Amo música de fossa. Para quem não é do tempo em que se usava essa expressão, usava-se quando você estava triste por dor de corno, por ter sido abandonado pela namorada ou namorado. Dizia-se: “estou na fossa”, “ele está na maior fossa”. Antes que se canalizasse o esgoto, fazia-se uma fossa, que era onde iam todos os dejetos da casa. Infelizmente, existe na maioria das casas dos brasileiros ainda, em pleno século 21. Então, “estar na fossa” era um caso sério.
1 Maria Bethânia - O Que Tinha de Ser
2 A.C. Jobim - Por Toda Minha Vida
3 Odette Lara & Edu Lobo - Canção do Amor Ausente
4 Paulinho da Viola - Sinal Fechado
5 Alaíde Costa - Insensatez
6 Maysa - Bom Dia, Tristeza
7 Nana Caymmi - Canção em Modo Menor
8 Edu Lobo & Maria Bethânia - Pra Dizer Adeus
9 Zé Miguel Wisnik - Pérola aos Poucos
10 Odette Lara & Vinícius de Moraes - Samba em Prelúdio
Vitor Araújo é um desses gênios que não aparece todos os dias. Pouco conhecido no Brasil, estreou com “A/B”, mostrando sua maestria ao piano e na composição, com o ciclo “Solidão”. No seguinte, “Levaguiã Terê”, álbum duplo de 2016, lançado pela gravadora alemã Nutriot Recordings, o som é um pouco diferente. Neste, claramente, percebe-se a influência de Thom Yorke, do Radiohead.
O texto a seguir foi em 24 de janeiro de 2013 e aborda o disco “A/B”.
Com certo atraso, vou falar de um rapaz chamado Vitor Araujo. Depois de ler no “Guia Livros Discos Filmes” da Folha (27/10/2012) o “5 perguntas para Vitor Araujo”, assinado por Manuel da Costa Pinto, fiquei bem curioso. Com pouco mais de 20 anos, o rapaz faz uma música entre o pop e o erudito.
Na primeira resposta, Vitor escreve sobre o conceito do álbum “A/B”: “Na minha forma de ver, existe unidade no disco. Consigo perceber que ele desenha um sentimento que aparece fortemente em todas as faixas – porém, claramente, olha para este sentimento de formas diametralmente opostas, antagônicas, por assim dizer. Sinto o disco como uma gradação, sinto uma narratividade. No ‘lado A’, existe um se deparar sobriamente com o sentimento de solidão; no ‘lado B’, uma dificuldade incrível de gerir tal sentimento e uma descrença na realidade. Cada um vai ter sua própria sensação, pois o ato de absorver um produto artístico está profundamente ligado a experiências individuais, como elas reverberam dentro de si.”
Perguntado sobre o que pesa mais, “o repertório erudito, o instrumental de Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal ou o registro pop”, responde: “Difícil dizer. Acho que “A/B” tem exatamente essa dificuldade em se ater a uma vertente específica. Prefiro conter em mim os meus estudos de Villa-Lobos, minha observação dos instrumentistas geniais e minha paixão desenfreada pelo Radiohead.”
Por fim, ao ser perguntado sobre a “relação entre Nietzsche citado no encarte e as dedicatórias das músicas a Modigliani, Renoir, Zé Celso, Bukowski, Tarantino e Angeli, entre outros”, responde que “o texto de Nietzsche contém em palavras muito do que eu tenho a dizer no disco através das melodias, das harmonias e, principalmente, pela forma como ele está organizado. As homenagens são para os artistas que me inspiraram fortemente em músicas específicas.”
Vai lá que vale a pena. O rapaz é bom.
Veja a brilhante interpretação de “Paranoid Android”, do Radiohead. O primeiro instrumentista a gravá-la foi o jazzista Brad Mehldau. Desde então, faz parte das apresentações dele. O de Vitor Araújo é excepcional. Confira.
Vitor toca “Asa Branca”.
Veja Vitor estraçalhando em “Baião”.
Veja Vítor executando “Solidão 1”, com orquestra, no SESC Belenzinho.
Como é uma repostagem com algumas alterações, veja Vitor na faixa de “Canto 3”, do álbum “Levaguiã Terê”, de 2016.
“Toque no. 1 (Rondó Fálcigo) é a primeira do álbum.
Menos conhecido em sua terra natal do que em certos países, Diego Figueiredo, paulista de Franca, é um cara boa praça, muito simpático. É um craque no violão, um dentre muitos que cá nasceram. O Brasil é o país do futebol e do violão. Bem tocado, é bom frisar. Desde Carlos Barbosa Lima, mais velho que Rogério Caetano, Yamandu Costa, Raphael Rabello e Marcus Pereira, apenas para lembrar de alguns, somos a terra das cordas, bem, posso estar exagerando.
Diego é inventor de uma forma de tocar o violão. Chama-se “siririca”. Tinha uns 14 anos e fazia violão clásssico. Quando estudava para toca uma música chamada “El Colibri”, descobriu que, em vez de usar o indicador e o médio, poderia usar o polegar para imprimir maior velocidade no dedilhado. Após uma apresentação, impressionada com sua técnica com o dedão, alguém perguntou-lhe se a técnica poderia ser usada só no violão ou para alguma outra coisa. Um primo de Diego, que ouviu a conversa e batizou-a de “siririca”. A história foi contada em um programa de Jô Soares. Se você quiser assistir – porque é muito boa, não só por isso, acesse pela internet https://globoplay.globo.com/v/3507956/. Nela, explica outra técnica: a “pinicada”. Um esclarecimento: parece que esta palavra caiu em desuso. É o mesmo que “beliscar”. Em um sentido semelhante, quando as blusas de lã (natural ou sintética) mais grosseiras irritavam no contato com a pele, falava-se que elas “pinicavam” ou que eram “piniquentas”.
Brincadeiras à parte, o cara é bom. A culpa de não ser tão conhecido é por viver a tocar em outros países e a música instrumental não faz tanto sucesso quanto a cantada. É um globetrotter, como o bandolinista Hamilton de Holanda.
Não é a primeira vez que Diego é citado nesse blogue. Em “Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo” , conto que foi considerado por duas vezes o melhor guitarrista no Festival de Montreux e impressionou o produtor Quincy Jones. Apesar da dificuldade de se encontrar um disco dele nas lojas — está cada vez mais difícil é encontrar lojas que vendem CDs, na verdade —, acessando seu site, vemos que tem vários títulos lançados. Vários foram distribuídos pela Atração Musical e, pelo menos um foi lançado pela Biscoito Fino: “Vivência” (2009). Neste álbuum é acompanhado de Eduardo Machado no baixo e Fernando Rast, Figueiredo toca exclusivamente a guitarra elétrica. É uma boa amostragem de sua versatilidade.
Em “Vivência”, um dos destaques é “Paschoa”.
Em outro CD, lançado em 2008, toca violão acústico com Robertinho Silva na bateria e Rodolfo Stroeter no contrabaixo. Saiu pelo selo dinamarquês Stunt. Neste, abordam clássicos do cancioneiro brasileiro como “Na Baixa do Sapateiro”, “Último Desejo”, “Lamentos do Morro”, “Berimbau”, “O Morro Não Tem Vez”, “A Felicidade” e “Consolação”. É sempre um prazer ouvir um bom violão, ainda mais com a batida de Robertinho.
O texto sobre João Rabello foi escrito na época em que foi lançado seu primeiro CD e não tinha sido publicado. Já lançou o segundo e disse-me no final do ano passado que estava gravando outro.
É impressionante o que a gravadora Biscoito Fino nos cobra por seus CDs. Acabo de receber um lançamento duplo da ECM – Robert Schumann: Geistervariationen, com András Schiff –, importado, por 59 reais. Pelo CD Uma Pausa de Mil Compassos paguei a bagatela de 48,90 reais, com frete incluso. Como o disco tem apenas 35 minutos, estou pagando R$ 1,43 por minuto. Caro, não? Se a gravadora se inspirou em Oswald de Andrade – “a massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico” – para nomear seu selo, devo argumentar que o biscoito fino nunca chegará às massas. Seus proprietários devem ter uma noção bem elitista em relação – usarei um vocábulo preconceituoso que pode servir de boa medida a eles – ao poder aquisitivo da patuleia.
A sorte é que João, que usa o sobrenome de sua mãe Lila, em vez do Farias do pai Paulinho, faz valer cada real e meio por minuto com sua precoce maestria. João pode servir de experiência aos cientistas que pesquisam se certos genes podem ser transmitidos de geração a geração, ou, se apenas o convívio é o suficiente para o aprendizado e o desabrochar do talento. De seu avô César nasceu Paulo e de Paulo, João; em comum o fato dos três serem ou terem sido exímios nas cordas. Pela parte materna teve um tio genial – Raphael – e possui uma tia – Luciana –, craque no cavaquinho.
No conjunto que acompanhava Paulinho da Viola, o segundo violão era de um circunspecto senhor, César, pai do cantor e compositor. Conheci Paulinho através do amigo Takashi Fukushima. Em vários almoços Paulinho trazia seu filho. Este passara a acompanhar o pai em suas apresentações tocando violão. João era muito sério. Nunca o vi dando um sorriso. Era de poucas palavras e por isso devo ter conversado muito pouco com ele. Paulinho é bom de conversa: a toda hora rola uma história.
No fim de 2006, sem alarde, foi lançado seu primeiro disco: Roendo as Unhas. Nem parecia ser de um estreante. É natural que se fique um pouco com o pé atrás. Linhagens familiares resultaram em Moreno Veloso, Claudia Leite, Sandy e seu irmão Júnior, Davi Moreira. Parentescos podem facilitar e dificultar também. No caso específico, não deve ser nada fácil ser filho de um gênio como Paulinho da Viola.
Mas fica evidente que João tem personalidade. O nome do pai não pesa em seus ombros e, tampouco o do tio Raphael. Como é novo, pela qualidade do primeiro disco, é possível prever que é um desdobramento de uma linhagem de músicos geniais, não só pela habilidade como instrumentista, mas como compositor também. As duas composições de João – uma terceira (Sarau para Cesar) tem o pai como parceiro – são uma prova de que estamos diante de alguém que tem a mão.
A quinta faixa se inicia calma e, a partir do segundo minuto toma outro rumo; fica dramática, e o seu minuto final é uma coda: ele retoma o tema inicial. Chama-se Leme. O título diz tudo. Rubro, a outra composição da lavra de João, começa tateante, como se ele estivesse à procura de um tema. São notas dramáticas, pensativas, e o silêncio é de ouro. Entre uma nota e outra, entre um acorde e outro, acompanhamos mentalmente sua construção . Não sei por que, mas me fez lembrar o violão de Dorival Caymmi em A Jangada Voltou Só (Caymmi e Seu Violão, 1959).
Veja-o executando Rubro, de sua autoria.
Leme é outra de sua autoria.
Era tão impressionante que não parecia ser de um estreante. Com muita personalidade abriu mão de ser divulgado como o filho do Paulinho da Viola. Ele mesmo foi seu produtor artístico e o pai, discretamente, participa de apenas duas faixas: na primeira – Roendo as Unhas –, dividindo os solos de violão, e em Sarau para Cesar, composição de ambos, em que Paulinho toca cavaquinho. João toca, no violão, mais uma do pai – Inesquecível –, original gravada em Memória Chorando (1976), mas composta em 1972, para o bandolim, em homenagem a Jacob do Bandolim.
João nasceu pronto. É o que mostra tocando Dança Brasileira e Tocata em Ritmo de Samba, de Radamés Gnattali, acompanhado apenas pelo baixo de Matias Correa, La Catedral, de de Agustín Barrios e Valsa Crioula, de Antonio Lauro, e a melancólica Inspiração, de Garoto. João mostra seus dotes de compositor Leme e Rubro.
Veja João executando La Catedral, de Agustín Barrios.
O português é campeão como motivo de piada. Os papagaios caíram no ostracismo. Contava-se muita piada de papagaios antigamente. Em honroso segundo lugar vem a sogra. E é um motivo perene. Mas, por que não o sogro? Por que a sogra entrou no rol das pessoas mais odiadas? Alguma razão deve existir mas, convenhamos, é uma injustiça para aquela parcela de sogras amadas. Conheci alguém que gostava mais da sogra do que da namorada. Não sei no que deu depois.
Pois Leonardo Padovani e Diogo Carvalho compuseram uma música chamada Suíte da Sogra. Detalhe: é uma suíte, não uma musiquinha de dois ou três minutos; é uma peça em quatro partes. Impossível saber se a sogra de um deles – ou de ambos – serviu de inspiração. Mas no encarte do CD estão detalhados o que constituem as partes. Após a observação inicial – “Nada contra a sogra! (nem a favor…). Imagine a visita de um parente chato: pode ser a tia, primo, cunhada, irmão, avó, enteado, etc.” – os movimentos são assim descritos:
1. A Chegada (com Heroísmo). Você acredita que suportará a sogra por alguns dias, mas os delírios do pensamento indicam o contrário. 2.Convívio. O violão representa o ilustre visitante com o cínico tema: “Oh! Que dia tranquilo!”, seguido da súbita irritação do genro/da nora, papel do violino. A mente tenta divagar para o delírio heróico da chegada, mas logo depois a realidade torna a se firmar. A tensão prevalece. 3.Ladainha. O sermão infinito, o papo irritante, a discussão bizantina. 4.A Comemoração da Partida. Dispensa comentários.
Ambos escolheram um tema inusitado para uma música. Pelo jeito, os dois gostam de piadas de sogra, e, aparentemente, não nutrem sentimentos muito favoráveis por elas. O bom é que fazem boa música com um assunto desses.
Mais inusitado que usar a sogra como motivo é um duo violão (Diogo) / violino (Leonardo). É uma combinação pouco comum na música. No Brasil então, o violino é pouco comum. Lembro só de Fafá Lemos, grande instrumentista que fez sucesso na década de 1950.
Em 2008, Diogo e Leonardo criaram o Duo Calavento, e agora, em 2014, estão lançando o primeiro CD, chamado Calavento, simplesmente, com distribuição da Tratore e disponibilizado para venda nos sites da Amazon e da loja iTunes. Das doze faixas, quatro foram compostas pelos dois (Janela do Sol, Calavento, Suíte da Sogra e Ponte das Cordas), uma é de Diogo (Concerto para Violão e Orquestra / Primeiro Movimento) e as restantes abarcam transcrições – ou adaptações, como acharem melhor – de peças eruditas (Debussy, Fauré, Satie, Tchaikovsky e Vittorio Monti), e uma é de Astor Piazzolla.
Violinos e violões. O violino é um instrumento da música erudita, por excelência, assim como o violão é da música popular. Isso não significa que o primeiro não esteja presente em outros gêneros e, da mesma forma, o violão. Para quebrarem a escrita, basta lembrar de Stephane Grappelli, Ray Nance ou Mark Feldman no jazz e o nosso Jorge Mautner na música popular. Mautner não é exatamente o que convenciona-se chamar de virtuose, talvez até Ray Nance. O mesmo não pode ser dito de Feldman.
Instrumentos de cordas não executados com arcos também possuem longa tradição. Existem desde o século V. Alaúdes, oud, bouzouk ou outro nome, todos são parentes do violão como o conhecemos atualmente. Extremamente popular nos paises ibéricos, é também no Brasil. Uma festa ou reunião nas décadas de 1960 e 1970 sem um violão não tinham graça. Todo garoto queria aprender a tocar violão, quer gostasse de João Gilberto ou os Rolling Stones. O violão era o estágio anterior para a guitarra elétrica para os futuros roqueiros.
Tão associados à música popular, não são muitas as peças eruditas compostas especificamente para o violão. Até mesmo na Espanha. Um dos responsáveis para a ampliação do repertório para o instrumento foi Francisco Tárrega. Devido a falta de músicas para o exercício de seu talento, em meados do século XIX, fez transcrições de peças de Beethoven e Chopin. Teve como contemporâneos compositores que possuem obras que fazem parte do repertório do violão atual. Isaac Albéniz é um exemplo. Outros, são Joaquin Turina e Enrique Granados.
No Brasil, Villa-Lobos é responsável por algumas peças para o violão. Várias que não foram compostas para este instrumento foram transcritas por brasileiros e estrangeiros. Há uma longa tradição aqui, como há na Espanha. Diogo é um jovem virtuose que segue essa linhagem. Suas transcrições de músicas originariamente em outras instrumentações são muito boas. Ele é autor de um álbum primoroso, lançado em 2009, com transcrições de obras de Debussy, Ravel e Satie. O nome, logicamente, é Impressionism.
Ouça a Pavane pour une enfant défunte, de Maurice Ravel, deste disco.
Um dos destaques em Calavento é justamente uma transcrição: Gnossienne no.3, de Erik Satie, executada por Leonardo em um tipo de violino chinês.
Veja os dois executando Janela do Sol, primeira faixa do disco.
Veja Diogo e Leonardo em Bangzália, da trilha de O Tempo e o Vento, de Antônio Carlos Jobim.
Outro destaque é Nightclub 1960, terceiro movimento de História do Tango, de Astor Piazzolla.
Show de lançamento O Duo Calavento estará fazendo o lançamento oficial do CD Calavento no dia 22 de junho, domingo, às 11h no Museu da Casa Brasileira (Av. Faria Lima 2.705, São Paulo). Entrada gratuita. Você está convidado.
A palavra Capricho vem de “capriccio”, do italiano. É uma palavra interessante pelas formas com que é usada. Uma delas é dizer que “fulana é caprichosa”, o que pode significar que faz as coisas com cuidado, esmero. Ao mesmo tempo, pode ser alguém que fica a mudar de ideia a toda hora. E, efetivamente, é o nome de uma revista cinquentenária da editora Abril, conhecida por ser uma das pioneiras em publicar fotonovelas. Antes das telenovelas faziam o maior sucesso. Provavelmente pessoas com menos de 40 anos nunca viram ou leram uma.
Antes ou depois disso, é uma nomenclatura utilizada na música. Muitos devem conhecer os 24 Caprichos de Paganini, no original italiano, “caprices”, variação de “capricci” ou “capriccio”. O termo é usado também por Rimsky-Korsakov em Capriccio Espagnol e Igor Stravinsky em Capriccio para Piano e Orquestra. Capriccio é o título da última ópera de Richard Strauss. Não deve deixar de ser citado seu uso em outras formas de arte. São célebres as 80 gravuras da série Los Caprichos, do espanhol Francisco Goya.
Quem acompanha Hamilton de Holanda no Facebook deve desconfiar que ele possui o dom da ubiquidade. Um dia está se apresentando em São Paulo, ou na Itália ou Alemanha, gravando um novo disco com não sei quem, ensaiando com Paulinho da Viola para uma apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, enfim, a impressão é a de que está em vários lugares ao mesmo tempo tal a sua hiperatividade profissional. Nessa toada, são lançados álbuns, um atrás do outro, com sua participação. Lançou dois geniais no ano passado: Mundo de Pixinguinha e Que Será, este em parceria com Stefano Bolani. No terceiro, chamado Trio, que não conheço, fazem parte alguns “caprichos”: Capricho de Raphael, de Espanha, do Sul, do Carmo e de Santa Cecília.
Outros caprichos vieram e juntam-se aos citados anteriormente e transformaram-se em um álbum duplo. Como os “caprichos” de Paganini, os de Hamilton totalizam 24. Quer conhecê-los? Fácil. Ele disponibilizou na internet “de grátis”. É só digitar http://hamiltondeholanda.com/caprichos/#musicas.
Na única vez em que tive oportunidade de ver Romero Lubambo tocando foi quando apresentou-se com Dianne Reeves no Bourbon Street. Não tem nada de estranho um brasileiro tocando com a cantora. Para quem não sabe, Dianne começou fazendo vocais na banda de Sergio Mendes. Romero é um sujeito simpático, expansivo, e sua forma de tocar tem a ver com isso.
Lubambo estudou música na adolescência, mas na hora do “vâmu vê”, foi cursar engenharia na PUC-Rio. Mas a música deve ter falado mais alto. Tomou coragem e foi tentar conquistar a América. Está lá desde 1985, ou seja, há quase trinta anos. Mas o Brasil, como aquela maldosa piada de que os nordestinos saem de lá, mas o nordeste não sai deles, Romero não traiu suas raízes.
Com Nilson da Matta e Duduka da Fonseca, todos com pés firmemente ficados em solo americano, formam o Trio da Paz. Romero tem parcerias importantes com Yo-Yo Ma e o cubano Paquito D’Rivera, aliás, homenageado em “Paquito en Bremen”, em seu álbum mais recente, do qual passo a falar daqui por diante: “Só: Brazilian Essence”.
Romero é um músico requisitado; além de Reeves, tocou com Michael Brecker, Jane Monheit, dentre outros, e é participante frequente quando brasileiros como Ivan Lins, Leny Andrade e Luciana Souza gravam ou apresentam-se além das nossas 200 milhas.
Contamos com ótimos violonistas locais como Marco Pereira, João Rabello, Rogério Caetano e Yamandu Costa, que poderiam muito bem estarem se destacando fora do Brasil. Outros, como Laurindo de Almeida, Los Indios Tabajaras (Natalício e Antenor Lima), Luiz Bonfá, Baden Powell, Oscar Castro-Neves, Carlos Barbosa-Lima, os irmãos Assad… bom, acho que estou esquecendo de alguns, mas, realmente, é um contingente bem grande, preferiram emigrar.
Não faltam clássicos da bossa nova na incursão solitária de Lubambo. Suas escolhas recaem em um belo“Insensatez”, “Brigas Nunca Mais”, “A Felicidade” (Jobim), e dois originais de Carlos Lyra (“Você e Eu” e “Coisa Mais Linda”). Completam a sua incursão solitária a óbvia “Aquarela do Brasil”, “Paquito in Bremen”, “Pedra Bonita”, de Mario Adnet, “Song for Kaya”, “Luísa”, “Samambaia”, “By the Stream” e “Laura”. O “só” do título é bom, porque é um álbum solo. O único momento em que está acompanhado, é com ele mesmo. Em “Coisa Mais Linda” é seu violão e ele cantando. E não é que nesse quesito, o rapaz se dá bem? Poderia até gravar um com violão e voz. Seria melhor que Eliane Elias, desculpe a ousadia de não gostar dela como cantora.
Numa prova de sincretismo, quando floresceu a onda orientalista, com o budismo, propagado nos EUA pelo inglês Alan Watts, e a onda das seitas hinduístas, muitas jovens em fervorosa fé, preferiram ter suas experiências religiosas no sentido bíblico.
Prudence Farrow resolveu fazer um curso de meditação transcendental com Maharishi Mahesh Yogi na Índia. Aceita, levou a irmã Mia. Como o mundo é pequeno, os quatro Beatles tinham ido fazer a mesma coisa. Consequência desse encontro, compuseram Dear Prudence, preocupados com sua obsessão pelos exercícios de meditação.
George Harrison foi quem mais foi fundo na cultura hindu. Aprendeu o básico da cítara com Ravi Shankar. Um dos pioneiros em montar eventos em prol de grandes causas, foi o responsável por unir vários grandes intérpretes (todos amigos) para o Concert for Bangladesh. Shankar era um deles.
Em 1972, quando aconteceu o Concerto, Ravi já era uma celebridade. Havia se apresentado nos festivais de Woodstock e de Monterrey. No entanto, não era mais “virgem” de Ocidente. Menino ainda, excursionara com um grupo de dança pela Europa. Havia conhecido Yehudi Menuhim, um dos violinistas mais conhecidos da música erudita, em 1952. Muito tempo depois, ambos gravaram o clássico West Meets East (1968), pela inglesa Angel Records. É um dos primeiros discos em que o erudito se mescla ao popular. Só muito tempo depois inventaram um termo para classificar esse gênero: “crossover”.
Na década do slogan “paz e amor”, aquele ar de espiritualidade transmitido por sua música e por sua fala mansa era atraente e apaixonante. E, como do espírito o próximo passo é a carne, enroscou-se com a produtora musical Sue Jones. Foi uma união abençoada: dela nasceu Norah Jones.
Espiritualidade elevada, Shankar não deixava de cuidar bem da sua vida aqui na Terra. Em 1979, quando Norah nasceu, ainda estava casado com a dançarina Kamala Shastri, com quem ficou até 1981. O romance com Kamala datava de meados dos anos 1940, quando ainda estava casado com Ammapuma Devi, que foi sua primeira mulher. Confuso, não? Para ficar um pouco mais, em 1981, tivera uma outra filha, mas com Sukanya Rajan: Anoushka Shankar. O caso com a mãe de Norah durou até 1986. Após o rompimento, reatou com Sukanya, e daí, sossegou..
Ravi Shankar gerou duas filhas talentosissimas. Não é coisa que acontece todos os dias. É raro. Norah cresceu convivendo pouco com o pai. Não existe nada da música dele na mistura de folk, country e jazz de Norah.
Anoushka conviveu mais com o pai, quando ele e sua mãe reataram. Teve lições de cítara com ele e passou a se apresentar aos treze anos, revelando enorme musicalidade. E conseguiu desenvolver uma carreira independente, mesmo tocando o mesmo instrumento.
Mas, de certo modo, Anoushka segue por uma linha evolutiva iniciada pelo pai, que é o tal do “crossover”. Nascida em Londres, passando a infância nos EUA, fazendo apresentações na Índia, o resultado é uma música que transcende rótulos.
Depois de gravar cinco álbuns, em 2011 lançou seu primeiro por uma das maiores gravadoras de música erudita, a Deutsche Grammophon. O declínio das vendagens de música erudita fez com que a Deutsche e outras majors do setor como a Decca e a Virgin Classics passassem a procurar outras opções que seduzissem ouvintes mais jovens. Elvis Costello lançou um disco com a mezzo-soprano Anne Sofie Mutter incluindo composições do roqueiro “crossover”, de Lennon e McCartney, Burt Bacharach e Tom Waits. Sting lançou pela Deutsche três álbuns explorando o folclore britânico e canções de compositores antigos. Em movimento inverso, o “erudito” Gidon Kremer registrou obras de Astor Piazzolla, com participações como a de Caetano Veloso. Outro que abordou o tango e Piazolla foi o judeu argentino Daniel Barenboim em Mi Buenos Aires Querido, pelo selo Telarc. Este é um item imperdível para o amante da música.
No primeiro álbum para a Deutsche Grammophon, em Traveller, Anoushka reuniu músicos como Pepe Habichuela e Concha Buika, apresentando temas que unem a música indiana e a espanhola.
Assista à apresentação de Anoushka com as músicas de Traveller.
Agora, em 4 de outubro, foi lançado o álbum Traces of You. Ela conta com a participação do músico e produtor britânico de origem indiana Nitin Sawhney. É um disco mais “light” – ou menos frenético – que o anterior e mais ocidental. Traveller é melhor, o que não quer dizer que Traces não seja. É bom, também. É apenas questão de gosto. Anoushka conta com a participação da irmã Norah Jones em The Sun Won’t Set, Traces of You e Unsaid.
Assista ao vídeo oficial da música-título Traces of You, com Anoushka e Norah Jones. O clipe foi dirigido pelo marido de Anoushka, o cineasta Joe Wright, de Razão e Sensibilidade e Desejo e Reparação.
Ouça também Flight, composta e executada por Anoushka.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Quem assistiu ao Concert for George, ocorrido um ano após a morte de George Harrison, vai se lembrar dela. Veja aqui.
Primeiro é solo de Douglas DeVries no violão; depois, James McCauley sola no trombone. Aí, Hermeto faz um vocalise com a boca dentro de um copo que vira ao seu lado. A música é das mais belas composições do bruxo de Arapiraca: Bebê.
“O talento de fazer música virtualmente com qualquer coisa fez com que o apelidassem, dentre outras coisas, de bruxo”, afirma o redator do site da Monash University (http://artsonline.monash.edu.au). Quem assistiu a alguma apresentação de Hermeto Pascoal sabe do que é capaz. Com 77 anos nas costas, continua irreverente e, imagine no meio de vários estudantes de música australianos.
Durante um período de 2012, Hermeto ficou como artista residente da Sir Zelman Cowen School of Music, ligada à Monash University Academy of Performing Arts (MAPA), na Austrália. Nessa condição, participando de workshops, gravou Monash Sessions, que está sendo distribuído pela Jazzhead Recordings
Os arranjos do álbum são de Hermeto, com participação de Jordan Murray. Além dos dois, a banda é uma mistura de músicos profissionais e alunos. As gravações ocorreram em clima descontraído e Hermeto, como sempre, participa com intervenções, em português bem humoradas e inesperadas, intermediadas pelo violonista Douglas DeVries, especialista e aficionado pela música brasileira.
Ouça Bebê.
O melhor do disco é a faixa final, que não é exatamente uma música, mas uma demonstração de Hermeto ao falar para eles sobre um DVD que gravara. Ouça.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Um fato que poucos devem saber ou lembrar-se é que o grupo de Carlos Santana apresentou-se no Festival Internacional da Canção de 1971, no Maracanãzinho, RJ. Diferentemente dos dias de hoje, era raríssimo a presença de artistas de renome em terras brasileiras. Esse festival foi criado pela Rede Globo, quando a emissora não era a potência que é hoje. Maiores que ela, eram a TV Record, a TV Excelsior e a extinta Tupi. O evento surgiu na esteira dos festivais da Record, que revelaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e outros.
Alavancados pelo sucesso estrondoso da apresentação no Festival de Woodstock, a banda de Santana fez uma excursão pela América Latina. Depois do Brasil, iam se apresentar no Peru. Foram deportados (ou expulsos, não sei) porque encontraram alguns quilos de maconha mocozados (era a expressão comum que significava “esconder”) nas caixas de som.
Nos tempos “flower power”, em que a juventude se revoltava contra a guerra do Vietnan e vivia a liberação dos costumes, a filosofia e religiões orientais encontraram seu espaço no mundo ocidental. O inglês Alan Watts foi um dos maiores divulgadores do zen budismo na América. Membros dos Beatles contribuíram para a propagação de seitas indianas e popularização dos chamados “gurus”. O deles chamava-se Maharishi Mahesh Yogi.
Não ficou esclarecido se Carlos Santana parou a consumir a “maldita” ao se converter a uma dessas seitas, ou continuou a usá-la para “elevar-se espiritualmente”, mas por um tempo arrumou também o seu guru. Ligou-se a Sri Chimmoy, passou a chamar-se Devadip Carlos Santana. Outro que abraçou a mesma seita foi John McLaughlin. O inglês tinha se mudado para os EUA em 1969 para participar da banda de Tony Williams. Daí, tocar com Miles Davis foi um passo, levado por Williams, há muito, baterista de sua banda.
Em 1970, lançou Devotion, pelo selo Douglas. Já usando o prenome Mahavishnu e vestindo uma bata clara e com a imagem do guru Sri Chimmoy no porta retrato, na capa, John McLaughlin lançou My Goals Beyond no ano seguinte. Grande disco. Criou a Mahavishnu Orchestra. Na sua formação inicial – a melhor – lançou The Inner Mounting Flame, Birds of Fire e o ao vivo Between Nothingness & Eternity. Os três são parte da melhor discografia básica do jazz elétrico, ou jazz-rock, seja lá do que é chamado.
Unidos pela “fé”, John McLaughlin e Carlos Santana lançaram Love Devotion Surrender, em 1973. Ambos estão de brancos e tentam transmitir certa sensação de paz interior. Emblematicamente, a primeira faixa é Love Supreme, de John Coltrane. A outra do saxofonista é Naima. The Life Divine e Meditation são de McLaughlin, e Let Us Go Into the House of Lord, um “traditional” completam a o disco.
Da fase “oriental” de Santana, um grande disco é o que fez com – note a parcial coincidência – Alice Coltrane, última mulher do compositor de Love Supreme. Ela foi a responsável por sua “virada mística”. Era discípula do guru Sathya Sai Baba e adotara o nome Turiyasangitananda, simplificada para fins artísticos, Turiya. O título do disco não poderia ser mais revelador: Illuminations (1974).
Em 2011, McLaughlin e Santana reeditaram a parceria em Montreux. O nome do álbum? Invitation to Illumination. Depois de 40 anos de Love Devotion Surrender, em outro contexto, Invitation é um convite à iluminação pelo espírito da música, sem gurus no meio. A energia da apresentação dos dois é pura energia. A banda é composta de três guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, um percussionista e um tecladista. Agora, imagine o som. O repertório é uma mistura só e funciona bem. Tem até Stairway to Heaven de Jimmy Page e Robert Plant no primeiro meddley, com um trecho de A Hard Rain’s a Gonna Fall, de Bob Dylan. Incluíram temas de Coltrane como A Love Supreme e Naima, que já tinham gravado em Love Devotion Surrender, e partes de temas de Miles Davis como Right Off e Black Satin.
Um disco com um instrumentista acompanhado de diferentes músicos em cada faixa é como um panaché de sobremesas. Experimenta-se o doce, o levemente amargo, o ácido, o exótico, etc. É o caso de Mundo de Pixinguinha, de Hamilton de Holanda. O outro álbum lançado quase ao mesmo tempo, O Que Será, comentado na semana passada (http://bit.ly/17xkvIv), é só ele e Stefano Bollani. Este, além do italiano, que participa de duas faixas (Canção da Odalisca e Seu Lourenço no Vinho), conta com o português Mário Laginha e de mais três pianistas: Chucho Valdés, Omar Sosa e André Mehmari.
Holanda pensou no projeto por achar que “a música de Pixinguinha é agregadora por natureza” (o que está entre aspas são da matéria “Hamilton com Wynton”, de Roberto Nascimento em O Estado de S.Paulo, set. 2013). O melhor foi que agregou músicos de diferentes lugares. A referência ao panaché de sobremesas (tem um ótimo no restaurante do hotel Unique, SP) não é casual, pois o que ele nos proporciona são sabores diversos como a ginga cubana de Valdés e Sosa, temperos mediterrâneos do francês Richard Galliano e Bollani, ibéricos de Laginha, jazzísticos de Wynton Marsalis, sem faltar a brasilidade de Mehmari, Carlos Malta e da francesa/brasileira Odette Ernest Dias. O universo da música se circunscreve no “mundo Pixinguinha”. Muito boa a ideia dele: uní-los em volta de um dos maiores compositores do mundo.
O bandolinista está, com esse disco, semeando a obra de Pixinguinha. “Você precisa ver como o Chucho Valdés ficou. Toquei a primeira parte e, quando modulou para a segunda, ele disse: ‘Meu deus do céu. Que gênio!’”, conta. O cubano participa de duas faixas: Benguelê e Lamentos. Belíssima. Pixinguinha foi pioneiro ao apresentar-se com seus Batutas, em 1922, fora do Brasil. Os Oito Batutas ou, como diziam os franceses, o “Les Batutás, apresentaram-se por quase seis meses nos palcos do Sheherazade, Chez Duque e La Reserve Saint-Cloud. Não foi o sucesso que previam, apresentados como um conjunto exótico de negros (lembre-se do sucesso de Josephine Baker), nem o fracasso como desejaram seus detratores. Pixinguinha já era internacional, quem sabe, sua bela música se torne também, até a partir do trabalho de Hamilton de Holanda.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Lamentos é a que vem depois de Naquele Tempo. Esta é um solo de Holanda. Richard Galliano participa de Ingênuo e da pouco conhecida Agradecendo. Pouco conhecida também é Canção da Odalisca, executada com Stefano Bollani. A outra colaboração é em Seu Lourenço no Vinho. Os outros pianistas são Omar Sosa, em Yaô, e Mário Laginha com grande solo em Rosa.
Veja Hamilton e Sosa tocando Dos Caminos. Não está no disco e não é de Pixinguinha.
Wynton e Hamilton tocam Pixinguinha
Hamilton e Wynton
Uma interpretação a se destacar é a de Wynton Marsalis em Um a Zero. Segundo Hamilton, o único que não conhecia Pixinguinha, nem de ouvir falar, era ele. "A música que gravamos é fantástica, solidifica as harmonias e a maneira que se toca a melodia, como no ragtime. É uma das mais difíceis para o trompete que já toquei”, disse o trompetista sobre a música de Pixinguinha e comparou-o a Scott Joplin. E sobre Hamilton, afirma: "Ele é a personificação de tudo que queremos num grande músico. Tem bons reflexos, tem uma maneira natural de tocar, tem profundidade de alma e sentimento. Ele é um tesouro nacional". Caprichos de Pixinguinha, com André Mehmari, e Carinhoso são as únicas em que toca com brasileiros. Aqui, Hamilton toca com Carlos Malta e Odette Ernest Dias. Nada como terminar com a música considerada a melhor de todos os tempos, segundo pesquisa de O Estado de S.Paulo, de uns quatro anos atrás.
Ouça Um a Zero com Hamilton e Wynton.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Alguém ouviu o CD Samba do Avião, de Hamilton de Holanda?
Como tantos outros discos de música instrumental, Samba do Avião, lançado em 2008, encontra-se esgotado. Descobri casualmente pesquisando a discografia de Richard Galliano. É possível baixá-lo pela iTune Store por US$ 9.99. Foi o que fiz. Só não entendi por que paguei um dólar a menos por Mundo de Pixinguinha, que é mais recente. O CD físico pode ser comprado na loja da Amazon americana.
No disco, Hamilton toca desacompanhado na maioria das faixas, ou melhor, em algumas toca com ele mesmo, usando o recurso de overdubs. Apenas nas três últimas – Chorinho Pra Ele, Sertão e Sanfona –, toca com o acordeonista Richard Galliano. Impressionante como os dois instrumentos se combinam ou, pelo menos, impressionante a simbiose entre Hamilton e o francês. Confira em Chorinho Pra Ele, de Hermeto Pascoal.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Depois de O Que Será, lançado pela ECM, as portas para um reconhecimento internacional estão abertas para o bandolinista Hamilton de Holanda. Não apenas por esse disco, mas também por outro a ser lançado: O Mundo de Pixinguinha. O álbum contém colaborações internacionais de peso, como a do trompetista Wynton Marsalis, o acordeonista Richard Galliano, os pianistas Mario Laginha (Portugal), Stefano Bollani (Itália) e os cubanos Chucho Valdés e Omar Sosa. Nada mal para os ouvidos do mundo. Antes, em 2006, Holanda tinha gravado Samba do Avião, com participação de Richard Galliano, lançado em 2008, com “zero” de divulgação. Encontra-se esgotado e é encontrado apenas na iTunes americana. A loja brasileira nem sabe que existe esse álbum.
Tempos atrás – põe tempo aí – em um show de cantoras no Sesc-Pompeia, fiquei impressionado com o pianista e passei anos até descobrir seu nome. Se não me engano, acompanhara Jussara Freire – ou foi a Ná Ozzetti?, não sei. Em outra apresentação, reconheci seu piano e soube que se chamava André Mehmari.
Muitos discos depois e alguns shows, vi um CD do pianista com Hamilton de Holanda na Livraria Cultura. Com a diminuição dos ímpetos de consumo, comprar CDs se tornou coisa rara. Se eram de três a quatro por semana, hoje se restringe a uma média de um por mês. É muito mais fácil comprar em arquivos não físicos pela iTunes Store. Ruim é a falta de encartes e maiores informações sobre as gravações. Imaginei que um disco com os dois valeria o gasto. Contínua Amizade vale cada centavo despendido.
Ensaiaram pela primeira vez em 2004, mas gravaram o disco em dois dias de 2007. A faixa de abertura, Rosa, de Pixinguinha, tem um ritmo de valsa e não poderia ser melhor começo. A música instrumental é improviso, um diálogo entre instrumentos, algo como pergunta e resposta. Essa característica se exacerba em duos e pode virar uma “conversa” para a qual não fomos convidados e ficamos a boiar. É o risco e é o que acontece de vez em quando, não apenas nos “diálogos” de Hamilton com Mehmari, mas com Stefano Bollani também (sobre o álbum do italiano com o brasileiro, leia http://bit.ly/17xkvIv). Foi a sensação que tive em parte de Notícia, de Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Norival Bahia, a segunda. Nem tudo é assim, entretanto.
Choro da Contínua Amizade é uma das composições de Mehmari. A outra é Vivo Entre Valsas. Hamilton comparece com O Sonho e Enchendo o Latão. Uma agitada e outra, não, para contrabalançar. As mais lentas, como Acontece (Cartola), Choro Negro (Paulinho da Viola), e Tema de Amor de Cinema Paradiso, são mais interessantes. Das mais “agitadas”, Baião Malandro, de Egberto Gismonti, é o destaque. Confira.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Di Menor, de Guinga, é uma das canções de Contínua Amizade.
Grande Choro Negro, de Paulinho da Viola.
Em 2010, a contínua amizade os uniu para gravarem um álbum em que homenageiam Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal: gismontipascoal. Três temas são de autoria de Hamilton e Mehmari, naturalmente, homenageando os nomes mais prestigiados da música instrumental no cenário internacional.
A melhor do álbum é Bebê, de Hermeto Paschoal. Grande música. No conjunto, as de Egberto são as melhores: as mais conhecidas – Palhaço, Frevo e Lôro –, Memória e Fado (belíssima) e Fala da Paixão.
Ouça Bebê.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Veja André e Hamilton em Chorinho pra Eles, composição do pianista em homenagem a Paschoal e Gismonti.
Guarda Che Luna começa com um solo de bandolim que é um deslumbre. No primeiro minuto entra um piano, timidamente, e começa a dialogar com as cordas em ritmo que vai se acelerando aos poucos. No terceiro minuto, o bandolim passa a marcar o ritmo para o solo do piano. Há algo de brasileiro, mas a composição é de dois italianos: Gualtiero Malgoni e Bruno Pallesi. No diálogo incessante, ora é a vez de um, ora do outro. Faltando menos de dois minutos para o seu final, o pianista começa a balbuciar de modo estranho. É um anti-climax. Passado o susto, é possível compreender a intervenção bem humorada do italiano.
Luiza é a próxima. Ah, Luiza, aquela do Tom Jobim? Bandolim rima com Jobim. Tem brasileiro na parada! Ah, é Hamilton de Holanda, um quase brasiliense, pois natural de Niterói, cresceu na Capital Federal. E do pianista Stefano Bollani pode se dizer que é um brasiliano. De tanto vir ao Brasil, deveriam conceder-lhe passaporte brasileiro. É só vê-lo cantando Trem das Onze para confirmar.
Bollani é um rapaz diferente. Nem tem cara de italiano com aquele “cabelo ruim”, como se dizia em tempos menos corretos. É expansivo, como muitos de seus compatriotas, e parece levar a alegria por onde passa e é instrumentista versátil. É jazz interpretando Cheek to Cheek ou It’s Only a Papermoon (I’m in the Mood for Love, 2006), italiano, em Volare e In cerca de ti, italiano operístico na ária E lucevan le stelle, de Puccini (Volare, 2002), e brasileiro em Ao Romper da Aurora, A Voz do Morro (Carioca, 2008), Canção do Amor Demais e Pois É (Falando de Amor, 2003).
A capa do CD O Que Será
O Brasil é um país pródigo em revelar bons instrumentistas nas cordas. Hamilton é considerado o melhor bandolinista atual, de uma linhagem em que se destacam Jacob do Bandolim, Déo Rian e Joel Nascimento. Em pouco mais de dez anos de carreira, gravou cerca de 20 discos, inclusive no mesmo formato bandolim–piano de O Que Será: Contínua Amizade e Gismontipascoal, com o jovem mestre André Mehmari.
O Que Será acaba de ser lançado pela ECM Records. Para Hamilton, é ótimo: é uma boa forma de ficar reconhecido internacionalmente. Dos brasileiros, apenas Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos tiveram a honra de terem seus nomes estampados na capa de algum disco dessa gravadora. Existe um terceiro brasileiro: Ricardo Villalobos, residente em Berlim, mas é um caso atípico, pois é DJ e a praia dele é a da música eletrônica.
Dos temas que ficaram registrados, além de O Que Será, temos Beatriz, Luíza, Apanhei-te Cavaquinho, Rosa, Canto de Ossanha e Caprichos de Espanha, sendo a última, composição do bandolinista. Il Barbone di Seviglia – deve ser uma brincadeira com o nome da ópera O Barbeiro de Sevilha, e será autorreferência, já que agora, além do cabelão, cultiva uma barba? –, é de Bollani. As duas restantes são Guarda Che Luna e Oblivion, de Astor Piazzolla.
Veja Bollani ao piano e Holanda no seu bandolim de dez cordas a tocar Oblivion.
Ouça o álbum dos dois.
Veja os dois em Canto de Ossanha.
Um a Zero, de Pixinguinha. Esta não está no disco.
Apesar da face gretada, Marcos Valle continua com pinta de garoto. Muito sol faz coisa. Conservou-se magro – isso ajuda – veste-se com roupas esportivas, e mantém longas madeixas louras, se tingidas ou não, pouco importa; ainda cultiva uma barbichinha que lhe faz ficar parecido com um maduro Buffalo Bill versão sueca. O sol na cabeça, ou no pensamento, deve tê-lo inspirado a compor uma das mais belas músicas do cancioneiro brasileiro: Samba de Verão.
Pois aquele rapaz que compôs Com Mais de Trinta (“Não confie em ninguém com mais de trinta anos/ Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros/ O professor tem mais de trinta conselhos/ Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta”) está prestes a completar 70 anos . Isso lembra When I’m Sixty-Four, de Lennon e McCartney. John está morto. Paul deve rir quando lembra-se de ter escrito que quando tivesse 64 poderia “ser útil consertando um interruptor” ou ver que estaria “perdendo os cabelos”. Bom, se não perdeu, deve tingi-los. Ninguém é perfeito.
Marcos Valle está associado à segunda leva da bossa nova. Em O Compositor e o Cantor Marcos Valle, seu segundo álbum, de 1965, gravou as primeiras músicas que se tornaram clássicos, como Preciso Aprender a Ser Só e Samba de Verão. Essa última foi a porta de entrada – ou o pretexto – no mercado americano. O organista Walter Wanderley alcançou o segundo lugar das paradas gravando-a. Lá foi Marcos tentar a sorte lá. Participou do grupo Brasil ’65, de Sergio Mendes e andou apresentando-se em palcos e em programas televisivos.
Voltou seis meses, ficou um pouco no Brasil e foi de novo. Com o prestígio lá em cima, gravou Brasilance! e depois, Samba ’68 pelo selo mais conhecido do jazz, a Verve. Podia ter ficado por lá, mas os tempos quentes não eram exclusidade de nossas terras. Ficou temeroso de ser convocado pelo exército e ir ao Vietnam. Novamente, aportou por aqui.
Como bom fruto de seu tempo, compôs músicas engajadas. A bossa nova que cantava la dolce vita carioca, suas paisagens, os barquinhos no mar, na sua segunda geração deu lugar a temas de cunho social, influenciados pela conjuntura política. As letras do parceiro e irmão Paulo Sérgio diziam que “A mão que toca um violão / Se for preciso faz a guerra / Mata o mundo, fere a terra / A voz que canta uma canção / Se for preciso canta um hino / Louva à morte”, em Viola Enluarada.
A ditadura militar ficou mais dura com o decreto do AI-5, o Ato Institucional nº 5. A esquerda também radicalizou. A onda sectarista tomou conta e quem se desviava um pouco dos dogmas marxistas era demonizado ou considerado de direita ou alienado, mais ou menos como agora: quem discorda da política do PT é da direita. Muito democraticamente, é proibido discordar. A direita, bom, a direita é a direita; nem é preciso falar.
Na onda e posterior ressaca do endurecimento da ditadura militar, músicos importantes saíram do Brasil. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram para Londres, Chico Buarque foi para a Itália e Geraldo Vandré, para o Chile e depois Alemanha e França. Marcos Valle ficou e, até para refrescar o cérebro, foi surfar. O pé no pop o levou a um caminho mais cosmopolita. O irmão Paulo deixou de fazer letras “engajadas”, mas não se alienou. Não deixou de ser crítico: o foco era o consumismo de um capitalismo eufórico por conta do tal “milagre brasileiro”. Fez muito sucesso, em 1969, Mustang Cor de Sangue. Falava de um carrão americano escarlate e de um Corcel cor de mel. O tal Corcel era um carrinho fabricado pela multinacional Ford.
Aqueles fãs de Viola Enluarada ou do clássico É Preciso Aprender a Ser Só não devem ter entendido nada, e muito menos a esquerda. Os mesmos que vaiaram Sabiá, de Chico Buarque e Antônio Carlos Jobim, pelo fato de deixado Pra Não Dizer Que Deixei de Falar das Flores, de Vandré, em segundo lugar em um dos festivais de música da TV Globo, foram os que não deixaram Caetano Veloso cantar É Proibido Proibir no Tuca, teatro da PUC-São Paulo. Agora, imagine um rapaz louro, bronzeado de praia, cara de garoto zona sul lançando uma música como Mustang Cor de Sangue. Os irmãos Valle deram banana a um nacionalismo anacrônico (até Bbd Dylan foi vaiado quando usou a guitarra elétrica pela primeira vez) e não caíram no conto do “fazer a hora” apregoado por Vandré.
A trajetória rumo ao pop, às experimentações eletrônicas, a uma música mais comercial, frente a uma mídia monolítica e ortodoxa, acabou por comprometer uma real avaliação da importância da obra de Marcos Valle. Consideram-se Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil como os maiores nomes da música brasileira. Mas, com personalidade, discordando-se ou não de sua linha, seguiu fazendo músicas para novelas e programas da rede Globo, para se tocar no rádio e ganhar dinheiro. Para ganhar mais um pouco, fez muitos jingles. Aí, entrou em crise. Voltou para os EUA. Gravou com Sarah Vaughan, trabalhou com Airto Moreira e colaborou com a banda americana Chicago.
No início de 1980, voltou e continuou a produzir bastante. Esses discos foram pouco divulgados pela grande imprensa, mas de lá até agora, gravou álbuns muito bons. Um deles, Live in Montreal (2003), foi com o guitarrista argentino radicado no Brasil, Victor Biglione. Os discos Escape (2001) e Jet-Samba (2005) demonstram que ele continua afiado. Alavancado pelos inúmeros eventos comemorativos às efemérides da bossa nova, tem participado de apresentações e gravações. Finalmente, Marcos Valle tem reconhecido seu enorme talento. Novas gerações de intérpretes que ainda usavam fraldas, como Diana Krall, ou nem tanto, como Patricia Barber, ou que nem tinha nascido, como Stacey Kent, gravaram Samba de Verão, um dos grandes clássicos mais gravados fora do Brasil.
Ouça Samba de Verão com seu autor.
Ouça a mesma Samba de Verão com Stacey Kent.
Marcos Valle continua afiado. Ouça Adams Hotel, do CD Jet-Samba.
Antes de iniciar efetivamente o texto é bom esclarecer o significado da palavra que se origina do verbo “desbundar” e algumas outras. Segundo o Aurélio, a gíria significa 1. perder o autodomínio, por efeito de droga (3). 2. P. ext. Perder o autodomínio; perder as estribeiras. § desbundado, adj. É uma expressão bem típica que se popularizou na década de 1970. O início do ano de 1972, no Rio de Janeiro, foi cunhado de “verão do desbunde”. Caetano Veloso e Gilberto Gil haviam voltado para o Brasil e lançaram, respectivamente, Transa e Expresso 2222. Gal Costa realizou o show Fa-Tal, dirigido por Waly Salomão. Este lançou o livro Me segura qu'eu vou dar um troço e foi um dos protagonistas do desbunde.
Antigamente, aquele que não consumia drogas era um careta. Para se caracterizar que não estava sob efeito de alguma droga, se falava “estou careta”. Era o preconceito ao contrário. Mas “careta”, no sentido mais genérico, serve para se referir a uma pessoa mais conservadora, mais para o certinho.
O violonista brasileiro Carlos Barbosa-Lima era um careta, pelo menos quando o vi pela primeira vez em uma sala inóspita e acusticamente horrível. Lina Bo Bardi, autora do belíssimo projeto do Masp e de seu mobiliário, não privilegiava muito o conforto ergonômico. O jornalista Telmo Martino, do extinto Jornal da Tarde, do grupo do Estadão, adorava exercitar seus dotes viperinos para falar mal dos bancos (isso mesmo) de madeira maciça do teatro do Masp dizendo que tinham sido feitos pela Marcenaria Garrote Vil, ou qualquer coisa do tipo. Explicação: falava-se muito do garrote vil, instrumento de tortura da época da inquisição, por conta do longa ditadura do período Franco, na Espanha. Lina tinha cabelos longos e uma franja enorme para o lado esquerdo. Telmo dizia que a arquiteta era “a última fã de Veronica Lake”.
A apresentação a que assisti aconteceu no início dos anos 1970. Era um adolescente ainda e um curioso por quaisquer manifestações musicais, roqueiras, eruditas ou populares. Lembro que era uma noite fria e, recuperando-me de um resfriado, tossia como um condenado. Acho que fiquei mais preocupado em não quebrar aquele silêncio respeitoso de uma sala de concertos a fruir o violão daquele rapaz considerado, naquele tempo, o melhor violonista clássico do Brasil. Depois disso, por muito tempo não ouvi mais falar dele.
Carlos Barbosa-Lima nasceu em dezembro de 1944 e revelou-se prodígio no violão. Com 12 anos de idade, apresentou-se pela primeira vez em uma sala de concertos, em São Paulo. Menino ainda, foi apresentado ao violonista Luiz Bonfá e este aconselhou a família a estudar violão clássico.
Com 13 anos gravou Dez Dedos Mágicos Num Violão de Ouro pela extinta gravadora Chantecler. Passou a se apresentar em várias salas do Brasil e da América Latina e fez seu debut em Washington quando tinha 23 anos. Teve a oportunidade de tocar para Andrés Segovia, apresentou-se na Europa também e teve a honra de ter obras compostas especialmente para ele por Alberto Ginastera.
Nos primeiros anos dos 1980, mudou-se para Nova York e passou a dar aulas na Manhattan School of Music. Além de ótimo virtuose, Barbosa-Lima era considerado ótimo arranjjador, adaptando temas para o seu instrumento. Tocando com o violonista/guitarrista Charlie Byrd, grande divulgador, com Stan Getz, da bossa nova, conheceu Carl Jefferson, dono da gravadora Concord. Foi dessa época que voltei a ouvir falar dele ao me deparar com um disco chamado Impressions em que faziam parte do programa Fauré, Satie, Ravel, Enrique Ubieta, Robert Scott, Villa-Lobos e Laurindo de Almeida. Na foto da capa, era o mesmo “careta” que havia visto no Masp mais de dez anos antes, com menos fios de cabelo na parte superior do crânio, vestindo costume de cor escura e gravata, empunhando seu violão Thomas Humphrey.
O fato de ser contratado de uma gravadora mais voltada ao jazz, a Concord, e, talvez por gosto, resolveu explorar seus dotes de ótimo arranjador em obras externas ao mundo erudito. Lançou, em 1982, CBL Plays the Music of A.C. Jobim e George Gershwin. Ainda pela Concord, em 1991, soltou Music for Americas incluindo composições de Irving Berlin, Dave Brubeck Bobby Scott e Ary Barroso. Detalhe: gravou mais do que isso, e as referências são apenas sobre os álbuns que estão na minha discoteca.
Novo corte. Não ouço mais falar dele. Então encontro um CD de Barbosa-Lima com o título Frenesi. É de 2004. Algo tinha mudado. O nome desse clássico de Alberto Dominguez é bem claro nesse sentido. Os arranjos ainda são sóbrios. O repertório é latino americano, incluindo um belo Chega de Saudade, e uma exceção: Don’t Cry for Me Argentina. Apesar da citação a esse país, é composição do inglês Andrew Lloyd Webber.
Desbunde em mais de um sentido é Siboney, lançado em 2004 pelo selo Zoho. A capa revela um outro Barbosa-Lima. Trajando uma camisa estampada, com um chapeu panamá, é o “retrato” desse belo álbum. é pra cima, caliente. O repertório é de primeira. Até os que não morrem de amores pela música latina mais próxima do Caribe vão reconhecer a qualidade dos arranjos. Estão incluídas, além de Siboney (leia http://bit.ly/1187Wg5), do cubano Ernesto Lecuona, Drume Negrita, La Comparsa, Ojos Brujos, Guantanamera, Lamento Borincano, do portorriquenho Rafael Hernández Marín, e Perfidia. Os temas brasileiros são os clássicos Tico Tico, Bahia e Aquarela do Brasil. Um esclarecimento final: quando alguma era muito boa, dizia-se “tal coisa é um desbunde”, ou “é desbundante”. E assim é o álbum Siboney, de Carlos Barbosa-Lima.
Quando converso com meu amigo Alberico Cilento, uma das pessoas que mais conhece de música em São Paulo, vira e mexe o João Donato surge no meio dos assuntos. Uma vez estavam lá ouvindo música, conversando e Donato perguntou se podia fazer um café. E lá foi ele para a cozinha. Voltou com um bule numa das mãos e a xícara na outra. Ao notar que tinha um Steinway de quarto de cauda na sala, aproximou-se e viu que sobre ele estavam algumas partituras de música italiana. Uma delas era a de Parlami d’amore. Sentou-se, começou a tocar Parlami… e ficou improvisando sobre o tema. Alberico comentou que não revelava esse gosto por música italiana aos amigos, basicamente, amantes do jazz. Disse que, desde criança, gostava de um pianista daqueles que a gente chama de “piano cascata”, “flamboyant” etc, que tocam floreado, Carmen Cavallaro, americano de ascendência italiana. Donato disse que gostava dele também: “quem toca como ele é gênio.” Lembraram do filme Melodia Imortal (The Eddy Duchin Story, de 1956, direção de George Sidney e protagonizado por Tyrone Power e Kim Novak), em que o Cavallaro “dublara” Power no piano (foi lançado em DVD no Brasil).
Na semana passada, João apareceu novamente numa conversa por telefone com Alberico. Disse que, em certa ocasião, Donato dissera que suas músicas preferidas eram Invitation, de Paul Webster e Bronislaw Kaper, e Speak Low, de Kurt Weill. Resultado: fui ver se tinha algum registro delas. E nessa, fiquei a ouvir João Donato o dia inteiro.
Retrato do artista quando jovem
Em Lugar Comum, gravado em 1975, tem um texto do próprio, muito bom, explicando que era seu segundo álbum com letras. Uma passagem marcante é quando fala justamente da música título: “A origem da primeira música, Lugar Comum, que dá nome ao disco, é um assobio de um homem descendo a canoa no Rio Acre, em Rio Branco. O rio passa bem no meio da cidade. Ao cair da tarde, eu estava lá, pequenininho ainda, com uns sete ou oito anos, não me lembro bem. Passou uma canoa com o cara assobiando, e eu fiquei melancólico pela primeira vez na minha vida, um sentimento até então desconhecido para mim. Fiquei pensando, ‘por que eu fiquei assim?’, mas eu sabia que esse sentimento vinha daquele assobio e eu guardei a melodia.” Bacana, não? Revelações ou iluminações transformam nossas vidas. Quem imaginou que aquele acreano se transformaria no grande músico que é inventando aquela batida suingada meio latina tão única.
Nos anos 1970 João estava em contato estreito com Gil e Caetano. Os dois colocaram letras em várias composições antes apenas instrumentais. João também acompanhou Gal nos shows de lançamento de Cantar. Aliás, é nesse disco que estão uma das melhores interpretações de A Rã, feita em parceria com Caetano Veloso, e o estupendo Até Quem Sabe, em parceria com o Lysias Enio. O piano de João Donato é para nocautear até o mais insensível dos trogloditas. Flor de Maracujá é outra que está neste disco e tem letra do mesmo Lysias, seu irmão. Aliás, Cantar é um dos melhores de Gal Costa: Canção Que Morre no Ar (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), com um arranjo maravilhoso de Perinho Albuquerque é daqueles da gente cair duro. Outra, Lágrimas Negras, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, é uma das mais belas canções brasileiras de todos os tempos.
Cito outros registros que merecem ser ouvidos. Bananeira, letra de Gilberto Gil recebe tratamento jazzístico “samba jazz” no arranjo brilhante de um dos nossos grandes saxofonistas, J.T. Meirelles, e lembra um pouco a Banda Black Rio, com os naipes de sopros, o piano elétrico Fender Rhodes e a guitarra a la Steely Dan. E é cantada por Ed Motta.
Caetano Veloso, no álbum Cores, Nomes, canta Surpresa, breve e poética interpretação na música feita em parceria com Donato. Os temas lentos de JD têm sempre um clima de acalanto. Tem mais uma parceria com Caetano: Naturalmente.
Fim de Sonho, com letra de João Carlos Pádua, tem a interpretação precisa de nossa melhor cantora da atualidade – atenção, opinião minha –, a joão gilbertiana, Rosa Passos. Mais uma com Rosa: A Paz (João Donato e Gilberto Gil). Tudo na voz dela fica maravilhoso. Mais uma: Depois do Natal cantada pela bela voz de Djavan, mas a melhor é a de Nana Caymmi, lançado pela EMI-Odeon em 1979.
E tem mais: João toca trombone e bem. Em Olho d’Água, de Milton Nascimento, que está no Clube da Esquina 2 é dele o solo.
É uma pena que Nico Assumpção tenha morrido tão cedo. Com 47 anos! Teve um câncer de pulmão, implacável para alguém tão novo. Apesar de ter atuado bastante acompanhando luminares da MPB e de ter feito muitas apresentações em casas especializadas em música instrumental, lançou apenas um disco em vida e um póstumo. São apenas uma amostra de seu brilhantismo como baixista acústico e, elétrico, principalmente.
Em sua permanência nos Estados Unidos, estudou na Berklee College of Music e tocou com jazzistas de primeira como os pianistas Larry Willis, Fred Hersch e Kenny Baron, os saxofonistas Joe Henderson, Wayne Shorter e Charles Rouse (o sideman mais conhecido de Thelonious Monk), com o brasileiro radicado há décadas, Claudio Roditti e fez parte do trio do brasileiro, também há muito tempo nos EUA, Don Salvador.
Voltou ao Brasil, deu aulas no CLAM, escola do pessoal do Zimbo Trio, morou no Rio de Janeiro e teve como um dos parceiros mais constantes, o guitarrista e violonista Ricardo Silveira. Em sua seara, a música instrumental, gravou um disco inexplicavelmente inédito em CD: Bateria, de Robertinho Silva, lançado em 1984, pelo selo Carmo, de Egberto Gismonti. O baterista, conhecido por ter tocado por muito tempo com Milton Nascimento, tem, além do baixista como sideman, Ricardo Silveira e o saxofonista e flautista Nivaldo Ornellas. Deve ser um dos melhores discos de música instrumental já gravados no Brasil, pelo menos, na minha opinião. É raro ouvir músicos tão em harmonia. É pena não ser muito conhecido. Sabendo que existia a possibilidade de ter sido lançado na Alemanha, quando estive lá, procurei. O outro que procurava, por ser um dos meus preferidos de Gismonti, era o Nó Caipira, que, se não me engano, não foi lançado no Brasil. Para minha surpresa, achei um deles, o Nó…, em Lisboa, no Rocio, na loja Valentim de Carvalho, tradicional loja de música – vende também instrumentos musicais e é associada à gravadora EMI, não sei se até hoje. o CD de Robertinho Silva, infelizmente, não existe mesmo em CD. Segundo Gismonti, ninguém se interessou por comprar os direitos de sua gravadora Carmo no Brasil. Alguns itens foram lançados na Alemanha e ainda se encontram disponíveis.
Em Bateria, tudo é muito bom. Barra 200, de Silva e Nenê, tocado em trio – bateria, baixo e guitarra – é a síntese dessa harmonia entre eles, como foi ressaltado no parágrafo anterior. A terceira faixa é uma composição de Nico. Balada é um solo dele, com delicadas intervenções de Robertinho nos teclados (é um Oberheim DX?) e na bateria. Olhe, é um solo excepcional, para nenhum fã mais fanático pelo americano Jaco Pastorius botar defeito. Nico começou com o baixo de quatro cordas, passou pelo fretless bass e depois para o de seis cordas (um lembrete: John Patittucci, que se celebrizou tocando esse tipo de baixo, veio depois de Assumpção). Um destaque merecido é o do guitarrista Ricardo Silveira. De tudo o que ouvi dele, nunca tocou tão bem como nesse disco.
Em 1981, Nico lançou o primeiro disco. Com exceção de uma – Constelação (Alfredo Cardim) –, todas as faixas são composições próprias. Ladeado por um bando de amigos, é um bom showcase de suas habilidades como baixista e compositor. O disco póstumo, Three, é mais coeso que o primeiro, provavelmente, por não ter aquela coisa de “mostrar serviço” do primeiro. No formato trio – Nelson Faria e Lincoln Cheib.
A primeira faixa é a conhecidíssima Eu Sei Que Vou Te Amar. Normal, mas suficiente para a atenção se voltar a delicada guitarra de Nelson Faria – deve ter ouvido bastante Jim Hall, Kenny Burrell e outros mais. Bem bossa mesmo, é um excelente começo. À medida que o conhecemos, fica claro que é um disco do trio, antes de mais nada. Não é só de Nico. Os solos estão bem distribuídos e há até preponderância do guitarrista. Os solos do baixo são discretos, sem malabarismos circenses. A terceira faixa, Cor de Rosa, é uma composição de Assumpção. É uma música de cadência agradável em que a melodia é comandada pela guitarra discreta e bela de Faria (lembra um pouco o mood de algumas faixas de Bright Size Life, em que Pat Metheny é acompanhado por Jaco Pastorius e Bob Moses) e pela levada do baixo. A quarta é Ce Sa Ce Sons Pas Savas, um trocadilho fonético de "Você sabe se este ônibus passa na Savassi?", referência ao conhecido bairro de Belo Horizonte. Juliana é uma belíssima composição de Faria, um dos destaques. Fecham o disco com Vera Cruz, de Milton Nascimento e Marcio Borges.
O guitarrista Nelson Faria, com Ney Conceição no baixo e Kiko Freitas na bateria, formaram o Nosso Trio. Gravaram em CD e DVD, Vento Bravo, pela Delira Music. Está esgotado e, parece que a Delira não existe mais.
Nico não era rápido apenas; tinha um senso ritmico e melódico sem par. É por isso que muitos o consideram o melhor baixista que surgiu no Brasil. Comprove nos dois registros abaixo.