quinta-feira, 29 de março de 2012

Stairway to the Stars e a história de uma escada


Antes de Stairway to Heaven, famosíssima canção de Jimmy Page e Robert Plant, houve outro “stairway”, só que era para as estrelas. Até hoje não descobri o que está mais longe: se o céu ou as estrelas. São poucas as pessoas que nunca a ouviram, digo dos que nasceram entre a década de 1950/ 1990. Todo o mundo que um dia tentou ou aprendeu a tocar violão arriscou-se nas notas e acordes dessa canção do Led Zeppelin. Em honroso segundo lugar estava o solo de Steve Howe, do Yes, em Mood for a Day. Tão bela quanto, era um pouco mais difícil.

Duas coisas sobre Stairway to Heaven
1. Em uma comédia dos anos 1990 – não vou lembrar agora, mas desconfio que tenha sido Wayne’s World – um dos protagonistas entra numa loja de instrumentos musicais. Pega uma guitarra para testá-la. Quando vai tocar, vê uma placa com os dizeres: “No Stairway to Heaven”. Guardadas as proporções, era como no Brasil há tempos. Onde havia um violão, alguém chegava e dedilhava Garota de Ipanema ou Chega de Saudade. Stairway to Heaven virou uma praga. Era a música que qualquer pretendente a guitarrista tocava, era a que todas as estações de rádio executavam, até as bregas. O excesso foi tão grande que nem Jimmy Page e Robert Plant aguentavam mais. Nunca mais a interpretaram em shows.

2. Em razão da vinda de Paris de uma amiga e seu marido a São Paulo, convidei algumas pessoas para um jantar na minha casa. Devíamos estar em umas quinze. Terminado o jantar, foram “obrigados” a participar da minha sessão “novidades musicais/cinematográficas”. Possuia, naquela época, vários Laserdiscs, considerado uma evolução das antigas fitas em VHS. Acabou não pegando e foi logo substituído pelos DVDs, de melhor qualidade de imagem e muito mais práticos. Os DVDs tinham capacidade de armazenar, no máximo 60 minutos em cada face de um discão pesado de 30 cm de diâmetro, enquanto um DVD tinha apenas 12 cm e comportava mais de duas horas de gravação. Possuir um aparelho de Laserdisc era coisa para poucos. Cada um custava algo próximo de 5 vezes do preço de um DVD atualmente. Cheguei a ter mais de 100 – hoje, não valem um tostão. Tinha filmes, shows musicais, apresentações de jazz, música clássica e óperas. A “atração” principal para os amigos, por muito tempo, foi o show Pulse, do Pink Floyd. Demorou anos para ser disponibilizado em DVD (saiu só em 2006), acho que, por conta de problemas contratuais com Roger Waters, que havia saído da banda, portanto era coisa de acesso para uns poucos. Está acontecendo a mesma coisa, agora, para sua versão ser lançada em blu-ray, creio. Nem anunciado está.
Esther Williams, bela até debaixo d’água

Outro Laserdisc que fazia sucesso nas minhas sessões era o That’s Entertainment, uma coleção de melhores momentos dos musicais de Hollywood da MGM. O que houve de melhor está lá: Gene Kelly, Fred Astaire, Carmen Miranda, Judy Garland, Donald O’Connor, Mickey Rooney fantasiado de Carmen Miranda cantando Mamãe Eu Quero, e muito mais.

O amigo Renato M. é um cara engraçado; se tivesse público, então… Naquela noite estava endiabrado. Tinha falado mal do Oscar Niemeyer – a maioria dos presentes era formada em arquitetura –, e chamou Tomie Ohtake de “Tomei um Táxi”.
Um dos trechos de That’s Entertainment é dedicado à Esther Williams. Antes de tornar-se atriz era nadadora. A eclosão da 2ª Grande Guerra abortou o seu sonho de participar de uma Olimpíada. A vida, no entanto, não lhe foi malvada: de belos traços, teve a oportunidade de virar atriz. Juntou o talento na água à representação e ficou conhecida como a “Sereia de Hollywood”. Uma história que guarda semelhanças é a de Johnny Weismuller, o eterno Tarzã. Conquistou cinco medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1924 e 1928. De bela fachada e físico privilegiado, caiu nas graças de Hollywood. Como ator deixou a desejar. Depois de deixar de ser Tarzã, virou o Jim das Selvas. Como ator, não rendeu mais que isso. Esther, ao contrário, sobreviveu melhor e ficou contratada por 15 anos pela MGM e brilhou em alguns filmes de belas coreografias aquáticas. Assista ao trecho destinado a Williams em That’s Entertainment em http://youtu.be/9jUjhrDhFuM.
O pequeno Webb na bateria e Ella à frente

Pois então; estávamos nesse trecho do documetário e saiu com um de seus trocadilhos instantâneos: “Isso aí é o ‘Stairway to Williams‘.” Todos caíram na gargalhada, menos sua mulher. E ainda disse: “Renato, pare com essas gracinhas; só você que está achando engraçado.” Todos riram muito com Renato, menos ela.
Ella canta. Stairway to the Stars foi composta por Mitchel Parish, Matt Melneck e Frank Signorelli. Consta que a primeira gravação é de 9 de maio de 1939 pela orquestra de Glenn Miller, com vocal de Ray Eberle. A gravação de Ella Fitzgerald com a orquestra de Chick Webb, seu “chefe” à época, é de 29 de junho de 1939. Em início de carreira – era uma garota de 22 anos – já mostrava ao que tinha vindo. Na minha opinião, até hoje, é uma das melhores interpretações. Ouça aqui.


Stairway to the Stars com Ella Fitzgerald




Mood for a Day, do Yes, por Steve Howe.


Não vou disponibilizar Stairway to Heaven. Como Page e Plant, não aguento!

terça-feira, 27 de março de 2012

Handbags and Gladrags com Rod Stewart e Gary Burton

Rod Stewart um “poco loco” (reprod.)
Hoje, Rod Stewart é um quase fantasma do que foi. Rod deve ter visto alguns no tempo em que trabalhou como coveiro.

No tempo em que Rod não era o que é hoje, gravou bons discos. Nos anos 1970 e 80, tinha muito “roqueiro” célebre, mas não nesse sentido atual em que, para ser “celebridade” basta aparecer num Big Brother da vida, ou ser apenas um ricaço “aparecido”, ou uma prostituta de alto coturno tentando passar a imagem de milionária. Na era das discotecas como a do Studio 54, de Nova York, a nicaraguense Bianca Jagger era célebre por ser a mulher de Mick apenas. Pela língua viperina de Truman Capote, esse que deixou de ser escritor para virar “carne de vaca” nas colunas sociais, soube-se que Bianca tinha um cecê (é assim na nova ortografia?) bravo, ou como se dizia também, “budum”.

David Bowie, Mick Jagger, Iggy Pop, Lou Reed e Rod Stewart eram protagonistas desse grande mundo de futilidades que Andy Warhol tinha antecipado. Mas eles não estavam preocupados em passar uma imagem de bom mocismo; muito pelo contrário: Lou Reed namorou por um tempo um travesti, Elton John não tinha saído do armário, mas o armário já tinha fugido dele; foram publicadas fotos de Mick Jagger, Lou Reed e David Bowie se beijando (parece que Jagger transou com Angela – “deu” até na música Angie – e com Bowie também. A droga da moda não era mais a maconha nem o ácido lisérgico, e sim, a cocaína. O pó e o álcool dava em poderosa combinação. A festa para os paparazzi eram esses astros e estrelas em seus momentos mais vexatórios. Quanto pior melhor. Mais que a celulite de Juliana Paes e de Caroline Dieckman, interessantes eram as imagens chocantes de Jagger travado, Elton John barbarizando. Rod Stewart não escapou. Há uma foto célebre dele pra lá de bêbado.

Abraços e beijinhos sem ter fim (reprod.)

O problema de Rod começou quando resolveu vestir terninhos brancos, jogar luzers nos cabelhos de vassoura de palha e colocar boné de marinheiro para cantar Sailing ou rodear-se de belas mulheres para sair bem na foto.

Depois de ter participado da banda de Jeff Beck (leia sobre ele cantando Ol’ Man River em http://bit.ly/HcRAMh), montou, com Ronnie Wood, o The Faces. Assinou contrato solo pela
Mercury. Seu primeiro álbum foi An Old Raincoat Won’t Ever Let You Down, em 1969. Grande disco! Depois, foi a vez de Gasoline Alley. Mas estourou mesmo com o seguinte: Every Picture Tells a Story. Maggie May vendeu muito. Lançou depois Never a Dull Moment. Paralelamente, seguiu com o The Faces.

An Old Raincoat Won’t Ever Let You Down (nos EUA chamou-se The Rod Stewart Album) é um disco de grandes interpretações. A primeira é Street Fighting Man, de Jagger & Richards. Muito boa; na guitarra e no baixo, lá está Ronald – mais tarde Ronnie – Wood, o futuro segunda guitarra dos Rolling Stones, companheiro no The Faces. Não é pesada como a original, mas é perfeita na voz “muito especial” de Rod. A seguinte é um belíssimo lamento: Man of Constant Sorrow. Em Blind Prayer é a vez do tecladista Ian Maclagan – outro companheiro do Faces – de abrir a música para as guitarras de Martin Pugh e Wood, e o violão acústico de Martin Quittenton. A música título é de autoria do cantor, assim como as duas seguintes (I Wouldn’t Ever Change a Thing e Cindy’s Lament). O disco é concluído com Dirty Old Town.

Pulei deliberadamente a quarta faixa. Handbags and Gladrags. É um original de Mike D’Abo, ex-Manfred Mann. É a melhor, na minha opinião do disco.

Se você não a conhece, dê uma ouvida aqui.



Há muito tempo não ouvia Handbags and Gladrags. Para minha surpresa, existe uma interpretação solo do vibrafonista Gary Burton em Alone at Last (Atlantic, 1972). Ele é uma dos que fizeram parte da minha“infância” musical. Conheci-o pelos discos lançados pela gravadora ECM. Quando passou a gravar na ECM já tinha dez anos de estrada; lançou o primeiro solo em 1961. Os duos que fez com o tecladista Chick Corea são excepcionais. Tive a chance de vê-lo em uma apresentação no auditório do Anhembi, em São Paulo.



Pode ser que alguns não sabem quem são as figuras na foto: Lou Reed, Mick Jagger e David Bowie (esquerda para a direita)