quinta-feira, 24 de maio de 2012

Melody Gardot é o máximo

Estilo é o que não falta a Melody Gardot
Circula pela internet um disco de Melody Gardot chamado FIP Radio France 2009-9-10. Procuro no site da Amazon e não o encontro. Deve ser um “bootleg”; chamam-se assim ainda discos piratas? Nas décadas de 1960 e 70, os tais “bootlegs” eram vendidos a preço de ouro (naquele tempo, a cotação do precioso metal era bem mais alta do que é hoje) e, normalmente, eram gravações feitas em shows de maneira precariíssima em fitas cassetes. Valiam mais pelo ineditismo. Para se ter uma ideia, os que nem sabem o que eram gravadores de fita cassete, o seu telefone celular grava com qualidade dez vezes maior.

É um show, evidente, em Paris, provavelmente. Como Melody tem apenas dois discos lançados e tudo o que fez até agora é bom, a seleção é de primeira. Uma coincidência: os dois CDs, comprei-os em Paris, em duas ocasiões diferentes; vejo pelos “jewel boxes” pois, como os franceses têm que ser diferentes em tudo, as “caixinhas” possuem cantos arredondados e possuem até um fecho de pressão. Disseram que o fazem como forma de proteger a indústria local. Não sei se alguém teve a oportunidade de tentar escrever em um teclado de computador francês. No mundo todo convencionou-se à forma chamada “qwerty”, que corresponde às primeiras letras da esquerda para a direita, mas os franceses, como disse, são diferentes. Tente comprar um DVD francês e veja no que vai dar. Outro detalhe: quando comprei o primeiro, na Virgin da Champs-Élisées, tinha certeza de que estava adquirindo o disco de uma francesa, ainda mais pelo nome “Gardot”, foneticamente, semelhante ao “Bardot” de Brigitte.

A primeira é Worrisome Heart e a segunda, é The Rain. Até o fim dos meus dias, vou ficar (muito) emocionado ao ouvir essa composição de Melody. Às vezes, me faz lembrar de Nina Simone. Na voz doída, impossível não pensar na sua tragédia pessoal: quando tinha 19 anos, foi atropelada andando de bicicleta e, hoje, anda apoiando-se em uma bengala, em consequência de danos na bacia e na espinha, além de ter ficado com um problema de intolerância com a luz, sendo obrigada a usar óculos escuros (leia http://bit.ly/Kmg0Ck).

Gardot sabe interagir com a plateia. Fala em francês, em inglês, conta histórias, faz juras de amor ao público, brinca com o sotaque russo (acho que é isso mesmo) da avó, conta passagens de sua vida, sobre sua mãe e de seu nascimento. Fala da gratidão que tem pela mãe. Pelo que Melody fala, é filha de mãe solteira, que tinha três empregos para se sustentar. Simpaticíssima.

Além das composições dos discos solos, canta alguns standards que não gravou, como Smile (essa era uma que a mãe cantava) e Caravan, de Juan Tizol e Duke Ellington; a outra, Somewhere Over the Rainbow, gravou no seu segundo CD. Para confirmar que Melody lembra Nina Simone, na sua composição Love Me Like a River, abre com os versos iniciais de Wild Is the Wind, uma das canções emblemáticas interpretadas pela legendária cantora. “Love me love me/ Say you do/ Let me fly away/ With you”, são os versos iniciais desse clássico; Love Me Like a River começa com “Love me like a river does/ Cross the sea/ Love me like a river does/ Endlessly/ Love me like a river does/ Baby, don‘t rush you’re not a waterfall”. “Me ame como um rio/ Querido, não se apresse, você não é uma cachoeira”. Lindo, não? É o que você vai ouvir.



A outra que você ouve é Ain’t No Sunshine. É um clássico do anos 1970 (é de 1971), de Bill Withers. Ouça a original, com Bill.



A de Melody.



Vamos aguardar o CD – The Absence –, que será lançado no dia 29 de maio. Enquanto isso, assista ao teaser. É um making of da capa.






terça-feira, 22 de maio de 2012

A solidão de Jack White

Jack White e suas olheiras
Ao ouvir Missing Pieces, a primeira faixa de Blunderbuss, primeiro disco solo da parte masculina da dupla White Stripes, fica-se com a sensação de que aquele velho Jack se perdeu em algum lugar. Quando o White Stripes lançou o primeiro disco, pouco antes do fim do século XX, foi um choque. Aquilo era para fechar o século mesmo. Como era possível apenas duas pessoas – ele, Jack, e Meg White – fazerem tanto barulho? Fiquei pensando em truques de gravação, fitas pré-gravadas, overdubs, mas quando os vi no Credicard Hall, percebi que era possível. Meg, furiosa, de carinha entre o angelical e aquela menina que protagonizou O Exorcista… Linda Blair… esse era o nome, golpeava a bateria com raiva. A técnica estava em algum plano desnecessário. Meg personificava a fúria assassina e, no caso, a vítima era a bateria.

Não que Missing Pieces seja ruim. Mas, começar com umas notas no Fender Rhodes que se replicam na batida da bateria e no baixo? Muito calmo para o que se espera de Jack. Na faixa seguinte – Sixteen Saltines –, aí sim, lá está o velho Jack. De vez em quando penso que ele é uma mistura de Robert Plant e Jimmy Page numa só pessoa. White explora todos os sons da guitarra; não é à toa que o colocam no patamar de Hendrix. É o que se conclui ouvindo-se Freedom at 21, a seguinte. Que bom gosto nas distorções e overdubs!

As seguintes – Love Interruption, Blunderbuss, Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, I’m Shakin’, Trash Tongue Talker, Hip (Eponymous) Poor Boy, I Guess I Should Go to Sleep, On and On and On e Take Me With You When You Go – são bem diversas entre si. A diferença entre o tempo do White Stripes e o do solo é o uso mais intensivo do piano e “puxadas” de slide guitar. Jack é country (com direito a cordas), é rock britânico, americano, folk e blues. O disco solo corresponde ao fim do White Stripes – nesse ínterim, montou o The Racounteurs, com Brendan Benson, Jack Lawrence e Patrick Keeler, e o Dead Weather, com Alison Mosshart (The Kills), Jack Lawrence e Dean Fertita (Queens of The Stone Age) – e de seu casamento. Mas o disco não pode ser rotulado de triste. Segundo Jack, rompimentos não precisam ser, necessariamente, trágicos ou tristes, conforme disse à Folha de S. Paulo.

Apesar do estranhamento, para quem se acostumou com Jack no White Stripes, aos poucos, acostuma-se com o Jack líder solitário. Em Blunderbuss, algumas músicas são muito boas: Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, On and On and On. Fazem valer os reais que se gastam.

White faz os diabos com a guitarra, e canta, ao mesmo tempo. É fenomenal mesmo e a crítica já o coloca entre os melhores de todos os tempos. Thales Menezes, na Folha de S. Paulo (9/5/2012), diz que “uma revista o deixou atrás apenas de Jimi Hendrix, outra indicou que só Eric Clapton foi melhor”. O fato é que White ouviu todos esses grandes guitarristas e assimilou a técnica, tanto de Hendrix como a de Jimmy Page (na minha opinião, quem mais o influenciou) e de Buddy Guy. É um instrumentista versátil, tira tudo da guitarra e é ótimo compositor. Jack White caminha em várias direções. É a expressão de seu talento.

Fique com Sixteen Saltines. É poderosa.



E, com Hypocritical Kiss, só com as meninas.



Ouça Weep Themselves to Sleep.



Veja Jack cantando Freedom at 21, só com as meninas, de novo. Ele montou uma banda só de mulheres; alterna com uma com os homens.