quinta-feira, 16 de abril de 2015

Reminiscent, o mais novo álbum de Dayna Stephens

Há dias, publiquei um texto sobre Peace – Live at Blue Note, de Dayna Stephens. Ele acaba de lançar mais um: Reminiscent (Criss Cross, 2015). O álbum é quase todo composto por temas dele e de Walter Smith III, saxofonista como ele. Enquanto este fica apenas no tenor, Dayna toca o tenor, o soprano e o barítono.

A composição mais conhecida e único standard é Blue in Green, de Bill Evans e a “esperta” parceria de Miles Davis, célebre apropriador de temas alheios. “Roubou” autorias de Hermeto Pascoal, Joe Zawinul, dentre outros. A conhecida Blues Up and Down é de Gene Ammons e Sonny Stiit, e a música título, de Erik Jekabson. As restantes são, ou de Dayna ou Smith, sendo quatro do primeiro e três do segundo.

A formação de Reminiscent é totalmente diferente do anterior Peace. Além dos dois saxofonistas, os outros são Mike Moreno na guitarra, o excepcional Aaron Parks, ao piano [sobre ele, leia http://bit.ly/1D7yssv], Harish Raghavan no contrabaixo e Rodney Green na bateria. A adição de um sax tenor do “rising star” Walter Smith III funciona perfeitamente. Não é um “battle of sax” como se fazia antigamente é é mais um diálogo, uma “conversa”, um diálogo entre os dois, mesmo quando ambos estão no tenor. Uma boa amostra é na faixa final.

Ouça Blues Up and Down.




O talento de Dayna nas baladas é evidente em A New Beginning, com ele no soprano e Smith no tenor, e o acompanhamento do baixo e da bateria são primorosos.

Ouça.




Outra balada belíssima é Our World, de Stephens.

Ouça.




Se Dayna conseguir fazer o transplante de rim e for bem sucedido, tem uma longa carreira à frente. Reminiscent é a prova. Sobre a sua enfermidade, leia http://bit.ly/1yxWuBy.

terça-feira, 14 de abril de 2015

A “pressa” de Dayna Stephens

Um saxofonista em trajetória ascendente é Dayna Stephens. E produtivo: desde 2012, como líder, lançou seis álbuns. O penúltimo – Peace –, do ano passado, recebeu críticas calorosas. Agora, acaba de lançar mais um: Reminiscent. E não abaixa a bola. A cada álbum novo, está mais afiado.

Dayna é um rapaz ainda. Com 36 anos, além das gravações e shows, desenvolve trabalho intenso e atuante como educador. Nasceu no Brooklin, cresceu em San Francisco. Dayna tem fome de viver. Esse fazer intenso pode ter alguma relação com a glomeruloesclerose. Esse mal raro, que atinge 20 pessoas em um milhão, exige um gasto de 4 mil dólares americanos mensais para o seu tratamento. A única cura possível é por meio de um transplante do rim.

A doença não é impedimento para Dayna continuar a fazer o que melhor faz: tocar. Peace, lançado ano passado, é um “ao vivo” no Blue Note, e conta com um lineup de deixar queixos caídos. Nessas seções, tocam com ele o pianista Brad Mehdau, Larry Grenadier, Eric Harland e Julian Lage, a grande estrela em ascensão na guitarra. A primeira faixa é a que intitula o disco. É um clássico de Horace Silver, com brilhante intervenção de Mehldau. A segunda, serve como um comentário à sua ida ao lado leste para estudar: I Left My Heart in San Francisco. E Dayna mostra que é bom também no sax barítono. Repete a dose em Body and Soul e Moonglow.

Na terceira faixa, a vez é de Jobim, em Zingaro, aka Retrato em Branco e Preto. As intervenções de Brad Mehldau e Julian Lage dão um colorido especial ao sax tenor de Stephens. Na faixa seguinte – A Good Life –, toca um tenor envolvente que lembra vagamente o mestre Ben Webster, com menos “vento”. Em The Duke, composição de Dave Brubeck, Dayna retorna ao barítono, com acompanhamento sempre discreto e belo de Lage.

A abertura de Brad Mehldau com a guitarra de Julian é perfeita para a entrada de um pungente tenor para Deborah’s Theme, de Ennio Morricone. Este era um mestre de perfeitas melodias. Discreto e econômico, Julian Lage mostra porque ganhou a crítica com uma guitarra sublime no conhecido Oblivion, de Astor Piazzolla. E Dayna não fica atrás: seu soprano é emocionante.


Ouça Oblivion.




Depois de Oblivion, as canções são Body and Soul, Two for the Road, de Henri Mancini, e a citada anteriormente, Moonglow. Grande fecho, em duo com o contrabaixo de Larry Grenadier.


Ouça.