quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Qual a sua preferida do disco póstumo de Amy Winehouse?

A gravadora aproveita a época de Natal e lança Winehouse
Por ocasião da morte de Amy Winehouse terminei por não comentar nesse blogue. Mas, agora com o lançamento do CD póstumo, tem-se mais assunto do que supostas causas da morte de Amy ou de seus abusos com as drogas e o álcool.

Como Amy não lançou mais nada desde Back to Black, no fim de 2006, havia grande expectativa em torno da possibilidade de ela lançar um novo disco, apesar da gangorra que se tornou a sua vida, sendo mais notícia de jornais sensacionalistas do que de veículos especializados em música. Reconheça-se o gosto sádico das pessoas de ficarem assistindo à derrocada de seus ídolos como compensação pela vida ordinária que muitos levam.

Diante do sem-número de escândalos e vida exposta, Amy tornou-se célebre, mais pela frequência com que apareceu em tabloides e revistas de fofocas. Apesar disso, e reconhecida como garota promissora por dois bons discos gravados, seus fãs, certamente, tinham a expectativa de que, mais uma vez, os surpreenderia com seu talento natural. A morte a acolheu mais carinhosamente do que a vida. Depois de sua morte, falava-se das gravações que fizera com produção de Mark Ronson e de Salaam Remi. Finalmente, temos acesso a essses registros. Se não têm a qualidade que se esperava – era essa a expectativa depois de Back to Black, não era? – há coisas interessantes.

Depois que morreu, surgiu a notícia de que havia gravado com o quase nonagenário Tony Bennett. Finalmente, a conhecemos, pois é uma das faixas de Lioness: Hidden Treasures, lançado em 5 deste mês. Foi a primeira que ouvi. Não sou tão fã, como era Carlos Conde, de Body and Soul; isso é impossível. Se houvesse algum CD com essa música cantada por Bruno e Marrone, certamente, Conde teria comprado. Ele possuía todos os Body and Soul de que tinha notícia. É um dos grandes standards do cancioneiro americano, um clássico. Fui direto nela. Bennett é um caso de amor à primeira vista.

Tornaram-se moda esses discos em que cantores consagrados fazem duetos com intérpretes dos mais variados gêneros. Não sei bem se foi Frank Sinatra quem iniciou essa moda, mas todos devem conhecer os dois discos que ele gravou nos anos 1990, dividindo sua voz cansada com as de cantores consagrados como o próprio Bennett ou Liza Minelli, e outros nem tanto, como a de Gloria Stefan ou a de Julio Iglesias.

Body and Soul com Tony Bennett e Amy Winehouse decepciona. A voz da inglesa parece a de uma Natalie Cole piorada. Ficou devendo nessa. Mas o resto do CD não chega a decepcionar e, muito menos, pode ser considerado ruim. O charme do repertório de Winehouse sempre foi, mesmo em composições inéditas, a de um certo “revivalismo” do som dos anos 1950 e 60. Backing vocals a la Golden Boys, intervenções de naipes de sopro, com marcações bem definidas da bateria, do sax barítono e por “riffs” econômicos da guitarra, fazem parte do “fundo sonoro” para a voz (muito) especial de Winehouse. Por conta desse gosto “revivalista” (veja, ela não foi a única a fazer isso: virou uma fórmula quase infalível e, de certa forma, é consequência da facilidade propiciada pela internet de conhecer o que era feito em outros tempos na música popular), não é muito difícil gostar de qualquer coisa que Amy tenha feito nessa direção, mesmo não estando em momentos mais inspirados.

Depois de ouvir Lioness, umas três vezes; minha capacidade de julgamento se desvanece e, sem muito refletir, me encanto com a faixa de abertura, uma releitura meio ska, meio reggae, com um invariável naipe de metais, de Our Day Will Come. A quarta faixa é uma composição de Carole King e Gerry Goffin, clássico originalmente gravado pelo grupo The Shireless. A “cozinha” dos Dap-Kings, o arranjo das cordas e o vocal ocasional apenas somam a essa bela interpretação da inglesa. A “peteca” não cai em Like Smoke. A intervenção “rapper” de Nas combina perfeitamente com a instrumentação retrô. Muito boa. Outro destaque é a versão “bossa eletrônica” da nossa Garota de Ipanema. Bem interessante. Mas, do que eu gostei mesmo é de A Song for You, clássico de Leon Russell. Caiu no gosto até de cantores mais associados ao jazz, como Carme McRae e Shirley Horn. É uma daquelas em que é difícil estragar.

Para comparação, ouça a mais conhecida, a de Donny Hathaway.



Ouça A Song for You, por Amy Winehouse.



Ouça Our Day Will Come, a primeira de Lioness.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Primeiro, Eric Clapton e depois, Ringo Starr

Clapton jovem
No mês de outubro, recebemos a visita de Eric Clapton. Foi a segunda apresentação do britânico, dez anos depois da primeira. A de São Paulo ocorreu no feriado de Nossa Senhora Aparecida. Em uma noite agradável, Clapton apresentou sucessos, alguns antiquíssimos.

Mr. Slowhand, como o ator Jack Nicholson, foi criado pelo marido e avó, imaginando-os sendo seus pais, quando, na verdade, era filho da irmã mais velha, que o teve quando tinha 16 anos.

Com 18 anos, estava tocando com o lendário Yardbirds, por onde, logo depois, passariam dois outros guitarristas que se tornariam lendários: Jeff Beck e Jimmy Page. Logo depois, foi tocar na banda John Mayall and The Heartbreakers. Alcançou sucesso meteoricamente. Juntou-se ao baixista e cantor Jack Bruce e ao baterista Ginger Baker e formaram o grande “power trio” de todos os tempos, o Cream. Era ego demais por centímetro quadrado. Durou pouco.

Os jovens pichavam nos muros: “Clapton is God”. Mas outro “deus” despontava no cenário inglês: um negro americano chamado Jimi Hendrix “perdido” na metrópole. Dizem que (não li a autobiografia recém-lançada de Clapton) a morte precoce de Hendrix o abalou profundamente.

Até hoje, Clapton canta músicas que compôs na época do Cream. São hits antiquíssimos, coisa de mais de quarenta anos. Parte da plateia do Estádio do Morumbi nem tinha nascido. Isso parece ser um fenômeno mais recente: muitos astros não sobreviveram – caso de Elvis Presley, por exemplo, aos seus sucessos. Hoje, astros sessentões – ou quase setentões – ainda pulam como macacos nos palcos e despertam o interesse de uma juventude de vinte e poucos anos. É muito interessante ver um adolescente cantando animadamente, e de cor, uma canção que tem mais que o dobro de sua idade, como no caso dos shows de Paul McCartney.

Outro astro que, em outros tempos, seria chamado de “dinossauro do rock” – ninguém, hoje, ousaria classificar Mick Jagger assim – desembarcou no mês passado: Ringo Starr. A impressão é que o baterista é mais “respeitado” agora do que quando era componente dos Beatles. “Chegou” depois, substituindo Pete Best. É um peso. Por muitos era considerado quase um apêndice; próximo das personalidades fortes e presentes da dupla compositora Lennon & McCartney (assim assinavam apesar de a maioria das músicas ser de apenas de um deles, com “a little help” do outro), George Harrison, guitarrista tímido e habilidoso e “segundo” compositor do quarteto, “sobrou” pouco para Ringo. Compôs algumas canções: Don’t Pass by Me e Octopus’s Garden. Agora, era um cara engraçado. Lembro de uma entrevista com os Beatles para alguma estação britânica em que se ouve a voz de John Lennon, de Paul, de George (menos) e nada da fala de Ringo. O locutor diz: “Ringo, diga alguma coisa.” Ele: “au!, au!, au!”

Sem aviso, acho que até para ele, e bem mais tarde, começaram a dizer: “Não, Ringo era um bom baterista”, “a bateria de Ringo era essencial para a qualidade da música dos Beatles” e, por aí vai. Sua personalidade um tanto histriônica, de certo modo, o deixou em evidência, depois do fim dos Beatles (é autor de, praticamente, um sucesso solo: It Don’t Come Easy), meio como uma celebridade, e nem tanto como músico. Quem “resolveu” colocá-lo no céu foram os membros da banda britânica Oasis, a ponto de o filho de Ringo, Zak Starkey ter-se tornado membro como baterista.

Pois, não é que lembraram dele para se apresentar no Brasil? A preços exorbitantes. Não conheço ninguém que foi vê-lo. Bem, não deixa de haver alguma magia em assistir a uma apresentação de Ringo Starr, imagino

Harrison e Clapton nos backing vocals na “ONU”, em Water
Só o amigo Rui Moreira Leite para achar um elo entre as apresentações tão próximas de Eric Clapton e Ringo Starr. Rui foi “buscá-lo” em um filme, que nem deve ter sido exibido no Brasil, chamado Water. Não assisti, portanto não posso dizer muita coisa dele. Pelo que li na internet, faz aquele gênero “comédia maluca” e foi dirigido por Dick Clement e estrelado por Michael Caine e Valerie Perrine. Water é uma produção da HandMade Films – mais um “elo” –, de George Harrison.

O Rui, que viu o filme (tem no YouTube, dividido em sete partes), disse que tem uma cena impagável satirizando a ex-primeira-ministra Margareth Thatcher. Todo esse papo furado serve para mostrar os dois juntos – Ringo e Clapton –, além de George Harrison, tocando juntos na banda de apoio de uma dupla de “revolucionários” (imagino) “cantando” na sede da ONU para uma plateia de representantes mundiais.






Assista ao vídeo: