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quinta-feira, 17 de outubro de 2019
Quando Diego Figuueiredo toca com Ken Peplowski
Somos, no fundo, preconceituosos, por razões frívolas. Tal cara é de direita e, por isso, não lemos. Ou, vice-versa. No fundo, é bem bobo isso. Por que alguém de direita não pode escrever algo interessante. Por conta disso, leio de tudo. Se elogio alguém de direita, como João Pereira Coutinho, recebo respostas como “não gosto e não leio”. Cabe bem no que significa “pré-conceito”. O hífen, que não existe, separa aquele que, por não concordar, recusa-se a lê-lo. Na música acontece coisa semelhante. “Não ouço Anitta, porque é brega”. Bom, já entrei nessa classificação, o que quer dizer que sou preconceituoso. Não vou ouvir Belo nem Ivete Sangalo. Desculpe, é preconceito, e admito, se não tenho em relação à João Pereira Coutinho, meu filtro não me permite gostar de Leandro e Leonardo ou Chitãozinho e Chororó.
Depois dessa quase longa digressão, terei de confessar que não dava valor aos artistas que gravavam pela Concord Jazz. Se o disco era desse selo, nem ouvia. Estavam incluídos Scott Hamilton, Warren Vaché e Ken Peplowski. Se fosse para ouvir mainstream, preferia os velhos Count Basie, Duke Ellington e Dave Brubeck.
Mas meu amigo Alberico, um dos maiores conhecedores do jazz, junto com o também amigo Carlos Conde, um dia, colocou um CD do Ken Peplowski. Que belo clarinetista! Na época, nem ligava muito para esse instrumento. Tinha ouvido Buddy De Franco, Benny Goodman, alguns da banda de Duke Ellington. Com o tempo, passei a gostar de alguns como Jimmy Giuffre, Don Byron e, mais recentemente, a genial Anat Cohen.
É aquela coisa: o Natal não mudou, mudei eu. “Mainstream” deixou de ser palavrão. Todas as pedras que tinha guardadas para lançá-las em Wynton Marsalis, por exemplo, ficaram pelo caminho. Bem, devo confessar que ainda não estamos em um “relacionamento sério”. Prefiro o irmão Branford.
Bem, devo falar de outro músico: Diego Figueiredo. Por Cyrille Aimée, conheci um belo violonista que, de quebra, era brasileiro. Tive o prazer de conversar com ele por alguns minutos em uma apresentação que fez no clube Blue Note, de São Paulo. Muito simpático, disse que iria apresentar-se com Aimée, em São Paulo, em outubro. Por enquanto, não sei onde vão tocar. Mesmo apresentando-se em vários lugares desse vasto mundo, conserva o jeito caipira de quem nasceu em Franca, interior do estado de São Paulo. Fora isso, toca violão como se estivesse em um boteco. Não tem aquela pose de violonista clássico, nem a de roqueiro. É do jeito dele, usando uma das pernas para apoiar o instrumento, mal recostado nas cadeiras.
Fora do Brasil, não é o caipira de Franca; é um músico cuja linguagem associa-se ao jazz, mesmo sendo o mais brasileiro dos brasileiros em termos de sonoridade. Pois não é nenhuma surpresa que seja um dos parceiros de Cyrille Aimée e que tenha acabado de gravar um álbum em duo com Ken Peplowski.
Mesmo que o nome de Peplowski venha em primeiro lugar na capa, o álbum é mais brasileiro que qualquer outra coisa. Vamos combinar: faz muito tempo que as composições de Tom Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá fazem parte do repertório dos músicos de jazz do mundo inteiro. São universais.
Um outro dado da brasilidade é o título: “Amizade”. Fora “Caravan” e “Stompin’ at the Savoy” e o medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”, dois clássicos latinos incorporados ao cancioneiro americano, as restantes são composições de Diego, de Diego e Ken; o resto são temas dos já citados Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá. Há uma perfeita combinação entre os dois, tanto Peplowski tocando clarineta ou saxofone. Não é pouco não.
Veja os dois em “Caravan”, numa apresentação em Portland.
No medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”. Preste atenção no violão de Figueiredo.
Um dos destaques é “Pro Paco”, composição dos dois. Belíssima. Acho que a referência é Paco De Lucia. Ouça.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Diego Figueiredo na guitarra e no violão
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| Diego Figueiredo, com Gilberto Gil |
Diego é inventor de uma forma de tocar o violão. Chama-se “siririca”. Tinha uns 14 anos e fazia violão clásssico. Quando estudava para toca uma música chamada “El Colibri”, descobriu que, em vez de usar o indicador e o médio, poderia usar o polegar para imprimir maior velocidade no dedilhado. Após uma apresentação, impressionada com sua técnica com o dedão, alguém perguntou-lhe se a técnica poderia ser usada só no violão ou para alguma outra coisa. Um primo de Diego, que ouviu a conversa e batizou-a de “siririca”. A história foi contada em um programa de Jô Soares. Se você quiser assistir – porque é muito boa, não só por isso, acesse pela internet https://globoplay.globo.com/v/3507956/. Nela, explica outra técnica: a “pinicada”. Um esclarecimento: parece que esta palavra caiu em desuso. É o mesmo que “beliscar”. Em um sentido semelhante, quando as blusas de lã (natural ou sintética) mais grosseiras irritavam no contato com a pele, falava-se que elas “pinicavam” ou que eram “piniquentas”.
Brincadeiras à parte, o cara é bom. A culpa de não ser tão conhecido é por viver a tocar em outros países e a música instrumental não faz tanto sucesso quanto a cantada. É um globetrotter, como o bandolinista Hamilton de Holanda.
Não é a primeira vez que Diego é citado nesse blogue. Em “Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo” , conto que foi considerado por duas vezes o melhor guitarrista no Festival de Montreux e impressionou o produtor Quincy Jones. Apesar da dificuldade de se encontrar um disco dele nas lojas — está cada vez mais difícil é encontrar lojas que vendem CDs, na verdade —, acessando seu site, vemos que tem vários títulos lançados. Vários foram distribuídos pela Atração Musical e, pelo menos um foi lançado pela Biscoito Fino: “Vivência” (2009). Neste álbuum é acompanhado de Eduardo Machado no baixo e Fernando Rast, Figueiredo toca exclusivamente a guitarra elétrica. É uma boa amostragem de sua versatilidade.
Em “Vivência”, um dos destaques é “Paschoa”.
Em outro CD, lançado em 2008, toca violão acústico com Robertinho Silva na bateria e Rodolfo Stroeter no contrabaixo. Saiu pelo selo dinamarquês Stunt. Neste, abordam clássicos do cancioneiro brasileiro como “Na Baixa do Sapateiro”, “Último Desejo”, “Lamentos do Morro”, “Berimbau”, “O Morro Não Tem Vez”, “A Felicidade” e “Consolação”. É sempre um prazer ouvir um bom violão, ainda mais com a batida de Robertinho.
Veja Diego a tocar “Lamentos do Morro”.
Outro clássico: “Na Baixa do Sapateiro”.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo
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| Cyrille e Diego, à vontade |
Parte da responsabilidade do “tom” bossa nova se deve ao violonista Diego Figueiredo, com quem divide o disco. Como Diego passa metade do ano fora do país, imagino ser essa a raazão de ser pouco conhecido em terras brasileiras. Segundo lugar no Prêmio Visa de MPB em 2001 – o primeiro foi Yamandú Costa –, tocou com Belchior por quatro anos e acompanhou vários intérpretes. Lançou o solo Segundas Intenções, em 2004, pelo selo Atração Fonográfica; em 2009 saiu Vivência (nesse toca só guitarra), pelo Biscoito Fino. O último é um belo trabalho: vai na linha dos primeiros discos de Pat Metheny. Esses são os que sei que saíram por aqui. É possível que tenham sido lançados outros pois no site de Diego está dito que tem 15 álbuns lançados.
Cyrille é filha de pai francês e mãe nascida na Republica Dominicana. Foi finalista do prestigiado Thelonious Monk International Jazz Competition em 2010. As melhores cantoras da atualidade, como Roberta Gambarini (leia em http://bit.ly/L3ygSB), Jane Monheit, Gretchen Parlato (leia em http://bit.ly/RNT5Yg) e Tierney Sutton (leia em http://bit.ly/13mzgOD) foram finalistas nessa competição, para se ter uma ideia de sua relevância. E saíram com contratos assinados por gravadoras como a Concord Jazz (Jane), Telarc Jazz (Thierney) e Groovin’ High (Roberta). Desde que passou a morar nos EUA, tem se apresentado em clubes consagrados ao jazz como o Joe’s Pub, Birdland, The Iridium, Smalls e Dizzy’s Coca-Cola Club, do Lincoln Jazz Center.
Convidado por Diego, que a conhecera em uma das vezes em que foi premiado (duas vezes) como melhor guitarrista no Montreux Jazz Festival, gravaram Smile, em 2009. Quando se apresentaram, no ano seguinte, no Dizzy’s Coca-Cola Club, em Nova York, gravaram no Avatar Studios Just the Two of Us, lançado pela japonesa Venus Records em 2010.
Veja a apresentação de Aimée e Figueiredo no Dizzy’s Coca-Cola Club.
Os dois interpretam o standard Bye Bye Blackbird.
Conheço apenas o primeiro e, como diria nosso eterno campeão (Indy e Formula 1) Emerson Fittipaldi, “eu recomendo”. É um disco muito agradável. Cyrille tem bela voz e se vira bem em três idiomas – o natal, francês, o inglês e o português… só faltou cantar em espanhol – e Diego é craque. É um violonista preciso e sem os excessos “digitais” de Yamandú. Destacam-se A Night in Tunisia (boa mesmo, grande violão de Diego), Yardbird Suite, outro clássico bebop (Charlie Parker), as francesas, as manjadas Que reste-t-il de nos amours e La vie en rose, manjadas mas muito bem interpretadas por Aimée.
Os dois fizeram apresentações no Brasil e algumas delas estão disponíveis no YouTube. Veja e ouça Que reste-t-il de nos amours. Aqui, são acompanhados por Robertinho Silva e Eduardo Machado.
Veja e ouça Night in Tunisia.
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