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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Enrico Rava e o meu gosto pela escolha dos títulos

Com um bigode de respeito, na foto de perfil da capa de “Ah” (ECM, 1979), ficava a dúvida: fazia parte do trompete ou dele mesmo? Quarenta e um anos depois, continua com um bigode de respeito, agora, branco. Natural. Tem 81 anos. Impressionante como certos músicos, principalmente os de sopros, conseguem manter essa energia. Agora, aposentado, Sonny Rollins é a prova disso. Até 2012, com 82 anos, estava se apresentando. Minha teoria é a de que a saúde dos pulmões é tudo na vida de alguém, sendo músico ou não.

Por considerar que tudo da ECM era bom, simplesmente, fui comprando tudo o que era lançado pelas gravadoras brasileiras. Não foram muitos. Jazz nunca vendeu aqui. Todo o resto do que tenho do selo é importado, três vezes mais caro, se bem que, na era dos LPs, a qualidade da prensagem fazia valer a pena. Mas foi assim que conheci Enrico Rava: “Ah” saiu no Brasil. Nem fazia ideia de quem era.

Foi o primeiro músico italiano de jazz italiano que conheci. Imagino que seja pouco conhecido no Brasil, apesar de ter se apresentado aqui em um desses festivais de jazz. Se não me engano, foi o único título dele lançado aqui. Todos os que tenho, fora “Ah”, são importados. 

Com o passar do tempo, fui conhecendo melhor o jazz italiano, ouvindo Paolo Fresu, Enrico Pieranunzi, Stefano Battaglia, Franco D’Andrea, Danilo Rea, Enzo Pietropaoli, e outros mais. Fui descobrindo muita música boa por meio de selos como Splasc(h) Records e o CAM Jazz. No início da década de 1980, comecei a me interessar pelo jazz de vanguarda, feito por músicos como Anthony Braxton, Art Ensemble o Chicago, Air, composto por Henry Threadgill, Fred Hopkins e Steve McCall. Desse modo, acabei descobrindo que uma das principais gravadoras que lançava esse tipo de música, era italiana. A Black Saint e a Soul Note, se não me engano, são hoje do grupo CAM Jazz.

Atração por títulos. Ouço música até dormindo. Tenho equipamentos de som espalhados pela casa. Meu quarto abriga uma caixa de som Altec Lansing, com entrada específica para os antigos iPods. Acoplo um dos meus de140 mb. É o fundo musical para o início do meu sono. Com ele posso calcular a minha insônia. Considerando-se que cada álbum tem entre 40 a 70 minutos, se depois de terminada a audição do título escolhido, e não peguei no sono, sei que a noite vai ser longa. Se durmo na segunda ou terceira música, bom sinal. Vou levantar melhor disposto.

Ultimamente tenho ouvido os álbuns de Enrico Rava do iPod que está conectado. Um que me chamou a atenção, por causa do título, foi “The Pilgrim and te Stars” (ECM, 1975). É com essa composição, de sua lavra, que começa. Tocam com o italiano John Abercrombie (guitarra), Palle Danielsson (contrabaixo) e o Jon Christensen (bateria). Quem acompanha o que a ECM lançou até hoje, conhece bem os dois últimos. Faziam parte do quarteto europeu de Keith Jarrett, e, mais tarde, do quarteto de Bobo Stenson. Gosto bastante da primeira, da terceira (“Bella”), e minha preferida é “By the Sea”, bem vigorosa, com John Abercrombie na guitarra, minimalista e essencial na música, com forte marcação do contrabaixo de Palle Danielsson. Ouça as três pelo playlist que fiz no Spotify.

Outro título que atraiu a minha atenção, pelo título, também, foi “The World and the Days” (ECM, 2007). Nem é tão original, mas me soa bonito. Penso no termo “world” sem o “L”. O “mundo”, o “universo”, e a “palavra”. A linguagem constrói o mundo. Neste, todos os que tocam com ele são seus conterrâneos:\ Gianluca Petrella (trombone), Andrea Pozza (piano), Rosario Bonaccorso (baixo) e Roberto Gatto (bateria). A música título é de sua autoria. Os destaques são o clássico “The Wind”, de Russ Freeman, “Tutù” e “Todamor’, essas, dele. Há uma diferença bem grande entre os sons de 1975 e o de 2007, afinal, são mais de trinta anos entre os dois. As energias são diferentes. O que se mantém é o seu sopro sem vibrato, firme, às vezes, dramático, ondulante. Ele e Paolo Fresu são os grandes no trompete e no flugelhorn, na Itália.

Uma discografia apressada. A maioria de seus álbuns foi lançada pela ECM. Lançou outros por selos italianos e também pelo Label Bleu, francês. Na lista abaixo, destaco alguns, os que saíram depois do início deste século.

Cito, sem ordem cronológca, alguns. O primeiro é “Tati” (ECM, 2005). O diferencial é a ausência de um contrabaixo. É um trio com o piano de Stefano Bolani e bateria de Paul Motian/ Meus destaques são “The Man I Love”, grande clássico dos irmãos Gershwin, espetacular, e “E lucevan le stelle”, a belíssima ária da “Tosca”, de Gioacomo Puccini. Esta, me conecta à gravação do “Concierto de Aranjuez”, por Miles Davis, com arranjos de Gil Evans. As citadas estão no playlist abaixo.

O próximo é “The Third Man” (ECM, 2007), novamente com o jovem pianista — em comparação a Rava, um octogenário — Stefano Bollani, um dos grandes talentos da atualidade, com formação erudita — gravou “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, com regência de Riccardo Chailly. É um duo com momentos sublimes, como nas versões de “Estate”, “Retrato em Branco e Preto”, de Antônio Carlos Jobim, e na a canção título, composição dos dois.

“New York Days” (ECM, 2009) é belíssimo, melancólico, seguindo o famigerado padrão ECM — tem gente que odeia —, novamente, com o brilhante Bollani, que arrasa, com discrição, leveza e muita poesia emanando de seus dedos. Os outros componentes são americanos, o, às vezes frio, muito bom nesse seu estilo contido, Mark Turner, Larry Grenadier, baixista que tocou bastante com Brad Mehldau, craque, e o sempre  genial Paul Motian. São destaques “Lulù”, “Interiors”, longa faixa em que Turner brilha, “Lady Orlando”, é tão soturna quanto a citada antes e, na mesma toada, “Biancasnow”, todas de autoria de Rava.

Termino com “Easy Living” (ECM, 2005), gravado com seu quinteto italiano. Em “Cromossomi”, inicia o álbum com uma longa introdução ao flugelhorn. Em seus álbuns, sempre, na maioria deles, as composições são suas, mas, eventualmente, inclui um clássico. Neste, é a música título. Rava é ótimo em standards de tons menores. Outra a se destacar é “Drops”.

Os últimos álbuns de Rava — “On the Dance Floor” (ECM, 2012) e “Wild Dance” (ECM 2012) — são medianos. Está com novo pianista, o jovem talento Giovanni Guidi. Agora, em 2020, saiu um ao vivo, com o saxofonista Joe Lovano — “Roma” —, registrado no Auditorium Parco della Musica, Roma, em 2017. É uma demonstração de que está muito bem ainda.

Ouça as músicas selecionadas.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Puccini é pop e é jazz

Até quem não gosta de ópera ou de música erudita e nunca viu “Cantando na Chuva”, por não gostar de musicais, deve ter ouvido “Nessum dorma”, uma das árias mais conhecidas. Depois dos milhões de álbuns vendidos de “Three Tenors”, com Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras, árias como de Giacomo Puccini, citada acima, caíram, como se dizia antigamente, “na boca do povo”. Quem não a conhece a desse disco – tudo é possível –, deve conhecê-la na interpretação de Andrea Bocelli, o tenor mais pop do mundo, ou, quem sabe, com o espetaculoso André Rieu.

Questão de gosto. A ópera é daquele gênero “amo ou odeio”. Os libretistas capricham em enredos fantasiosos e teatralidade exuberante. Traições, violência, paixões, finais trágicos, nem tudo é leve e engraçado como nas “Bodas de Fígaro” e “Flauta Mágica”, de Mozart. É um gênero over por natureza, e exige uma certa sofisticação cultural/musical de seu ouvinte.

Alguns escolheram cenários que podem ser considerados exóticos, como Verdi, em “Aída”, no antigo Egito, como gancho, em razão da inauguração do canal de Suez, ou o Japão, para cantar a impossibilidade do amor de um tenente americano por uma gueixa. “Turandot”, ópera que Puccini não conseguiu concluir, o cenário é a China.

A ária “Nessum dorma” é a mais conhecida dessa ópera. É Calaf, um dos pretendentes da princesa Turandot, quem canta. Dentre as inúmeras gravações, a dirigida por Zubin Mehta, com Joan Sutherland e Luciano Pavarotti, de 1972, é considerada um clássico.

Ouça “Nessum dorma”, com o italiano.




Tão conhecida e sublime, natural que existam gravações como no jazz, com o trumpetista Lester Bowie e sua Brass Fantasy e até uma com o roqueiro Jeff Beck.

Comecemos com Jeff Beck.




Com Lester Bowie.




E lucevan le stelle
Em cenário mais familiar, Itália, mais precisamente, o pintor Mario Cavaradossi aguarda sua execução, no terceiro ato. É quando canta “E lucevan le stelle”, lembrando-se de sua amada Tosca. É uma ópera com belo libretto e merece ser conhecida até por quem não gosta do gênero. Várias árias são clássicas, sendo “E lucevan…” a mais bela. Uma grande montagem, com cenários de Franco Zefirelli, é a do Metropolitan, regência de Giuseppe Sinopoli, com Hildegard Behrens e Placido Domingo.  É a apresentada aqui.




Alguns músicos mais ligados ao jazz fizeram boas gravações dessa ária. Uma delas é a de Grover Washington Jr, no álbum “Aria”.




Outra bem boa, que postei no YouTube e foi bloqueada é a presente em “Tati” (ECM, 2005). Não foi seu único registro. Ouça a que está em “Rava l’opéra va” (Label Bleu).




terça-feira, 11 de outubro de 2011

O amor de Stefano Bollani pelo Brasil

A Itália ama o Brasil e a recíproca é verdadeira. Barbara Casini gravou compositores brasileiros e cantando na nossa língua. Se é Tom Jobim, tudo bem: o mundo grava Tom. Quando se entra no terreno do samba ou do chorinho, a coisa é um pouco mais específica.

O “brasileiro” Bollani
Stefano Bollani queria ser cantor. Moleque ainda, gravou uma fita cassete (para quem não sabe o que é isso, imagine que é uma fita magnética em que se gravava, como nos CDs de hoje) e enviou-a ao seu ídolo Renato Carosone. Recebeu como resposta um aconselhamento: que ouvisse bastante blues e jazz. Foi o que fez. O próximo passo importante para a futura carreira de pianista – cantor, bem ocasionalmente – foi ter conhecido Enrico Rava. O trumpetista convidou-o para acompanhá-lo em uma apresentação em Paris. Disse-lhe: “Você é jovem e não tem família. Assuma o risco, desista do pop e abrace a música que você ama.” Jazz; que fique subentendido que era esse o gênero. Explicação suplementar: quando criança, o gosto de Bolani era pela música popular, e, como é natural, ampliou-se.

Falando de Amor, disco de 2003, de Stefano Bollani, é dedicado a Tom Jobim. O compositor de Garota de Ipanema é tão internacional que podemos dizer que o primeiro disco verdadeiramente brasileiro do italiano é Carioca, de 2008. Basta observar a lista das canções gravadas: Luz Negra, Ao Romper da Aurora, Choro Sim, Valsa Brasileira, A Voz do Morro, Hora da Razão, Segura Ele, Doce de Coco, Folhas Secas – não vou citar tudo –, Samba e Amor, Tico-Tico no Fubá, Caprichos do Destino, Trem das Onze. É uma bela amostragem: vai de samba, de choro, de Chico Buarque, Nelson Cavaquinho, Zequinha de Abreu, de Monica Salmaso e Zé Renato em participações vocais, do divino violão de Marco Pereira, e da percussão de Marçalzinho. Carioca é, essencialmente, brasileiro.

E, não para por aí. No CD Stone in the Water, pela ECM, em 2009, temos Dom de Iludir e Brigas Nunca Mais. Para completar, Bollani gravou um emocionante Retrato em Branco e Preto no álbum que divide com seu mentor, o trumpetista Enrico Rava, em Third Man (sobre esse assunto, leia: http://bit.ly/orcz9X).

Tico-Tico no Fubá foi gravada por Charlie Parker, mas alguém imaginaria que um “estrangeiro” fosse gravar A Voz do Morro, de Zé Keti? Incomum, não? Mais ainda, alguém gravar o clássico paulista Trem das Onze… e cantar, em português (e italiano na segunda parte). Curioso que não é a primeira vez que grava essa canção tão consagrada por Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa. Em Småt Småt, de 2004, há uma excelente interpretação de Bollani de Trem das Onze (no título há um complemento: Figlio mio). É a que você vai ouvir.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O dramaticamente belo retrato em branco e preto de Enrico Rava

Enrico Rava é um velho fornecedor de pérolas para a gravadora ECM, de Manfred Eicher (leia: http://bit.ly/pcM9QE). É uma parceria que, de tão antiga, possivelmente, ultrapassa a idade de algum incauto leitor desse blogue. No fim dos anos 1970, num momento de pura insanidade, uma gravadora brasileira lançou um pacote de LPs da ECM. Parte do povo que conhecia o Köln Concert, de Keith Jarrett, e sabia da existência dessa gravadora alegrou-se por esse auspicioso acontecimento.

Além de Jarrett, o cast era de tirar o chapéu. Tivemos a chance de conhecer um jovem que nem tinha completado 18 anos quando gravou seu primeiro disco (Pat Metheny), e também a sorte de saber que existia vida musical de grande qualidade nos países nórdicos. Conhecê-los ampliava o espectro do que tínhamos como sendo jazz.

Aqueles que estavam perto de vinte anos viram nesses lançamentos uma alternativa ao jazz mainstream e ao que era chamado de jazz fusion ou jazz-rock. A ECM representava uma preferência interessante por abrir espaços como o de Jarrett poder realizar um disco solo de improviso, coisa que, provavelmente não se viabilizaria nos EUA. Chick Corea tinha abraçado a eletrificação, mas lhe foi dada a oportunidade de realizar dois discos solo (Piano Improvisations vol. 1 e vol.2), ou entrar no terreno da experimentação, gravando com Anthony Braxton.

Mais que isso, permitiu-nos o contato com músicas europeus de quem pouco conhecíamos, como Jan Garbarek, Eberhard Weber, Barre Philips e Terje Rypdal. Enrico Rava é parte desses anos iniciais da ECM.

Rava, que teve seu primeiro disco pela ECM em 1975 – The Pilgrim and the Stars. Antes desse, lançara, como solista, um disco pela italiana Black Saint – Il Giro del Giorno in 80 Mondi – em 1972. Percebem-se influências de Miles Davis – sua primeira inspiração – e do sopro quase sem vibrato de Chet Baker, mas isso são apenas influências. Rava não é o mais rápido do oeste porque, no cerne de seu som, importa a intensidade melódica de seu trumpete, e nisso é soberano.

Em Pilgrim, Rava tocou com o guitarrista John Abercrombie, o baixista Palle Danielsson e Jon Christensen. Essa formação realçou o que era designado como “som ECM”. Com os mesmos músicos, lançou The Plot, em 1977. No ano seguinte, lançou Enrico Rava Quartet, com a participação do trobonista Roswell Rudd. O álbum a seguir foi “Ah”, gravado com o pianista Franco D’Andrea, o baixista Giovanni Tommaso, e com o “estrangeiro” Bruce Ditmas na bateria. É um dos pontos altos de sua primeira fase ECM. A maioria dos temas compostos por Rava é tocado de forma vigorosa e fogem um pouco da tendência ECM; e contrariando brevemente o que disse de seu estilo, mais para o melódico, se esmera em ágeis solos em linhas ascendentes e descendentes serpenteantes. Em 1981 gravou ainda Opening Night.

Antes e depois: bigode e cabelo iguais 
O “rittorno” de Rava à ECM acontece em 2004 com o CD Easy Living. Nessa última fase, seu parceiro mais constante tem sido o pianista Stefano Bollani. O destaque desse álbum são as belas combinações do som do trumpete com o do trambone de Gianluca Petrella. Tati (2004) é um disco com temas melancólicos em que é acompanhado apenas por Bollani e Paul Motian, o rei da bateria minimalista. Com a mesma formação de Easy Living, com Andrea Pozza substituindo Bollani, gravou The Words and the Days (2005). Lançou a seguir, em 2006, The Third Man, belíssimo duo com Bollani; dois anos depois, foi a vez de New York Days, com participação do saxofonista tenor Mark Turner.

Apesar da referência aos discos da segunda fase ECM de Rava, o motivo principal é uma música específica do duo que fez com Bollani. Um tanto em razão de natural identificação, o destaque aqui é Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim. Nem vou cair na besteira de dizer qual é a de que mais gosto para não arrumar encrenca. Tampouco direi que a minha preferida é a de João Gilberto, e menos ainda a de Elis Regina e Jobim do clássico Elis & Tom. É, no entanto, nesse disco que está o que considero a mais perfeita síntese dessa música: o último acorde ao piano de Tom. Ouça:



No CD com Bollani constam duas interpretações. É a segunda que você vai ouvir. O piano é climático e dramático, e o trumpete de Rava mais ainda. Toda a dor de sublimes versos como E o que é que eu posso contra o encanto,/ Desse amor que eu nego tanto/ Evito tanto e que, no entanto,/ Volta sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes, velhos fatos,/ Que num álbum de retratos/ Eu teimo em colecionar. estão desenhadas nas notas de Enrico Rava.

João canta Retrato em Branco e Preto.



Leia também “A beleza dramática do piano de Mal Waldron” em http://bit.ly/nE5dGg