quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cybill Shepherd estava podendo

Cybill Shepherd em dois momentos de glória
Quem assistiu a A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show)? Quem não viu? Pode ter envelhecido, afinal, é de 1971; e, hoje, nem se fala mais de Peter Bogdanovich. É o problema de ter começado a carreira realizando grandes filmes. Como disse Scott Fitzgerald, se você chega no topo antes dos 30, o resto é anticlímax. O autor de Suave É a Noite e Grande Gatsby foi exemplo do próprio dito. O primeiro longa de Peter – Targets (Na Mira da Morte, no Brasil) – era um tremendo filme. Menos de três anos depois, em 1971, fez outro, melhor ainda.

Bogdanovich pode ser considerado uma versão americana de seus colegas franceses da nouvelle vague. Era um estudioso, e por conta disso, foi programador de cinema do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), prestigiando John Ford e cineastas não tão valorizados pela crítica americana, como Howard Hawks, e colaborou com artigos na revista Esquire. Quando Roger Corman o convidou para dirigir um filme com Boris Karloff – que seria o derradeiro de sua longa carreira–, Peter já sabia tudo sobre cinema.

O seguinte – A Última Sessão de Cinema – é um daqueles filmes que marcaram uma geração e lançaram atores como Timothy Bottoms, Jeff Bridges e Cybill Shepherd. Na condição de representante do sexo masculino, posso garantir que Jacy Farrow e, por extensão, Shepherd, habitaram e alimentaram fantasias mais e menos nomeáveis. A cena dela na piscina, em uma “festinha de arromba”, é clássica.



Shepherd era uma explosão de sensualidade; Jacy era a garota espevitada e atrevida de uma pequena cidade americana.

Cybill teve lições de canto. Chegou a participar de um concurso cantando Don’t Think Twice It’s All Right, de Bob Dylan, acompanhando-se ao ukulele (para quem não sabe que instrumento é esse, leia http://bit.ly/LhPVJq). Não levou. Estudou canto em Nova York, Los Angeles e Roma almejando uma carreira como intérprete lírica. A beleza de uma mulher faz coisa: foi capa de revista (Glamour Magazine), o que chamou atenção de Peter Bogdanovich. Sem saber entre o que o que escolher, ajudou-a na decisão o conselho de Orson Welles: disse-lhe que era preferível escolher a carreira de atriz à de cantora. Mesmo assim, segundo ela, em seu site: “continuei a estudar e cantar standards de jazz”.

Como atriz, Shepherd teve oportunidade de usar seus dotes vocais em Amor, Eterno Amor (At Long Last Love, 1975), dirigido por Peter novamente, seu namorado, na época. Fizeram juntos Daisy Miller (1974) também. Esses dois filmes eram um tanto ruins, comparados aos primeiros do diretor.

Em relação a Amor, Eterno Amor, no site, Cybill escreve: “Para a minha decepção e embaraço, uma crítica dizia ‘Cybill Shepherd não consegue andar, falar, muito menos cantar.’ Ele estava certo quanto a andar e falar, mas eu cantei muito bem, considerando-se que tudo foi feito sem montagens (overdubs). Outra publicação escreve que eu tinha o charme de um hamster. Determinada a provar que estavam errados, chamei Stan Getz e ele aceitou em participar de Mad About the Boy, em 1976 (mais tarde relançado com o nome de Cybill Getz Better).”

Beleza e charme são poderosos motivos para se aceitar um convite desses. E não é que Shepherd gravou um disco, não apenas com Stan Getz, mas com outro monstro do “west coast jazz”? Frank Rosolino, um dos maiorais do trombone! Ela estava podendo! O disco contou com arranjos (e no violão) de Oscar Castro Neves. E foi assim que Cybill Shepherd fez seu disco com standards. Ouça This Masquerade, com direito a solo de Getz.



As carreiras de Peter e Cybill entraram em descenso mais ou menos nessa época. Ela experimentou um “rittorno” às luzes em um seriado que, no Brasil, se chamou A Gata e o Rato, exibido na rede Globo. Moonlighting (era o título original), curiosamente, serviu para lançar seu parceiro Bruce Willis na trama ao estrelato. Devo ter assistido a alguns episódios (a série durou de 1985 a 1989), mas não lembro de um único. Na busca, descubro uma performance musical dela. Veja-a cantando Blue Moon. Cybill…, ah como era bela! Não me surpreendo que Stan Getz tenha topado participar de um disco de uma cantora que, com toda a boa vontade, pode ser considerada mais ou menos.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O chamado de Milton Nascimento

André Mehmari, um mestre no piano e compondo
Provavelmente, a informação fosse menos pulverizada há trinta anos e fôssemos mais jovens e nos reuníssemos mais, em virtude de sermos estudantes e “desocupados”. Os interesses eram muito próximos e as conversas e gostos, como em qualquer grupo, tendiam a ser parecidos. Milton Nascimento era uma unanimidade, mais até do que Chico Buarque e Caetano Veloso. Em 1976, quando foi lançado um disco chamado, simplesmente, Milton, gravado nos EUA, com participação de Herbie Hancock e Wayne Shorter, em menos de uma semana, todos o conheciam de cor e salteado – como se dizia antigamente –, e qualquer conversa, se fosse sobre música, giraria em torno de Milton. Dois vocalises eram os nossos preferidos: Francisco e The Call (A Chamada). Esta última não era inédita; tinha sido gravada em Milagre dos Peixes, em 1973. Mas a do disco americano era especial. Milton, dois anos depois de ter se tornado conhecido no Brasil,  gravaria Courage, pela americana A&M Records, em 1968. Seu segundo disco “americano” foi uma espécie de continuação a Native Dancer (1975), disco de Wayne Shorter.

Nem um ano depois de lançado Milton, nasceu André Mehmari, em Niterói, RJ. Em uma apresentação de muito tempo atrás, no SESC-Pompeia, de Jussara Silveira, fiquei impressionado com o pianista. Minha memória de filtro Melita não registrou o seu nome, mas acho que era ele. Desde que o “descobri”, efetivamente, na medida do possível, tenho comprado seus discos. Um dos que mais tenho ouvido se chama Lachrimae (Cavi Records, 2005). É um CD com algumas composições próprias e alguns clássicos como Dindi, Só LoucoFranciscoAmor Perfeito (Nelson Cavaquinho e Guilherme Brito) e um Pra Dizer Adeus (Edu Lobo) de ouvir de joelhos.

Pois estava falando do disco que Milton lançou em 1976. Não sei se são muitos que conhecem a sua interpretação de Francisco, com vocalise de Monica Salmaso. Vale ouvir.




Ouça a original, com Milton. Não vale comparar, por favor.