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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A intimidade de Barbara Casini, Phil Woods e Stefano Bollani com a música brasileira

A música brasileira não era estranha a Phil Woods, um dos melhores saxofonistas alto de todos os tempos, depois de Charlie Parker, naturalmente. Cansou de ser considerado o primeiro por revistas especializadas em jazz. É de 1975 “Floresta Canto”, LP em que toca “Canto de Ossanha” e “O Morro”, de Baden Powell e Tom Jobim, respectivamente. Em 1996, resolveu fazer outro álbum parcialmente dedicado à nossa música. Em “Astor e Elis”, algumas canções que se tornaram conhecidas na voz da cantora apelidada de Pimentinha, por Vinícius de Moraes: “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Cais” e “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento, e “Atrás da Porta”, de Francis Hime e Chico Buarque.

Do pianista Stefano Bollani então, nem se fala. Tem vários álbuns com temas brasileiros. Canta, inclusive, com enorme graça “Trem das Onze” e não fica no repertório batido da bossa nova. Canta coisas que só alguém especialista em música brasileira: “A Voz do Morro”, “Ao Romper da Aurora”, “Luz Negra”, “Folhas Secas”, “Apanhei-te Cavaquinho” e “Ao Romper da Aurora”. Lançou pelo selo japonês Venus Records “Falando de Amor” (2003), dedicado mais a temas da bossa nova. Em 2013, pela ECM, gravou “O Que Será”, em duo com Hamilton de Holanda.

Bárbara
Se esses dois são familiarizados com a nossa música, nem se fala então de Barbara Casini. A cantora nasceu em Florença, mas podia muito bem ter nascido no Rio de Janeiro. É expert em Brasil e tem até sotaque de carioca.

Quando tinha quinze anos, viveu o seu primeiro e definitivo amor. Caiu-lhe nas mãos um LP de Bossa Nova. Terminou o curso de psicologia, mas passou a pesquisar tudo sobre a arte que vinha do outro lado do oceano. Não foi apenas pela música, mas pela literatura e o aprendizado da língua.

Conheceu Brasil em 1982, ano da morte de Elis Regina, por quem tinha admiração. Tempos depois lançaria um álbum com o título “Furacão Elis”. Voltou com a mala cheia de discos. Na outra vez que veio, fez uma longa viagem do nordeste ao sudeste e conheceu a música de Luiz Gonzaga, Xangai e Geraldo Azevedo. Quando voltou à Itália, montou a banda Outro Lado.

Casini tem cerca de vinte álbuns, e neles é acompanhada por músicos italianos do primeiro time, como Stefano Bollani, Renato Sellani, Enrico Rava, Fabrizio Bosso, além de Toninho Horta, Guinga, Lee Konitz e Phil Woods. Uma parcela significativa deles está relacionada ao Brasil: “Todo o Amor” (1997), com composições próprias, incluindo uma parceria com Novelli, e um original de Chico Buarque, “Você e Eu” (2001), “Uragano Elis” (2004), “Outra Vez” (2002), com o mestre Lee Konitz, “Anos Dourados – para Tom Jobim” (2003), e “Luiza” (2004), “Uma Mulher” (2015), com composições próprias, Danilo Caymmi, João Nogueira e Ivan Lins, e, o mais recente “Terras” (2016), que aborda temas do repertório da música nordestina, Edu Lobo, Djavan, Roberto Mendes e Dori Caymmi.

‘Luiza”, do álbum do mesmo nome, é uma das grandes interpretações de Casini. Preste atenção no piano de Riccardo Arrighini.





Além da música, dedica-se a traduzir canções e literatura brasileira. Verteu “Vidas Secas” de Graciliano Ramos para o italiano. É também autor de “All Is Music”, livro com suas conversas com Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros.

Trio perfeito
“Você e Eu” é de 2001. Phil Woods era um veterano. Tinha 70 à época. Mesmo com enfisema pulmonar, tocou até pouco antes de morrer, no fim de setembro de 2015. Em escala decrescente, vem Barbara, nascida em 1954, e Stefano Bollani, pianista ótimo e versátil.

Um trio como esse é dos sonhos. Quem não teria gostado de ter Phil Woods na banda. É um dos maiores da história no instrumento identificado indelevelmente ao genial Charlie Parker. Uma curiosidade: Phil casou-se com Chan, viúva de Parker.

As dez canções do disco são todas do cancioneiro brasileiro. São todas da década de 1970 para trás. Acho que a mais nova é “Cai Dentro”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. É a mais uptempo do disco. Três são de Antônio Carlos Jobim – “Fotografia”, “Por Causa de Você”, parceria de Dolores Duran, e “Estrada Branca”, com Vinícius de Moraes –, duas de Carlos Lyra – “Maria Ninguém” e Você e Eu” –, uma de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida – “Pra Que Discutir com Madame”, uma de Caetano Veloso – “Avarandado” –, e duas de Ary Barroso – “Pra Machucar Meu Coração” e “Na Baixa do Sapateiro” –, as minhas preferidas.

Ouça “Pra Machucar Meu Coração”.




Ouça também “Fotografia”, faixa que abre o disco. Se quisermos uma referência, acho que a voz de Barbara Casini tem alguma semelhança com a de Joyce Moreno.




Ouça “Estrada Branca”.




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A morte do mensageiro de Deus

No dia 4 de setembro, Phil Woods anunciou sua aposentadoria num show em Pittisburgh na qual, junto com a orquestra local, tocou temas do álbum Charlie Parker with Strings. Phil apresentou-se com um tubo de oxigênio ao lado. Brincou dizendo que era seu “amplificador”. Há muito tempo, os milhões de cigarros que consumiu afetaram-lhe os pulmões. A parte impressionante é que continuava a tocar apesar do enfisema pulmonar. Poucas semanas depois, mais exatamente em 29 de setembro, morreu.

Woods afirmava que, se “Charlie Parker era Deus, nesse caso, eu sou o o seu mensageiro.” Não era apenas uma frase de efeito. Era o que achavam os críticos: um legítimo herdeiro do legado de Bird. Um outro dado reforçou essa ligação: depois da morte do genial saxofonista alto, Phil casou-se com Chan Richardson, sua viúva, além de tocar o mesmo instrumento. Mantiveram o casamento por muito tempo.

Sua importância, descontando-se Parker, como altoísta é comparável a de outros dois grandes do instrumento: Cannonball Adderley e Art Pepper. Dois outros são considerados importantes, mas não tanto quanto estes: Johnny Hodges, eterno membro da banda de Duke Ellington, e Paul Desmond, conhecido até pelo gajo da esquina, por Take Five, em seus tempos do quarteto de Dave Brubeck.

Surpreende que Phil tenha morrido, fumando tanto, com 83 anos e, tocando. O enfisema o perseguia há muito tempo. Não lembro há quanto tempo foi que, comentário de quem o assistiu em São Paulo, de seus curtíssimos solos devido a falta de fôlego. Mesmo assim, como se diz por aí, continuava a mandar bem. Conseguia fazer bom uso do pouco ar que lhe sobrava nos pulmões, o que era uma façanha.

Tendo gravado álbuns de sucesso nos anos 1950 e 1960, Woods mudou-se para a França. Saiu um pouco dos holofotes por isso. Montou uma banda meio estranha chamada Phil Woods and His European Rhythm Machine, incorporando instrumentos eletrônicos como o piano elétrico e ritmos africanos. Mas a banda era boa e música também, apesar de não fazer o gosto de todo mundo. O pianista elétrico era Gordon Beck e os franceses da banda eram do primeiro time, como Henri Texier e Daniel Humair.

Ao voltar para o seu país natal, gravou vários álbuns para a Concord Jazz e a Antilles com o quarteto formado por Hal Galper, Bill Goodwin e Steve Gilmore. Outros como Tom Harrell, Jim McNeely e Bill Charlap participaram de outras formações. Um bom disco dessa época é Birds of a Feather (Antilles, 1982).

Um bom ponto de contato com a música brasileira é o álbum Astor & Elis (Chesky), de 1996, que conta com o pianista Bill Charlap e Duduka da Fonseca na bateria.

Ouça o bolero Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, de João Bosco e Aldir Blanc, com Phil Woods.






Veja uma apresentação de Woods de 2005 com orquestra, no Festival de Marciac.




Phil e Michel Legrand, em Watch What Happens.




Veja os dois novamente na bela What Are You Doing the Rest of Your Life?, composição do francês. Ah, ele canta; o Michel.




As amostras aqui apresentadas são deste século. Phil já tinha sido diagnosticado com enfisema pulmonar. Não importava tanto o fôlego, porque ele sempre manteve a limpidez no som e a sutileza que sempre foram suas marcas no saxofone alto.