quinta-feira, 31 de maio de 2012

A parte boa de Live at Carnegie Hall, com Caetano Veloso e David Byrne

Two skinny heavyweights, segundo o LA Times
Em fins dos anos 1960 em diante, na época dos festivais, surgiram dois nomes polarizadores dos gostos dos jovens. Quem gostava de Chico Buarque odiava Caetano Veloso e vice-versa. Essa polarização acontecia entre simpatizantes da esquerda. Trotskistas odiavam os stalinistas e, vice-versa. Não era direita versus esquerda. Ironicamente, não é só entre opostos que ocorrem as mais encarniçadas brigas. Gostar de Caetano ou de Chico era marcar uma posição. Ensaios e artigos escritos por Augusto de Campos, Celso Favaretto, Gilberto Vasconcelos – autor de Música Popular: De Olho na Fresta – e Roberto Schwarz se constituíam em arsenais teóricos que apenas reforçavam os argumentos do time caetanista.

Tudo isso é coisa de muito tempo atrás, e os sectarismos se abrandaram e hoje é perfeitamente possível gostar dos dois ao mesmo tempo, nunca igualmente, decerto. É como amor de mãe por seus rebentos: sempre dizem que gostam o mesmo tanto deles. Mentira. Preferências são preferências. Não posso imaginar alguém que na juventude era fanático por um dos mentores do movimento tropicalista, mesmo hoje, goste mais de Chico do que de Caetano; e o contrário vale.

Na erosão do tempo, tenho a impressão de que os buarquistas continuam tão ou mais apaixonados pelo compositor dos “olhos-d’água”. Silenciosamente, foi construindo uma obra consistente na música e na literatura (há controvérsias: conheço muitos que torcem seus narizes quando o assunto são seus romances). O mesmo não ocorre no seio caetanista. Pesam contra o costume de opinar sobre qualquer assunto. Não existe aquele ditado de que quem fala demais dá bom-dia a cavalo? Até Roberto Schwarz, caetanista de carteirinha (foi), andou entrando em polêmicas, principalmente, no que tange a questões políticas. O baiano continua atuante na música, bem mais que Chico, e na escrita também, com coluna semanal no Segundo Caderno de O Globo, sem falar dos livros até agora publicados. Faz parte de sua natureza se expor, para o bem e para o mal.

Caetano Veloso & David Byrne: Live at Carnegie Hall (Nonesuch Records) acaba de ser lançado no Brasil. Corresponde a uma apresentação realizada há oito anos, portanto, nem deve ser considerado novidade. Desse show, que fez parte de um evento chamado Perspectives, sete músicas são interpretadas por Caetano, seis por Byrne e duas com os dois juntos. Além deles no violão, temos apenas o violoncelo de Jacques Morelenbaum e as percussões de Mauro Refosco. Torna-se intimista, até pelo formato instrumental. Como ex-caetanista de carteirinha, nunca direi que a parte do brasileiro é chata. Acho apenas déjà vu quando ouço Leãozinho, Você É Linda, Coração Vagabundo e Sampa. Terra é maravilhosa, sempre; Desde Que o Samba É Samba também.

O bom mesmo é ouvir David Byrne interpretando canções da época do Talking Heads em versões “unplugged”. And She Was, Life During Wartime, Road to Nowhere e Heaven são as que Byrne canta. Uma única da época dos TH é cantada pelos dois: [Nothing But] Flowers; em Heaven faz um backing vocals pra lá de discreto. Qualquer admirador dos TH (sou um deles) baba na camiseta. São clássicos e a performance de David nesse show é de primeira. Isso faz valer a compra do CD. Não se pode dizer que a parte de Caetano seja ruim. Se uma parte é boa, isso não significa que a outra não seja. É que, diante da profusão de registros que temos das músicas cantadas por Caetano em gravações ao vivo, no Brasil, não serão pelas interpretações contidas neste disco que valerá a pena. Vá lá: digamos que a parte de Caetano é boa; só que a de Byrne é ótima.

Ouça Life After Wartime, dos Talking Heads em versão “unplugged”




Ouça o duo de Caetano e Byrne em [Nothing But] Flowers, composição da época dos TH. Depois vem um clássico dos Heads: Heaven.

terça-feira, 29 de maio de 2012

É hoje o lançamento de The Absence, o novo álbum de Melody Gardot

Sofrimento faz coisa, mas não faz bem à saúde. É, porém, boa fonte inspiradora para canções. As formas (ou os jeitos) de se sofrer são muito parecidas, quase arquetípicas e, imagino que, por isso, canções tristes, as chamadas “torch songs”, fazem tanto sucesso: as pessoas se veem nelas. Ao se ouvir Gloomy Sunday, por exemplo, impossível não pensar naquela melancolia que nos acomete quando se aproxima o fim dos domingos. Ou, quem não passou por sentimentos parecidos com os narradas por Edu Lobo em Pra Dizer Adeus (Ah, pena eu não saber/ Como te contar/ Que o amor foi tanto/ E no entanto eu queria dizer/ Vem/ Eu só sei dizer/ Vem/ Nem que seja só/ Pra dizer adeus”), ou tenha sentido o mundo se acabar como em Canção em Modo Menor, de Antônio Carlos Jobim (“Porque cada manhã me traz/ O mesmo sol sem resplendor/ E o dia é só um dia a mais/ E a noite é sempre a mesma dor/ Porque o céu perdeu a cor/ E agora em cinzas se desfaz.”)? Melody Gardot, em seu pouco tempo de carreira, mostrou-se ótima intérprete de “torch songs”. (leia o post passado – “Melody Gardot é o máximo” –, e http://bit.ly/KLItEp)

Em The Absence, com lançamento marcado para hoje, 29 de maio, Melody, apesar do título – “ausência” – parece mais feliz e anda flertando bem com a música brasileira; tem até música chamada Iemenjá. Tem batucada, violões que lembram nossos conjuntos de choro. Há uma música cantada em português (sotaque brasileiro), e outra, que se chama Lisboa. Com tantos elementos da nossa terra e da terrinha, não é mera coincidência que a produção seja de Heitor Pereira. Para quem está estranhando o nome, lembre-se de Simplesmente Complicado e Melhor Impossível. Não, ele não contracena com Alec Baldwin nem com Jack Nicholson; é autor da trilha sonora dos dois filmes. Heitor tornou-se músico requisitado pelos lados de Hollywood. Outro refresco: com o nome cunhado como Heitor TP, foi guitarrista da banda de Mick Hucknal, o Simply Red, por boas temporadas.

Gardot apresentou-se em 2010, em Portugal, na turnê de lançamento de You’re My Only Thrill. Ficou encantada com Lisboa. Pelas notas de pré-lançamento, o CD foi inspirado pelas ruas de Lisboa, praias do Brasil, paisagens do Marrocos e Buenos Aires.

É um disco mais alegre que triste, Gardot fez um disco mais “pra cima”. Confesso minha predileção pelas canções sofridas de Melody. Prefiro-a triste a alegre: o sofrimento sempre foi melhor inspiração para uma infinidade de intérpretes. Mais que português, é um álbum com espírito brasileiro, responsabilidade, imagino, do produtor brasileiro.

Mesmo sendo “pra cima”, o lado sombrio está sempre presente; faz parte dela. Quando predomina a dor, Melody é soberana. É o caso de So We Meet Again My Heartache. Por enquanto, é a minha preferida. Ouça.




Impossible Love é um meio tango; If I Tell You I Love começa lembrando um fado; Goodbye inclina-se para o tango, com direito a um belo Hammond, um piano e um trumpete com surdina meio à antiga. My Heart Won’t Have It Any Other é outro destaque, com violões bem brasileiros, uma orquestração cheia de matizes, com uma bela colcha de cordas e notas esparsas de sopros. Iemenjá, que fecha o disco é meio-brasileira, meio-latina, meio-mambo, meio-Novos Baianos. Gardot solta um “É na Bahia, Iemenjá”. Para os de cá cheira à apelação. Mas, tá perdoada.

Ouça Goodbye.




Melody Gardot antecipa o CD no programa de Jools Holland cantando Mira, a primeira do CD.