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terça-feira, 24 de março de 2015

Susannah McCorkle. Entre a arte e a vida

Quando estava no ensino básico, havia uma professora muito alegre e sorridente. Esqueci seu nome. Gostava de suas aulas de português. Andava animado depois de ter uma de minhas redações elogiada em aula. Mas essa alegria me parecia falsa. No meu início de adolescência, ficava com a sensação de que aqueles esgares, sua animação e jovialidade escondiam uma tristeza profunda. Nunca tive a confirmação de que era fato, porém.

Agora, no começo do ano foi lançado Adeus – The Berlin Concert. É a gravação de uma apresentação de Susanna McCorkle de 1996, descoberta pelo jornalista e escritor Siegfried Schmidt-Joos. É um show eletrizante e vemos uma Susannah animada, cheia de energia. Ficamos contagiados. É acompanhada por Kai Rautenberg (piano), Walter Gauchel (saxofone tenor), Dave King (baixo elétrico) Ned Irving (bateria). É um daqueles eventos que nos faz imaginar como deve ter sido bom ter estado sentado na plateia.

Aproximadamente cinco anos depois, McCorkle pulou para a morte do 16º andar de um prédio em Nova York. Tinha 55 anos. Deixou uma carta para os familiares cujo teor nunca foi revelado. Fica o mistério. Era uma cantora prestigiada pelos críticos, lançando discos por um grande selo de jazz; por qual razão teria cometido um ato extremo como o suicídio?

Susannah, como Stacey Kent, saiu dos EUA, onde nasceu, e foi estudar na Europa. Stacey foi fazer literatura comparada na Grã-Bretanha; ela foi estudar literatura italiana. Ao contrário da maioria de suas colegas de profissão, tinha base acadêmica suficiente para aventurar-se pela ficção e para escrever sobre intérpretes como Bessie Smith, Ethel Waters, atrizes (Mae West) e compositores (Irving Berlin). [leia mais em http://bit.ly/1H3uaWP]

Ela era fluente em quatro idiomas, inclusive em português. Tinha paixão por Billie Holiday e pela música brasileira. Em Adeus, lançado pela Sonorama, canta uma canção de Haroldo Barbosa que apenas os que conhecem muito a nossa música poderiam saber de sua existência: Adeus América. Canta em bom português e em inglês com versão dela mesma.

Ouça. Perfeito. E com balanço.




Outra boa performance é cantando Pra Machucar Meu Coração, de Ary Barroso. É mais uma que não faz parte do repertório costumeiro do cancioneiro brasileiro que os estrangeiros cantam.

Ouça.





A vibração de Susannah no show em Berlim era a alegria do comprometimento com a sua arte. Na vida, a realidade era outra. É reveladora a afirmação de que era solitária e introvertida e que tornar-se cantora a fez encontrar a sua tribo, que era igualmente assim, mas eram grandes músicos de jazz.


Um bônus. Não é de Adeus. Ouça Águas de Março, com McCorkle. Está no álbum From Bessie to Brazil (1983)




segunda-feira, 16 de maio de 2011

O interesse pela língua portuguesa não é só de Stacey Kent

Stacey Kent é a encarnação da empatia (simpatia, para ser mais exato). No ano passado, prometera que, em sua próxima apresentação no Brasil, falaria em português para a plateia. Feito. Entre um número e outro conta que há três anos, ela e Jim se inscreveram num curso de língua portuguesa, e a premissa inicial do aprendizado era não conversarem em inglês durante as primeiras sete semanas (não lembro, exatamente, acho que eram sete semanas mesmo). No início, era “bom dia”, “como vai?”, “te amo”, mas, pouco a pouco o repertório de frases aumentou.

O que, inicialmente, muito por conta de que celebrada é ela e não ele, parecia que o propósito de aprender português era dela. Engano. O interesse foi de ambos, aparentemente, pela música, pelo menos. Jim gravou Brazilian Sketches em 2003, até então, Stacey, que me lembre, nunca tinha registrado uma música brasileira em discos. Nos “desenhos brasileiros”, Jim gravou clássicos conhecidos de Jobim, Bonfá e Marcos Valle. Em The Lyric, lançado em 2007 por uma gravadora chamada Token. e foi relançado agora em 2011 pela Blue Note, bem maior e melhor distribuição, o amor pela música brasileira persistiu. Trocaram só a capa e corrigiram o “manha de carnival” (leia em http://bit.ly/m9Yu1j).

Mas Stacey não é a pioneira em cantar em português. Quem não se contorceu na poltrona ouvindo uma tonitruante “bonita” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald cantando Corcovado? Velha “tchama”, é ”têrrr” tempo para amar, o Cristo “Redêntor” e outros achados “portuguesísticos” doem nos ouvidos brasileiros. E quando canta Água de Beber? Veja, nada contra a grande dama do jazz que adoro (a propósito, tenho um texto sobre ela em http://bit.ly/mimlrz).

Cantar em português deixou de ser um desafio para intérpretes da língua inglesa. Antes de Stacey, Fleurine (mulher do pianista Brad Mehldau, ambos “fregueses” do Brasil), Susannah McCorkle (leia http://bit.ly/kRy8r2) e Karrin Allyson cantaram em português com muita propriedade.

O charme de Karrin Allyson é comparável ao de Diana Krall
McCorkle, à semelhança de Kent, aprendeu a língua portuguesa (era fluente em italiano) e era ligada nas letras (publicou como escritora vários livros). Stacey foi morar na Inglaterra para fazer um mestrado em literatura comparada e é amiga do nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

O gosto pela música brasileira de Allyson está estampado em dois álbuns: From Paris to Rio – lançado em 1999, há onze anos, portanto – e Imagina: Songs of Brasil (2008). Em Imagina, título escolhido em razão de ter sido a primeira composição de Tom Jobim, que depois recebeu letra de Chico Buarque (isso segundo o que Karrin Allyson escreve nas liner notes), canta a maioria das canções em português, competente, registre-se. E, pelas mesmas notas, ficamos sabendo que a “professora” de português foi a jornalista Lúcia Guimarães. As duas se conheceram numa fila de autógrafos após uma apresentação de Blossom Dearie. Mundinho, não? Veja como as coisas vão se ancaixando.

Como o assunto principal não é exatamente Stacey Kent, ouça Susannah McCorkle cantando Manhã de Carnaval (acho que é a canção que mais postei, em português, inglês, espanhol, instrumental, só falta em russo), e Só Tinha de Ser com Você por Karrin Allyson.




quarta-feira, 6 de abril de 2011

O inexplicável em Susannah McCorkle

Oh, Susannah!
Às vezes, imagino que o suicídio é explicável apenas para o suicida. É o que faz pensar a razão de Susannah McCorkle ter pulado de 16º andar de um prédio localizado na West 86th Street, Nova York. Há semelhanças intrigantes entre a trajetória de vida de Susannah e Stacey Kent. Ambas são americanas, estudaram línguas e depois se mudaram para a Europa. Kent fez literatura comparada e McCorkle, literatura italiana. Adorava música brasileira, como Stacey que, inclusive, está aprendendo português.

Mudou-se primeiro para a França, depois para a Bélgica e Londres. Tinha facilidade com línguas. Falava quatro idiomas, inclusive o português. Despertou para a música no Velho Mundo, apresentando-se em pequenos espaços em Londres. Gravou dois álbuns que não fizeram “muito barulho”. Voltou aos EUA e baseou em Nova York e passou a se apresentar no Cookery, em Greenwich Village.

Devido à formação em letras, escreveu ficção e artigos sobre músicos como Bessie Smith, Ethel Waters, Irving Berlin e também da atriz Mae West. Pelo domínio da língua portuguesa, traduziu letras de compositores brasileiros e gravou um disco com músicas brasileiras (exceção de Estate, que é quase brasileira, pois quem a descobriu foi João Gilberto). Em Sabiá (1990), além do repertório de bossa nova costumeiro, gravou Tristeza, Travessia e Pra Machucar Meu Coração, de Ary Barroso. Canta algumas em português, com sotaque, decerto, e em Tristeza, mistura a nossa língua com o italiano. Se é boa a mistura, não sei, ao menos, desconcerta.

A primeira influência de McCorkle foi Billie Holiday. Era uma cantora incomum. Ganhou três “Discos do Ano” pela Stereo Review e gravou dezessete discos, a maioria, pela Concord Jazz. A instrumentação das músicas é, geralmente, mínima e realça seu “modo” de cantar. Sabiá é uma boa amostra da originalidade nas abordagens que faz das músicas. Suas interpretações de Manhã de Carnaval, Pra Machucar Meu Coração, Estate e Travessia servem de bons exemplos.

Uma afirmação de McCorkle é reveladora. Disse, uma vez, que cantar jazz lhe deu um senso de inclusão: “Antes disso, sempre fui solitária e introvertida. Como cantora, comecei a encontrar outras pessoas que eram solitárias e introvertidas, mas também grandes músicos de jazz. Era como se eu tivesse achado a minha tribo”. Se não explica o suicídio com apenas 55 anos, em 19 de maio de 2001, algum indício é dado para a razão de seu cantar melancólico, meio dolorido. Sobreviveu a um câncer de mama, mas não à depressão. Deixou uma carta antes de pular do 16º andar, mas apenas os familiares devem saber o que escreveu.

Ouça Manhã de Carnaval.