quarta-feira, 27 de julho de 2011

O dramaticamente belo retrato em branco e preto de Enrico Rava

Enrico Rava é um velho fornecedor de pérolas para a gravadora ECM, de Manfred Eicher (leia: http://bit.ly/pcM9QE). É uma parceria que, de tão antiga, possivelmente, ultrapassa a idade de algum incauto leitor desse blogue. No fim dos anos 1970, num momento de pura insanidade, uma gravadora brasileira lançou um pacote de LPs da ECM. Parte do povo que conhecia o Köln Concert, de Keith Jarrett, e sabia da existência dessa gravadora alegrou-se por esse auspicioso acontecimento.

Além de Jarrett, o cast era de tirar o chapéu. Tivemos a chance de conhecer um jovem que nem tinha completado 18 anos quando gravou seu primeiro disco (Pat Metheny), e também a sorte de saber que existia vida musical de grande qualidade nos países nórdicos. Conhecê-los ampliava o espectro do que tínhamos como sendo jazz.

Aqueles que estavam perto de vinte anos viram nesses lançamentos uma alternativa ao jazz mainstream e ao que era chamado de jazz fusion ou jazz-rock. A ECM representava uma preferência interessante por abrir espaços como o de Jarrett poder realizar um disco solo de improviso, coisa que, provavelmente não se viabilizaria nos EUA. Chick Corea tinha abraçado a eletrificação, mas lhe foi dada a oportunidade de realizar dois discos solo (Piano Improvisations vol. 1 e vol.2), ou entrar no terreno da experimentação, gravando com Anthony Braxton.

Mais que isso, permitiu-nos o contato com músicas europeus de quem pouco conhecíamos, como Jan Garbarek, Eberhard Weber, Barre Philips e Terje Rypdal. Enrico Rava é parte desses anos iniciais da ECM.

Rava, que teve seu primeiro disco pela ECM em 1975 – The Pilgrim and the Stars. Antes desse, lançara, como solista, um disco pela italiana Black Saint – Il Giro del Giorno in 80 Mondi – em 1972. Percebem-se influências de Miles Davis – sua primeira inspiração – e do sopro quase sem vibrato de Chet Baker, mas isso são apenas influências. Rava não é o mais rápido do oeste porque, no cerne de seu som, importa a intensidade melódica de seu trumpete, e nisso é soberano.

Em Pilgrim, Rava tocou com o guitarrista John Abercrombie, o baixista Palle Danielsson e Jon Christensen. Essa formação realçou o que era designado como “som ECM”. Com os mesmos músicos, lançou The Plot, em 1977. No ano seguinte, lançou Enrico Rava Quartet, com a participação do trobonista Roswell Rudd. O álbum a seguir foi “Ah”, gravado com o pianista Franco D’Andrea, o baixista Giovanni Tommaso, e com o “estrangeiro” Bruce Ditmas na bateria. É um dos pontos altos de sua primeira fase ECM. A maioria dos temas compostos por Rava é tocado de forma vigorosa e fogem um pouco da tendência ECM; e contrariando brevemente o que disse de seu estilo, mais para o melódico, se esmera em ágeis solos em linhas ascendentes e descendentes serpenteantes. Em 1981 gravou ainda Opening Night.

Antes e depois: bigode e cabelo iguais 
O “rittorno” de Rava à ECM acontece em 2004 com o CD Easy Living. Nessa última fase, seu parceiro mais constante tem sido o pianista Stefano Bollani. O destaque desse álbum são as belas combinações do som do trumpete com o do trambone de Gianluca Petrella. Tati (2004) é um disco com temas melancólicos em que é acompanhado apenas por Bollani e Paul Motian, o rei da bateria minimalista. Com a mesma formação de Easy Living, com Andrea Pozza substituindo Bollani, gravou The Words and the Days (2005). Lançou a seguir, em 2006, The Third Man, belíssimo duo com Bollani; dois anos depois, foi a vez de New York Days, com participação do saxofonista tenor Mark Turner.

Apesar da referência aos discos da segunda fase ECM de Rava, o motivo principal é uma música específica do duo que fez com Bollani. Um tanto em razão de natural identificação, o destaque aqui é Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim. Nem vou cair na besteira de dizer qual é a de que mais gosto para não arrumar encrenca. Tampouco direi que a minha preferida é a de João Gilberto, e menos ainda a de Elis Regina e Jobim do clássico Elis & Tom. É, no entanto, nesse disco que está o que considero a mais perfeita síntese dessa música: o último acorde ao piano de Tom. Ouça:



No CD com Bollani constam duas interpretações. É a segunda que você vai ouvir. O piano é climático e dramático, e o trumpete de Rava mais ainda. Toda a dor de sublimes versos como E o que é que eu posso contra o encanto,/ Desse amor que eu nego tanto/ Evito tanto e que, no entanto,/ Volta sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes, velhos fatos,/ Que num álbum de retratos/ Eu teimo em colecionar. estão desenhadas nas notas de Enrico Rava.

João canta Retrato em Branco e Preto.



Leia também “A beleza dramática do piano de Mal Waldron” em http://bit.ly/nE5dGg

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