quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Preciso rever meus conceitos sobre Tierney Sutton

Tierney Sutton
Tierney Sutton e Jane Monheit surgiram mais ou menos na mesma época. Apesar da diferença de idade (a primeira nasceu em 1963, e a segunda, em 1977), lançaram seus primeiros discos em datas próximas. Introducing Tierney Sutton é de 1998, pela Telarc, e, Never Never Land é do ano de 2000. Eram duas belas (esteticamente) novidades: uma, rosto angelical, pele de leite e lindos olhos entre o cinza e o azul, e a outra, Tierney, loura, nem tão bonita, mas com alguma característica que lembra Greta Garbo (perdoem-me fãs incondicionais da diva, se estou exagerando), e muito afinadas.

Desde tempos imemoriais, “beleza põe mesa”. Chato dizer isso: apesar da propalada evolução da humanidade, certas coisas não mudaram muito. Enquanto um “feião” como Humphrey Bogart ou Sean Penn dão certo, uma penca de “bonitões” enveredam pelo caminho do sucesso sem possuirem o mesmo talento. A “boniteza” funciona também na música, principalmente no gênero feminino.

Um dado curioso – pode estar até um pouco fora do contexto – é o de atrizes bonitas que encontraram um nicho como cantoras. Brigitte Bardot, Marilyn Monroe e Lena Horne são exemplos. No Brasil, tivemos Norma Benguell e Odette Lara. Particularmente, minha interpretação preferida de Samba em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, continua sendo a de Odette. Pelo jeito, não se interessou em prosseguir na sua carreira de intérprete.

Em medidas e doses diferentes, Diana Krall, quando foi lançado Only Trust Your Heart, pela GRP Records, deve ter despertado alguma impressão extramusical: aquela loura da capa, com os os olhos enigmaticamente semicerrados, era um bom apelo à curiosidade. Quem comprou o disco por essa razão, exclusivamente, ganhou um prêmio extra: a moça era uma tremenda pianista e, cantava bem; possuía uma voz cálida e poderosa. Eram muitos predicados em uma só pessoa. Depois disso, “descobriram” seu primeiro disco – Steppin’ Out –, lançado pela canadense Justin Time, de dois anos antes. Diana estava pronta desde o primeiro disco.

Diana Krall era um bom produto para a indústria fonográfica. O mundo do jazz havia ficado órfão de Sarah Vaughan (falecida em 1990), Ella Fitzgerald (1996) e Carmen McRae (1994). A era das divas tinha terminado. Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewate, e até as com mais quilômetros rodados, como Shirley Horn, Abbey Lincoln, Anita O’Day e Nancy Wilson eram ótimas, sem a aura, no entanto, do trio citado.

Próximo do fim do século passado, o mercado fonográfico tinha passado a investir pesado na imagem, mais até do que nas virtudes musicais. Entre Madonnas e Michaels Jacksons, em um nicho que nem precisava de tantos apelos comerciais, certas coisas se replicavam. Ampliou-se o investimento em qualidades extramusicais. Aí entra o apelo estético. Em tempos de culto a celebridades e “descerebrados”, a “boniteza” era um ás a mais na manga dos marqueteiros. Nessa senda aberta, Jane Monheit era a aposta da pequena N-Coded Music, Tierney Sutton, pela Telarc, Nenna Freelon, pela Columbia/Sony, e Norah Jones, pela Blue Note.

Sempre fiquei com os pés e as mãos para trás. Sempre tentei não cair nessa armadilha.


Tierney Sutton e American Road
Sutton, Freelon, Monheit e Jones aparentavam ter qualidades além da beleza ou do charme. Bem, estou comentando sobre Sutton. Pois, sentia que faltava alguma coisa nela e em Jane Monheit. Afinadas, quase perfeitas, mas faltava aquele “a mais”, aquilo que nos impele a ouvir vezes e vezes e nos fascinar.

Em alguma hora, pode acontecer uma surpresa. Quando ouvi Desire (2009), nesse ano, percebi alguma diferença. American Road, o mais recente, lançado em 2011, então, é muito bom.

O que faz uma boa cantora, além de boa voz? Suingue? Ritmo? Inteligência? Bom, um dos grandes pecados é ter boa voz e não captar o sentido do que canta. Isso pode ser resolvido, parcialmente, com um bom produtor, alguém que saiba escolher um bom repertório, bom acompanhamento, bons instrumentistas. No caso de Sutton, o dado que sinaliza essa transformação é a de que seus álbuns, desde On the Other Side (2007), constam como sendo da Tierney Sutton Band. É uma grande diferença. Pode ser falsa a minha impressão, mas parece que a participação de Christian Jacob e dos restantes Kevin Axt e Trey Henry, nos baixos (sim, a banda tem dois baixistas), e Ray Brinker na bateria, mudaram o conceito do som; não são apenas acompanhantes; são partes de um todo.

Jacob é um francês emigrado e, no início, fez parte da banda do trumpetista Maynard Ferguson. De formação erudita, interessou-se em cursar uma escola mais voltada ao jazz para “aprender” a improvisar. Sem querer desmerecer a cozinha (baixos e bateria), seu piano faz muita diferença. É um estilista. Sutton encontrou o seu “Flanagan”, assim como Billie Holiday teve Teddy Wilson, e Ella Fitzgerald teve Tommy Flanagan (daí a referência acima), e Hank Jones.

A “Band” de Sutton deixou-a mais solta; não é apenas a voz afinada à frente de boa fachada. Somaram-se a esses dois atributos uma interpretação mais livre: a voz anasalada é parte do conjunto, ou seja, a voz é um instrumento, como são os baixos, o piano e a bateria. Como um elemento das partes que fazem o todo, por exemplo, faz um Amazing Grace maravilhoso; seu canto é acompanhado pela marcação do contrabaixo e o que é quase um hino vira uma peça, que sem perder a majestade, é uma outra “majestade”. Em três standards gershwinianos de Porgy and Bess “in a row” – It Ain’t Necessarily So, Summertime, e My Man’s Gone Now – revela sua verve jazzística, e muito bem. São três interpretações de tirar o chapéu.

Em mais um standard – Tenderly –, evidencia-se o casamento da vocalista com o pianista. Jacob ataca na notas mais graves, em andamento lento para a voz muito bem colocada, sem dramatismos gratuitos: belo duo. E quando, achamos que é suficiente, Sutton vem com outras surpresas. Entoa um belíssimo Somewhere, em que a tensão crescente desemboca em três palavras: “somehow, someday, somewhere”. Something’s Coming e Cool completam a trilogia Leonard Bernstein/Stephen Sondheim, de West Side Story.

O fecho é um duo maravilhoso de Sutton e Jacob, em America the Beautiful. Bem, comecei por Amazing Grace e quase esquecia de falar das primeiras. Sutton começa com um spiritual tradicional: Wayfarer Stranger. Serve para esquentar os motores. A temperatura aumenta com o medley Oh Shenandoah/The Water Is Wide, duas outras tradicionais, a primeira americana e a segunda, escocesa. A terceira é On Broadway, conhecidíssima na interpretação de George Benson, que é puro balanço com o baixo e a bateria “quebrando tudo”. Aí, chega Amazing Grace, que foi por onde comecei. E é o que você vai ouvir.

Esta versão de “Amazing Grace” é diferente da que consta no CD. É de uma apresentação ao vivo.





Ouça “Wayfaring Stranger”, a faixa de abertura.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Diana Krall: a pose na capa é para quem pode

Krall, de corpo inteiro
Na primeira audição é um susto total. Glad Rag Doll é totalmente diferente do que gravou até hoje. Mas, acostumando-se, é possível se dizer que é bom.

Ainda não há muita coisa escrita sobre o CD que tem lançamento oficial anunciado para hoje, 2 de outubro (escrevo quatro dias antes). O repertório é quase todo composto de músicas compostas no período entreguerras. Está aí também a explicação pela imagem glamurosa dessa moça de 47 anos. Foi inspirada nos figurinos de Ziegfeld Follies.

Diferentemente dos outros discos em que os sidemen são John Clayton e Jeff Hamilton, temos uma profusão de violões, guitarras e assemelhados como o ukulele e o banjo; e seu guitarrista de costume – Anthony Wilson – nem participa.

Na fase pré adolescente e adolescente, Krall costumava ouvir a vasta coleção de discos 78 rpm do pai. Algumas das canções de Glad Rag Doll, conheceu-as naquele tempo. A cantora/compositora selecionou 35 canções e apresentou-as ao produtor e guitarrista T Bone Burnett. A ele coube a escolha. Algumas como I’m a Little Mixed Up, um rockabilly de 1961, entraram por sugestão de T Bone. Diana considerou um desafio, mas T Bone disse achá-la ótima também como pianista “rock’n’roll”. Outra “fora do tempo” é Lonely Avenue, gravada por Ray Charles em 1956, com arranjo inspirado, segundo T Bone, em entrevista disponível no Vimeo, em Tribute to Jack Johnson, grande disco de Miles Davis de sua fase elétrica inicial.

A capa do CD
Sem a presença de Anthony Wilson, quem dá show é Marc Ribot. O “cubano postizo”, a exemplo de outro americano – Ry Cooder –, sempre dá um toque diferenciado por onde passa (leia sobre sua participação no disco de Madeleine Peyroux aqui)

Pois, como dizia, à medida que se ouve mais, o “susto” se vai e vejo que posso clicar “curtir” em várias faixas. E, pensando bem, mesmo louco para falar mal de Diana, não consigo: é paixão incondicional. É até perdoável uma capa como a de Glad Rag Doll, em que se explora a imagem da mulher sensual em detrimento de outras qualidades. Falei mal mais de uma vez desse tipo de exploração que “coisifica” o artista. Imagino, porém, que ela está de pleno acordo em aparecer do modo como é apresentada na capa. Não se deve nunca esquecer que o narcisismo é um comportamento natural e Diana deve ficar muito feliz quando a elogiam por sua beleza, quem sabe, mais até do que pelo seu talento musical.

Após ouvir cinco vezes em um período de dois dias, já tenho as minhas preferências: Let It Rain (suave, acústica, violão, baixo e bateria), Glad Rag Doll (prefiro o alternate take, com ela ao piano), Wide River Cross, a “roqueira” I’m a Little Mixed Up, When the Curtain Comes Down, e, principalmente, Lonely Avenue. É a que você ouve aqui.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Ouça a mesma canção, com Ray Charles.



Ouça Wide River to Cross.