quinta-feira, 9 de junho de 2016

Acasos em série na vida de Carol Sloane | parte 2

Na primeira parte, Carol Sloane conhece Jon Hendricks. Por conta disso, canta pela primeira vez no Village Vanguard e apresenta-se no festival de Newport. Em 1961, grava seu primeiro álbum por uma grande gravadora, a Columbia.

Outros tempos, outros estilos
Em 1961, em uma apresentação no Village, uma desconhecida de longos cabelos, vestindo T-shirt foi conversar com ela. Disse ser uma aspirante a cantora e perguntara-lhe: “Como você fez aquilo”. “Aquilo o quê? Você diz cantar?”, respondeu Carol. Tempos depois, essa moça seria contratada pela Columbia e iria tornar-se uma das campeãs de venda. Seu nome: Barbra Streisand.

Sloane tinha gravado cinco faixas para o novo álbum. Apesar de muito bons, seus dois discos não tinham vendido muito. Os produtores arrumaram cinco cantoras para ficarem a fazer “uuuus” e “aaas” de fundo, porque era moda. Com Barbra estourando e a Columbia querendo-a mais “pop” não ia dar certo. A era das “jazz singers” estava por um fio.

Coleman Hawkins e Ben Webster
Carol estava cantando em um pequeno clube em Pawtucket, que fica no condado de Providence, sua cidade natal, em dezembro de 1963. O dono do clube falou que Ben Webster estava vindo de Nova York para apresentar-se no fim de semana. Ela resolveu preparar um repertório mais calcado nas composições de Duke Ellington, já que o saxofonista tinha sido membro de sua banda.

Ben chegou, pediu uma garrafa de cerveja. Começou a beber e não parou mais até a sua volta. O álcool não era empecilho para que tocasse bem. Esteve magistral, como sempre. Quando não estava a soprar o sax tenor, estava bebendo.

Ela e Bob Bonis voltariam a Nova York e deram carona a Ben. O que poderia ser a oportunidade de conversar sobre suas impressões do show, frustrou-se. A única manifestação sonora de Ben foi o ronco. Dormiu a viagem toda.

Carol foi convidada para apresentar-se novamente no Newport Jazz Festival, por George Wein, em 1962, depois do sucesso no ano anterior. Estava no palco e, sem nada combinado, Coleman Hawkins subiu para acompanhá-la. Anos depois, em uma comemoração de ano novo no Village Vanguard, em que era uma das atrações, lá estavam Bob Brookmeyer, Phil Woods, Thelonious Monk e Hawkins. Este disse lembrar-se perfeitamente da apresentação de Newport. Em situações inesperadas, Sloane teve dois dos maiores saxofonistas tenor da história tocando com ela.

Beatles e Rolling Stones
Um acaso interessante. O amigo e empresário Bob Bonis foi o primeiro road manager dos Beatles e dos Rolling Stones em suas incursões iniciais na América. Desse modo, Carol os conheceu de perto. Foi ela quem levou os membros dos Rolling Stones ao Harlem. Queriam ver um show de B.B. King. Quando as luzes do Apollo Theater se apagaram, os membros da banda se acomodaram. Subitamente o público percebeu que os Rolling Stones estavam lá. Tiveram todos que correr para fugir do assédio. Todos os stones eram muito simpáticos, segundo ela, com exceção de Brian Jones, que parecia viver em outro mundo.

Os Rolling Stones ainda não eram tão populares quanto os Beatles. Quando vieram, em 1965, o furor foi muito maior. Graças a Bob, Carol estava no olho do furacão: foi uma das que assistiu ao show no Shea Stadium.

O rock sobe. O jazz desce
Em mais de uma ocasião, Carol disse que gostaria ter nascido alguns anos antes. Sua geração foi sacrificada pela onda avassaladora do rock. As gravadoras deixaram de promover o jazz.

Apesar de bons discos gravados por uma grande gravadora e o respeito da crítica, não tinha mais espaço. Além de cantar, era boa datilógrafa. Nos momentos mais difíceis voltava a trabalhar como secretária.

Morando em Nova York, recebeu um telefonema de um agente em um dia de 1969 convidando-a a apresentar-se uma vez a cada quatro a seis semanas em um clube chamado The Frog and The Nightgown, na Carolina do Sul. Mudou-se e arrumou emprego como secretária em um grande escritório. O Frog, como acabou sendo conhecido, recebeu músicos como Stan Getz, Stan Kenton, Count Basie, Thelonious Monk e George Shearing.

No fim dos anos 1970, recebeu uma ligação do pianista Roland Hanna, convidando-a a substituir Dee Dee Bridgewater em um show. Quando chegou a Nova York, Hanna, dissera-lhe que tinha arrumado outro compromisso. “O que? O que você quer dizer?” Mas a coisa saiu melhor ainda: sem Hanna, o substituto era o grande Tommy Flanagan, com o baixista Percy Heath, que tocou muito tempo com o Modern Jazz Quartet.

Jimmy Rowles
Carol estava a conversar com o baixista George Mraz, depois de um set. Este perguntou-lhe se depois do show, não queria ir até o Bradley’s, onde Jimmy Rowles estava se apresentando.

Lá, o proprietário do bar perguntou-lhe se não queria cantar com Jimmy. “De jeito nenhum. Jimmy nem sabe quem sou eu”, respondeu. Bradley puxou-a pelo braço e levou-a até o palco. Jimmy perguntou-lhe o que queria cantar. Respondeu: My Ship. Foi assim que começou o romance entre eles.

Rowles era um grande mestre acompanhante de cantores. Diana Krall é uma que recebeu suas lições. Tinha sido acompanhante de Billie Holiday, Sarah Vaughan e Carmen McRae, três das principais cantoras do século XX, incluindo-se aqui Ella Fitzgerald. Para Carol, ter ficado com Jimmy, foi uma grande lição, como intérprete. Com ele, aprendeu a “como projetar o sentimento de uma canção”, a tornar-se “uma intérprete de canções, mais que simplesmente uma cantora.”

O casamento durou três anos. Não suportou viver com um hard drinker. Seus melhores amigos eram Al Cohn e Zoot Sims, tão beberrões quanto ele. Jimmy acordava com um gim tônica duplo, e fumava cigarros sem filtro sem parar. Se tivesse uma arma em casa, disse, teria atirado nele. Em um dia de desespero, Carol virou o vidro inteiro de Dalmane, sonífero que Rowles tomava. Foi parar no hospital.

A crise
Perto dos 40, passou a questionar sobre a sua vida a sua carreira. Separada de Rowles, em 1981, mudou-se para Boston, indo morar temporariamente em casa de amigos. Arrumou outro serviço como secretária. Foi convidada para trabalhar como programadora em um clube de jazz. Levou Barbara Cook, Jackie and Roy, Carmen McRae, George Shearing e Helen Merrill, dentre outros.

Em 1977, lança o primeiro desde Live at 30th. Street, de 1965.  Sophisticated Lady, com Roland Hanna, George Mraz e Ritchie Pratt, foi lançado no mercado japonês, fã de cantores e cantoras. Pode não ter vendido no mercado americano, mas era um grande disco, novamente. Calcado no repertório de Duke Ellington, algumas interpretações são espetaculares, principalmente Come Sunday, cantado à capella.

Espetacular também é Sloane cantando Solitude, com Roland Hanna ao piano.




But Not for Me, lançado em 1987, conta com Frank Wess, Tommy Flanagan, George Mraz e Al Foster. Pela Contemporary, em 1989 saiu. Love You Madly. É disco de uma intérprete que aprendeu tudo. Lançou também, pelo mesmo selo, The Real Thing, com um belo line up composto por Mike Renzi, Phil Woods, Rufus Reid e Grady Tate. Contratada pela Concord Jazz, lançou When I Look in Your Eyes (1991), The Songs Carmen Sang (1995), com Phil Woods e The Songs Ella & Louis Sang (1997), com Clark Terry. Gravou também pela DRG, HighNote e a Arbors. Em Romantic Ellington (1999), volta ao repertório do mestre.

Carol considera seus discos preferidos, Love You Madly e Dearest Duke (Arbors, 2007). Prestes a fazer 80 anos, deve estar aposentada, inclusive como secretária.

Ouça My Foolish Heart, do álbum Love You Madly.




Veja Carol com Jimmy Rowles ao piano, cantando Never Never Land e My Ship.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Acasos em série na vida de Carol Sloane | parte 1

Retrato de uma jovem artista
Muitos, quando crianças ainda, sonharam em um dia virarem artistas, mais especificamente, cantores. Acho que é uma das fantasias infantis mais comuns. Não foi diferente com Carol Morvan e com sua irmã. A diferença é a de que ela gostava coisas como as de Andre Kostelanetz, enquanto Carol, de Miles Davis e Dizzy Gillespie. Adolescente, sonhando em ser cantora, sua referência era Sarah Vaughn, mais do que Ella Fitzgerald ou Billie Holiday.

Tinha 14 anos quando se apresentou pela primeira vez em público. Nos anos 1950, as novidades chegavam pelas ondas sonoras dos rádios. Em Providence, Rhode Island, eram dois os disc jockeys locais. Eram os heróis de Carol. Conheceu um deles, Charlie Jefferds, com quem se casou, aos 18 anos.

Mudaram-se para o Colorado e depois foram morar na Alemanha. Na base que os americanos tinham, um general queria montar Kiss Me Kate. Carol participou do musical. Em 1958, estava de volta aos EUA, divorciada. Tinha decidido que queria tornar-se cantora profissional. A estreia foi em um clube de New Bedford ou Fall River, MA, não se lembra mais em qual. Um senhor chamado Bob Bonis apresentou-se dizendo que era road manager da Les and Larry Elgart Orchestra. Disse que precisavam de uma cantora e perguntou-lhe se queria fazer um teste. Ofereceu-se para levá-la. Receosa, porque Bob era grande qual um boxeador, disse que iria em outro dia.

Fez o teste, afinal, e foi aprovada. Les e Larry tinham personalidades muito diferentes. Separaram-se. Carol seguiu com Larry e ficou dois anos como crooner de sua orquestra. Resolveu adotar o nome artístico de Carol Van. Larry não gostava e a cada apresentação dava-lhe um nome diferente. Achou que “Sloan” era um bom nome. Ela acrescentou um “e” e aí nasceu Carol Sloane.

Carol canta no Village Vanguard
O tempo das grandes orquestras estava acabando. No fim dos anos 1950, iniciava-se a onda do rock’n’roll. Saiu da banda de Elgart e, em Nova York, para sobreviver, começou a trabalhar de secretária, mas não perdeu contato com Bob Bonis. Ele também tinha deixado a banda e passou a trabalhar na agência de talentos de Willard Alexander. Bob arrumou uma apresentação no festival de jazz em Pittsburg. Seria a primeira a subir no palco na se noite de sexta. Jon Hendricks, da Lambert, Hendricks and Ross, que estava lá, convidou-a para ser a substituta eventual de Annie Ross. Ela, depois de voltar do trabalho sempre colocava The Hottest New Group in Jazz na vitrola. Conhecia de cor o disco. Não seria tarefa difícil. Ao ser convidada para uma temporada de duas semanas em um clube da Filadélfia, declinou do convite. Não poderia se ausentar por duas semanas no escritório em que trabalhava como secretária.

Em abril de 1961, Lambert, Hendricks and Ross iria apresentar-se no Village Vanguard. Carol estava lá. Foi convidada a subir no palco e cantar com Gildo Mahones, Ike Isaacs e Jimmy Wormsworth, trio que acompanhava o grupo vocal. Não se lembra o que cantou. Mas foi a primeira vez em que subiu ao palco do lendário Village.

Carol canta em Newport e lança seu primeiro álbum
Sid Bernstein, que estava produzindo o festival de Newport, que naquele ano, chamou-se Music at Newport, ouviu de Jon Hendricks a sugestão de convidar Carol. Ela fez parte do New Stars of ’61. Na hora da apresentação, perto da hora do jantar, a plateia era relativamente pequena, para a sua má sorte. Resolveu cantar Little Girl Blue, mas Gildo Mahones, que a acompanhava ao piano, tinha se esquecido das primeiras notas da canção. Sloane cantou à capella. A boa sorte foi a de que vários top critics, como John Wilson e George Simon estavam na plateia. Sid convidou-a para repetir a performance na última noite do festival. Sairam várias matérias falando de uma cantora desconhecida que cantou Little Girl Blue à capella.

Max a convidou para cantar no Village, com Oscar Peterson ao piano. Todos queriam conhecer a tal cantora de que a imprensa tinha comentado. Para a tristeza de Sloane, Oscar não parecia nem um pouco impressionado com ela. Terminava de cantar algum standard, olhava para o pianista e sua cara era sempre a mesma: sem expressão. Farta de cantar e não perceber alguma reação de Peterson, uma noite, cantou alguma música de forma mais straight. Quando terminou, ele estava entusiasmado e a aplaudia. Foi uma grande lição. Passou a florear menos os vocais. O padrão era o de que cantoras de jazz deveriam fazer scats. Não era o que Carol mais gostava de fazer. Valeu o entusiasmo de Peterson.

Carol foi convidada a gravar seu primeiro álbum pela Columbia. Out of the Blue era um grande disco de estreia. Na banda organizada por Bill Finnegan, estavam Clark Terry e Nick Travis nos trompetes, Barry Galbraith e Jim Hall nas guitarras, Bob Brookmeyer no trombone, George Duvivier no contrabaixo e Art Davis na bateria. Não estava acreditando.

No ano seguinte, 1962, gravou Live at 30th. Street, pela mesma gravadora. O line up era bom: Bill Rubenstein (piano), Bucky Pizzarelli (guitarra); George Duvivier (baixo), Sol Gubin (bateria). Tanto o primeiro como o segundo eram bons discos. Nem parecia que era uma estreante.

Ouça Little Girl Blue.





Ouça In a Sentimental Mood, do álbum Live at 30th Street.




Na segunda parte, Carol Sloane toca com Ben Webster, Coleman Hawkins e ciceroneia os Rolling Stones na primeira ida aos EUA da banda. Aguarde.