Depois do sucesso tardio, Sharon Jones poderia ter destino mais róseo. Ao sucesso estrondoso de 100 Days, 100 Nights (2007), emendou com I Learned the Hard Way (2010). Estigmatizada por ser negra, gorda e feia, não viu a carreira decolar apesar da voz excepcional. Foi trabalhar de carcereira em um presídio americano. Continuou a dar suas palhinhas em pequenos clubes e assim foi descoberta pelo pessoal do selo Daptone. Lançou dois álbuns antes de 100 Days. A banda que a acompanhava, os Dap-Kings, participou de um disco de Amy Winehouse. Aí, descobriram Sharon Jones.
Quando tudo parecia estar bem, com a vida feita, dinheirinho na mão, descobriu que estava com câncer no pâncreas. A mesma força que a fez persistir até ser descoberta, trouxe energia para que vencesse mais essa batalha. Ainda sem cabelos por causa da quimioterapia, gravou Give the People What They Want. O título é perfeito. Sharon não deixa a peteca cair e nos dá o que queríamos dela. É um disco curtíssimo, com dez músicas, menos de 30 minutos no total. Pode não ser tão bom quanto os dois anteriores, mas é muito melhor do que o monte de lixo que é lançado ultimamente.
Veja o vídeo promocional do lançamento, com Retreat, a primeira do disco.
O tempo passa e sem dó. Alguém consegue imaginar Jim Morrison com 70 anos, que é quanto completou em 8 de dezembro? Previsões do futuro pretérito são sempre desastrosas. Provavelmente estaria um caco, caquético, decadente, horroroso sem nenhuma sombra do gênio que foi. Tampouco acredito que os homens cumprem seu destino na Terra. Não é possível imaginar que um bebê que morre cinco dias depois do nascimento possa ter cumprido sua tarefa aqui na Terra. Não sei se é por isso que, antigamente, se falava que aqueles que morriam tão cedo, nem a tempo de serem batizados pela igreja católica, eram considerados “anjinhos”. O purgatório – parece que não existe mais, abolido pela Igreja – era pior do que o céu ou o inferno.
O fato é que morrer velhinho não é garantia de nada em relação ao que um cara talentoso como Morrison poderia estar fazendo com 70 anos. Ele é do “grupo dos 27”, ou seja, aqueles que morreram aos 27: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones e, mais recentemente, Kurt Cobain, líder do Nirvana, e Amy Winehouse. Hendrix e Janis estavam à toda quando morreram. Suas mortes parecem ter sido acidentes de percurso. O caso de Jones é um tanto estranho. Colocaram até a culpa sobre Mick Jagger e Keith Richards, seus companheiros de banda.
O álcool e as drogas estavam atrapalhando bem a vida de Amy, pouco antes de morrer. Jim Morrison, aparentemente, estava num estado que nos faz pensar que, vivo ou morto, estava morto. Deixou crescer a barba, tinha engordado, e, dizem, impotente. Está enterrado no Père-Lachaise, Paris, muito bem acompanhado por Balzac, Oscar Wilde e Marcel Proust.
A morte precoce do artista faz parte do ideário romântico. Werther, personagem criado pelo Goethe da primeira fase, é o símbolo da ideia do irrealizado, do amor impossível. Sabe-se de muitos leitores que se suicidaram, naquela época. Um dos mestres do romantismo na música, Franz Schubert, compôs centenas de lieder, alguns com versos do escritor. No imaginário geral, o romântico morre jovem, de tuberculose. Era bonito morrer desse mal.
Não foi o caso de Schubert. Seu exemplo foge bem desse ideário. Nascido em em 1797, morreu com 31 anos. Mas não foi por amor nem de tuberculose. Dependendo do ponto de vista, pode até ter sido por amor, pois a sífilis, normalmente, é transmitida por vias sexuais.
Schubert viveu uns quatro anos a mais que Jim Morrison e produziu infinitamente mais. Só de lieder (canções com letras) compôs cerca de 600, fora trios, quartetos e quintetos maravilhosos e sonatas para o piano sublimes.
Ouça Die Liebe hat gelogen, um dos lieder mais belos de Schubert com Elly Ameling. É muito bom.
Mesmo assim, em vida Morrison foi um acontecimento. Afrontou o establishment de maneira mais acintosa que seus contemporâneos Janis Joplin e Jimi Hendrix. Desafiou a autoridade policial com discursos e atitudes desafiadoras. Teve apresentações interrompidas pela polícia e foi preso mais de uma vez. Morrison possuía beleza apolínea, mas tinha Dionísio e o diabo no corpo. No fim da vida deixou-se ficar gordo e deixou crescer a barba. Foi mais uma negação ao establishment.
No total, são seis álbuns. Depois da morte de Morrison, os remanescentes continuaram por um tempo. Sem ele, The Doors virou nada. Gravaram dois discos que cairam no ocaso. Agora, no fim de 2013, depois da morte de mais um “doors” – Ray Manzarek – voltaram a se reunir, depois de uma longa batalha judicial pelos direitos do nome “The Doors”. O baterista John Densmore, no início deste século, não gostou nem um pouco quando Manzarek e o guitarrista Robby Krieger se apresentaram com o nome original da banda.
Qual é o melhor de todos? Cada um tem sua preferência. Para mim, é Strange Days. Por coincidência – ou não –, foi o primeiro deles que comprei.
Ouça a música título.
You're Lost Little Girl, a segunda, é excepcional também.