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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um absurdo chamado Ira Sullivan

Ira, em Chicago, comemora seus 80 anos
Você conhece Ira Sullivan? Você sabe se ele está vivo? Você sabe se está na ativa?

Entre 1974 e 1978, a Horizon, selo da A&M Records, lançou uma série de discos de jazz, abarcando estilos bem diferentes, gravando, por exemplo, Charlie Haden, Sonny Fortune, Jim Hall, Thad Jones/Mel Lewis Orchestra, Dave Brubeck e Paul Desmond, a Yellow Magic Orchestra de Ryuichi Sakamoto, Jimmy Owens, Don Cherry, Revolutionary Ensemble (este, o mais avant-garde), Dave Liebman e Ira Sullivan, dentre outros. Foi a primeira vez que ouvi falar de vários deles. Ira foi um deles.

Vários foram lançados no Brasil, com capas semelhantes às originais americanas, com profusão de informações em português, fato raro até hoje nos encartes. Infelizmente, a qualidade de áudio dos LPs (long-playings) era sofrível. Comprei Forgotten Fantasies, belíssimo duo com David Liebman e Richie Beirach, Awakening e Waves of Dreams, de Sonny Fortune, Live!, com Jim Hall. Os dois “mais diferentes” eram Dancing in Your Head, de Ornette Coleman (sobre ele, leia “A mais bela mulher solitária”) e The People’s Republic, do Revolutionary Ensemble.

Não lembro se os dois álbuns de Charlie Haden foram lançados no Brasil, pois os adquiri fora do país. Liebman e Fortune tocaram com Miles Davis e essa foi a razão de ter comprado os discos dos dois. Um pouco diferente da música eletrônica e frenética de quando tocou com Miles (Agharta e outros álbuns ao vivo que, aos poucos foram sendo lançados na época em que o trumpetista esteve “fora do ar” devido ao seu problema com a heroína “y otras cositas más”), os discos de Fortune são mais “mainstream” e muito bons. Liebman também, ao gravar Forgotten Fantasies, talvez em razão de dividir o disco com Beirach, segue por uma trilha bem lírica e menos “nervosa”. É uma pena que a baixa qualidade do vinil brasileiro tenha comprometido o disco de Liebman e de tantos outros que optaram vereda do mais “silencioso”. É um pipocar de ruídos absurdo, daí a razão de muitos, na época, optarem por comprá-los importados, mesmo custando mais que o dobro. O “ao vivo” de Jim Hall é muito bom e um tanto minimalista. Hall sempre perferiu a discrição.

Abro um parágrafo para os de Charlie Haden e de Ira Sullivan. Devo ter comentado mais de uma vez sobre Closeness e The Golden Number (leia “Os duos de Charlie Haden”), pois sou fã de carteirinha do baixista. Os duos são com músicos que foram parceiros em outras formações, como Keith Jarrett, Paul Motian, Ornette Coleman e Don Cherry, dentre outros. Ellen David, com Jarrett é um deslumbre. Ouça aqui e verás que não minto.


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Ira Sullivan foi a grande supresa. Sem nunca ter ouvido falar dele, comprei, de curioso. Imagino que, atualmente, toque eventualmente em alguma casa de jazz na Flórida, estado que escolheu para morar desde 1962. Em 1976, quando foi lançado o álbum, cujo título era apenas Ira Sullivan, grafado na vertical, tendo a foto de um menino – ele – com um trumpete que devia ser quase do seu tamanho, era o primeiro depois de dez anos.

“O nome de Ira Sullivan era cheio de magia, não havia outro músico tão adorado como ele. Tocou com Bird e Kenny Dorham, conheceu todos os grandes e tinha uma reputação muito especial. Seu nome ainda possui a mesma magia. As pessoas sussurram: ‘Talvez, um dia, ele volte’.” Assim começa o texto dos liner notes do álbum, escrito Neil Tesses. O “talvez, um dia, ele volte” era em razão dos dez anos de ausência no mercado fonográfico. Segundo o pianista Lou Levy, “Ira tocava como eu gostaria de tocar, não posso pensar em outro elogio maior. Por sua força e poder, era como Bird.” Joe Segal, fundador e proprietário do The Jazz Showcase, em Chicago, lugar que abrigou Ira com frequência quando morou lá, disse que “ele é um gênio. Poderia escolher qualquer instrumento e aprender a tocá-lo em um dia; seria excelente em todos eles. Acho-o melhor no trumpete, mas quando toca saxotrompa (sax-horn) é meu intérprete vivo favorito.”

Pois Ira, além do trumpete, toca sax tenor e barítono. Mais tarde incorporou o sax soprano e a flauta. É raro alguém que toque bem o trumpete, tenha a mesma habilidade no saxofone, pois os dois instrumentos possuem embocaduras bem diferentes. Esse é outro dado que reforça o talento desse músico. No disco de 1976, Ira é acompanhado por Alex Darqui e Tony Castellano ao piano, Joe Dorio na guitarra e Steve Bagby na bateria. Na única faixa em que entra o baixo – Portrait of Sal La Rosa –, quem toca é Jaco Pastorius. Não é tão por acaso: Pastorius nasceu na Pensilvânia e criança mudou-se para Fort Lauderdale.

O álbum lançado pela Horizon, por ironia, título do disco anterior lançado pela Atlantic Records, não apresenta nenhum standard, a não ser se Finlandia, de Jean Sibelius (é um trecho curtísiimo de 52 segundos em que Ira toca em overdubs sax soprano, tenor e flauta), e My Reverie, de Claude Debussy, possam assim ser considerados. Falha minha: Ira toca um Jitterbug Waltz, de Fats Waller, matador. É o que você ouve aqui.

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Ouça também Dove. Grande Ira. Merece ser mais conhecido.

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Minha primeira vez com Jaco Pastorius

Pastorius empunha seu Fender Jazz Bass
Antes de entrar na banda de Joe Zawinul e Wayne Shorter – o Weather Report –, em 1976, Jaco Pastorius já era conhecido dos colegas músicos. Dizem que Pastorius, em uma apresentação do Weather Report, em Miami – o baixista nasceu em Fort Lauderdale, Flórida –, abordou Zawinul e lhe falou de que havia gostado, mas esperava mais, que estava faltando “alguma coisa”; e se apresentou como o melhor baixista do mundo. Na insistência, fez com que chegasse até Zawinul uma fita demo. O resto é história. Mais tarde, com os acontecimentos posteriores, ficou público que Pastorius era bipolar, e como acontece com usuários de drogas, cocaína principalmente, era megalomaníaco e um tanto “sem noção”. Teve fim inglório: levou uma surra de um leão de chácara em uma boate da Flórida e morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral. Tinha 36 anos. Louco como andava, a carreira também tinha desandado (sobre isso, leia em http://bit.ly/vczRcR). O responsável por sua morte, Luc Havan, ficou quatro meses preso; foi solto por bom comportamento. Pelo menos, ao contrário de muitos usuários de cocaína que cheiram para se sentirem poderosos, “criativos” e “inteligentes”, Jaco era gênio e não precisava disso para ser “melhor”.

Pastorius entrou no meio das gravações do disco Black Market. Bastou. Suas composições e intervenções no baixo o consagraram. Fazia o diabo com seu Fender Jazz Bass sem trastes. A primeira vez que o ouvi em disco foi no disco Ira Sullivan (Horizon, 1976). Ira Sullivan – toca trumpete, flugelhorn, saxofone e flauta –, apesar de pouco conhecido, é um tremendo músico. A aversão por viagens foi empecilho: baseou-se na Flórida e pouco saiu de lá desde então (creio que, atualmente, está aposentado, pois faz muito tempo que não ouço falar dele). O fato de tocar com frequência nos clubes locais deve tê-lo feito “trombar” com o, ainda jovem, Pastorius. Em 1974, estava fazendo parte do quinteto de Ira. No disco lançado pela subsidiária da A&M Records, o baixista participa de apenas uma faixa: Portrait of Sal La Rosa. Foi o suficiente para perceber que se estava diante de um músico diferenciado.

Em 1974, foi lançado um disco pela Improvising Arists em que, sem título, apenas trazia os nomes de seus participantes: Paul Bley, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Bruce Ditmas. Era, essencialmente, um disco do pianista Paul Bley; todas as composições eram, ou dele, ou de Carla Bley que, por um tempo foi sua mulher.

O grande disco anterior a 1976 é Bright Size Life (ECM, 1975), primeiro disco solo de Pat Metheny. Esse é um clássico, em vários sentidos. Pat começou muito cedo. Antes de completar 20 anos estava na banda do vibrafonista Gary Burton como segundo guitarrista (o primeiro era Mick Goodrick). Era tão bom que chamou atenção do chefão da ECM, Manfred Eicher. Em Bright Size Life teve como sidemen Jaco Pastorius e o baterista Bob Moses. Nem parecia disco de estreante de tão bom que era. Metheny nasceu pronto, assim como Pastorius. Por meio desse disco ocorreu meu segundo contato com o som do baixista.

A primeira e única vez que vi Pastorius tocando aconteceu num longínquo ano em um festival de jazz no Ginásio do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, em 1980. O som era péssimo e o público carioca queria só diversão, ouvir era o de menos. Para se ter uma ideia, McCoy Tyner se apresentou, e o som era tão ruim que ninguém deu a mínima para o grande mestre do piano; foi deprimente. Outra atração foi Pat Metheny e sua banda. Lembro que os “avant-garde” Art Ensemble of Chicago eram outro destaque; na última hora, cancelaram: decepção. A apresentação mais impactante mesmo foi a do Weather Report. Ao lado dos mestres Wayne Shorter e Joe Zawinul, Jaco Pastorius foi uma atração à parte. Com uma fita prendendo-lhe os longos cabelos, parecia um índio. Passaram algo como um talco no chão para facilitar-lhe os movimentos. Estava ligado em uma tomada de 220 volts; não parava quieto e mexia com os dedos da mão direita a toda hora, dando a impressão de que estavam doloridos pela força com que dedilhava as cordas. O ponto alto foi um longo solo em que tocava um trecho de Portrait of Jenny. Inesquecível. Quem viveu isso não esquecerá nunca.

Leia também “Joni Mitchell e o jazz”: http://bit.ly/j141Y4

Ouça Pastorius em Portrait of Sal LaRosa.



Ouça e preste atenção no solo de Pastorius em Midwestern Nights Dream, a quinta faixa de Bright Size Life.