sexta-feira, 18 de junho de 2010

“Les eaux de mars”: Jobim por Stacey

A americana Stacey Kent formou-se em Literatura Comparada. Isso não faz dela melhor ou pior que outras cantoras. Mas fará diferença no que for dito mais adiante. Com o intuito de estudar línguas – francês, alemão e italiano –, Kent foi para Londres e ingressou na Guidhall School of Music. E deu no que deu. Conheceu seu futuro marido e parceiro nos discos que gravou até hoje e faz parte do cast da Blue Note Records, uma das poucas “majors” especializadas no jazz nesses fins de tempos dos formatos outrora consagrados para se ouvir e se divulgar a música. Nada contra a internet, que por linhas tortas, dissemina a música por todos os rincões deste mundo. A importunação não é com as gravadoras, que sempre souberam explorar ao máximo seus contratados. É sim com os músicos e intérpretes que assim deixam de receber pelos direitos autorais a que têm direito. A distorção chegou ao ponto em que o produto físico, o CD, se constituía em custo quase zero em relação ao que se gastava em marketing. É por isso, de certo modo, que o público “engole” produtos de quinta categoria como a música sertaneja, cantores ou cantoras em que mais importante são a beleza ou corpos atléticos. Felizmente, uma mulher de rosto comprido, magra, nem especialmente bela, pode se impor no mercado fonográfico. A competência derruba barreiras.

O escritor anglo-nipônico Kazuo Ishiguro, autor de “Vestígios do Dia” (“The Remains of the Day”), fã de jazz, fez parceria com ela e com Jim Tomlinson, seu marido no penúltimo CD, “Breakfast on the Morning Tram”. Em 2009, o Ministério da Cultura da França concedeu-lhe o “Chevalier des Arts et Lettre“. Não fosse pela formação acadêmica, nenhuma das duas coisas aconteceriam.

Stacey acaba de lançar “Raconte-moi…”, com todas as músicas cantadas em francês. É a sua segunda língua, que domina desde criança. E é bem possível que o português se torne a outra. Por seu background acadêmico e por seu interesse pela música brasileira, está aprendendo nossa língua pátria, pasmen, lendo “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, no original. Está sobrando requinte. É essa classe que emana em suas interpretações e que a destaca de outras intérpretes. Não cabe aqui algum preconceito quanto ao talento intuitivo de uma Billie Holiday ou da energia anímica do cantor soul Otis Redding que, dizem, era um quase iletrado.

A primeira música do álbum recém lançado é “Les eaux de mars”, que vem a ser a nossa “Águas de Março”, de Antonio Carlos Jobim. Essa música, imagino, é um ítem de seu “processo evolutivo” para, no futuro, gravar um disco em português (é por isso que deve estar lendo uma das obras capitais da literatura brasileira do autor incensado por Harold Bloom). Numa apresentação que fez no ano passado em Londres, Stacey Kent, depois de cantar uma música de Jobim, perguntou se alguém da plateia falava português. Meu amigo Edemar Viotto Jr., que passou o ano de 2009 fazendo MBA na Inglaterra levantou o braço. A pergunta, pelo jeito, não foi gratuita. Na entrevista que Stacey concedeu a Jotabê Medeiros, de “O Estado de S. Paulo”, relata que está trabalhando com o poeta português António Ladeira e estão compondo algumas canções.
 
O clássico de Jobim tem interpretações clássicas, como a de Elis Regina em “Elis & Tom” e também a do próprio compositor, que é uma obra-prima com um arranjo orquestral estupendo. Se a de Stacey Kent não é melhor, não faz feio. Outra a ser ouvida é a de João Gilberto e Miúcha, com o saxofonista tenor Stan Getz. É uma música, como dezenas de outras de Jobim, que viraram standards e tem sido muito gravada. No mercado fonográfico americano, dentre os que merecem ser registrados estão o do guitarrista/cantor John Pizzarelli, que deve ter vindo ao Brasil quase uma dezena de vezes, das brasileiras Eliane Elias e de Luciana Souza, de Paula West, de Jane Monheit e até de Cassandra Wilson.


Veja e ouça “Águas de Março”. 


 

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