terça-feira, 29 de maio de 2012

É hoje o lançamento de The Absence, o novo álbum de Melody Gardot

Sofrimento faz coisa, mas não faz bem à saúde. É, porém, boa fonte inspiradora para canções. As formas (ou os jeitos) de se sofrer são muito parecidas, quase arquetípicas e, imagino que, por isso, canções tristes, as chamadas “torch songs”, fazem tanto sucesso: as pessoas se veem nelas. Ao se ouvir Gloomy Sunday, por exemplo, impossível não pensar naquela melancolia que nos acomete quando se aproxima o fim dos domingos. Ou, quem não passou por sentimentos parecidos com os narradas por Edu Lobo em Pra Dizer Adeus (Ah, pena eu não saber/ Como te contar/ Que o amor foi tanto/ E no entanto eu queria dizer/ Vem/ Eu só sei dizer/ Vem/ Nem que seja só/ Pra dizer adeus”), ou tenha sentido o mundo se acabar como em Canção em Modo Menor, de Antônio Carlos Jobim (“Porque cada manhã me traz/ O mesmo sol sem resplendor/ E o dia é só um dia a mais/ E a noite é sempre a mesma dor/ Porque o céu perdeu a cor/ E agora em cinzas se desfaz.”)? Melody Gardot, em seu pouco tempo de carreira, mostrou-se ótima intérprete de “torch songs”. (leia o post passado – “Melody Gardot é o máximo” –, e http://bit.ly/KLItEp)

Em The Absence, com lançamento marcado para hoje, 29 de maio, Melody, apesar do título – “ausência” – parece mais feliz e anda flertando bem com a música brasileira; tem até música chamada Iemenjá. Tem batucada, violões que lembram nossos conjuntos de choro. Há uma música cantada em português (sotaque brasileiro), e outra, que se chama Lisboa. Com tantos elementos da nossa terra e da terrinha, não é mera coincidência que a produção seja de Heitor Pereira. Para quem está estranhando o nome, lembre-se de Simplesmente Complicado e Melhor Impossível. Não, ele não contracena com Alec Baldwin nem com Jack Nicholson; é autor da trilha sonora dos dois filmes. Heitor tornou-se músico requisitado pelos lados de Hollywood. Outro refresco: com o nome cunhado como Heitor TP, foi guitarrista da banda de Mick Hucknal, o Simply Red, por boas temporadas.

Gardot apresentou-se em 2010, em Portugal, na turnê de lançamento de You’re My Only Thrill. Ficou encantada com Lisboa. Pelas notas de pré-lançamento, o CD foi inspirado pelas ruas de Lisboa, praias do Brasil, paisagens do Marrocos e Buenos Aires.

É um disco mais alegre que triste, Gardot fez um disco mais “pra cima”. Confesso minha predileção pelas canções sofridas de Melody. Prefiro-a triste a alegre: o sofrimento sempre foi melhor inspiração para uma infinidade de intérpretes. Mais que português, é um álbum com espírito brasileiro, responsabilidade, imagino, do produtor brasileiro.

Mesmo sendo “pra cima”, o lado sombrio está sempre presente; faz parte dela. Quando predomina a dor, Melody é soberana. É o caso de So We Meet Again My Heartache. Por enquanto, é a minha preferida. Ouça.




Impossible Love é um meio tango; If I Tell You I Love começa lembrando um fado; Goodbye inclina-se para o tango, com direito a um belo Hammond, um piano e um trumpete com surdina meio à antiga. My Heart Won’t Have It Any Other é outro destaque, com violões bem brasileiros, uma orquestração cheia de matizes, com uma bela colcha de cordas e notas esparsas de sopros. Iemenjá, que fecha o disco é meio-brasileira, meio-latina, meio-mambo, meio-Novos Baianos. Gardot solta um “É na Bahia, Iemenjá”. Para os de cá cheira à apelação. Mas, tá perdoada.

Ouça Goodbye.




Melody Gardot antecipa o CD no programa de Jools Holland cantando Mira, a primeira do CD.



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