| Two skinny heavyweights, segundo o LA Times |
Tudo isso é coisa de muito tempo atrás, e os sectarismos se abrandaram e hoje é perfeitamente possível gostar dos dois ao mesmo tempo, nunca igualmente, decerto. É como amor de mãe por seus rebentos: sempre dizem que gostam o mesmo tanto deles. Mentira. Preferências são preferências. Não posso imaginar alguém que na juventude era fanático por um dos mentores do movimento tropicalista, mesmo hoje, goste mais de Chico do que de Caetano; e o contrário vale.
Na erosão do tempo, tenho a impressão de que os buarquistas continuam tão ou mais apaixonados pelo compositor dos “olhos-d’água”. Silenciosamente, foi construindo uma obra consistente na música e na literatura (há controvérsias: conheço muitos que torcem seus narizes quando o assunto são seus romances). O mesmo não ocorre no seio caetanista. Pesam contra o costume de opinar sobre qualquer assunto. Não existe aquele ditado de que quem fala demais dá bom-dia a cavalo? Até Roberto Schwarz, caetanista de carteirinha (foi), andou entrando em polêmicas, principalmente, no que tange a questões políticas. O baiano continua atuante na música, bem mais que Chico, e na escrita também, com coluna semanal no Segundo Caderno de O Globo, sem falar dos livros até agora publicados. Faz parte de sua natureza se expor, para o bem e para o mal.
Caetano Veloso & David Byrne: Live at Carnegie Hall (Nonesuch Records) acaba de ser lançado no Brasil. Corresponde a uma apresentação realizada há oito anos, portanto, nem deve ser considerado novidade. Desse show, que fez parte de um evento chamado Perspectives, sete músicas são interpretadas por Caetano, seis por Byrne e duas com os dois juntos. Além deles no violão, temos apenas o violoncelo de Jacques Morelenbaum e as percussões de Mauro Refosco. Torna-se intimista, até pelo formato instrumental. Como ex-caetanista de carteirinha, nunca direi que a parte do brasileiro é chata. Acho apenas déjà vu quando ouço Leãozinho, Você É Linda, Coração Vagabundo e Sampa. Terra é maravilhosa, sempre; Desde Que o Samba É Samba também.
O bom mesmo é ouvir David Byrne interpretando canções da época do Talking Heads em versões “unplugged”. And She Was, Life During Wartime, Road to Nowhere e Heaven são as que Byrne canta. Uma única da época dos TH é cantada pelos dois: [Nothing But] Flowers; em Heaven faz um backing vocals pra lá de discreto. Qualquer admirador dos TH (sou um deles) baba na camiseta. São clássicos e a performance de David nesse show é de primeira. Isso faz valer a compra do CD. Não se pode dizer que a parte de Caetano seja ruim. Se uma parte é boa, isso não significa que a outra não seja. É que, diante da profusão de registros que temos das músicas cantadas por Caetano em gravações ao vivo, no Brasil, não serão pelas interpretações contidas neste disco que valerá a pena. Vá lá: digamos que a parte de Caetano é boa; só que a de Byrne é ótima.
Ouça Life After Wartime, dos Talking Heads em versão “unplugged”
Ouça o duo de Caetano e Byrne em [Nothing But] Flowers, composição da época dos TH. Depois vem um clássico dos Heads: Heaven.
