesmente, Gal
Em Caras e Bocas, tremendo disco de Gal Costa, o poeta e (grande) tradutor Augusto de Campos foi parceiro de Carl Sigman, Bob Russell, Irving Mills, E. de Lange, Duke Ellington e Bob Dylan. Suas incursões são sempre benvindas. Foi sempre genial traduzindo poetas difíceis como Stephane Malarmé e o americano superlativo e.e. cummings, mas sempre teve olho para manifestações consideradas menos nobres como a poesia provençal ou a música popular brasileira (é autor do fundamental Balanço da Bossa e Outras Bossas, Editora Perspectiva, 1974). A tradução – ou versão – de composições do cancioneiro popular existe desde sempre. Basta lembrar de All of Me, que virou Disse Alguém, na versão do multitalentoso (aventurou-se pelas rádios, foi redator de programas de TV e de uma coluna de turfe em O Globo, e compositor, em preciosas parcerias, de clássicos como De Conversa em Conversa, Pra Que Discutir com Madame e Tintim por Tintim) Haroldo Barbosa. Essa prática se disseminou em versões, às vezes pavorosas, de sucessos populares da música internacional, cantadas por Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Ronnie Von e Os Fevers, em que, por exemplo, Girl, de Lennon & McCartney, virava Meu Bem. Não cabe ao Brasil, porém, a exclusividade de criar versões de sucessos em inglês na língua pátria.

Não foram meros acasos suas versões contidas em Caras e Bocas (Philips, 19xx). Foi partícipe ao ver incorporado um poema de John Donne traduzido por ele, em música de Péricles Cavalcanti, ser cantada por Caetano Veloso (Elegia). O namoro de Caetano com o concretismo foi bem sério e inúmeras interações aconteceram, como no poema Pulsar, de Augusto de Campos, ou em composições de Caetano Veloso como Batmacumba (parceria com Gilberto Gil), em que a letra faz o desenho da letra “K”, Relance (1973), De Palavra em Palavra e Júlia Moreno (ambos no álbum conceitual Araçá Azul, 1972), Asa (“Pássaro um/ Pássaro pairando um/ Pássaro momento um/ Pássaro ar/ Pássaro pousa/ Pássaro repousa/ Pássaro som/ […[/ Passa voou/ Passa avoou/ Pássaro par.), do disco Joia (tinha acento agudo no “O” naquele tempo), de 1975.

Soa sempre estranho ouvir uma canção com a qual estamos acostumados com as sonoridades da língua em que foi composta (tento imaginar My Way cantada em japonês). São os casos de Solitude, de Duke Ellington, Crazy He Calls Me, de Carl Sigman e Bob Russell, e It’s All Over Now, Baby Blue, que virou, na versão de Campos, Negro Amor (é ousado esse título para algo que, traduzido, seria “Agora está tudo acabado, baby blue”). A tradução de Crazy He Calls Me foi mais fácil: “Louca me chamam”. Já “solitude” é uma palavra tão específica, que não houve outro jeito: continuou “solitude”. Na versão, sim: “solitude” virou “solidão” (“Nessa solidão/ Eu choro/ As horas que não tocam mais/ Nessa solidão/ Devoro”).

Dinah canta um espetacular Crazy He Calls Me
Lembro que, na época do lançamento de Caras e Bocas – 1977 –, estava em Salvador. Quando somos jovens, os discos “encarnam” na gente; não parávamos de ouvir (nesse tempo se dizia “ouvi o disco até furar”; explicação: o som era produzido pela agulha de diamante sobre a superfície de vinil, e ocorria um desgaste por atrito mesmo) os lançamentos, se os tivéssemos à mão. Na casa em que ficamos tinha esse disco de Gal. Todo mundo lá cantava de cor (bem que podia ter um acento agudo aqui para soar foneticamente correto, mas o “cor” vem de “coração”, segundo um amigo) o disco todo. As que mais adorava eram, justamente, Louca Me Chamam, e a última Um Favor, de Lupicínio Rodrigues. “E refletindo um segundo/ Resolvi pedir ao mundo/ Que me fizesse um favor/ Para que eu não mais chorasse/ Que alguém me ajudasse/ A encontrar meu amor/ […]/ Quem puder gritar que grite/ Quem tiver apito, apite/ Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar.” Maravilhoso. Ouvir Lupicínio, às vezes, faz mal, mas é sempre maravilhoso.


O melhor Crazy He Calls Me. A coisa do “melhor” será sempre uma discussão. Os fãs mais fanáticos de Billie Holiday poderão até dizer que não sei de nada, mas minha preferida é a de Dinah Washington. Não é possível se esquecer a de Anita O’Day. Até onde eu sei, Gal Costa é a única a ter cantado Louca Me Chamam.

Dinah Washington canta Crazy He Calls Me.




Gal Costa canta Louca Me Chamam.




A letra de Louca Me Chamam, por Augusto de Campos.

Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser, moverei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor, eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser, andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor sou eu