quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

2046: a visão futurista de Wong Kar-Wai

No fundo, o futuro será como é o presente. É mais ou menos a ideia contida em Axelrod, de Hilda Hilst: "para onde vão os trens, meu pai? para mahal, tami, para camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti."

As personagens de Wong Kar-Wai mudam de paisagem mas não conseguem fugir deles próprios. Em Beijos Roubados, Elisabeth, abandonada pelo companheiro diz que “vai atravessar a rua pelo caminho mais longo”, quando resolve sair de Nova York. A tristeza ou os episódios de felicidade de alguém caminham com ela. Talvez haja uma ilusão de que, ao se caminhar, espantam-se as dores. É razoável e até mais ou menos verdadeiro. As velocidades de percepção, mesmo sendo enganosas, nos dão ilusão de que, estando o “motivo” de nossas tristezas distantes, distantes estarão de nossas mentes.

As pessoas se movem não apenas por tristeza. Há, nas “mudanças geográficas” do jornalista Chow Mo-wan (Tony Leung Chiu Wai – os dois nomes a mais são porque Tony tem um homônimo, ator também) uma busca de felicidade e prazeres também. Mas, desafortunadamente, encontra mais sofrimentos: dores caladas como o amor que desenvolve pela filha do dono do hotel em que se hospeda e, inspirado nela, escreve um romance relatando de um “futuro” 2046.

O trem é uma boa metáfora para essa necessidade do homem de sempre estar se movendo. Esse hipotético 2046 é um lugar em que as pessoas se transportam para recuperarem suas lembranças perdidas. As imagens abaixo são da cidade futurista de 2046.
























































































Para concluir, a bela “Siboney”, por Connie Francis.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O trumpetista Liam Sillery faz um grande disco

O CD Phenomenology tem pelo menos uma grande música: Koi. O som do trumpete ecoa em notas simples e belas enquanto o baterista acaricia os pratos com suas baquetas. O sax alto entra como segunda voz, em volume bem mais baixo que o do trumpete de Liam, e Thomas Morgano dedilha poucas notas no baixo, como faz o pianista também. Nota máxima.

Seu nome é Liam
E foi um “cinco estrelas” dado pela revista Downbeat que me chamou a atenção. Diferente de algumas outras revistas e jornais, ela não sai distribuindo notas máximas ou “ótimo” a torto e a direito (foram apenas seis os que receberam 5 estrelas em 2010).

É difícil dizer que o som produzido pela banda de Sillery seja mainstream, mesmo lembrando os velhos discos da Blue Note como os de Joe Henderson, Jackie McLean e cia.  Em alguns momentos, remetem à combinação clássica do trumpete de Miles Davis e o sax tenor de Wayne Shorter do quinteto formado com Ron Carter, Herbie Hancock e Tony Williams.

São o trumpete de Sillery e o sax alto de Matt Blostein, portanto, que abrem Phenomenology, a primeira faixa do CD. No solo do trumpete, o baixo e o piano apresentam-se em poucas notas e, sucedendo um solo do sax-alto em notas da escala média, o pianista Jesse Stacken faz um solo em que, junto aos arpejos da mão direita, a esquerda percute poucas e climáticas notas nas teclas graves. Da atmosfera impressionista – nevoenta? – surgem claros os sons de Liam e Matt para fechar a música.

Um belo uníssono de sax e trumpete abre Holding Pattern. O tema é repetido várias vezes – talvez por isso se chama “Holding Patterns” – até a entrada do piano. Lembra um pouco o álbum Water Babies, de Miles Davis, apanhado de gravações registradas por volta de 1968.

Uma constatação: os títulos são sugestivos, a começar por Phenomenology. A música, em si, é tão abstrata, não só a de Liam, que conjecturo sobre as escolhas desses títulos. A última também tem um desses títulos que me deixa “no ar”: Intentionality. É uma música sincopada, quebrada por contrapontos da bateria e baixo para os uníssonos de Liam e Matt.

Um belo disco que deve ser ouvido.

Ouça Koi.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fleurine canta Supertramp

Sem ser uma crítica, a voz de Roger Hodgson é um bocado irritante. Torço para que os mais fanáticos fãs do Supertramp não passem a me odiar. Aqueles que compartilham da minha opinião têm uma alternativa: ouvir a belíssima The Logical Song, com Fleurine.

A bela holandesa
Em 2000, apresentou-se no Teatro Alfa acompanhada no piano por Brad Mehldau. O acontecimento era surpreendente, pois Brad estava sendo considerado o melhor pianista da nova geração e vinha como coadjuvante. Chegou ao palco, sentou-se ao piano, e a estrela era uma bela loura de voz delicada, mas nada empolgante. Muitas pessoas foram embora durante a apresentação. Quando findou, restavam umas 60 pessoas na plateia.

O motivo de eu ter ido ao show foi porque, se não me engano, era a primeira vez que Brad Mehldau se apresentava em terras tupiniquins. Na época, já possuía todos os seus CDs, todos importados. De lá para cá, veio, algumas vezes, apresentando-se só ou em trio. Virou “da casa”. Na vez em que tocou no Auditório Ibirapuera, SP, executou O Que Será Que Será, de Chico Buarque e Milton Nascimento.

A razão de Mehldau vir como simples acompanhante tinha alguma “motivação”. Eram namorados. Agora, devem estar casados.

Apesar de Fleurine não ser grande cantora, mostra-se ousada ou, pelo menos, tenta se diferenciar da mesmice de cantoras como Jane Monheit, Therry Sutton e uma infinidade de outras, que repetem ad infinitum o repertório de standards. Andou gravando compositores do “pop/rock”, como Jimi Hendrix, Nick Drake, Peter Frampton e Paul Simon. Inclui no repertório alguns compositores brasileiros e chegou a compor originais na língua portuguesa (apresentou no Teatro Alfa uma delas, feita com ajuda de uma amiga brasileira). Além disso, colocou letras em temas instrumentais de Brad e de Pat Metheny.

Fire, o penúltimo álbum, foi produzido por Robert Sadin. O conceito “heterodoxo” desse produtor é responsável por trabalhos muito interessantes como The Gershwin’s World, de Herbie Hancock, e, The Art of Love, disco baseado em obras de um compositor Guillaume de Machaut, do século XIV, com participações de Milton Nascimento, Madeleine Peyroux, Natalie Merchant, Brad Mehldau, dentre outros.

É esperar para ver o que vem a seguir com Fleurine.


Ouça a bela interpretação de The Logical Song por Fleurine: