Parece cada vez mais fácil chegar aos 100 anos, mas a que custo? O importante é estar inteiro e bem de saúde. É o caso de Tony Bennett, o maior cantor vivo da atualidade. Aos 92 anos, mesmo tendo passado por uma fase em que consumiu boas doses de cocaína, está forte e pimpão, como diria um amigo. E mais: canta muito ainda, mantendo a bela voz que o consagrou. E ainda gosta de pintar.
Confirma sua boa forma em sua mais recente empreitada, “Love Is Here to Stay”, com Diana Krall, com o repertório de George Gershwin. Bennett se rejuvenesce em suas parcerias com intérpretes de todos os espectros. Fez muito sucesso “A Wonderful World” (Columbia, 2002), com a canadense kd lang. Em “Duets: An American Classic” (Columbia, 2006), divide os vocais com os pop John Legend, Barbra Streisand, Celine Dion, Sting, Bono Vox, Billy Joel, Paul McCartney, James Taylor, Stevie Wonder e outros. Como os duos que Frank Sinatra cometeu em seus anos derradeiros, quando sua voz era uma sombra do que havia sido, sucumbe aos apelos comerciais. A diferença com os de Sinatra é a de que a voz de Bennett era a mesma. Gravou ainda “Duets 2” (2011) e “Viva Duets” (2012), aproveitando a onda.
Os puristas torcem o nariz para Diana Krall. Com um início fulgurante, arrombando a porta do mainstream do jazz, a ex-aluna de Jimmy Rowles e protegida de Ray Brown, a canadense tocava muito bem piano, e se quisesse, poderia seguir por essa seara. O aprendizado com Rowles e poderosa influência da maneira de tocar de Nat King Cole, foi logo notada pela gravadora Impulse, logo depois de tornar-se um sucesso instantâneo em seu país natal. Como o mestre Cole, cantava, e muito bem. A exemplo dele, consagrou-se mais como cantora do que pianista. De hoje em dia, apesar de apresentar-se sempre sentada à frente de um Steinway, mais canta que toca.
No caso de “Love Is Here to Stay”, deixa o pianista é Bill Charlap. Bom, nem precisa mesmo. O filho de Sandy Stewart tem um dos trios mais respeitados da atualidade. É mainstream, que se diga, mas sua banda está uma que chegou bem perto da perfeição.
A perfect pair
Depois de terem cantado juntos em ocasiões esparsas nos últimos 20 anos, “Love Is Here to Stay” é o primeiro álbum deles juntos. Gravado no ano passado, acaba de ser lançado. É a reunião que muitos esperavam. Bennett é a majestade, no alto de seus 92 anos; Krall é a dama do jazz da atualidade, em que pesem o valor das experientes Dee Dee Bridgewater ou Diana Reeves. Um pouco por preconceito, é criticada. Popularidade causa dor de cotovelo e críticos acham que cair no gosto de um público mais amplo é devido a concessões ao mercado. Evidente que King Cole fez concessões, mas que beleza de cantor que foi!
Tanto Bennett quanto Krall cansaram de cantar o repertório de George Gershwin, mas em “Love Here to Stay, ambos interpretam pela primeira vez em discos “My One and Only Love” e “I’ve Got a Crush on You”. É uma surpresa
Há um enorme respeito, como não poderia deixar de ser, de Diana por Tony. “Ele não apenas canta essas canções. Ele sabe o que está dentro e fora. Ele é uma pessoa profunda em muitos níveis – às vezes você pergunta sobre coisas e ele diz o que acha. É um belo fenômeno emocionalmente.” É o respeito que Krall tem pela sabedoria de um intérprete que sabe tudo de música, sabedoria que amealhou por todos os anos que o tornou um dos grandes cantores de todos os tempos na história do jazz.
Bem, se Bill Charlap é um dos grandes ao piano e Bennett e Krall craques absolutos, poderia de esperar uma obra-prima. Não é. É um álbum agradável, com algumas pérolas distribuídas, ora pelos bons achados do pianista, belas combinações da voz cálida dela e da qualidade interpretativa dele. Comparando-se, não é genial como, por exemplo, o de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim, ou o de Betty Carter e Ray Charles, Ray Charles e Cleo Laine, ou Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Acho que, como diria minha amiga baiana, faltou um pouco de borogodó, aquela simbiose fervente que acontece inexplicavelmente entre dois seres.
Veja o clipe promocional do álbum, com os dois e o trio de Charlap interpretando a canção título.
Ouça o álbum. Um destaque é a excepcional interpretação de Krall em “But Not for Me”, com uma introdução que normalmente é cantada. A “inédita”, para os dois, “My One and Only”, é outro, pela combinação do piano e o clima relaxado entre os dois intérpretes. “Love Is Here to Stay” e “I Got Rhythm” são outras que destaco.
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Bill Charlap, próximo da perfeição
É só olhar qualquer foto de Bill Charlap para se concluir: Bill nasceu velho; isso, apesar da cara de eterno adolescente. Parece que Bill nasceu vestindo terno. Não deve ter cometido alguma travessura quando menino. Com a sua aparência, é difícil imaginá-lo endemoniado como Cecil Taylor ou Hermeto Pascoal.
Na vida real, parece que vive em outro tempo. Há dez anos, não possuía nem um computador em casa. Seu empresário vivia a reclamar da dificuldade de encontrá-la por ele não ter um telefone celular. A única pessoa que sei não possuir um celular, fora o nosso ex-presidente Lula, é o meu amigo Takashi Fukushima. Quando ganhou um de presente de Natal dos filhos, recusou-se a recebê-lo.
Por ser essa a sua imagem, Charlap é visto por muitos como o epítome do jazz careta, ou melhor, mainstream. Mas, olhando-se um pouco além da superfície, podemos ter algumas surpresas. Bill é a música em si e é um tremendo pianista. Filho de Sandy Stewart, cantora veterana com quem chegou a gravar dois álbuns – Love Is Here to Stay e Something to Remember – e do compositor de musicais da Broadway, Moose Charlap, primo distante de Dick Hyman, é ainda casado com a também pianista Renee Rosnes. Juntos, gravaram Self-Portrait (Blue Note, 2010).
O que parece e não é
Julgando um pouco pelas aparências, não me interessei em ouvir Bill. O que me fez mudar de ideia era o entusiasmo de Carlos Conde, dono de um programa semanal de jazz na rádio Cultura, e de seus amigos por ele. Fã do formato trio piano, baixo e bateria, comprava tudo o que era lançado pela Venus Records. Apesar da preponderância de álbuns nesse formato, com pianistas do primeiro time como Kenny Barron, Roland Hanna, Stefano Bollani e Steve Kuhn, constam em seu catálogo outros instrumentistas, como Barney Wilen, Nikki Parrott, Peter Bernstein e Archie Shepp, mas com repertório mais orientado ao chamado mainstream. Em sua maioria, por esse selo, são creditados como sendo do New York Trio, liderado por ele, mas que tiveram baixistas e bateristas diferentes ao longo da sua existência.
A imagem do “certinho” não funciona muito no meio da música. Virou senso comum de que o artista tem de ser um maluco. Criativos são doidões, drogados e imprevisíveis. Mas nem tudo é assim. O mito do artista maluco, que parecia ser a norma, que morria cedo e Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison são os exemplos, foi rareando. É certo que que, de tempos em tempos, surge alguém para rememorar o mito, como foi o de Amy Winehouse. Existe um preconceito contra esses certinhos, até na política, como estamos vendo por esses tempos. Certinho é o “coxinha”, termo inventado pelos paulistas, e, por conseguinte, de direita, o que é uma tremenda bobagem. Para parecermos “moderninhos” ou joviais devemos amar o rebelde. É uma atitude que se reflete até no jazz. Quando surgiu Wynton Marsalis, logo o reconheceram como grande instrumentista, mas muitos torceram o nariz, principalmente por suas declarações em favor de resgates de valores do jazz tradicional e pelo seu jeito de certinho, sempre de terno e gravata. Para piorar, os músicos que o rodeavam também eram assim, pelo menos, por fora. Quando emergiu outro membro da família, o irmão Branford, este representou o oposto, apesar de vestir-se do mesmo modo. Com a cabeça mais aberta, foi tocar com o pop Sting e ainda montou a banda Buckshot LeFonque. Eu preferia Branford, até porque prefiro o som do saxofone ao trumpete.
O reconhecimento
Nas listas dos melhores pianistas que saem anualmente, Bill Charlap é pouco lembrado. Vendo as duas últimas da Downbeat, estão os “emergentes” Vijay Iyer, Jason Moran e os veteranos Keith Jarrett, Kenny Barron e Ahmad Jamal. Na de 2014, ficou em 18º, e na de 2015, em 11º lugar.
Em 2015, Charlap lançou, com Tony Bennett, The Silver Lining. A crítica foi unânime em classificá-lo como um dos melhores do ano. Recebeu cinco estrelas pela Downbeat.
Na vida real, parece que vive em outro tempo. Há dez anos, não possuía nem um computador em casa. Seu empresário vivia a reclamar da dificuldade de encontrá-la por ele não ter um telefone celular. A única pessoa que sei não possuir um celular, fora o nosso ex-presidente Lula, é o meu amigo Takashi Fukushima. Quando ganhou um de presente de Natal dos filhos, recusou-se a recebê-lo.
Por ser essa a sua imagem, Charlap é visto por muitos como o epítome do jazz careta, ou melhor, mainstream. Mas, olhando-se um pouco além da superfície, podemos ter algumas surpresas. Bill é a música em si e é um tremendo pianista. Filho de Sandy Stewart, cantora veterana com quem chegou a gravar dois álbuns – Love Is Here to Stay e Something to Remember – e do compositor de musicais da Broadway, Moose Charlap, primo distante de Dick Hyman, é ainda casado com a também pianista Renee Rosnes. Juntos, gravaram Self-Portrait (Blue Note, 2010).
O que parece e não é
Julgando um pouco pelas aparências, não me interessei em ouvir Bill. O que me fez mudar de ideia era o entusiasmo de Carlos Conde, dono de um programa semanal de jazz na rádio Cultura, e de seus amigos por ele. Fã do formato trio piano, baixo e bateria, comprava tudo o que era lançado pela Venus Records. Apesar da preponderância de álbuns nesse formato, com pianistas do primeiro time como Kenny Barron, Roland Hanna, Stefano Bollani e Steve Kuhn, constam em seu catálogo outros instrumentistas, como Barney Wilen, Nikki Parrott, Peter Bernstein e Archie Shepp, mas com repertório mais orientado ao chamado mainstream. Em sua maioria, por esse selo, são creditados como sendo do New York Trio, liderado por ele, mas que tiveram baixistas e bateristas diferentes ao longo da sua existência.
A imagem do “certinho” não funciona muito no meio da música. Virou senso comum de que o artista tem de ser um maluco. Criativos são doidões, drogados e imprevisíveis. Mas nem tudo é assim. O mito do artista maluco, que parecia ser a norma, que morria cedo e Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison são os exemplos, foi rareando. É certo que que, de tempos em tempos, surge alguém para rememorar o mito, como foi o de Amy Winehouse. Existe um preconceito contra esses certinhos, até na política, como estamos vendo por esses tempos. Certinho é o “coxinha”, termo inventado pelos paulistas, e, por conseguinte, de direita, o que é uma tremenda bobagem. Para parecermos “moderninhos” ou joviais devemos amar o rebelde. É uma atitude que se reflete até no jazz. Quando surgiu Wynton Marsalis, logo o reconheceram como grande instrumentista, mas muitos torceram o nariz, principalmente por suas declarações em favor de resgates de valores do jazz tradicional e pelo seu jeito de certinho, sempre de terno e gravata. Para piorar, os músicos que o rodeavam também eram assim, pelo menos, por fora. Quando emergiu outro membro da família, o irmão Branford, este representou o oposto, apesar de vestir-se do mesmo modo. Com a cabeça mais aberta, foi tocar com o pop Sting e ainda montou a banda Buckshot LeFonque. Eu preferia Branford, até porque prefiro o som do saxofone ao trumpete.
O reconhecimento
Nas listas dos melhores pianistas que saem anualmente, Bill Charlap é pouco lembrado. Vendo as duas últimas da Downbeat, estão os “emergentes” Vijay Iyer, Jason Moran e os veteranos Keith Jarrett, Kenny Barron e Ahmad Jamal. Na de 2014, ficou em 18º, e na de 2015, em 11º lugar.
Em 2015, Charlap lançou, com Tony Bennett, The Silver Lining. A crítica foi unânime em classificá-lo como um dos melhores do ano. Recebeu cinco estrelas pela Downbeat.
Agora, no mês passado, saiu Notes from New York. Tendo seus últimos álbuns lançados pela Blue Note, este é o primeiro pela Impulse!, selo conhecido por ter tido Bob Thiele como diretor e John Coltrane, Charles Mingus e McCoy Tyner no seu plantel. Esta é a terceira vez, se não me engano, que o selo é reativado. Dessa vez, estão caprichando. Lançaram discos Jim Hall, Charlie Haden, Gonzalo Rubalcaba, John Scofield, Dave Holland, Kenny Barron e Ran Blake, mas estão investindo em novos talentos como o de Sarah McKenzie, Indra Rios-Moore e Sullivan Fortner.
O trio de Bill Charlap é completado por Peter Washington no contrabaixo e Kenny Washington na bateria. Não é exatamente uma nova fase de Bill. É apenas a continuação de seu trabalho cada vez mais refinado no gênero trio. Allen Morrison, em recente crítica, em que deu cotação máxima, é só elogios. Toca na questão do termo “mainstream”: “O termo mainstream deixa de ter significado quando alguém considera a maestria técnica de Charlap, sua sutileza e incansável invenção melódica – ou deveria dizer, reinvenção.” Diz ainda que o disco é um “masterclass” e diz ainda que I’ll Remember April, a primeira faixa já vale o preço dele. Outra coisa boa é a de que Bill gosta de standards, mas não fica só em temas batidos.
Ouça I’ll Remember April, a faixa que vale o preço pago.
A minha preferida é outro conhecido standard. Ouça Too Late Now.
On the Sunny Side of the Street, a faixa de encerramento, é excepcional também. É um solo ao piano em que Bill subverte a melodia, tocando em andamento bem lento.
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Tony Bennett, mais vivo do que nunca
Com 89 anos completados em agosto, Tony Bennett continua mandando bem. É um exemplo de longevidade sem insanidade. Nunca houve alguém como Frank Sinatra, mas este, aos 80, estava um trapo, um fio de voz, o que Tony, até hoje mantém a potência e afinação impecável. Aliás, Frank era fã de Bennett.
Nunca houve ninguém como Bill Evans. Seu xará, de sobrenome Charlap, filho da cantora Sandy Stewart e do compositor Mose Charlap, é um tremendo pianista, com muitos admiradores no meio do jazz. E é esse outro Bill que toca com Tony, revivendo a grande parceria de Evans com o cantor em dois clássicos – The Tony Bennett/Bill Evans Album e Together Again. Em relação ao primeiro – o segundo é de 1977 –, são 40 anos para o lançamento de The Silver Lining: The Songs of Jerome Kern.
E é incrível que 40 anos depois e com quase 90 anos, Tony esteja cantando tão bem. No ano passado, em parceria surpreendente, lançou Cheek to Cheek, com Lady Gaga (leia em http://bit.ly/1MpEQpH). E o que anunciava ser um desastre, saiu ótimo. Até que a moça, em um gênero que não é seu, faz bonito. O disco foi até elogiado pela crítica e vendeu muito bem.
Se os dois álbuns eram voz e piano, em The Silver Lining, apesar de ser no formato duo, sete faixas contam com o baixista Peter Washington e o baterista Kenny Washington, e em quatro, com o acréscimo da também ótima pianista Renee Rosnes, aliás, mulher de Bill. São três músicos que apenas abrilhantam o disco. É tão bom que o fã de Bennett pode curtir a voz de um dos melhores cantores do século passado, que continua firme entre os primeiros neste, fazendo de conta que o pianista pode ser um qualquer, e os admiradores de um bom piano podem só prestar atenção nas linhas extraordinárias que Bill executa no instrumento. Juntando os dois, é o que ouvimos em simbiose perfeita. É um dos melhores lançamentos do ano. Jerome Kern deve estar feliz.
Bill e Tony na música que dá título ao disco.
A melhor faixa do álbum é “They Didn’t Believe Me”. Aqui são acompanhados por Peter Washington e Kenny Washington. Confira.
Nunca houve ninguém como Bill Evans. Seu xará, de sobrenome Charlap, filho da cantora Sandy Stewart e do compositor Mose Charlap, é um tremendo pianista, com muitos admiradores no meio do jazz. E é esse outro Bill que toca com Tony, revivendo a grande parceria de Evans com o cantor em dois clássicos – The Tony Bennett/Bill Evans Album e Together Again. Em relação ao primeiro – o segundo é de 1977 –, são 40 anos para o lançamento de The Silver Lining: The Songs of Jerome Kern.
E é incrível que 40 anos depois e com quase 90 anos, Tony esteja cantando tão bem. No ano passado, em parceria surpreendente, lançou Cheek to Cheek, com Lady Gaga (leia em http://bit.ly/1MpEQpH). E o que anunciava ser um desastre, saiu ótimo. Até que a moça, em um gênero que não é seu, faz bonito. O disco foi até elogiado pela crítica e vendeu muito bem.
Se os dois álbuns eram voz e piano, em The Silver Lining, apesar de ser no formato duo, sete faixas contam com o baixista Peter Washington e o baterista Kenny Washington, e em quatro, com o acréscimo da também ótima pianista Renee Rosnes, aliás, mulher de Bill. São três músicos que apenas abrilhantam o disco. É tão bom que o fã de Bennett pode curtir a voz de um dos melhores cantores do século passado, que continua firme entre os primeiros neste, fazendo de conta que o pianista pode ser um qualquer, e os admiradores de um bom piano podem só prestar atenção nas linhas extraordinárias que Bill executa no instrumento. Juntando os dois, é o que ouvimos em simbiose perfeita. É um dos melhores lançamentos do ano. Jerome Kern deve estar feliz.
Bill e Tony na música que dá título ao disco.
A melhor faixa do álbum é “They Didn’t Believe Me”. Aqui são acompanhados por Peter Washington e Kenny Washington. Confira.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Dose dupla de Bill Charlap: duas mulheres e duplo arco-íris
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| Bill e Rosnes; à direita, a mãe Sandy |
Nem tudo segue esse determinismo. É o caso de Dewey Redman e seu filho Joshua Redman, ambos saxofonistas excepcionais. É certo que Joshua cresceu longe do pai. Outro é o de Kenny Drew. Seu filho – Kenny Drew, Jr. – é pianista, como foi o pai, tão bom quanto ele.
O Drew “sênior” nasceu em Nova York, tocou com uma turma “allstar” (John Coltrane, Howard McGhee, Coleman Hawkins, Charlie Parker) e, como muitos bons músicos que tiveram problemas com drogas, e outros, por conta do segregacionismo racial, mudou-se para a Europa. Lá, tiveram boa acolhida e foram idolatrados pelos amantes do jazz. São clássicos os inúmeros discos que gravou com o baixista Niels-Henning Ørsted Pedersen. O Drew filho tem um estilo bem diferente, muito em razão do aprendizado iniciado na música clássica. Possui um estilo bem diferente. Em ambos os casos, é de se examinar com lupa: por que escolheram os mesmos instrumentos que tornaram seus pais conhecidos? Joshua podia ter virado pianista e Drew Jr., saxofonista; ou baterista, como o filho de Thelonious Monk; seria o melhor modo de se escapar de constrangedoras comparações.
Bill Charlap vem de uma família de músicos. O pai, Moose Charlap, foi compositor e tem o nome creditado como autor de composições de musicais da Broadway como Peter Pan, Alice Através do Espelho e Kelly. A mãe, Sandy Stewart é cantora, participou da banda de Benny Goodman e do programa de televisão de Perry Como. E como se não bastasse, é primo distante de Dick Hyman por parte de pai. É quase natural que fizesse alguma coisa ligada à música. E mais: desde 2007, está casado com a pianista Renee Rosnes.
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| A imagem que ilustra a capa de Double Portrait |
Renee gravou o primeiro disco em 1989 pela EMI Toshiba. Contratada pela Blue Note, lançou vários álbuns que chamaram a atenção da crítica e tiveram boa receptividade de público. Bill lançou seu primeiro solo em 1993. Explica-se: ela é um pouco mais velha (é de 1962, e ele, de 1966). A parceria não é apenas doméstica: gravaram Double Portrait (Blue Note, 2010).
Para quem, como Carlos Conde, que não gostava de piano solo – tinha paixão pelo formato piano, baixo e bateria –, ouvir dois pianos então, era tortura chinesa ou garrote vil. Soube, outro dia, pelo Alberico Cilento, que foi um dos seus melhores amigos musicais, que ele detestava Herbie Hancock. É aquela história: gosto não se discute. Era tanto que, uma vez, ao gravar uma apresentação de Miles Davis, cortou as partes em que Hancock solava.
Dando meia razão ao Conde, dois pianos podem ser um excesso. Como adoro piano solo, gosto de dois pianos e a quatro mãos, tanto na música erudita como no jazz. Está certo que não significa prazer em dobro. Pode até, às vezes, ser um tanto chato, pelo excesso. Mas, vamos; e se os dois são Hank Jones e Tommy Flanagan, por exemplo?, ou Brad Mehldau e Kevin Hayes? Por alguma razão – e não é pelo Conde –, acho o de Herbie Hancock e Chick Corea (An Evening with HH & CC - In Concert) meio chato. Um recente de Chick Corea, dessa vez, com o italiano Stefano Bolani (Orvieto. ECM, 2011), em apresentação ao vivo, por enquanto, não me “pegou”; é questão de pensar que dois bons, na soma, não resultam em algo duplamente bom.
Esse não é o caso de Double Rainbow (Blue Note, 2010), perdão, Double Portrait. Título e capa bem-sacados, com a imagem de Acima da vila, de Marc Chagall. Perfeito. E o CD é ótimo. Começa bem brasileiro com Chorinho, creditado ao tecladista Lyle Mays. A próxima é a nossa Chovendo na Roseira com seu nome americanizado. É um belo tema instrumental e letra ótima (“Olha/ Está chovendo na roseira/Que só dá rosa mas não cheira/ A frescura das gotas úmidas/ Que é de Betinho, que é de Paulinho, que é de João/ Que é de ninguém!”… e termina com um “ah, você não é de ninguém.”).
Já que o assunto é “duplo”, Double Portrait não é o único de Charlap gravado com alguém da família. Antes desse gravou um álbum acompanhando a mãe. Chama-se Love Is Here to Stay (2005); mais “bandeiroso”, impossível. Sem julgar se Sandy Stewart é ou não uma grande intérprete, parece haver um respeito muito grande de Bill para com sua mãe; em excesso. A impressão é que ficou tímido. Não há um solo daqueles que ele costuma fazer quando toca com seu trio. Double Portrait é exuberante, quase explosivo, e esse com Sandy é tímido, contido. Ficamos a esperar um rompante, como um arranca-rabo entre mãe e filho, e isso nunca acontece. E se tudo parece tão harmônico, neuroticamente, estamos à busca de mais emoções, algo que nos faça duvidar do amor perfeito.
A música que você ouve é Double Rainbow, de Jobim.
Para quem, como Carlos Conde, que não gostava de piano solo – tinha paixão pelo formato piano, baixo e bateria –, ouvir dois pianos então, era tortura chinesa ou garrote vil. Soube, outro dia, pelo Alberico Cilento, que foi um dos seus melhores amigos musicais, que ele detestava Herbie Hancock. É aquela história: gosto não se discute. Era tanto que, uma vez, ao gravar uma apresentação de Miles Davis, cortou as partes em que Hancock solava.
Dando meia razão ao Conde, dois pianos podem ser um excesso. Como adoro piano solo, gosto de dois pianos e a quatro mãos, tanto na música erudita como no jazz. Está certo que não significa prazer em dobro. Pode até, às vezes, ser um tanto chato, pelo excesso. Mas, vamos; e se os dois são Hank Jones e Tommy Flanagan, por exemplo?, ou Brad Mehldau e Kevin Hayes? Por alguma razão – e não é pelo Conde –, acho o de Herbie Hancock e Chick Corea (An Evening with HH & CC - In Concert) meio chato. Um recente de Chick Corea, dessa vez, com o italiano Stefano Bolani (Orvieto. ECM, 2011), em apresentação ao vivo, por enquanto, não me “pegou”; é questão de pensar que dois bons, na soma, não resultam em algo duplamente bom.
Esse não é o caso de Double Rainbow (Blue Note, 2010), perdão, Double Portrait. Título e capa bem-sacados, com a imagem de Acima da vila, de Marc Chagall. Perfeito. E o CD é ótimo. Começa bem brasileiro com Chorinho, creditado ao tecladista Lyle Mays. A próxima é a nossa Chovendo na Roseira com seu nome americanizado. É um belo tema instrumental e letra ótima (“Olha/ Está chovendo na roseira/Que só dá rosa mas não cheira/ A frescura das gotas úmidas/ Que é de Betinho, que é de Paulinho, que é de João/ Que é de ninguém!”… e termina com um “ah, você não é de ninguém.”).
Já que o assunto é “duplo”, Double Portrait não é o único de Charlap gravado com alguém da família. Antes desse gravou um álbum acompanhando a mãe. Chama-se Love Is Here to Stay (2005); mais “bandeiroso”, impossível. Sem julgar se Sandy Stewart é ou não uma grande intérprete, parece haver um respeito muito grande de Bill para com sua mãe; em excesso. A impressão é que ficou tímido. Não há um solo daqueles que ele costuma fazer quando toca com seu trio. Double Portrait é exuberante, quase explosivo, e esse com Sandy é tímido, contido. Ficamos a esperar um rompante, como um arranca-rabo entre mãe e filho, e isso nunca acontece. E se tudo parece tão harmônico, neuroticamente, estamos à busca de mais emoções, algo que nos faça duvidar do amor perfeito.
A música que você ouve é Double Rainbow, de Jobim.
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