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terça-feira, 21 de julho de 2015

Uma noite especial com Antony

Capa do programa do show de Antony and The Ohnos
Em 1º de junho de 2010, morreu Kazuo Ohno. Cinco anos e um mês depois, seu filho Yoshito Ohno apresentou-se no Sesc-Vila Mariana, São Paulo, ao lado de Antony Hegarty e Johanna Constantine. Estivesse vivo, estaria completando 108. Atuou até os 100, sentado em uma cadeira de rodas.

O Brasil teve a oportunidade de vê-lo por três vezes. A primeira foi em 1986. Até então, poucos conheciam o butoh, movimento surgido no clima pós-guerra no Japão. Quem assistiu às apresentações de Ohno no Sesc-Anchieta foram arrebatados pela força de sua dança.

Antony, inglês de nascimento, cresceu nos EUA. Tinha 10 anos quando o pai, engenheiro, mudou-se para a Califórnia. Podemos considerá-lo um americano, portanto. Sua identidade sexual estava revelada quando tinha doze ou treze anos, segundo ele mesmo. Nunca foi uma questão tão complicada e diz que nem sofreu muito com o bullying por sua aparência andrógina. Hoje, prefere ser tratado pelo pronome feminino. Diz que é assim tratado pelos familiares e amigos. Afirma: ““ele” [he] é um pronome invisível para mim, me nega.”

Em 1990, mudou-se para estudar na New York University. Montou um grupo performático com Johanna Constantine, chamado Blacklips.

Ohno.  “A primeira vez que vi uma imagem de Kazuo Ohno foi quando eu frequentava uma escola em Angers, França, aos dezesseis anos. Fui imediatamente enfeitiçado. Quem era aquele belo ser, usando um vestido vitoriano e maquiagem pesada, pendendo em direção às estrelas?” Nem sabia quem era Ohno.

Cinco anos depois, em Nova York, assistia a um filme experimental chamado Just Visiting this Planet, de Peter Sempal: “Num certo ponto, um performer amdrógino aparece na tela dançando ao lado de um penhasco, espelhando as rochas despedaçadas com suas mãos expressivas. Fui transportado por essa graça infantil, uma graça de partir o coração: comecei a chorar. Fui para casa e fiquei chocado ao perceber que aquele homem era o mesmo do pôster sobre minha cama, agora dançando diante de meus olhos.” 

A imagem de Kazuo Ohno vestido de mulher, com uma flor presa nos cabelos, é a capa de seu CD mais conhecido: The Crying Light (Rough Trade, 2008). As outras são as da dra. Julia Yasuda, PhD. em matemática, nascida com síndrome de Kinofelter – ou 47,XXY – anomalia em que pessoas do sexo masculino nascem com dois ou mais cromossomos “x’; e a terceira é de Johanna Constantine.

Rob, Antony, Johanna e Yoshito
Antony poderia adotar seu verdadeiro nome como artista. Preferiu adicionar “Johnsons” – Antony and the Johnsons. Imagina-se que “os Johnsons” sejam os membros de uma banda. Mas não é. O “Johnsons” é uma referência à Marsha P. Johnson, drag queen americana, negra, ativista pelos direitos das minorias sexuais, que, mais tarde, morreu em decorrência da aids.

Assim como era “Johnsons”, nas apresentações no Sesc-Vila Mariana, SP, a banda virou Antony and the Ohnos. São dois os “Ohnos”: Kazuo, que aparece em cenas projetadas em uma grande tela de filó, e seu filhoYoshito em carne e osso. O terceiro “membro” é, justamente, Johanna Constantine, homônima de personagem da HQ Sandman, de Neil Gaiman, companheira de suas primeiras performances. Uma quarta figura, a única “normal”, é Rob Moose, violinista e violonista que, discretamente, senta-se ao lado de Antony.


O início. As luzes se apagam e uma música eletrônica ensurdecedora e irritante serve como fundo para a entrada de Johanna vestindo o mesmo figurino de outras apresentações: um collant branco manchado de vermelho imitando sangue que escorre do seu rosto até os seus pés, que se equilibram em um sapato que aumentam ainda mais sua estatura. Cenas do vídeo Mr. O’s Book of the Dead, com Kazuo, são projetadas. Quando sobe a cortina/tela, vemos Antony sentado ao piano, cantando os primeiros versos de Hope There’s Someone, do CD I Am a Bird Now. Emenda com You Stand Above Me.

Vê-lo pela primeira vez me causa a mesma impressão de quando pus o CD I Am a Bird Now (Secretely Canadian, 2004). Ficara encantado com a força dessa canção e a sensação vulnerabilidade e fragilidade em sua voz. Era diferente de tudo o que até então ouvira. Pensei em alguma relação com  Marc Almond. Sua figura, ao fazer uma busca na internet, era a de, segundo um amigo diria mais tarde, era a versão Boy George com alguns quilos a mais, na capa de seu disco anterior, que iria conhecer logo depois, ao recebê-lo pelo correio. 

O encarte de I Am a Bird Now mostrava uma imagem que parece a de um manequim com peitos que parecem reais, outra com os dizeres “hope” e “box 3” grafadas no que parece ser uma parede, uma foto em PB de uma loura deitada com uma rosa sobre o lençol e dois vasos de flores ladeando-a, e, finalmente, uma figura andrógina com cada olho pintado de uma cor, que era Antony.

A magia para todo fã é a de reconhecer cada canção aos seus primeiros versos e acordes. Antony, sempre ao piano, segue com My Lady Story, Cripple and the Starfish, Hope Mountain, Epilepsy Is Dancing, You Are My Sister, The Crying Light e algumas outras que não lembro. Fecha com um clássico dos anos 1930: Falling in Love Again. Certamente, a referência de Antony para essa canção deve ser a de Marlene Dietrich.

Veja Antony e orquestra na pungente Cripple and the Starfish.


Hope There’s Someone foi a faixa que abre a apresentação de Antony. Veja-o no programa de Jools Holand.



Oh! No! Onde entra Yoshito Ohno? Dançando em algumas canções. A dança de Yoshito não tem a força expressiva do pai. As entradas de Johanna – no início e no fim – também, e os trechos do vídeo, não formam um conjunto harmonioso com a música de Antony. Falta liga para os quatro elementos. Nesse sentido, o que valeu mesmo a pena, para mim e para muitos que foram assistir ao espetáculo, foi a oportunidade de ver Antony ao vivo. 

Mas tudo é estranho em Antony. Prefere ser chamada no feminino. Mas é difícil, se chama-se ainda Antony. E, apesar dos cabelos longos, não se veste como mulher – prefere calças pretas e botas –, não tem os corpos com formas femininas e tem um pouco mais de 1,8 metros. É um transgênero, enfim. É inclassificável, até musicalmente.


Veja o clipe de The Spirit Was Gone, com imagens emocionantes de Kazuo Ohno e o filho Yoshito.


Veja o clipe de Epilepsy Is Dancing, canção que fez parte do show de São Paulo.


Veja o clipe de Twilght, canção que é parte do filme Turning, de Charles Atlas, com Antony e Johanna.

sábado, 19 de junho de 2010

Relações entre Kazuo Ohno e Antony and The Johnsons

Um dos grandes acontecimentos da década de 1980 foi a vinda, pela primeira vez ao Brasil, de Kazuo Ohno. Exagero? Pode ser. Garanto, no entanto, que quem assistiu às suas apresentações no Sesc-Consolação-São Paulo concordarão comigo. Ohno foi o propagador dessa forma de dança-teatro chamada butoh – ou teatro das trevas – com seu parceiro Tatsumi Hijikata. O responsável por sua vinda aqui, além de Antunes Filho, foi outro japonês, Takao Kusuno, como o seu irmão Tomoshigue, ligado às artes, ambos emigrados e de carreiras relevantes no meio artístico paulista.
A emoção causada por aquele senhor quase octogenário maquiado de branco, vestido com roupas femininas pode ser descrita – ou não – se só sentida, apenas pelos que tiveram o privilégio de vê-lo. Esteve mais duas vezes no Brasil. Contudo, foi tão forte a impressão causada que me recusei a vê-lo novamente, receoso de manchar aquele primeiro impacto. Tornou-se um mito e ficou num lugar acima dos que ocupamos, os humanos.
Pois, agora no início do mês de junho, fico sabendo que faleceu. Com 103 anos. E eu que o achava imortal, como os deuses. E era humano, como nós. O butoh, modalidade de dança surgida depois da tragédia da Segunda Guerra Mundial, era a manifestação da transcendência da morte… ou da vida? Em suas apresentações, o corpo magro e carcomido de Ohno era a própria transcendência, da indivisibilidade da vida/morte, em seu físico incorpóreo, branco como um fantasma diante de um cenário desnudo e negro.
Não é simples coincidência de que Kazuo Ohno esteja na capa do ultimo CD de Antony & The Johnsons. Há algo de estranho nesse compositor californiano e – muito mais – intérprete que se chama Antony, sem o “h” costumeiro na grafia em inglês deste nome. E esses “Johnsons”, quem são? E quem, porventura viu alguma de suas apresentações, sabe que tem muito mais que isso de estranho. É uma figura obesa de longos cabelos despenteados e ralos em seu topo e lábios muito, muito finos, quase que como se não os tivesse, meio assexuado, ou se quiserem, de aparência afeminada. Sua voz não é nem a de um homem e nem a de uma mulher, se se considerar que existe uma “terceira via”. Não é a voz de um castrati nem de falsete como a de Ney Matogrosso ou Jon Anderson, cantor do grupo de rock progressivo Yes. Um amigo, ao ver a capa de seu primeiro álbum, achou-o uma mistura de Boy George gordo com Nina Hagen.
Tal qual um curioso acidental, incidentalmente, em uma de minhas viagens, comprei o I Am a Bird Now sem saber muito dele, apenas aquela curiosidade por aquela personagem excêntrica. Foi um soco no estômago: a primeira faixa, Hope There’s Someone, foi um dos “impactos à primeira vista”. Temeria dizer que tenha sido “amor à primeira vista”, pois faltavam adjetivos que o classificassem, pego no “susto” que fui. Era uma voz triste e expressiva no entanto, estranha. É claro que fui atrás do primeiro CD lançado, que não é tão bom e nem tão impactante quanto I Am a Bird Now. Não me alongo sobre os dois primeiros CDs, que serão para uma outra hora.
O mais recente, The Crying Light, lançado em 2009, é um belo disco, sem dúvida. Tocante, com arranjos belíssimos em que se realçam as cordas sobre linhas de piano e belas intervenções de sopros, como a flauta e a clarineta, é, como o anterior, com aquelas baladas tristes e melancólicas. Her Eyes Are Underneath the Ground, que se inicia com sua voz, o piano e um cello é uma excelente introdução da capacidade de Antony Hegarty emocionar a nós todos com sua voz “triste”. É de quase chorar – digo para aqueles que estão naqueles momentos específicos de fragilidade ou sensíveis como finas camadas de cristal – quando canta por misericórdia (“In the starlight you came from the other side/ To offer me mercy/Mercy/Mercy”) em One Dove. Depois do primeiro refrão, entra um solo de sax que apenas impulsiona o sentimento de abandono. Mesmo nas músicas mais “alegrinhas”, o tom que sobressai é o da melancolia: é como se a alegria fosse um sentimento insuficiente em sua alma. Antony tem algo de cantor de cabaré, digo por uma certa teatralidade no seu modo de cantar, que lembra um pouco a de Marc Almond, criador do Soft Cell nos anos 1980. Mas não é apenas por isso: é também por sua androginia, no seu modo de vestir embaralhando peças masculinas com femininas, no seu jeito delicado de arrumar o seu “despenteado”, enfim é uma figura exótica, capaz de causar tanto impacto quanto ver pela primeira vez a figura de Kazuo Ohno no palco.
Na capa, uma foto de Kazuo por Naoya Ikegami. Nas internas do encarte mais três imagens: a de Antony, uma foto escura com um brilho raiado no olho, uma de Johanna Constantine – que é o mesmo nome de uma personagem de Sandman, criação de Neil Gaiman – banhada do que parece sangue – na busca pelo Google, fez parte de um grupo chamado The Blacklips Drag Theater, do qual Antony era um dos componentes –, e a dra. Julia Yasuda, phd em matemática, nascida com algo designado como síndrome de Klinefelter, qualificada como uma desordem cromossômica em que seres do sexo masculino nascem com um cromossomo X a mais – novamente, Google como fonte –, que, como Johanna, participou de performances e apresentações com o cantor. Bom, é muita esquisitice de uma vez. Estranho e belo.


Veja e ouça:
Hope There’s Someone.



Para ouvir o disco Crying Light, acesse: http://www.jango.com/music/Antony+and+the+Johnsons?l=0