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| Pete quebra, Jimi põe fogo |
Uma das marcas do inglês era a de destruir a guitarra, quesito em que se achava pioneiro, saltar com as pernas abertas, além de movimentar o braço como uma hélice de helicóptero, enquanto Roger Daltrey fazia o mesmo com o microfone. E foi o que Pete fez quando se apresentaram no Festival de Monterey, em 1967: arrebentou a guitarra batendo-a por várias vezes no chão e nas caixas, produzindo ruidosas microfonias. Foi selvagem. Quando achou que ninguém faria algo mais impressionante, chegou a vez de Jimi Hendrix. Tirou um frasco de álcool e ateou fogo na sua Fender. Mais selvagem ainda. Pete ficou possesso. Além de melhor guitarrista, era capaz de ser mais inusitado.
Faz parte da mística estrelas do rock serem excêntricas, diferentes. Townsend não era exceção. Afirmou, em certa feita, que era bissexual. Desmentiu depois. Esteve envolvido em outra polêmica: foi acusado de pedofilia. Ficou comprovado que usou o cartão de crédito em um site de pornografia infantil. Chegou a ser preso. Isso foi em 2003. Desde então, não tem se envolvido em polêmicas. Drogas e álcool também não causaram os estragos que vitimaram dois dos membros da banda. O primeiro foi Keith Moon, um maluco de pedra e tão bebum quanto outro baterista: John Bonham; John Entwistle, que parecia ser o mais certinho, morreu do coração, que não aguentou alguns gramas de cocaína, na ocasião em que iriam fazer uma apresentação em Las Vegas.
Defeitos, todos têm; talento, não. É o que nunca faltou a Pete. Inovou quando compôs Tommy. O próximo – Who’s Next – era menos ambicioso, mas tão bom quanto. Em 1973, lançaram a segunda ópera-rock: Quadrophenia. O enredo criado por ele era sobre um mod que se torna fã do The Who. Pete estava inspiradíssimo, Daltrey com a voz nos trinques, Moon, um selvagem batendo como nunca, e John Entwistle, como sempre, discreto, um mestre, tocando o contrabaixo como se fosse uma guitarra.
Nos 70. Para quem é autor dos versos “Hope I die before I get old”, estar completando 70 anos é uma ironia. Mas já que está vivo, melhor é fazer alguma coisa. E é o que o velho Pete faz. Seu trabalho mais recente é o Quadrophenia versão erudita, intitulado Pete Townsend’s Classic Quadrophenia. O “classic” não tem a conotação de “coisa antiga”, já que o original tem mais de 40 anos. É “classic” porque ele pretendeu dar uma roupagem de música erudita.
Quadrophenia ganhou uma partitura escrita pela companheira Rachel Fuller, fiel colaboradora nos últimos anos. O escolhido para cantar como Jimmy foi o tenor Alfie Boe. Townsend ambicionava com este projeto que sua ópera se inscrevesse no terreno da música erudita. Inclusive, o álbum saiu pela Deutsche Grammophon, a mais prestigiada do gênero. Os críticos ingleses não entenderam assim e Pete escreveu no Facebook: “esnobismo musical na elite clássica”. Mesmo assim, estreou em segundo lugar na Billboard Classical Crossover. Está de bom tamanho; não para o ego de Pete. Ser classificado de “crossover” está justo.
Ouvindo-se o original de 1973, fica claro que Pete concebeu Quadrophenia com a estrutura de uma ópera. A primeira faixa apresenta os motivos musicais principais da história. O encarte é um libretto com uma narração feita por meio de fotos de autoria de Ethan A. Russell. Em Classic Quadrophenia, Jimmy, em vez de Daltrey, é Alfie Boe, tenor de formação clássica e protagonista como Jean Valjean no musical Les Miserables.
Certamente, aquele que conhece o original terá a curiosidade de ouvir esta versão “erudita”. Não ficará decepcionado. Os arranjos de Fuller e a Royal Philharmonic Orchestra, sob regência de Robert Ziegler contribuem e destacam a riqueza e o requinte das composições de Pete. Além disso, acerta na escolha de Alfred Boe como Jimmy.
Infelizmente, como é um lançamento muito recente e de uma grande gravadora, sua reprodução é vetada, mesmo quando não é por motivos comerciais. Mas temos alguma coisa disponível no YouTube. Veja e ouça.
The Real Me é a primeira faixa após a abertura.
Veja Alfie Boe na poderosa Dr. Jimmy.
Veja Alfie Boe em Love Reign O’er Me.

