sábado, 19 de junho de 2010

Relações entre Kazuo Ohno e Antony and The Johnsons

Um dos grandes acontecimentos da década de 1980 foi a vinda, pela primeira vez ao Brasil, de Kazuo Ohno. Exagero? Pode ser. Garanto, no entanto, que quem assistiu às suas apresentações no Sesc-Consolação-São Paulo concordarão comigo. Ohno foi o propagador dessa forma de dança-teatro chamada butoh – ou teatro das trevas – com seu parceiro Tatsumi Hijikata. O responsável por sua vinda aqui, além de Antunes Filho, foi outro japonês, Takao Kusuno, como o seu irmão Tomoshigue, ligado às artes, ambos emigrados e de carreiras relevantes no meio artístico paulista.
A emoção causada por aquele senhor quase octogenário maquiado de branco, vestido com roupas femininas pode ser descrita – ou não – se só sentida, apenas pelos que tiveram o privilégio de vê-lo. Esteve mais duas vezes no Brasil. Contudo, foi tão forte a impressão causada que me recusei a vê-lo novamente, receoso de manchar aquele primeiro impacto. Tornou-se um mito e ficou num lugar acima dos que ocupamos, os humanos.
Pois, agora no início do mês de junho, fico sabendo que faleceu. Com 103 anos. E eu que o achava imortal, como os deuses. E era humano, como nós. O butoh, modalidade de dança surgida depois da tragédia da Segunda Guerra Mundial, era a manifestação da transcendência da morte… ou da vida? Em suas apresentações, o corpo magro e carcomido de Ohno era a própria transcendência, da indivisibilidade da vida/morte, em seu físico incorpóreo, branco como um fantasma diante de um cenário desnudo e negro.
Não é simples coincidência de que Kazuo Ohno esteja na capa do ultimo CD de Antony & The Johnsons. Há algo de estranho nesse compositor californiano e – muito mais – intérprete que se chama Antony, sem o “h” costumeiro na grafia em inglês deste nome. E esses “Johnsons”, quem são? E quem, porventura viu alguma de suas apresentações, sabe que tem muito mais que isso de estranho. É uma figura obesa de longos cabelos despenteados e ralos em seu topo e lábios muito, muito finos, quase que como se não os tivesse, meio assexuado, ou se quiserem, de aparência afeminada. Sua voz não é nem a de um homem e nem a de uma mulher, se se considerar que existe uma “terceira via”. Não é a voz de um castrati nem de falsete como a de Ney Matogrosso ou Jon Anderson, cantor do grupo de rock progressivo Yes. Um amigo, ao ver a capa de seu primeiro álbum, achou-o uma mistura de Boy George gordo com Nina Hagen.
Tal qual um curioso acidental, incidentalmente, em uma de minhas viagens, comprei o I Am a Bird Now sem saber muito dele, apenas aquela curiosidade por aquela personagem excêntrica. Foi um soco no estômago: a primeira faixa, Hope There’s Someone, foi um dos “impactos à primeira vista”. Temeria dizer que tenha sido “amor à primeira vista”, pois faltavam adjetivos que o classificassem, pego no “susto” que fui. Era uma voz triste e expressiva no entanto, estranha. É claro que fui atrás do primeiro CD lançado, que não é tão bom e nem tão impactante quanto I Am a Bird Now. Não me alongo sobre os dois primeiros CDs, que serão para uma outra hora.
O mais recente, The Crying Light, lançado em 2009, é um belo disco, sem dúvida. Tocante, com arranjos belíssimos em que se realçam as cordas sobre linhas de piano e belas intervenções de sopros, como a flauta e a clarineta, é, como o anterior, com aquelas baladas tristes e melancólicas. Her Eyes Are Underneath the Ground, que se inicia com sua voz, o piano e um cello é uma excelente introdução da capacidade de Antony Hegarty emocionar a nós todos com sua voz “triste”. É de quase chorar – digo para aqueles que estão naqueles momentos específicos de fragilidade ou sensíveis como finas camadas de cristal – quando canta por misericórdia (“In the starlight you came from the other side/ To offer me mercy/Mercy/Mercy”) em One Dove. Depois do primeiro refrão, entra um solo de sax que apenas impulsiona o sentimento de abandono. Mesmo nas músicas mais “alegrinhas”, o tom que sobressai é o da melancolia: é como se a alegria fosse um sentimento insuficiente em sua alma. Antony tem algo de cantor de cabaré, digo por uma certa teatralidade no seu modo de cantar, que lembra um pouco a de Marc Almond, criador do Soft Cell nos anos 1980. Mas não é apenas por isso: é também por sua androginia, no seu modo de vestir embaralhando peças masculinas com femininas, no seu jeito delicado de arrumar o seu “despenteado”, enfim é uma figura exótica, capaz de causar tanto impacto quanto ver pela primeira vez a figura de Kazuo Ohno no palco.
Na capa, uma foto de Kazuo por Naoya Ikegami. Nas internas do encarte mais três imagens: a de Antony, uma foto escura com um brilho raiado no olho, uma de Johanna Constantine – que é o mesmo nome de uma personagem de Sandman, criação de Neil Gaiman – banhada do que parece sangue – na busca pelo Google, fez parte de um grupo chamado The Blacklips Drag Theater, do qual Antony era um dos componentes –, e a dra. Julia Yasuda, phd em matemática, nascida com algo designado como síndrome de Klinefelter, qualificada como uma desordem cromossômica em que seres do sexo masculino nascem com um cromossomo X a mais – novamente, Google como fonte –, que, como Johanna, participou de performances e apresentações com o cantor. Bom, é muita esquisitice de uma vez. Estranho e belo.


Veja e ouça:
Hope There’s Someone.



Para ouvir o disco Crying Light, acesse: http://www.jango.com/music/Antony+and+the+Johnsons?l=0

Memória, presente e os “mortos” por Melhem

José Roberto Melhem lançou em 2002 um livro de contos – Moscas – e depois de sua morte, em 2008, teve lançado pela editora da ImprensaOficial, Uma tarde dessas. É um punhado de contos brilhantemente escritos e faz pensar em algo que o artista Baravelli uma vez disse: “Todo mundo deveria de tempos em tempos ler um livro de Eça de Queiroz. A gente sai falando um português até melhor.” E é assim com Melhem: é um estilista da língua portuguesa, daqueles de dar inveja na gente.

Lembrando do “presente” de Ferreira Gullar, dou de cara com o que Melhem escreve no conto Figuras no corredor:

“Os personagens são como as lembranças, surgem, moldam-se, corporificam-se e em algum momento se vão, ou não se vão, de repente ou não, por vezes demoram a desfazer-se na memória até que deixam, finalmente, de existir por completo, como se nunca tivessem feito parte da nossa vida. Outros há que se integram ao nosso cotidiano e não desaparecem, mesmo que o queiramos com todas as forças. […] quando nos damos conta alguns personagens e lembranças vão se transferindo do nosso presente par aum lugar ignoto, podem ter morrido de verdade ou não, pode até ser que os tenhamos banido deliberadamente de nossa memória, fato é que passam a ser mortos, nossos mortos”.

O livro Uma tarde dessas pode ser encontrado nos sites da Imprensa Oficial (www.imprensaoficial.com.br), da Cultura, da Fnac, da Saraiva, Livraria da Vila e outras.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Allen Toussaint e seu “Bright Mississippi”


Na calada, foi lançado o cd Bright Mississippi, de Allen Touissaint, no Brasil. Toussaint está além das classificações. Para facilitar é considerado alguém do rhythm-blues. Produtor, músico, compositor e arranjador, seu nome está asssociado a artistas dos mais díspares gêneros como Glen Campbell, Paul McCartney, Otis Redding. Em Bright Mississippi está acompanhado do clarinetista Don Byron, do trumpetista Nicholas Payton, Marc Ribot no violão e na guitarra e tem participações do pianista Brad Mehldau e do saxofonista Joshua Redman, nomes mais associados ao jazz. Mesmo assim, não é jazz. É música instrumental de primeira. Imperdível.

Ouça Egyptian Fantasy:

O presente de Joseph O’Neill e a (memória) presente de Ferreira Gullar

Coincidências são meras coincidências ou acontecem por mecanismos mentais que fazem com que aconteçam?
Uma frase que está contida em Terras Baixas, do irlandês Joseph O’Neill (Ed. Alfaguara, 2009, pág. 156): “Não há momento como o presente. A menos que você tenha coisa melhor a fazer”.
Na coluna dominical de Ferreira Gullar, na Folha de S. Paulo (16 de maio de 2010), intitulada “Surto filosófico”, o assunto é o presente, se outro, não sei. Mas é interessante a coincidência de estar lendo sobre isso: “O poeta é aquele cara que se surpreende com o óbvio e, ao fazê-lo, torna-o surpreendente, pelo menos para si mesmo. Assim é que estou aqui maravilhado com a minha descoberta de que a memória é parte do presente que vivo e não apenas do passado que vivi. […] E o que é o aprendizado, senão memória? E essa memória está de tal modo inserida no presente, que é parte constitutiva dele: fazer é lembrar como fazer, sem se dar conta de que lembra. E ainda: a memória não apenas nos permite fazer por já sabermos como nos ajuda a descobrir modos de fazer, corrigindo o sabido, e assim engendra o futuro. […] Se é impossível pensar sem nada saber, é que só é possível pensar graças à memória.Mas pensar é quase inventar o que se pensa.” Gullar conclui: “A memória me permite inventar o futuro de que me lembrarei, como passado, futuramente.”

“Les eaux de mars”: Jobim por Stacey

A americana Stacey Kent formou-se em Literatura Comparada. Isso não faz dela melhor ou pior que outras cantoras. Mas fará diferença no que for dito mais adiante. Com o intuito de estudar línguas – francês, alemão e italiano –, Kent foi para Londres e ingressou na Guidhall School of Music. E deu no que deu. Conheceu seu futuro marido e parceiro nos discos que gravou até hoje e faz parte do cast da Blue Note Records, uma das poucas “majors” especializadas no jazz nesses fins de tempos dos formatos outrora consagrados para se ouvir e se divulgar a música. Nada contra a internet, que por linhas tortas, dissemina a música por todos os rincões deste mundo. A importunação não é com as gravadoras, que sempre souberam explorar ao máximo seus contratados. É sim com os músicos e intérpretes que assim deixam de receber pelos direitos autorais a que têm direito. A distorção chegou ao ponto em que o produto físico, o CD, se constituía em custo quase zero em relação ao que se gastava em marketing. É por isso, de certo modo, que o público “engole” produtos de quinta categoria como a música sertaneja, cantores ou cantoras em que mais importante são a beleza ou corpos atléticos. Felizmente, uma mulher de rosto comprido, magra, nem especialmente bela, pode se impor no mercado fonográfico. A competência derruba barreiras.

O escritor anglo-nipônico Kazuo Ishiguro, autor de “Vestígios do Dia” (“The Remains of the Day”), fã de jazz, fez parceria com ela e com Jim Tomlinson, seu marido no penúltimo CD, “Breakfast on the Morning Tram”. Em 2009, o Ministério da Cultura da França concedeu-lhe o “Chevalier des Arts et Lettre“. Não fosse pela formação acadêmica, nenhuma das duas coisas aconteceriam.

Stacey acaba de lançar “Raconte-moi…”, com todas as músicas cantadas em francês. É a sua segunda língua, que domina desde criança. E é bem possível que o português se torne a outra. Por seu background acadêmico e por seu interesse pela música brasileira, está aprendendo nossa língua pátria, pasmen, lendo “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, no original. Está sobrando requinte. É essa classe que emana em suas interpretações e que a destaca de outras intérpretes. Não cabe aqui algum preconceito quanto ao talento intuitivo de uma Billie Holiday ou da energia anímica do cantor soul Otis Redding que, dizem, era um quase iletrado.

A primeira música do álbum recém lançado é “Les eaux de mars”, que vem a ser a nossa “Águas de Março”, de Antonio Carlos Jobim. Essa música, imagino, é um ítem de seu “processo evolutivo” para, no futuro, gravar um disco em português (é por isso que deve estar lendo uma das obras capitais da literatura brasileira do autor incensado por Harold Bloom). Numa apresentação que fez no ano passado em Londres, Stacey Kent, depois de cantar uma música de Jobim, perguntou se alguém da plateia falava português. Meu amigo Edemar Viotto Jr., que passou o ano de 2009 fazendo MBA na Inglaterra levantou o braço. A pergunta, pelo jeito, não foi gratuita. Na entrevista que Stacey concedeu a Jotabê Medeiros, de “O Estado de S. Paulo”, relata que está trabalhando com o poeta português António Ladeira e estão compondo algumas canções.
 
O clássico de Jobim tem interpretações clássicas, como a de Elis Regina em “Elis & Tom” e também a do próprio compositor, que é uma obra-prima com um arranjo orquestral estupendo. Se a de Stacey Kent não é melhor, não faz feio. Outra a ser ouvida é a de João Gilberto e Miúcha, com o saxofonista tenor Stan Getz. É uma música, como dezenas de outras de Jobim, que viraram standards e tem sido muito gravada. No mercado fonográfico americano, dentre os que merecem ser registrados estão o do guitarrista/cantor John Pizzarelli, que deve ter vindo ao Brasil quase uma dezena de vezes, das brasileiras Eliane Elias e de Luciana Souza, de Paula West, de Jane Monheit e até de Cassandra Wilson.


Veja e ouça “Águas de Março”. 


 

As histórias que Stacey Kent conta


Existem algumas evidências de que Stacey Kent gosta do Brasil ou, no mínimo, da língua portuguesa. E a recíproca parece real. Um número crescente de pessoas vai conhecendo – parece que toca bastante na Rádio Eldorado, em São Paulo – e curtindo Stacey. Apresentou-se em outubro de 2008 no Auditório Ibirapuera e tem dois discos no mercado brasileiro, o que não é pouco neste país que anda bem pobre em lançamentos de música clássica e jazz. Se, realmente, está lendo Machado de Assis em português, isso é sinal de verdadeiro interesse pela língua. É surpreendente e tem sua lógica. A aproximação com a língua se dá pela literatura e é consequência por ter cursado Literatura Comparada. Essa sofisticação é evidente em Raconte-moi…, lançado em março, em que canta apenas em francês. Duas canções não são francesas, mas foram adaptadas para essa língua: Águas de Março, de Antônio Carlos Jobim, e It Might As Well Be Spring (C’est le printemps), de Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers.

Kent demonstra inteligência ao conseguir escapar da armadilha de tornar-se uma mera intérprete de standards. Há centenas de cantoras que tomaram esse partido e o repertório de standards, apesar de infinito, é uma boa arapuca para se cair na mesmice. São poucas as que conseguem se renovar nesse território minado. Intérpretes afinadas como Jane Monheit ou Tierney Sutton, mesmo incluindo composições de autores de outros espectros como os brasileiros Djavan e Ivan Lins, continuam particularmente identificadas a essa velha fórmula, provavelmente em razão da falta de ousadia nos arranjos ou formatos instrumentais. Não é o caso de outros intérpretes como Cassandra Wilson e Patricia Barber.

Stacey já havia dado uma boa guinada conceitual em seu penúltimo álbum,
Breakfast on the Morning Tram. Mesmo intercalando peças do pop como You’ve Got a Friend, de James Taylor, ou Bookends, de Paul Simon, no antepenúltimo, The Boy Next Door, não fugia muito ainda da fórmula dos standards. No álbum lançado em 2008, a boa novidade eram algumas parcerias de seu marido Jim Tomlinson com o escritor Kazuo Ishiguro (The Ice Hotel, I Wish I Could Go Travelling Again, Breakfast on the Morning Tram e So Romantic), que tinham conhecido anos antes e que, além de romancista e contista, publica alguns textos na imprensa britânica sobre o jazz, que conhece muito bem. O CD continha também três canções cantadas em francês: Ces petits riens e La saison des pluies, ambas de Serge Gainsbourg; a terceira era Samba Saravah (Samba da Benção), de Baden Powell e Vinícius de Moraes, que ficou internacionalmente conhecida na interpretação de Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme dirigido por Claude Lelouch.

Se o fato de Kent ter cantado três músicas em francês possa ter significado um “sinal antecipatório” para o CD recém-lançado todo cantado nessa língua, o fato de
Samba Saravah ser uma composição originalmente brasileira e So Many Stars ser do brasileiro Sergio Mendes, ambas registradas em Breakfast…, e Les eaux de mars ser a versão que Georges Moustaki fez para Águas de Março, pode-se especular que se pode esperar um disco de Kent cantado em português no futuro.

Raconte-mois… é um disco de músicas não identificadas com o jazz. Ele se compõe de canções mais antigas como L’etang, de Paul Misraki e outras não tão tanto como Jardim d’hiver, que Henri Salvador gravou, que é de autoria de Benjamin Biolay – segundo minha amiga francesa, o ex de Chiara Mastroianni é uma espécie de Gainsbourg contemporâneo – e Keren Ann Zeidel, presente também com Au coin du monde. Outras são mais recentes: a música-título e La Venus de Melo, de Bernie Beaupère, Emilie Satt, Jean-Karl Lucas, e Mi amor, de Claire Denamur. No conjunto, é um belíssimo disco e tem a qualidade de, “quanto mais se ouve, mais se gosta”. Lembra climas de discos de Henri Salvador, embebido da “mansidão bossa nova”. A instrumentação é econômica, são discretos os saxes e clarinetas de Jim Tomlinson, o violão de John Paricelli pouco sola mas dá ritmo com o baixo e a bateria e as intervenções do tecladista Graham Harvey são elegantes e, às vezes, de pura beleza. Não é obra do acaso Stacey Kent estar cativando um público brasileiro de gosto mais sofisticado, que não sai rebolando às primeiras batidas de axé.

Veja e ouça:

La Venus de Melo







Jardim d’hiver






Mi Amor, canção composta por Claire Denamur.