Além de Jarrett, o cast era de tirar o chapéu. Tivemos a chance de conhecer um jovem que nem tinha completado 18 anos quando gravou seu primeiro disco (Pat Metheny), e também a sorte de saber que existia vida musical de grande qualidade nos países nórdicos. Conhecê-los ampliava o espectro do que tínhamos como sendo jazz.
Aqueles que estavam perto de vinte anos viram nesses lançamentos uma alternativa ao jazz mainstream e ao que era chamado de jazz fusion ou jazz-rock. A ECM representava uma preferência interessante por abrir espaços como o de Jarrett poder realizar um disco solo de improviso, coisa que, provavelmente não se viabilizaria nos EUA. Chick Corea tinha abraçado a eletrificação, mas lhe foi dada a oportunidade de realizar dois discos solo (Piano Improvisations vol. 1 e vol.2), ou entrar no terreno da experimentação, gravando com Anthony Braxton.
Mais que isso, permitiu-nos o contato com músicas europeus de quem pouco conhecíamos, como Jan Garbarek, Eberhard Weber, Barre Philips e Terje Rypdal. Enrico Rava é parte desses anos iniciais da ECM.
Rava, que teve seu primeiro disco pela ECM em 1975 – The Pilgrim and the Stars. Antes desse, lançara, como solista, um disco pela italiana Black Saint – Il Giro del Giorno in 80 Mondi – em 1972. Percebem-se influências de Miles Davis – sua primeira inspiração – e do sopro quase sem vibrato de Chet Baker, mas isso são apenas influências. Rava não é o mais rápido do oeste porque, no cerne de seu som, importa a intensidade melódica de seu trumpete, e nisso é soberano.
Em Pilgrim, Rava tocou com o guitarrista John Abercrombie, o baixista Palle Danielsson e Jon Christensen. Essa formação realçou o que era designado como “som ECM”. Com os mesmos músicos, lançou The Plot, em 1977. No ano seguinte, lançou Enrico Rava Quartet, com a participação do trobonista Roswell Rudd. O álbum a seguir foi “Ah”, gravado com o pianista Franco D’Andrea, o baixista Giovanni Tommaso, e com o “estrangeiro” Bruce Ditmas na bateria. É um dos pontos altos de sua primeira fase ECM. A maioria dos temas compostos por Rava é tocado de forma vigorosa e fogem um pouco da tendência ECM; e contrariando brevemente o que disse de seu estilo, mais para o melódico, se esmera em ágeis solos em linhas ascendentes e descendentes serpenteantes. Em 1981 gravou ainda Opening Night.
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| Antes e depois: bigode e cabelo iguais |
O “rittorno” de Rava à ECM acontece em 2004 com o CD Easy Living. Nessa última fase, seu parceiro mais constante tem sido o pianista Stefano Bollani. O destaque desse álbum são as belas combinações do som do trumpete com o do trambone de Gianluca Petrella. Tati (2004) é um disco com temas melancólicos em que é acompanhado apenas por Bollani e Paul Motian, o rei da bateria minimalista. Com a mesma formação de Easy Living, com Andrea Pozza substituindo Bollani, gravou The Words and the Days (2005). Lançou a seguir, em 2006, The Third Man, belíssimo duo com Bollani; dois anos depois, foi a vez de New York Days, com participação do saxofonista tenor Mark Turner.
Apesar da referência aos discos da segunda fase ECM de Rava, o motivo principal é uma música específica do duo que fez com Bollani. Um tanto em razão de natural identificação, o destaque aqui é Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim. Nem vou cair na besteira de dizer qual é a de que mais gosto para não arrumar encrenca. Tampouco direi que a minha preferida é a de João Gilberto, e menos ainda a de Elis Regina e Jobim do clássico Elis & Tom. É, no entanto, nesse disco que está o que considero a mais perfeita síntese dessa música: o último acorde ao piano de Tom. Ouça:
Apesar da referência aos discos da segunda fase ECM de Rava, o motivo principal é uma música específica do duo que fez com Bollani. Um tanto em razão de natural identificação, o destaque aqui é Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim. Nem vou cair na besteira de dizer qual é a de que mais gosto para não arrumar encrenca. Tampouco direi que a minha preferida é a de João Gilberto, e menos ainda a de Elis Regina e Jobim do clássico Elis & Tom. É, no entanto, nesse disco que está o que considero a mais perfeita síntese dessa música: o último acorde ao piano de Tom. Ouça:
No CD com Bollani constam duas interpretações. É a segunda que você vai ouvir. O piano é climático e dramático, e o trumpete de Rava mais ainda. Toda a dor de sublimes versos como E o que é que eu posso contra o encanto,/ Desse amor que eu nego tanto/ Evito tanto e que, no entanto,/ Volta sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes, velhos fatos,/ Que num álbum de retratos/ Eu teimo em colecionar. estão desenhadas nas notas de Enrico Rava.
João canta Retrato em Branco e Preto.
Leia também “A beleza dramática do piano de Mal Waldron” em http://bit.ly/nE5dGg

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