segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Nico Assumpção, o nosso Jaco Pastorius

É uma pena que Nico Assumpção tenha morrido tão cedo. Com 47 anos! Teve um câncer de pulmão, implacável para alguém tão novo. Apesar de ter atuado bastante acompanhando luminares da MPB e de ter feito muitas apresentações em casas especializadas em música instrumental, lançou apenas um disco em vida e um póstumo. São apenas uma amostra de seu brilhantismo como baixista acústico e, elétrico, principalmente.

Em sua permanência nos Estados Unidos, estudou na Berklee College of Music e tocou com jazzistas de primeira como os pianistas Larry Willis, Fred Hersch e Kenny Baron, os saxofonistas Joe Henderson, Wayne Shorter e Charles Rouse (o sideman mais conhecido de Thelonious Monk), com o brasileiro radicado há décadas, Claudio Roditti e fez parte do trio do brasileiro, também há muito tempo nos EUA, Don Salvador.

Voltou ao Brasil, deu aulas no CLAM, escola do pessoal do Zimbo Trio, morou no Rio de Janeiro e teve como um dos parceiros mais constantes, o guitarrista e violonista Ricardo Silveira. Em sua seara, a música instrumental, gravou um disco inexplicavelmente inédito em CD: Bateria, de Robertinho Silva, lançado em 1984, pelo selo Carmo, de Egberto Gismonti. O baterista, conhecido por ter tocado por muito tempo com Milton Nascimento, tem, além do baixista como sideman, Ricardo Silveira e o saxofonista e flautista Nivaldo Ornellas. Deve ser um dos melhores discos de música instrumental já gravados no Brasil, pelo menos, na minha opinião. É raro ouvir músicos tão em harmonia. É pena não ser muito conhecido. Sabendo que existia a possibilidade de ter sido lançado na Alemanha, quando estive lá, procurei. O outro que procurava, por ser um dos meus preferidos de Gismonti, era o Nó Caipira, que, se não me engano, não foi lançado no Brasil. Para minha surpresa, achei um deles, o Nó…, em Lisboa, no Rocio, na loja Valentim de Carvalho, tradicional loja de música – vende também instrumentos musicais e é associada à gravadora EMI, não sei se até hoje. o CD de Robertinho Silva, infelizmente, não existe mesmo em CD. Segundo Gismonti, ninguém se interessou por comprar os direitos de sua gravadora Carmo no Brasil. Alguns itens foram lançados na Alemanha e ainda se encontram disponíveis.

Em Bateria, tudo é muito bom. Barra 200, de Silva e Nenê, tocado em trio – bateria, baixo e guitarra – é a síntese dessa harmonia entre eles, como foi ressaltado no parágrafo anterior. A terceira faixa é uma composição de Nico. Balada é um solo dele, com delicadas intervenções de Robertinho nos teclados (é um Oberheim DX?) e na bateria. Olhe, é um solo excepcional, para nenhum fã mais fanático pelo americano Jaco Pastorius botar defeito. Nico começou com o baixo de quatro cordas, passou pelo fretless bass e depois para o de seis cordas (um lembrete: John Patittucci, que se celebrizou tocando esse tipo de baixo, veio depois de Assumpção). Um destaque merecido é o do guitarrista Ricardo Silveira. De tudo o que ouvi dele, nunca tocou tão bem como nesse disco.

Em 1981, Nico lançou o primeiro disco. Com exceção de uma – Constelação (Alfredo Cardim) –, todas as faixas são composições próprias. Ladeado por um bando de amigos, é um bom showcase de suas habilidades como baixista e compositor. O disco póstumo, Three, é mais coeso que o primeiro, provavelmente, por não ter aquela coisa de “mostrar serviço” do primeiro. No formato trio – Nelson Faria e Lincoln Cheib.

A primeira faixa é a conhecidíssima Eu Sei Que Vou Te Amar. Normal, mas suficiente para a atenção se voltar a delicada guitarra de Nelson Faria – deve ter ouvido bastante Jim Hall, Kenny Burrell e outros mais. Bem bossa mesmo, é um excelente começo. À medida que o conhecemos, fica claro que é um disco do trio, antes de mais nada. Não é só de Nico. Os solos estão bem distribuídos e há até preponderância do guitarrista. Os solos do baixo são discretos, sem malabarismos circenses. A terceira faixa, Cor de Rosa, é uma composição de Assumpção. É uma música de cadência agradável em que a melodia é comandada pela guitarra discreta e bela de Faria (lembra um pouco o mood de algumas faixas de Bright Size Life, em que Pat Metheny é acompanhado por Jaco Pastorius e Bob Moses) e pela levada do baixo. A quarta é Ce Sa Ce Sons Pas Savas, um trocadilho fonético de "Você sabe se este ônibus passa na Savassi?", referência ao conhecido bairro de Belo Horizonte. Juliana é uma belíssima composição de Faria, um dos destaques. Fecham o disco com Vera Cruz, de Milton Nascimento e Marcio Borges.

O guitarrista Nelson Faria, com Ney Conceição no baixo e Kiko Freitas na bateria, formaram o Nosso Trio. Gravaram em CD e DVD, Vento Bravo, pela Delira Music. Está esgotado e, parece que a Delira não existe mais.

Nico não era rápido apenas; tinha um senso ritmico e melódico sem par. É por isso que muitos o consideram o melhor baixista que surgiu no Brasil. Comprove nos dois registros abaixo.


Solo de Nico no baixo de seis cordas



Solo de Nico com João Bosco

2 comentários:

  1. Bacana a lembrança do Nico. Ficou faltando, no entanto, falar do outro CD póstumo que o Nico fez em Trio com Luiz Avellar e Kiko Freitas em homenagem ao Victor Assis Brasil. Gravado ao vivo no Mistura Fina do Rio.
    Abraco, Nelson Faria

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  2. Nelson, vou atrás do CD. Parece que o Delira Music não existe mais e está sendo distribuído pela Tratore. Como é que consigo o DVD de vocês, o “Vento Bravo”? Abs

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