Quando aquele rapaz magérrimo entrou no palco, no Free Jazz Festival, em 1989, parte da plateia sabia o que podia acontecer. Alguns dos que lá estavam, conheciam John Zorn, por meio de seus discos “The Big Gundown” e “Spillane”, lançados em edições nacionais.
O som nervoso do sax alto do americano, eram mais frenéticos e ruidosos, ao vivo, quase insuportáveis. Não era para qualquer ouvido. Na mesma noite, estava programada a apresentação de outro representante do free jazz: Cecil Taylor. A debandada foi geral. Afinal, o nome do evento não era Free Jazz Festival? Eram a expressão do “free” Tinha esse nome em razão da marca de cigarros que o patrocinava. Nem tão free, o festival foi a oportunidade de conhecermos ao vivo músicos do quilate de Joe Pass, Chick Corea, Stan Getz, Dexter Gordon, John McLaughlin e muitos outros.
Nem tão fã de Zorn, por sua importância, nunca deixei de acompanhá-lo, mesmo que pouco ouvindo-o. Seus álbuns da série Masada tinham capas incrivelmente belas: douradas, com imagens que remetiam à cultura judaica. Os primeiros saíram, se não me engano pelo selo japonês DIW. Os músicos que tocavam com ele nos primeiros eram do primeiro time: Dave Douglas, Greg Cohen e Joey Baron ou Kenny Wollesen, na bateria.
Tempos depois, criaria a própria gravadora. No mesmo ritmo frenético com que soprava o saxofone, montava bandas, cada qual com direções musicais diferentes, dentre elas a Naked City, surgida com o disco do mesmo nome, a John Zorn’s Cobra, Hemophiliacs, além da Masada, citada em cima, Electric Masada, e gravou e produziu séries como a “Filmworks” e a “Book of Angels”. Lançou várias centenas de álbuns, com formações que tocam suas composições e de outros, nem sempre com sua participação como músico. Reuniu uma verdadeira constelação de artistas de todos os continentes, explorando ritmos e formas musicais, quebrando com os conceitos do que é erudito ou popular.
Na série da banda Masada, Zorn explora suas raízes com cerca de duzentas composições que representam uma música judaica do século 21. As formações musicais para o projeto, que envolve também os “Book of Angels” – até agora, são cerca de 30 álbuns –, vão desde formações clássicas como trios e quartetos de cordas, performances em que participa como músico, e também intérpretes como Cyro Batista, Greg Cohen, Jamie Saft, o trio Medeski, Martin and Wood, Bill Frisell, Mark Feldman e Joe Lovano. Outro projeto interessante, é uma série de discos em que toca órgão solo.
Zorn criou um verdadeiro acervo da música judaica, indo muito além do klezmer, tocado por músicos amadores, sem aprendizado formal, nos shtetls – aldeias ou guetos que se espalharam pela Europa Oriental. A sua exploração se expande pelas vertentes resultantes da diáspora dos judeus pelo mundo. É relevante a presença deles no lado ocidental da Europa, principalmente nos Países Baixos e na Península Ibérica. Os judeus sefarditas que habitavam a Península foram expulsos pela Inquisição. Muitos se converteram ao cristianismo e muitos foram para outros lugares, como o norte da África e a América do Sul. Um dos destinos foi o México e muitos continuaram, apesar de convertidos, a seguir os ritos tradicionais, clandestinamente.
Dora
Em primeiro lugar, tiveram de sair da Polônia, perseguidos, para não terem o mesmo destino de seus parentes e de milhões de judeus, os campos de concentração. A família de Dora Juárez Kiczkovsky, novamente, em virtude do recrudescimento da ditadura militar na Argentina, em 1976, resolveu mudar de país.
No México, Dora estudou cinema e na Escola Superior de Ensino de Música do Instituto de Belas Artes. Montou um trio com Leika Mochán e Sandra Cuevas. Gravaram ““Muna Zul”, nome que escolheram para a formação, que foi lançado pelo selo Tzadik, de Zorn, em 2006. Em relação ao cinema, colaborou com Werner Herzog, compondo para um de seus filmes.
Em 2013, foi a vez de “Notas Para Una Diáspora”. O título é ótimo, pois sintetiza o percurso dos judeus ao longo da história e, por conseguinte, a sua e de sua família. Com cantos sefarditas de “amor, morte, guerra e migração”, a artista mexicana de origem judia mergulha em suas raízes para enlaçar o ancestral com o contemporâneo”, assim a gravadora Tzadik a define. Dora interpreta canções sefarditas que remontam a Idade Média espanhola antes da diáspora, quando os reis católicos expulsam os judeus da Península Ibérica.
Nada melhor do que o próprio John Zorn explicar por que lançou esse álbum por sua gravadora: “Dora Juárez cria uma fascinante travessia musical, explorando sua própria identidade, rastreando as raízes judaicas de sua linhagem familiar do leste europeu, Espanha, Argentina, Israel e México. Esta é a história judaica apaixonada e intensamente pessoal contada por meio de canções sefarditas.” Quer melhor crédito?
Não é para todos os gostos, certamente. Mas basta deixar os ouvidos livres de quaisquer preconceitos para sentir a beleza e singeleza dessas canções ancestrais na doce voz de Dora.
Ouça “Las tres morillas”, a nona faixa do disco.
A minha preferida é “Por qué yorash?”
Dora canta “Morenica”. Beleza em estado puro.
