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| A gravadora aproveita a época de Natal e lança Winehouse |
Como Amy não lançou mais nada desde Back to Black, no fim de 2006, havia grande expectativa em torno da possibilidade de ela lançar um novo disco, apesar da gangorra que se tornou a sua vida, sendo mais notícia de jornais sensacionalistas do que de veículos especializados em música. Reconheça-se o gosto sádico das pessoas de ficarem assistindo à derrocada de seus ídolos como compensação pela vida ordinária que muitos levam.
Diante do sem-número de escândalos e vida exposta, Amy tornou-se célebre, mais pela frequência com que apareceu em tabloides e revistas de fofocas. Apesar disso, e reconhecida como garota promissora por dois bons discos gravados, seus fãs, certamente, tinham a expectativa de que, mais uma vez, os surpreenderia com seu talento natural. A morte a acolheu mais carinhosamente do que a vida. Depois de sua morte, falava-se das gravações que fizera com produção de Mark Ronson e de Salaam Remi. Finalmente, temos acesso a essses registros. Se não têm a qualidade que se esperava – era essa a expectativa depois de Back to Black, não era? – há coisas interessantes.
Depois que morreu, surgiu a notícia de que havia gravado com o quase nonagenário Tony Bennett. Finalmente, a conhecemos, pois é uma das faixas de Lioness: Hidden Treasures, lançado em 5 deste mês. Foi a primeira que ouvi. Não sou tão fã, como era Carlos Conde, de Body and Soul; isso é impossível. Se houvesse algum CD com essa música cantada por Bruno e Marrone, certamente, Conde teria comprado. Ele possuía todos os Body and Soul de que tinha notícia. É um dos grandes standards do cancioneiro americano, um clássico. Fui direto nela. Bennett é um caso de amor à primeira vista.
Tornaram-se moda esses discos em que cantores consagrados fazem duetos com intérpretes dos mais variados gêneros. Não sei bem se foi Frank Sinatra quem iniciou essa moda, mas todos devem conhecer os dois discos que ele gravou nos anos 1990, dividindo sua voz cansada com as de cantores consagrados como o próprio Bennett ou Liza Minelli, e outros nem tanto, como a de Gloria Stefan ou a de Julio Iglesias.
Body and Soul com Tony Bennett e Amy Winehouse decepciona. A voz da inglesa parece a de uma Natalie Cole piorada. Ficou devendo nessa. Mas o resto do CD não chega a decepcionar e, muito menos, pode ser considerado ruim. O charme do repertório de Winehouse sempre foi, mesmo em composições inéditas, a de um certo “revivalismo” do som dos anos 1950 e 60. Backing vocals a la Golden Boys, intervenções de naipes de sopro, com marcações bem definidas da bateria, do sax barítono e por “riffs” econômicos da guitarra, fazem parte do “fundo sonoro” para a voz (muito) especial de Winehouse. Por conta desse gosto “revivalista” (veja, ela não foi a única a fazer isso: virou uma fórmula quase infalível e, de certa forma, é consequência da facilidade propiciada pela internet de conhecer o que era feito em outros tempos na música popular), não é muito difícil gostar de qualquer coisa que Amy tenha feito nessa direção, mesmo não estando em momentos mais inspirados.
Depois de ouvir Lioness, umas três vezes; minha capacidade de julgamento se desvanece e, sem muito refletir, me encanto com a faixa de abertura, uma releitura meio ska, meio reggae, com um invariável naipe de metais, de Our Day Will Come. A quarta faixa é uma composição de Carole King e Gerry Goffin, clássico originalmente gravado pelo grupo The Shireless. A “cozinha” dos Dap-Kings, o arranjo das cordas e o vocal ocasional apenas somam a essa bela interpretação da inglesa. A “peteca” não cai em Like Smoke. A intervenção “rapper” de Nas combina perfeitamente com a instrumentação retrô. Muito boa. Outro destaque é a versão “bossa eletrônica” da nossa Garota de Ipanema. Bem interessante. Mas, do que eu gostei mesmo é de A Song for You, clássico de Leon Russell. Caiu no gosto até de cantores mais associados ao jazz, como Carme McRae e Shirley Horn. É uma daquelas em que é difícil estragar.
Para comparação, ouça a mais conhecida, a de Donny Hathaway.
Ouça A Song for You, por Amy Winehouse.
Ouça Our Day Will Come, a primeira de Lioness.


