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| Caetano, Dedé e Moreno na capa de Jóia |
No ano seguinte, havia me mudado para São Paulo e tive a oportunidade de assistir ao meu primeiro Festival de Música Popular da TV Record. Ficaram registrados no meu HD, de forma indelével, Chico Buarque, bem sério, e o MPB4 cantando Roda Viva, Nana Caymmi abraçando e beijando um constrangido Gilberto Gil pelo segundo lugar de Domingo no Parque, Roberto Carlos cantando Maria, Carnaval e Cinzas, de Luis Carlos Paraná, Edu Lobo e Marília Medalha cantando Ponteio, o Quarteto Novo, que os acompanhava, e, principalmente, Caetano Veloso cantando Alegria, Alegria, com uma banda obscura de rock argentina. O refrão final – “eu vou/ por que não?/ por que não?” era otimista em um tempo em que a juventude não sabia se era ou não feliz e aqueles cabeludos tocando instrumentos eletrônicos eram um diferencial, como eram Os Mutantes, que acompanharam Gil em Domingo no Parque.
Na mesma TV Record havia um programa comandado por Blota Jr. chamado Esta Noite Se Improvisa. Ele dizia uma palavra e os concorrentes deveriam apertar uma campainha ou bater num sinete, não me lembro agora, se soubessem de alguma canção que a contivesse. Lembro que, quase sempre, os finalistas eram Chico Buarque e um rapaz de cabelos encaracolados chamado Caetano Veloso. Outro que ia sempre bem era Carlos Imperial. Nasceu na mesma Cachoeiro do Itapemirim de Roberto Carlos. Era um cara gordo, um tanto histriônico, compositor (A Praça, grande sucesso, na voz Ronnie Von, era sua), produtor, apresentador, e chegou até a ser eleito vereador pelo PDT, de Leonel Brizola. Ainda sem conhecer uma única música que tivesse gravado, tornei-me fã de Caetano. Torcia sempre por ele. Pura empatia. Anos depois, Chico Buarque disse que, em várias ocasiões, inventava uma letra e uma música e Blota Jr. caía direitinho no truque.
Transa tinha sido lançado um ano antes de Índia, de Gal Costa. Assisti ao show desse disco no auditório da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Foi inesquecível por várias razões. Por Gal, primeiro. Era pura sensualidade. Deve ter sido o primeiro show que vi dos então chamados “baianos”. Outro, foi uma apresentação de Gilberto Gil no Teatro das Nações (não existe mais), na avenida São João. Era enorme e apenas 20% das cadeiras estavam ocupadas. O show começava à meia noite e foi até as quatro. Inspirado, Gil se estendia em longos improvisos. Oriente (“Se oriente rapaz/ pela conselação do Cruzeiro do Sul…”), deve ter durado uns 40 minutos. Antológico. Sobre o show de Gal, leia http://bit.ly/Qw8Zkc.
De volta ao Transa
Os designers gráficos tinham resolvido “viajar” nas capas. O Milagre dos Peixes, de Milton Nascimento, era um cartão ovalado que, dobrado, tinha formato quadrado normal dos LPs. O envelope interno continha folhas de cores diferentes com as letras e a ficha técnica de cada faixa.
A capa original de Transa, concebida por Álvaro Guimarães, era um “discobjeto”; vinha até com instruções de montagem. Quatro faces resultavam em um display triangular; e ainda tinha a brincadeira com a palavra “CAI”, inspirada no diminutivo pelo qual Caetano era chamado: “Cae”.
Deixei um pouco de lado meus Led Zeppelins, tão amados, e Transa virou o disco da minha vida, por algum tempo. Conhecia-o de cor. Até hoje gosto de cantarolar Mora na Filosofia, de Monsueto, do jeito de Caetano, bem dramático. Adorava cantar refrões como “quem tem vovó pelanca só”, ‘pé dentro pra fora, quem tiver pé pequeno, vá embora”, “nine out of ten movie stars make me cry/ I’m alive”, ou outro, citação de Sodade Meu Bem, Sodade, de Zé do Norte: “os óio da cobra verde/ hoje foi que arreparei/ se arreparasse a mais tempo/ não amava quem amei.”
Grande Macalé! Sua participação em Transa é vital. Como diz Caetano, abrindo um solo dele em Nine out of Ten: “Fala, Macal” ou, “Vai, Macal” (meus ouvidos, de tanto som alto, me enganam um pouco). Outras participações são de Gal Costa e da ainda desconhecida Angela Ro Ro tocando flauta em Nostalgia. No CD do box completo lançado pela Philips não consta a lista dos músicos participantes de Transa. Esquecimento?
Em 1975, lançou dois álbuns ao mesmo tempo: Jóia (com acento, ora pois, pois) e Qualquer Coisa. Sempre polêmico, na capa de Jóia, estampou uma pintura em que eram retratados nus, ele, Dedé, sua mulher, e o filho Moreno. Foi vetada pela censura e a genitália do compositor ficou “tampada” por um casal de pássaros. A capa de Qualquer Coisa tem como referência Let It Be, dos Beatles; só que em vez de Lennon, McCartney, Harrison e Ringo em cada moldura, são variações em distorções cromáticas de uma mesma foto de Caetano. A capa de Jóia deve ter sido inspirada na imagem de John Lennon e Yoko Ono estampada em Unfinished Music No. 1: Two Virgins. A referência dos Beatles sempre foi presente. Antes, Caetano lançara o seu “álbum branco”, também.
E não faltam canções dos Beatles. Com Qualquer Coisa homenageia o radialista, apresentador e compositor José Messias (Madrugada e Amor), Chico Buarque (Samba e Amor), Jorge Ben (Jorge da Capadócia), Lennon e McCartney (Lady Madonna, Eleanor Rigby e For No One), e Bola de Nieve (La Flor de la Canela e Drume Negrita), quando este cubano ainda era um ilustre desconhecido entre nós, brasileiros. Qualquer Coisa é despojado, enxuto, econômico. Seu principal parceiro é Perinho Albuquerque.
Jóia também é. As melhores são aquelas que, em si, são sínteses. As canções se formam por repetições: “Meu bichinho bonito/ Meu bichinho bonito/ Meu bichinho bonito/ Tudo é mesmo muito grande assim/ Porque Deus quer/ Minha mulher/ Minha mulher/ Minha mulher” (Minha Mulher); “Esse Deus dos fetos/ Das plantas pequenas é a luz/ Saindo pelos olhos/ De minha amiguinha linda/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha linda/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha/ De minha amiguinha linda” (Pelos Olhos); “Pássaro in/ Pássaro pairando/ Pássaro momento/ Pássaro ar/ Pássaro ímpar/ Parou pousar/ Parou repousar// Pássaro som/ Pássaro parado/ Pássaro silêncio/ Pássaro ir/ Pássaro ritmo/ Pássaro voou/ Pássaro avoou/ Pássaro par/ […] Parou pousar/ Parou repousar…” (Asa, Asa); “Lua, lua, lua, lua/ Por um momento meu canto contigo compactua/ […]/ Branca, branca, branca, branca/ A minha, nossa voz atua sendo silêncio/ Meu canto não tem nada a ver com a lua” (Lua, Lua, Lua, Lua); “Beira de mar/ beira de mar/ Beira de mar é na América do Sul/ […]/ Copacabana, Copacabana, louca total/ E completamente louca/ A menina muito contente toca a Coca-Cola na boca/ Um momento de puro amor/ De puro amor” (Jóia); “Asa, asa/ Asa, asa/ Não ter asa, pedras no fundo do mar// Água, água/ Água, água/ Barbatana, seixo/ Rolando no leito// Chama, chama/ Chma, chama/ Nada, nada/ Sonho afogado no ar// Asa, asa/ Asa, asa/ O vento entra pela casa/ Pedra de sono na cama” (Gravidade).
Pela repetição e variações que criam movimentos ondulantes, Caetano, em Jóia e em algumas faixas de Qualquer Coisa, se aproxima do conceito reichiano (de Steve Reich, o músico, e não do psicanalista Wilhelm). Outro que se valeu da construção minimalista foi Brian Eno. Uma frase do inglês sintetiza muito bem esse conceito: “Repetição é uma forma de mudança”. Alex Ross, no livro O Resto É Ruído (Companhia das Letras, 2009), cita o que chama de “gesticulação minimalista [de] se concentrar em um só acorde” citando uma canção de Bob Dylan: “ And it’s a hard, and it’s a hard, and it’s a hard, and it’s a hard, and it’s a hard rain’s a-gonna fall” (pág. 532).
Duas músicas de Jóia sintetizam bem esse conceito: Pipoca Moderna e Gua. Há um texto de Caetano em Alegria, Alegria (Pedra Q Ronca), “Uma Caetanave organizada por Waly Salomão”, sobre elas.
Gilberto Gil, em 1967, depois de uma passagem por Recife, PE, veio com uma fita com o som da banda de pífanos de Caruaru. No texto, Caetano descreve: “Eu venho tentando me abandonar às palavras cantáveis, ocultas aqui ali, desvelar algumas, desvelar-me para elas. Venho sonhando com um canto que seja o som como a visão do visionário”. Caetano quase “despersonaliza” a palavra, sem que se percam suas significações, em repetições fonéticas que vão se transmutando: “E era noite de nem noite de nego, não/ E era ne de nunca mais/ E era noite de ne, nunca de nada mais/ E era nem de negro, não/ Porém parece que há golpes de pê, de pé, de pão/ De parecer poder/ E era não de nada além/ Pipoca ali, aqui, pipoca além/ Desanoitece e amanhã tudo mudou/ Pipoca ali, aqui, pipoca além/ Desanoitece e amanhã tudo mudou”. O milho pula ali, acolá, além.
Gua vai mais além. “Essa sílaba gua surgiu tantas vezes seguidas e de tal modo se comportou como núcleo desse átomo que eu pensei que ela era o jeito de se expressar o que não sei explicar da relação mítica entre ibu-alama e a água, as águas. Os lugares que eu amo – guamá-belém, iguape-pedrinho-baía de todos os santos, recôncavo de santo amaro – são elementos, qualquer coisa íntimos, desse que só eu sei e tudo é ritmo, tudo é inútil e não deveríamos temer coisa alguma.” (págs 161-162). A letra de Gua é a expressão do mínimo: “ Água/ Guamá/ Iguape/ Ibualama”. Com apenas quatro palavras, Caetano “inventa” mil palavras, como nos cantos renascentistas e barrocos em que, com poucos versos seus cantores criavam variações, como em Audi coelum, em Vespro della Beata Vergine, de Claudio Monteverdi, ou Erbarme Dich, Mein Gott, da Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach. É quando a palavra vira música por sua própria sonoridade e por meio de diferentes encadeamentos e repetições.
A USP era uma bela universidade. Espero que continue a ser. Como “complemento” a uma das matérias optativas da FAU, um de nossos professores conseguiu que a escola pagasse um ônibus para irmos a Salvador, “estudar” sua arquitetura do período barroco. Pois, após a conclusão da disciplina, em dezembro, fomos nós. Logo na primeira parada, alguém teve a idéia de comprar uma fita cassete – foi o antecessor dos aparelhos de CDs e mp3 – depois de termos descoberto que o ônibus possuía o tocador. Claro que a escolha deveria ter algo a ver com a Bahia. Aquela coletânea em fita cassete foi a trilha sonora de uma viagem que durou quase 40 horas. Cansou. Até hoje não suporto ouvir Meu Nome é Gal (“Meu nome é Gal/ e pretendo me corresponder com um rapaz…”).
Essa primeira vez em Salvador, que deveria ter durado apenas dez dias viraram trinta. “Abandonei” o curso em sua conclusão e fiquei na casa do Sérgio, no bairro da Federação, com alguns amigos do meu e de outros anos, por “coincidência”, todos militantes ou simpatizantes da chamada Libelu (Liberdade e Luta), e duas moças da direção da tendência no Rio Grande do Sul.
Durante o tempo em que fazíamos o nosso périplo curricular (afinal, estávamos lá para conhecer igrejas, fortalezas, etc.), enquanto conhecíamos o Carmo ou o Pelourinho, passávamos os dias a cantar algumas músicas de Bicho, que havia sido lançado há pouco. Eu e uma amiga ficávamos cantando Tigresa, Odara e Alguém Cantando. Conhecia o disco de cor. Saudosos dias. E, como disse desde o começo, cada disco novo de Caetano se tornava o disco da minha vida. Pouco tempo depois de Bicho, foi lançado Mico de Circo, de Luiz Melodia. Melodia me deixou dividido.
Vamos ouvir e ver Odara, neste primeiro dia do ano 2013. Nesse vídeo, Caetano canta com Gilberto Gil.
Obs: como não estou em casa, não estou conseguindo anexar o vídeo. O link dele é: http://www.youtube.com/watch?v=9v4rCCSozPM

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