quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

David Bowie, jazz e Dylan Howe

Bowie e Catherine Deneuve, em Fome de Viver
Até no último ato, David Bowie foi gênio. Foi uma saída espetacular: anunciou a própria morte no clip Lazarus e sem que ninguém ao menos imaginasse que estivesse perto de morrer. Blackstar (★) estava programado para ser lançado no dia de seu aniversário, mas vazou uns dias antes pela internet. Isso pouco importa. O caso é que Bowie morreu, muito cedo. 69 é pouco. Sinal que, como em The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott, tenha percebido que a vida era finita. Mas, imaginamos que pudesse ser imortal. Pensando bem, talvez, nunca tenha sido desse mundo, na verdade, como a personagem de The Man Who Fell to Earth (O Homem Que Caiu na Terra, de Nicholas Roeg).

Dentre a série de “transformações” do cantor, uma das mais interessantes é a que corresponde ao tempo em que morou em Berlim. Os álbuns Low, Heroes e Lodger compõem o que ficou conhecido como a “Trilogia de Berlim”. Os três contaram com a colaboração de Brian Eno e é a fase mais experimental de Bowie, quando flerta com a música ambiental, o minimalismo e o jazz. Nas várias faixas instrumentais, toca saxofone. São quase sempre climáticas, soturnas, bem ao gosto do produtor Eno. Uma curiosidade: Robert Fripp foi convidado para participar de Heroes (é sua a guitarra na música título); mandaram uma passagem. Foi a sua primeira viagem na primeira classe, disse ele.

★ recebeu vários tipos de críticas, inclusive negativas, logo depois de lançado. Provavelmente, agora que morreu, será elogiado unanimemente. É, a morte faz coisa. Mas não é um álbum para todos os gostos. Alguns críticos, ao ouvirem ★ , lembraram-se da “Trilogia de Berlim”.

Veja o clipe de Lazarus.




Dylan Howe e Bowie jazz

Um dado bastante ressaltado de ★  foi a formação instrumental. Apesar de contar com seu tradicional produtor, Tony Visconti, optou de ser acompanhado pela banda do saxofonista Don McCaslin, composta pelo guitarrista Ben Monder, Tim Lefebvre (baixo), Jason Lindner (teclados) e Mark Guiliana (bateria). É uma formação bem jazzística.

Por coincidência, andava ouvindo Subterraneans - New Designs on Bowie’s Berlin, de Dylan Howe. Este baterista inglês é um rapaz ainda, e sendo filho do guitarrista Steve Howe, que foi do Yes, deve ter crescido ouvindo os sons do pai e de David Bowie, certamente. Nesse álbum, Dylan baseou-se no repertório da trilogia de Berlim. Esse fato despertou a minha curiosidade. 

De Low, Dylan e sua banda tocam Subterranean, Weeping Wall, All Saints, Some Are. Art Decade e Warzawa, de Heroes, Moss Garden e Neuköln. Como não poderia deixar de ser, o clima é igualmente soturno.

A banda de Dylan é formada por Brandon Allen (sax tenor), Ross Stanley (piano e sintetizadores), Mark Hodgson (baixo acústico), Adrian Utley (guitarra), e conta com a participação do pai Steve Howe tocando koto em Moss Garden.

A faixa que era a última da edição oficial de Low é a que abre o álbum Subterraneans. O mesmo clima fantasmagórico e claustrofóbico está presente na concepção de Howe. Quem conhece Subterraneans deve lembrar-se dos teclados de Eno, do saxofone alto e os vocais de Bowie. São sete minutos e poucos de magia que servem de apresentação para o disco.

Ouça Subterraneans.



All Saints, a segunda, já tem o tom bem mais jazz, com marcações de contrabaixo bem definidas, que mudam de andamento repentinamente acompanhando o belo solo de Ross Stanley ao piano. As breves notas ao sintetizador que se alternam funcionam muito bem como contraponto do elétrico com o acústico.

O disco é excepcional. Dylan une a atmosfera dos originais com a linguagem improvisativa do jazz. Em vários momentos, lembra as jornadas musicais do guitarrista Terje Rydal, construindo um som original unindo o acústico e o eletrônico. Essencial, esse álbum merece as cinco estrelas que recebeu pela revista Downbeat.

Ouça o álbum em sua íntegra.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Natalie Cole e seu pai

A pequena Natalie com o pai Nat
A tragédia rondou os próximos de Picasso depois de sua morte. Considerado o maior pintor do século 20, foi um gênio também na arte de conquistar as mulheres. Era um touro misógino e ególatra. Os filhos foram meros detalhes – ou acidentes – e pouco receberam atenção. O que importava era o seu trabalho e mulheres para aplacar os desejos do priápico artista.

Quando morreu, Jaqueline Roque, sua última mulher proibiu a presença de dois dos filhos no funeral. O neto Pablito, filho de Paulo, um dos proibidos de despedir-se, dias depois, bebeu água sanitária e após três meses morreu. Paulo, seu pai, dependente da ajuda financeira do pai e rejeitado, morreu dois anos depois, vítima do alcoolismo. Marie-Thérèse Walter, uma de suas amantes suicidou-se em 1977. Jaqueline também suicidou-se, em 1985. Paloma Picasso, filha dele com Françoise Gillot, conseguiu dar a volta por cima: escandalizou posando nua e depois ficou conhecida pelo trabalho como designer de joias e por ter um perfume com seu nome.

Na época em que Picasso morreu, o artista plástico Luis Paulo Baravelli, costumeiro autor de belas tiradas, dizia que a pior coisa do mundo era ser filho de gênio. O filho de Frank Sinatra resolveu ser cantor, assim como Nancy. Ela, pelo menos, fez algum sucesso, por um tempo. Como Paloma, posou nua, aproveitando-se de um de seus bons atributos. Com o pai que teve, assim mesmo Natalie Cole resolveu ser cantora.

Nat, nascido Nathaniel, foi um dos gênios musicais do século 20, assim como foi Picasso em sua especialidade. Não foi à toa que o “King” foi agregado ao seu nome. Os mais puristas gostam de dizer que Nat King Cole foi um gênio ao piano e, cantando, curvou-se ao comercialismo. Mas é isso mesmo: sua enorme popularidade veio pela bela voz de barítono, cálida, capaz de emocionar o mais bronco da humanidade, cantando Blue Gardenia, When I Fall in Love, Unforgettable, Nature Boy e tantas outras canções.

King Cole foi revolucionário ao piano com seu trio constituído apenas de uma guitarra e um contrabaixo. Fez escola. Influenciou Oscar Peterson, Ahmad Jamal, Monty Alexander e muitos outros nascidos depois. Tocando com seu trio, vez por outra, cantava. Perceberam a bela voz que tinha. O tremendo sucesso resultou em dinheiro. Foi morar em uma bela mansão em Los Angeles, cercada exclusivamente por brancos. Pior de que agora, sofreu com a discriminação, muito mais presente e até natural para a maior parte da sociedade americana da década de 1950.

O sucesso foi tanto que ele foi um dos primeiros negros a ter um programa de televisão. Em novembro de 1956, estreou o seu Nat King Cole Show, na NBC. Durou pouco. Visto por negros e brancos, fez sucesso e trouxe grandes atrações, mas não conseguiu anunciantes e patrocinadores. Durou pouco. Perguntado sobre o fim do programa, Cole disse: “A Madison Avenue tem medo do escuro.” A avenida Madison é onde até hoje estão concentradas as maiores agências de publicidade.

Sucesso e dinheiro não correspondem garantia de longevidade. O cigarro o matou com 45 anos. Natalie Cole era uma adolescente na época. 

Natalie teve um início auspicioso como cantora. Sabia muito bem do peso do nome do pai e preferiu evitar possíveis comparações. Por isso, seguiu por outra seara. Filha de outros tempos, seu gosto era mais pop. Seus produtores imaginaram que teria bom potencial seguindo pelas sendas do rhythm’ blues e da soul music, que estava dando muito certo com Aretha Franklin. E foi assim. Emplacou várias canções entre os primeiros

Orfã aos 15, dando-se bem mal com a mãe, alguma coisa fez com que a carreira desandasse. Entrou pesado pelas carreiras da cocaína, heroína, e ainda o álcool. Teve de ser internada. Acabou, ou melhor, acabou-se.

Recuperada, com Everlasting, em 1987, voltou às paradas. Atingiu a marca de um milhão de discos vendidos. Cole estava de volta. Mas a consagração veio com Unforgettable… with Love, de 1991. O grande hit foi Unforgettable, em que Natalie Cole faz um “duo” com o pai. “Ressuscitaram” Nat e colocaram a voz da filha.  O duo tem um valor simbólico forte, pois assim, liberta-se da pesada herança que é ter um pai gênio.  Deixou as drogas, aparentemente, e ficou em paz com o pai e com o sucesso. Ao contrário de antes, Natalie passou a incluir temas mais ligados ao jazz.

Por um pouco de preconceito, alguns puristas, simplesmente, ignoram Natalie ou a chamam de medíocre. A comparação com o talento do pai é injusta. Não considerada, deve-se reconhecer que tinha boa voz e não fez feio cantando standards.

No dia 31 de dezembro do ano passado, Natalie foi fazer companhia ao pai. Tinha hepatite C e a causa mortis foi uma insuficiência cardíaca, provocada por uma hipertensão arterial pulmonar idiopática.

O duo Unforgettable




Veja Natalie com Diana Krall.




Ouça What a Difference a Day Made, que ficou clássica com Dinah Washington.