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quinta-feira, 25 de março de 2021

Grazing Dreams, de Collin Walcott, um dos dez melhores da ECM


Minha amiga rica voltou de San Francisco com vários LPs: “Mysterious Traveller” (Weather Report), “Bundless” (Soft Machine), “Closeness” (Charlie Haden), “Shakti” (John McLaughlin),“In Concert” (Oregon), “Low Class Conspiracy” (David Murray) e o primeiro do World Saxophone Quartet. Não consigo lembrar nomes de pessoas, não guardo um número de telefone, mas para algumas coisa a minha memória é ótima, principalmente se são inúteis.

Esses discos representaram um guinada no meu gosto musical, ou melhor, ampliaram meu horizonte sonoro. Na década de 1970, os Rolling Stones estavam lançando “Exile on Main Street” e logo mais estavam flertando com o glam-rock, os Beatles estavam em fase terminal, resultado do cisma Lennon x McCartney, e vinham novas ondas como a do rock mais pesado, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Grand Funk Railroad, Humble Pie e alguns outras bandas, e a do que passaram a chamar de rock progressivo. As formações mais conhecidas foram King Crimson, Yes, Genesis, Gente Giant, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer, que surgiram entre o fim e o início da década. Muitos embarcaram nessa onda que, grosseiramente, poderia ser considerada rock com alguns traços de inteligência, ou uma abordagem menos visceral e mais cerebral, mais “inteligente” e culta, flertando até com a música erudita. Keith Emerson incorporava Aaron Copland e Mussorgsky, Jethro Tull, Bach, Beethoven e Schubert. 

Lembro de que os primeiros LPs que comprei foram “Led Zeppelin III”, “Pictures at an Exhibition” (Emerson, Lake & Palmer), “In the Court of the Crimson King” (King Crimson) e “The Yes Album” (Yes). A balança pendeu para o chamado rock progressivo. Mais ambiciosos – ou pretensiosos, dependendo da ótica –, as composições eram mais elaboradas, menos 4 x 4. 

Dos LPs citados no primeiro parágrafo, os que me impressionaram foram “Mysterious Traveller”, o do World Saxophone Quartet, surpreendente, apenas com sopros (saxofones, clarinetas e flauta), sem bateria e contrabaixo, e “Closeness”, o primeiro de Charlie Haden como líder, em duos, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian. Outro foi “In Concert”, da banda Oregon: transformou-se em paixão. Posteriormente, comprei todos os que foram lançados, até a morte de um de seus membros: Collin Walcott.

“Low Class Conspiracy” foi o primeiro como líder de David Murray, saxofonista que formou o World Saxophone Quartet, com Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill. Sou fã de Murray até hoje. Estava naquela fase em que estava comprando livros sobre arte e estética da turma da Escola de Frankfurt – Walter Benjamin principalmente –, Georg Lukács e “Literatura e Revolução”, de Leon Trotsky. O título do LP de Murray era, por isso, um chamariz.

Achei “Bundless” meio chato. Mas despertou-me a curiosidade de conhecer melhor o Soft Machine. Ouvindo os anteriores, quando Robert Wyatt era ainda um dos membros da banda, virei fã de carteirinha, como se dizia antigamente. Ouço até hoje os “III”, “IV” e, até mesmo, o “V”.

Nem rock, nem jazz
Paul Winter é considerado um dos pais da world music. Influenciado por Villa-Lobos – morou um ano no Brasil na década de 1960 – e amante da música inglesa do século 17, criou a Paul Winter Consort. Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott, que participaram da banda, formaram o Oregon em 1970. Pela Vanguard lançaram em 1972, “Music of Anther Present Era”. Rapidamente ficaram conhecidos e o álbum que tinham saído por uma pequena gravadora, a Increase Records, em 1970, foi relançado.

Dos quatro, o que mais se destacou foi Ralph Towner, violonista de formação erudita, talentosíssimo e autor um dos melhores discos da ECM, o ao vivo “Solo Concert”, registrado na Alemanha e Suiça, em 1979. 

Tempos depois, já conhecendo outros álbuns do Oregon, acho que, em razão de uma crítica positiva na revista Downbeat de “Grazing Dreams” (ECM), acabei comprando o LP, importado, no Rio de Janeiro. Já estava gastando todo o meu dinheiro em discos. Aconteceu um festival de jazz na ex-capital do Brasil com várias atrações imperdíveis: Weather Report, Pat Metheny, Mccoy Tyner e o Art Ensemble of Chicago. Fomos eu e mais dois amigos. Ficamos no apartamento da tia de um deles. O imóvel ficava a dois quarteirões das duas melhores lojas de LPs importados: a Modern Sound e a Billboard.

“Grazing Dreams” e “Sophisticated Giant” (CBS, 1977), de Dexter Gordon, outro que comprei na mesma ocasião, estão entre os meus discos preferidos por duas razões. Uma é a de que são ótimos e a outra é porque foram os dois primeiros importados de jazz que comprei. É pouco? A vida da gente é marcada por simbolismos.

Como era – e é ainda – costume de Manfred Eicher, dono e produtor da maioria dos discos da ECM, unir os músicos do seu plantel –, nesse que é o segundo solo de Walcott pela gravadora, tocam Don Cherry, John Abercrombie, Palle Danielsson e o brasileiro Dom Um Romão, que participara de “I Sing the Body Electric”, “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”, do Weather Report.

Acho que “Grazing Dreams” é para quem tem uma abertura para o que é chamado de world music, a começar do fato de que os instrumentos principais de Walcott são a cítara e a tabla. Soma-se a isso a ligação de Don Cherry com instrumentos africanos como o doussn' gouni. A cuíca e o berimbau, tocados por Dom Um Romão, são “exóticos” para os não-brasileiros e, portanto, “world”. 

O disco é único por vários fatores. O que se ouve é diferente de qualquer coisa. Um bom exemplo é "The Swarm". Seu início é de sons desconexos de trompete, flauta, cítara e guitarra. Repentinamente todos os sons se conectam e, guiados pelo trompete e a cítara, vai ficando dramática e, pronto. Termina. Começa então “Mountain Morning”. Curtíssima. É um prelúdio para a ondulante e hipnótica “Jewel Ornament”. Com a tabla servindo de base rítmica, Cherry sola na flauta, mas o que se sobressai é a guitarra discreta de Abercrombie. Depois da música título, tem “Samba Tala”, um duo ótimo com Dom Um Romão e Walcott. E termina com a belíssima “Moon Lake”. O início dela, com ele na cítara, é sublime. 

Confira.




A parceria de Walcott com Cherry frutificou. Com Naná Vasconcelos, formaram a Codona – cada sílaba são as duas primeiras letras de seus nomes. Sobre eles, leia “O mundo ‘world’ de Naná Vasconcelos”. 

Muitos nem devem conhecer Collin Walcott por uma razão simples. O ônibus que transportava o Oregon em uma excursão na antiga Alemanha Oriental colidiu. Estava no primeiro banco e cochilava. Bateu a cabeça e morreu. Tinha 38 anos. Foi em 1984. Fazem mais de 36 anos que aconteceu.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

O talento elevado ao quadrado do Oregon

Towner, McCandless, Moore e Walcott (na tabla)
Vamos combinar, Oregon não é o melhor nome para uma banda. Pode existir um New York Trio ou um New York Dolls, mas dificilmente uma com o nome de alguma cidade ou um estado, se bem que agora lembro de uma banda brasileira chamada Tokyo, do conhecido Supla, filho de Eduardo e Marta Suplicy.

Glen Moore é natural de Portland. Ele e Ralph Towner, natural de Chehalis, Washington, se conheciam desde o início dos anos 1960, quando cursaram a Universidade do Oregon. Anos depois, quando ambos estavam morando em Nova York, conheceram Collin Walcott. Os três foram tocar na Paul Winter’s Consort. A banda fez uma excursão que passou por 50 cidades dos EUA. Paul McCandless, oboísta formado pela Manhattan School of Music, também estava na banda de Winter. Os quatro tinham o costume de fazer jam sessions particulares nos quartos de hotéis em que se hospedavam. Essas sessões de improviso resultaram na ideia de montar uma banda. Na hora de escolherem um nome para a banda, McCandless sugeriu que se chamassem Oregon. Justamente ele, natural de Indiana, Pensilvânia, do outro extremo do país, achou que era um bom nome em razão das lembranças que Towner e Moore narravam da época em que estudaram em Portland.

Tendo iniciado a carreira como saxofonista de jazz, seu envolvimento com as questões ambientais, com o direito dos animais e o pacifismo, fizeram com que Paul Winter almejasse criar uma forma musical que refletisse suas ideias. O músico criou a Paul Winter Consort. O nome era bem apropriado. Na sonoridade que procurava, a combinação de instrumentos de sopro, cordas e percussão, resultaria em algo bem diferente de tudo, abarcando elementos da música erudita, do jazz e das músicas oriental e étnica.

Como Ralph Towner, Glen Moore, Paul McCandless e Collin Walcott calharam de estarem na banda ao mesmo tempo, natural que o som do Oregon tivesse algo a ver com a de Winter. Mas os caminhos das duas bandas se dividiram. Enquanto o Oregon procurava privilegiar os improvisos com a formação pouco usual, combinando violão clássico, trumpete, piano (Ralph Towner), contrabaixo, violino, piano, flauta (Glen Moore), corne inglês, oboé, clarinetas, saxofones (Paul McCandless), tabla e cítara (Paul McCandless), em cima de temas, na maioria, compostos por eles, Paul Winter prosseguia em sua caminhada ambientalista, cada vez mais radical, tendendo ao que classificaram como new age, earth music, ecological jazz, etc.

Talentos unidos
O primeiro álbum que gravaram em 1971 não saiu, pois a Increase Records faliu antes. O primeiro oficial, “Music of Another Present Era”, acabou por ser lançado pela Vanguard, em 1972. Depois lançaram “Distant Hills” (1973), “Winter Light” (1974), “In Concert” (1975), “Together” (1976), com Elvin Jones, “Friends” (1977), “Violin” (1978) e “Moon and Mind” (1979). Nos álbuns, a característica a ser ressaltada é a da alta energia musical com instrumentos não usuais na música instrumental de improviso.

Manfred Eicher percebeu logo a qualidade da música do Oregon. A síntese que faziam da instrumentação da música européia com a harmonia do jazz, incorporando elementos orientais encaixava perfeitamente com o que Eicher pensava para a sua gravadora, a ECM. Durante os anos Vanguard, os músicos do Oregon participaram de vários projetos desse selo. Esses álbuns contribuíram bastante para o reconhecimento deles.

Em 1978, contrato assinado com a Elektra/Asylum Records, lançaram “Out of the Woods”. Foi considerado um dos melhores do ano e é o ápice criativo da banda. Gravaram ainda “Roots in the Sky” (1979) e “In Performance” (1978). Depois do nascimento do filho de Walcott, a banda deu um tempo, mas cada um continuou com seus projetos individuais.

Na nova/velha casa, a ECM, lançaram um novo álbum em 1983, e no ano seguinte, “Crossing”. Nem bem tinha sido lançado e acontece uma tragédia: Walcott morre em um acidente de ônibus. Estavam no auge. Trilok Gurtu entrou em seu lugar, mas o Oregon nunca mais foi o mesmo. Continuam na ativa, pelo jeito. Na atual gravadora, a italiana CamJazz, lançaram “Family Tree”, em 2012.

“Waterwheel” é uma das melhores de “Out of the Woods”. A química é perfeita. O oboé de McCandless é o instrumento dominante, combinando com a marcação de Walcott na tabla e Towner no violão.





Outro belo tema é “Witchi-Tai-To”, de Jim Pepper. A cítara é de Walcott.




O som do Oregon, com Walcott, era único. Ouça “Silence of a Candle”, composição de Towner. Maravilhoso. O interessante é que ele, depois de ter aprendido cítara com Ravi Shankhar, em vez de emular a música indiana, vai pelo caminho de criar uma linguagem própria que se adapta melhor à linguagem ocidental.




Ouça “Silence of a Candle” na versão ao vivo de “In Concert”.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Collin Walcott, o meu percussionista preferido

Collin Walcott e seu arsenal percussionístico
O Carlos Conde, comandante de um dos melhores programas voltados ao jazz na rádio Cultura, por mais de duas décadas, adorava uma bateria e odiava outros instrumentos de percussão, especialmente timbales, congas ou outro associado à música caribenha. Dizia que a bateria era essencial e a percussão, dispensável.

Tinha paixão por trios piano-baixo-bateria, mas não gostava de piano solo. Disse-me outro amigo, o Alberico Cilento, que em uma ocasião em que estavam em Washington, foram assistir a uma apresentação de Keith Jarrett, e como os ingressos estavam esgotados, disponibilizaram lugares a quem se dispusesse a ficar nas laterais do palco. Jarrett fazia um daqueles solos e, em um momento de silêncio, Alberico percebeu que o Conde estava dormindo. Acho que foi um dos poucos a puxar um cochilo ao som do pianista. Em outra ocasião, dessa vez comigo, no auditório Ibirapuera, uma das atrações era Brad Mehldau, também em solo piano. Não sei se dormiu, mas passou parte com os olhos fechados. Terminada a apresentação, o comentário foi mais ou menos assim: “Esse rapaz deve ter muitos problemas. Ele é muito triste.” Faltaram o contrabaixo e a bateria.

Menos idiossincrático e rigoroso que o Conde, também nunca fui muito amigo de congas e timbales.
Sem a rigidez dele, quando ouço aquelas percussões frenéticas, uma luz amarela se acende em meu cérebro. Gosto, no entanto de outros tipos de percussão, especialmente, o da música indiana, igualmente frenética, mas que em mim tem um efeito hipnótico, assim como gosto dos brasileiros Naná Vasconcelos e Cyro Baptista, que fogem do estereótipo do samba e do ritmista “pra turista ver”.

Outra percussão
Classificado como percussionista e também na categoria “miscellanious instruments”, Collin Walcott esteve sempre entre os melhores segundo a crítica. Quem gosta ou gostava do Oregon, banda formada originariamente por Ralph Towner, Glen Moore, Paul McCandless e ele, o conhece muito bem. Todos, mestres em seus instrumentos, foram protagonistas de um estilo que confundiram os que tentaram classificá-los em alguma categoria. Era algo que poderia ser classificado como jazz, pois era música de improviso, world em razão da instrumentação e do conteúdo melódico, ou erudita. Todos tinham formação em conservatórios: Towner no violão clássico, Moore no contrabaixo e McCandless na clarineta e no oboé. O primeiro toca também piano e trompete, o segundo, violino e piano, e o terceiro, saxofone e corne inglês. Os três tocam. O quarto componente é o único que tocava. Morreu em um acidente banal quando a banda excursionava pela antiga Alemanha Oriental. O ônibus deles colidiu e Walcott dormia no primeiro assento. Bateu com a cabeça, falecendo com apenas 38 anos.

A formação de Collin Walcott foi a da percussão. Estudou violino também. O interesse pela música indiana o levou a aprender a tocar tabla e cítara com Alla Rakkha e Ravi Shankar, respectivamente. Como seus outros companheiros, tocou no Paul Winter Consort, que é a origem da mescla da música ocidental com a oriental que irá consagrar o grupo Oregon.

Mesmo com a participação de todos na construção do som do Oregon, com certa predominância de Towner como compositor, a percussão e a cítara de Walcott foi um grande responsável pela singularidade que os diferenciou no meio musical. Isso fica evidente depois de sua morte. Com o indiano Trilok Gurtu em seu lugar, o Oregon mudou, perdendo muito o vigor criativo que saía das mãos de Walcott.

Os solos
Devido ao enorme talento da banda, todos os seus membros gravaram álbuns sob o próprio nome. Os de Walcoot foram lançados pela ECM. Foram dois: “Cloud Dance” (1976) e “Grazing Dreams” (1977), nenhum dos dois lançados no Brasil.  Este último, lembro até hoje, numa época em que não existia internet e comércio eletrônico e a importação era demorada e cara, tive a sorte de encontrá-lo na Modern Sound, em uma viagem ao Rio de Janeiro. Está na lista dos meus “desert island discs”.

Com Don Cherry no trumpete, flauta de madeira e doussn’ gouni (uma espécie de berimbau, só que africano), John Abercrombie na guitarra, Palle Danielsson no baixo e Do Um Romão na percussão, “Grazing Dreams” é uma obra prima.

Ouça “Song of the Morrow”, a primeira do álbum.



Só depois de conhecer o segundo, fui conhecer o de estreia. “Cloud Dance” é também excepcional. Os músicos são todos de primeira: John Abercrombie na guitarra, Dave Holland no contrabaixo e Jack DeJohnette na bateria. Várias faixas são em duos. “Prancing” é genial, com Walcott na tabla e Holland no contrabaixo; “Scimitar” e ele na tabla novamente, e Abercrombie na guitarra; “Eastern Song” é com Holland no baixo e Collin na cítara; a guitarra atmosférica e climática tão característica combina à perfeição em “Padma”.


Ouça “Margueritte”.




Além dos dois álbuns, Collin foi um dos membros de um trio absolutamente genial, o Codona, nome que corresponde às duas letras iniciais de cada componente: Don Cherry e Naná Vasconcelos. Os três se desdobram em instrumentos percussivos, a cítara, trompete e vozes. Lançaram três álbuns. Se você quiser saber mais, leia em O mundo “world” de Naná Vasconcelos.

PS. Lembrei de Collin Walcott quando escrevi sobre o grande guitarrista Steve Eliovson. Se você não leu, leia em O misterioso desaparecimento de Steve Eliovson.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O misterioso desaparecimento de Steve Eliovson

Imagem rara de Steve Eliovson
Os raios de sol entravam timidamente pela janela do apartamento que dividia com amigos no campus da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Estava a mexer em suas coisas distraidamente, pensando nas tarefas que tinha para o dia quando a música que tocava no rádio chamou-lhe a atenção. Parou tudo, sentou-se no sofá, hipnotizado pela beleza do violão que ouvia. Anotou o nome e logo depois saiu para comprar “Dawn Dance”, de Steve Eliovson. O tempo passou e perguntava-se: “O que teria acontecido com Steve Eliovson?” Nunca mais soube de algum disco que tivesse participado. Muito tempo depois, por acaso, descobriu que “Dawn Dance” saíra em CD.

Pouco se sabe também de como Steve foi gravar um disco por uma gravadora tão prestigiada como a ECM. “Dawn Dance”, lançado em 1981, tornou-se uma “espécie de lenda nos anais da ECM”, segundo Tyran Grillo (www.ecmreviews.com). Ser um disco apenas ao violão e a a percussão do genial Collin Walcott, deve ter sido ideia de Manfred Eicher, produtor e dono da gravadora. A parceria funcionou muito bem. O violão de notas claras, melodicamente sofisticado, de belas atmosferas, merecia continuidade. E assim ficou combinado. Steve gravaria um segundo disco para a ECM. Encaixava-se perfeitamente no que ficou conhecido como “ECM sound”, “o som mais perfeito depois do silêncio”. Eicher tinha em seu plantel violonistas guitarristas que se encaixavam ao seu gosto: além de Steve, Ralph Towner, John Abercrombie e Bill Connors.

Tom Marcello foi passar uma semana e meia na África do Sul. Convidado para uma reunião na casa do pianista Robert Payne, foi apresentado a um tal “Steve”. Ao ouvir Steve dizer que gravara na Alemanha, perguntou-lhe o sobrenome: “Eliovson”. Foi uma grande surpresa para Tom. Mal sabia que aquele guitarrista que, um dia, o havia impressionado, estava vivo e era sul africano. É uma das poucas coisas que se sabe de Steve.

Eliovson tinha ido à Europa para gravar o segundo álbum para a ECM. Aproveitando o fim de semana anterior ao seu início, foi esquiar nos Alpes. Quebrou a perna. As gravações foram adiadas e voltou a Nova York. Sem poder tocar, ficou sem dinheiro. Deixou suas guitarras e equipamentos em um depósito e resolveu voltar à África do Sul e lá ficar enquanto se recuperava.  Não voltou. Vendeu os pertences que deixara em Nova York e nada se sabe do que fez depois. É um mistério. Em Nova York, estava ensaiando com o pianista Richie Beirach e o saxofonista e flautista Dave Liebman. Tinha uma carreira pela frente e um novo disco programado por uma gravadora de prestígio.

Ouça o álbum. “Song of the Master” é uma das minhas preferidas. 


 

PS: Nos comentários, Alexandre Fernandes escreveu que ele morreu em 15 de março de 2020, em Johannesburgo, África do Sul.




terça-feira, 15 de março de 2016

O mundo “world” de Naná Vasconcelos

Naná, Don Cherry e Collin Walcott
Quase sempre o mundo te leva mas é preciso que você queira ser levado e, principalmente, ter o impulso para ele te levar. Juvenal de Holanda de Vasconcelos, que odiava ser chamado de Juvenal, segundo Matias José Ribeiro, era conhecido como Naná, que era como a avó o chamava.

Certo dia, Naná saiu do Recife e foi direto para o Rio de Janeiro, com passagem de ônibus custeada por Capiba. Encontrou-se com Milton Nascimento, como conta o cantor:

"Um dos momentos mais bonitos da minha vida foi quando Naná Vasconcelos chegou sem avisar na casa onde eu morava, na zona sul do Rio. Isso aconteceu nos idos de 1968. Ainda na porta, mal nos cumprimentamos e ele foi logo dizendo:

— Vim de Recife pra tocar com você.

Mesmo desconfiado, o deixei entrar. Naná foi direto pra cozinha, catou tudo que viu pela frente e começou a fazer um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos. Nessa época, eu estava gravando um disco pela Odeon, e assim que acabou a primeira música com ele tocando as panelas, perguntei:

— Naná, o que você vai fazer amanhã?

No dia seguinte, levei Naná para o estúdio comigo.”


Li uma vez: “A vida é um sutiã. Tem que meter os peito”. Tosco, não? Mas é verdede. Naná foi com a cara e a coragem e na outra semana estava gravando com Milton Nascimento. Daí, Naná foi sendo levado pela vida e os acasos.

O argentino Gato Barbieri estava no Brasil e viu Naná tocando com Milton. Impressionado, convidou-o a participar da gravação de uma trilha sonora. Saiu em excursão com o saxofonista e, a partir daí, ganhou o mundo.

Dança das Cabeças foi o primeiro álbum de Egberto Gismonti na ECM. O disco recebeu críticas entusiasmadas e ganhou cinco estrelas pela revista especializada em jazz Downbeat. Foi a abertura para o mercado internacional de Gismonti e Naná. O Brasil já os conhecia muito bem. Não foi novidade para nós o reconhecimento de seus talentos. Naná, antes, tinha gravado Africadeus (1972) e Amazonas (1973).

Gismonti firmou-se rapidamente lançando um disco atrás do outro tocando com Charlie Haden, Jan Garbarek e Ralph Towner. Teve inteira liberdade de desenvolver projetos pessoais e, inclusive, disponibilizar discos de sua gravadora Carmo, ligada à EMI-Odeon no Brasil, no mercado internacional. Se você quisesse comprar Nó Caipira, por exemplo, era necessário comprá-lo fora do Brasil, o que é bem incongruente.

Naná teve também seu quinhão. Participou de vários álbuns da ECM, tocando com Pat Metheny, Jan Garbarek e Pierre Favre, e em inúmeros projetos de outros que não eram desse selo. Pela ECM, lançou Saudades (1980), bom disco, mas inferior a Amazonas.

O novo som
A introdução de instrumentos como maracas, bongôs e timbales foram introduzidos na música americana com latinos que foram para os EUA, como Xavier Cugat, Perez Prado e Desi Arnaz. As orquestras que tocavam ritmos como a rumba e a salsa eram populares nas décadas de 1940 e 50. No jazz, Dizzy Gillespie foi um dos entusiastas e promotor de ritmos latinos. Quando se pensava em percussão, era automática a associação com essa música.

Em meados dos 1960, Airto Moreira, que fazia parte do Quarteto Novo, mudou-se para a América com sua mulher, a cantora Flora Purim. Com instrumentos desconhecidos dos americanos, como a queixada, surpreendeu-os. Foi tão importante que a Downbeat criou uma categoria nova, a percussão. Foi considerado o melhor por vinte vezes.

O reinado que parecia definitivo, deixou de ser quando ouviram Naná. Ele ampliou o universo da percussão. Era um mestre no berimbau, usava o corpo como instrumento, além de usar da voz, produzindo sons originalíssimos. Usando efeitos de eco e overdubs, sua voz se multiplicava com efeitos de pura magia. Naná era o feiticeiro dos sons que evocavam sons da floresta amazônica, de arbustos movidos pelo vento, cantos e revoadas de pássaros e grasnares. Foi oito vezes o melhor pela Downbeat.

Outro percussionista frequentava as listas dos melhores na categoria “miscellaneous instruments” e na percussão. Era tão original quanto Naná. Collin Walcott, que iniciara tocando com Paul Winter, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, que depois formariam a genial banda Oregon, era um ser diferenciado. Interessado pela música oriental, era um craque na cítara e na tabla. Como líder é autor de Cloud Dance (1977) e Grazing Dreams (1979), ambos pela ECM, dois discos especiais.

Don Cherry, que iniciara sua carreira tocando com Ornette Coleman, trumpetista e percussionista, era um apaixonado pelos ritmos africanos. Com Collin Walcott e Naná formou uma das melhores bandas que podem se classificadas como “world music”, o Codona, nome criado a partir das duas letras iniciais de cada um dos três. Sob esse nome lançaram três álbuns absolutamente excepcionais pela ECM.

Nos três discos, a predominância é de temas compostos por Collin Walcott. Os mais jovens, possivelmente, nem sabem quem ele é. Um acidente um tanto inusitado o matou quando tinha 38 anos, em 1984. Quem tem 30 anos hoje, nem tinha nascido. É bastante tempo. Em uma excursão que sua banda Oregon fazia pela Alemanha, o veículo que os transportava colidiu de frente com um automóvel. Walcott dormia no banco da frente sem o cinto de segurança.

O foco de Walcott era a música indiana. Foi estudar tabla na índia e teve aulas de cítara com Ravi Shankar. Os orientalismos de Collin foram capitais para o desenho do som do Oregon, em sua fusão da música indiana, a genialidade compositiva de Ralph Towner e a formação erudita de todos. Depois de sua morte, Trilok Gurtu entrou em seu lugar. Era bom, mas algo da essência do Oregon se foi com a morte de Walcott.

Depois do início avant garde com Ornette Coleman, Cherry passou a interessar-se pela música indiana e pela africana. A reunião de Naná, Walcott e Cherry aconteceu naturalmente, pois todos faziam parte do plantel da ECM.

O termo “world” é um tanto redutor do som deles. É genérico demais. Uma afirmação de Don Cherry é perfeita para o tipo de música que fizeram: “Quando as pessoas acreditam em fronteiras, elas tornam-se parte delas.” É assim que devemos pensar no som do Codona.

Melhor dizer que é inclassificável. Like the Sky, de Walcott, a primeira do primeiro Codona é um bom exemplo. Começa com uma flauta de Cherry com os sons da cítara de Walcott. Cherry alterna a flauta com seu pocket trumpet, O clima é melancólico, algo típico de Collin. Ao fundo, bem discretamente, ouve-se a voz de Naná, em registro bem grave. O andamento vai se modificando lentamente e sob o som da flauta, ouvimos Naná no triângulo e Walcott na tabla.

Sons como os da kalimba, do dúlcimer, o doussn' gouni, um tipo de harpa de origem africana, com cinco cordas, tocada por Cherry, a cuíca, o berimbau, a tabla, a cítara, as vozes, resultam em um som que não é brasileiro, americano, indiano ou africano. É uma música totalmente original e cosmopolita.

Dos três álbuns, acho o segundo o melhor. Em 2, a primeira é Que Faser, com “s” mesmo. Inclassificável. Godumaduma é um solo de Walcott na cítara. Malinye é uma composição de Cherry, um dos destaques desse álbum. Poética, é evocativa, com os sons da melódica e depois, o do trumpete.

Ouça Que Faser.




Ouça Malinye.



Dois dos melhores números estão em Codona 3: Lullaby e Inner Organs.

Ouça Lullaby.



Ouça Inner Organs.




Veja um trecho do Codona tocando. O instrumento que Don Cherry toca chama-se doussn’gouni.





Ouça Amazonas, de Naná Vasconcelos, na íntegra.