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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bons produtores, bons produtos

O produtor e baixista Klein
Não dá para ignorar a importância da figura do produtor musical. Não é à toa que o britânico George Martin era considerado o “quinto beatle”: é um reconhecimento de sua influência sobre o som do quarteto formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star. No Brasil, nos anos 1980, o ex-baixista dos Mutantes, Liminha, sob alguns aspectos, pode ser considerado um dos artífices da explosão do pop/rock, produzindo Titãs, Chico Science & Nação Zumbi, Barão Vermelho, Gilberto Gil, Lulu Santos, Ritchie e outros mais. Às vezes, a mão do produtor pode anular o produto. É o caso de Lincoln Olivetti, muitas vezes acusado de impor um estilo pasteurizado que igualando o trabalho e repertório de artistas díspares como Gal Costa, Wando, Gilberto Gil e Rita Lee.

Por alguma coincidência, um dos grandes produtores da atualidade, começou tocando baixo, como o brasileiro Liminha. Em 1982, Larry Klein entrou para a banda que acompanhava a canadense Joni Mitchell. Tornaram-se parceiros na música e na vida. Produziu com Mitchell uma boa leva de CDs muito bem recebidos pela crítica e representou uma mudança de rumo em sua carreira, reaproximando-a do pop. Mesmo com o fim do casamento, em 1994, ano do lançamento de Turbulent Indigo, continuou a colaborar com ela em Both Sides Now, gravado com orquestra. Aproveitando o formato de Both Sides, gravaram o duplo Travelogue, que contém vários sucessos antigos de Mitchell. O bom produtor é aquele que sabe realçar as qualidades dos seus intérpretes. (sobre Joni Mitchell, leia: http://bit.ly/itpMsv ,  http://bit.ly/k81URE , http://bit.ly/kmauYk , http://bit.ly/eX6YHX , http://bit.ly/md969w)
Além dela, Klein produziu os últimos álbuns de Madeleine Peyroux, Careless Love (2004) e Half the Perfect World (2006) e Bare Bones (2009). Peyroux tinha gravado seu primeiro disco Dreamland em 1996. Imediatamente, por causa do timbre muito parecido ao de Billie Holiday, ganhou projeção. E sumiu. Reapareceu em grande estilo realizando um álbum impecável. Seria a mão de Klein? (sobre Peyroux, leia: http://bit.ly/hEOMMe, http://bit.ly/lYZbSu)

Dentre outros, produziria também o trumpetista e cantor Till Brönner – uma espécie de carbono de Chet Baker piorado – em Oceana (2006) e Rio (2008) – este último, lançado no Brasil. Na minha opinião – conheço apenas Rio – a mão de Klein é primordial para que o disco seja razoável. Juntou uma penca de convidados ilustres: Milton Nascimento, Vanessa da Mata, Luciana Souza, Annie Lennox, Aimee Mann, Melody Gardot e Kurt Elling. Bom, com um time desses, qualquer curioso se arrisca a conhecer Till Brönner. Foi o que aconteceu comigo.

Larry Klein tem mostrado competência como produtor, principalmente com cantores e cantoras. Em 2007, produziu o CD The New Bossa Nova, de Luciana Souza. Por coincidência, com a mesma “química” que ocorrera com Joni Mitchell: os dois, atualmente, são parceiros na música e na vida.

Para frisar de como o trabalho de um produtor pode ser um diferencial, basta comparar o primeiro CD de Melody Gardot com o segundo, My One and Only Thrill, produzido por ele (sobre Gardot, leia http://bit.ly/eXhQSQ). E fica a expectativa se não acontece no futuro um novo casamento.

Joni Mitchell canta Sex Kills.




Luciana Souza canta Morrer de Amor.



Melody Gardot canta Baby, I’m a Fool.




Publicado inicialmente em 27/10/2009

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O prestígio de Vinícius Cantuária lá e cá

Vinícius Cantuária e Bill Frisell, ao fundo.
O mesmo autor de uma canção “fofa“ como Só Você foi um dos fundadores da banda progressiva O Terço. É autor também da bela e “fofa” Lua e Estrela, que fez muito sucesso na voz de Caetano Veloso. Provavelmente, quando compôs essas duas canções, Vinícius Cantuária estava apaixonado por alguma bela loura.

Saindo d’O Terço, Cantuária foi participar de uma outra banda, de belo nome, A Outra Banda da Terra, assim nomeada por Caetano Veloso, como baterista também. Em um show dessa época, comecinho dos anos 1980, o baiano estava em uma fase pós-revolucionária, menos experimental, mais hedonista e compondo muito bem. A banda apresentava-se vestida de branco, com um coro de belas moças que mais embelezavam o palco que qualquer outra coisa. Qualquer banda que se prezasse tinha que ter backing vocals. Lua e Estrela era um dos temas que faziam parte do show.

É de 1984 o maior sucesso de Cantuária. Só Você era uma canção daquelas “grudentas”. Virou hit nas vozes de Fabio Jr. e Fagner. Quando poderia tornar-se um sucesso de vendas, sumiu. E foi para longe. Quando tiveram notícias dele, estava morando nos Estados Unidos.

No Brasil, Cantuária é um quase desconhecido. Pouco saiu dele aqui. Na América, também, não deve ser um astro, mas desde 1986, ano em que mudou-se para lá, tem conseguido lançar álbuns em gravadoras prestigiadas no mundo do jazz, como a tradicional Verve e a Grammavision. E não para de lançar. Desde 2008, seus discos saem pela Naïve, gravadora francesa independente bem conhecida pelos bons títulos de música erudita e também de jazz.

Outro sinal de que que Cantuária é respeitado são os músicos que têm tocado com ele. Um deles é o guitarrista Bill Frisell. Ambos assinam Lágrimas Mexicanas, bem recebido pela crítica. [leia sobre ele em http://bit.ly/1I7w9io]. A colaboração do americano não se restringe a esse somente. Ele participa de Índio de Apartamento (2012). Índio ainda conta com participações de Ryuichi Sakamoto, Norah Jones e o bom cantor Jesse Harris.

Seu álbum mais recente é Vinícius canta Antônio Carlos Jobim. O título é dúbio, pois logo associamos a um dos parceiros de Tom, este de sobrenome Moraes, letrista de seis das treze músicas do CD. Aqui também conta com colaborações preciosas como as de Melody Gardot (sobre ela, veja links no fim do post),  dos mesmos Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell, e a participação nos vocais em Caminhos Cruzados da brasileira Joyce Moreno.

Vinícius deixou de ser baterista quando partiu para a carreira solo e optou pelo violão. Nunca foi exatamente um roqueiro, apesar de ter sido d’O Terço. Suas composições tendem mesmo à bossa nova e ao samba-canção. Nunca foi grande cantor e nunca será. É até um enigma ser tão prestigiado. Mas de uma coisa, tanto cá como lá, pode-se dizer. Sua música é agradável e seu modo de cantar é quase sempre melancólico, o que pode ser um atrativo para alguns.


Ouça Insensatez, com participação de Melody Gardot.



Ouça trechos de todas as canções do disco.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Luzes e trevas no mundo de Melody

O mundo visto através dos óculos de Melody Gardot é mais escuro. A frase pode ser de efeito, mas tem sua verdade. Se o que acontece na vida influi em como somos, a dela pode ser uma boa pista do que é a sua música, pelo menos a de seus dois primeiros discos. Algumas faixas de Worrisome Heart e My One and Only Thrill (não estou considerando o EP Some Lessons: The Bedroom Tapes, gravado depois de sair do hospital após um ano internada) são tremendamente tristes. No post passado (http://bit.ly/1KHzkrn), conto a terrível história por que passou depois de ter sido atropelada quando andava de bicicleta.

O sucesso foi instantâneo, desde o primeiro álbum, lançado com boa estrutura de divulgação. Seus ouvintes sentiram as dores que a perseguiam e até hoje persistem em razão das sequelas do acidente. A vida deve ter ficado bem melhor para Melody. E também deve ter achado que havia mais além de lamentar da própria desgraça. Almejou outros universos a explorar. The Absence (Verve 2012) incorpora elementos assimilados nas viagens em que conheceu Marrocos, as ruas de Lisboa, as praias brasileiras e o tango ouvido em casas de Buenos Aires. Pesa também a exploração por esses mundos a produção de Heitor Pereira, conhecido também como Heitor P. Não é à toa que uma das faixas se chame Iemenjá. 

No álbum mais recente, Currency of a Man, o foco é mais em cima de gêneros tipicamente americanos, da década de 1970. A produção é do mago das cantoras e cantores: Larry Klein é mestre em captar as potencialidades de quem os contrata e tem o dom de rechear suas vozes em instrumentações elegantes. O álbum foge um pouco do que os fãs esperavam de Gardot, o que, de maneira nenhuma, quer dizer que não seja bom. Mas, tem esse porém; é inferior aos anteriores.

Currency of a Man
Don’t Misunderstood abre com vocalise de Melody que parece um daqueles lamentos de blues, sobre um fundo de Hammond, percussões e lampejos de cordas. A música é atmosférica, lenta, meio preguiçosa, um tanto diferente do que se conhece dela. Mas não decepciona.

Don’t Talk segue na mesma toada, com uma introdução de cordas, e uma bela intervenção da guitarra que faz toda a diferença. Parece mais uma continuação da faixa de abertura. O mais do mesmo continua com It Gonna Come. A diferença mesmo está no belo arranjo, com uma marcação ritmica destacada de notas de baixo elétrico e o saxofone barítono. 

Nas três citadas, há um delicioso clima de sons da década de 1970, reforçada pelas cordas que surgem em breves intervalos, com riffs de sopros. Como gancho dessa época, Bad News lembra um pouco aquele instrumental meio bizarro Tom Waits. Same to You, que sucede ao breve Palmas de Rua – nome em português mesmo –, segue a receita das faixas anteriores, com ecos de gospel, funk e o pop antigo.


Ouça Same to You.




A Melody Gardot “escura”, que conhecemos dos álbuns Worrisome Heart e My One and Only Thrill, está presente na soturna No Man’s Prize. Ela é perfeita nas torch songs. A partir desta, resolve ser a Melody que vê o mundo através dos óculos que a protegem da luz. A exceção é a vigorosa Preacherman.


Veja. É a melhor das que Gardot é mais “solar”.





Bem Melody é If I Ever I Recall Your Face. Maravilhosa.




Infelizmente, o YouTube tem bloqueado o que é disponibilizado de intérpretes contratados de gravadoras maiores, fora o que é oficial, como os clipes promocionais. É uma pena, senão teria colocado as três últimas, todas muito lindas: Once I Was Loved, After the Rain e, principalmente, Buying My Troubles. Mas é possível ouvir trechos delas aqui. Boa audição.





terça-feira, 27 de outubro de 2015

A boa aposta em Melody Gardot

O talento de Melody
É estranho a grande imprensa no Brasil não ter dado a devida atenção a Melody Gardot. Seu último disco foi lançado no Brasil e, até onde eu sei, não se falou dela. Não faltam elementos que podem funcionar como “ganchos” para uma bela matéria, a começar pelo nome, que nos faz lembrar de Brigitte Bardot; é autora da maioria das músicas que grava. E aqueles óculos? Até nas capas de seus discos? Tem presença, é uma bela figura. Usa bengala para andar. O que pode ter acontecido com ela? E um último e importante detalhe: tem talento.

A razão de usar bengala e usar óculos escuros são a consequência de ter sido atropelada aos 19 anos andando de bicicleta. Ficou um ano hospitalizada. As sequelas foram sérios danos na bacia e na espinha, intolerância ao som e a luz. Antes de saber disso imaginei que os óculos eram uma acessório para lhe dar um certo ar de “intelectual” francesa, meio Audrey Hepburn em Funny Face. Pelo nome pensei que fosse francesa. Curioso e meio voyeur, aquele rosto na capa do CD que via exposto em todas as Fnacs e Virgins de Paris, me atraiu. Talvez fosse francesa cantando em inglês. Enganei-me. O disco não me impressionou muito na época: era meio Norah Jones e como não era lá muito fã dela, meio que a abandonei.

Um ano depois vi seu segundo disco. Por causa do título, My One and Only Thrill, que deve ter sido inspirado pela música My One and Only Love, que eu adoro, resolvi comprar.

Worrisome Heart, seu primeiro CD – tem o EP Some Lessons: The Bedroom Sessions entre os dois lançamentos –, como disse antes, me fez lembrar de Norah Jones e de várias outras que apareceram na mesma época, com o mesmo tipo de voz e repertório, meio molenga, um pouco insosso. No entanto tinha uma canção maravilhosa: Love Me Like a River Does. E a letra é uma maravilha: “Love me like a river does/ Cross the sea/ Love me like a river does/ Endlessly/ Love me like a river/ Baby, don’t rush, you’re not a waterfall”. Vale o disco. Imagens têm sentimentos.

O segundo, para meu espanto, era bem melhor que o anterior. Descobri por que: a produção era de Larry Klein. Ele tem a capacidade de valorizar e potencializar o talento de quem produz: Joni Mitchell, Madeleine Peyroux e Luciana Souza. Orquestrações sutis, solos discretos na medida se somam ao talento de Gardot como compositora e cantora. As canções “tristes” são as melhores e bem combinam com sua voz. Nas músicas mais “saltitantes”, dá-se bem também. A primeira faixa, Baby I”m a Fool parece com qualquer outra do CD anterior à exceção de um pequeno detalhe: o diferencial Klein. Cordas e um violão acústico que servem de ligação às palavras cantadas são um prenúncio do que está por vir. Larry Klein imprime um sabor “francês”, um clima meio bossa. A citação não é despropositada. Ouçam Coralie Clément, Carla Bruni e Charlotte Gainsbourg. Podemos dizer que existe um estilo “francês” de cantar: vozes pequenas e afinadas, com aquela sensualidade meio despretenciosa. Parte do álbum segue essa receita. Na quarta música, sentimos que algo está acontecendo. Um piano, um trumpete de poucas notas e um órgão criam o clima para a primeira faixa que vai fazer valer a pena comprar o disco: Your Heart Is as Black as Night. Só pelo título dá para imaginar o petardo que vem. Duas canções climáticas se seguem: Lover Undercover e Our Love Is Easy. Nessa altura, somos cúmplices das dores de Gardot. É um crescendo que se oxigena com uma leve faixa cantada em francês, meio Henri Salvador, leve percussão, sopros dobrados, aquele violãozinho; o chantilly desse doce é um belo solo no sax alto de Gary Foster.

Aí, Melody resolve nos tirar o fôlego de vez. A balada The Rain é daquelas de suspendermos a respiração para ouvir sua voz, o piano e as notas esparsas do sax tenor de Bryan Rogers. Ouvi-la faz chover em nossos corações. Uma sessão de cordas abre a próxima: My One and Only Thrill. Com Deep Within the Corner of My Mind, as duas anteriores formam um bloco só. Sua voz é doce e dramática, sem arroubos.

Gardot então canta a única música que não leva sua assinatura: Over the Rainbow. E termina com If the Stars Were Mine. Sim, há esperança nesse mundo. Um arco-íris desponta no horizonte. Num clima meio bossa saímos felizes por conhecer uma cantora que vale apostarmos nossas fichas.

Veja:
My One and Only Thrill




Veja o clipe de Baby, I’m a Fool.




Veja Melody em Your Heart Is Black as Night.




Veja Gardot em Love Me Like a River Does.




Publicado em 29/10/2009

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O disco tributo francês a Nina Simone

Imagem da capa de Autour de Nina
Uma das fórmulas mais usadas pela indústria musical é homenagear algum medalhão aproveitando alguma efeméride. Se antigamente apenas cinquentenários ou centenários eram comemorados, hoje, qualquer ocasião serve.

Se Nina Simone nasceu nasceu em fevereiro de 1933 e morreu em abril de 2003, com 70 anos, teria sido razoável um festival de homenagens no ano passado, pois, viva, completaria 80. Não lembro de algum. Mas, agora no fim de 2014, foi lançado Autour de Nina, pela Verve francesa.

A França fez parte da vida de Nina. Foi sua última morada nos últimos dez anos. Devido a relação bipolar de amor e ódio ao país que nasceu, saiu dos EUA no início de 1970 e foi mudou-se para Barbados. Passou pela Libéria e Suiça, antes de estabelecer-se na região de Aix-en-Provence. Essa pode ser uma boa razão para a produção de Autour de Nina. Agorinha, em 16 de novembro aconteceu o concerto de lançamento no Studio 104, da Maison de la Radio, em Paris.

O álbum é uma seleção com títulos menos e mais conhecidos associados à Nina. Ao contrário da maioria dos tributos, habitualmente, saco de gatos, este Autour de Nina é uma produção bem cuidada, com intérpretes de primeira linha, apesar de não serem tão conhecidos. É uma turma em que um deles, pelo menos, já é estrela. Gregory Porter foi considerado o cantor do ano pela revista Downbeat, além de ter seu Liquid Spirit como quarto melhor do ano (http://bit.ly/15aNe8O). Ele é um dos escolhidos e é o grande destaque, cantando Black Is the Color (of My True Love’s Hair).

Ouça.




Se o resto não é melhor do que esta, há vários pontos altos. Para se ter uma ideia, quem abre o álbum é a estrela em ascensão Lianne La Havas, cantando Baltimore.

Veja o promocional com La Havas.


Outra bem conhecida é Melody Gardot (mais sobre Melody em http://bit.ly/11MtN3Y, http://bit.ly/1xS1dwe e http://bit.ly/11pCbGB), em outro clássico de Simone: Four Women.

A seleção é bem cosmopolita. Tem, desde a sul coreana, razoavelmente conhecida por quem conhece o catálogo da alemã ACT, Youn Sun Nah, os franceses Ben l’Oncle Soul, Olivia Ruiz e Camille, Hindi Zahra, franco-marroquina, Keziah Jones, nigeriano, Sophie Hunger e La Havas, ingleses, e Porter e Gardot, americanos.

Por último, ouça Feeling Good, com Ben l’Oncle Soul. O rapaz tem uma voz parecidíssima com a de Nina. 

Veja o teaser.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O disco que Melody Gardot gravou em um quarto de hospital

Gardot e seu violão
Em novembro de 2003, Melody Gardot ia de bicicleta em direção a sua casa e foi atingida por um jipe Cherokee, que havia ignorado um semáforo vermelho. Sofreu consequências sérias, passando temporada de um ano no hospital. Tenho um relato mais detalhado em “A boa aposta em Melody Gardot” (http://bit.ly/Kmg0Cl).

Antes do acidente, apresentava-se em bares da Filadélfia. Portanto, não deve ter sido a internação hospitalar a razão de abraçar a carreira artística, mas o caso é que, como está escrito no encarte do EP Some Lessons (The Bedrrom Sessions), foi montado um mini estúdio de oito canais e os microfones ficaram “ao lado de bolsas de gelo e analgésicos”. Em razão das condições, são gravações “nuas”, ela e a voz, um violão… e um piano (não está explicado como isso foi possível).

Ouvindo-se os registros posteriores, percebe-se que Melody levava jeito antes de lançar seu primeiro disco. Seus propósitos de seguir carreira como compositora e intérprete já estavam gestados antes de Worrisome Heart, seu primeiro disco de verdade, lançado independentemente e, posteriormente, distribuído pela major Verve.

Some Lessons foi lançado de forma independente e é composta de apenas seis canções, todas de sua lavra. São Wicked Ride (é uma das duas que tem o piano, além do violão), Cry Wolf, Down My Avenue, Don’t Worry Baby, Momma (a outra) e Some Lessons. Dessas, a única que está em Worrisome Heart é a última. No encarte está escrito que “a maioria das músicas não teriam sido feitas se ela não se acidentasse, em primeiro lugar. Some Lessons não teria existido. Esta canção, em particular, é uma silenciosa reflexão da cena que passou pela sua cabeça no momento seguinte ao impacto. Ela foi escrita enquanto estava impossibilitada de andar.”

As canções são todas melancólicas, mas não é porque Melody passava por um momento difícil. Ouvindo-se seus trabalhos posteriores, Melody é assim: melancólica. É de sua natureza.

Ouça Wicked Ride.




Não tinha prestado atenção à letra de Some Lessons (está reproduzida a seguir). É sobre o acidente mesmo. Diz que “algumas lições a gente aprende da maneira mais difícil/ […] O mundo virou de cabeça para baixo/ As ruas da cidade sem teto e vazias/ Nenhuma alma ao redor/ A vida vai embora num flash/ Bem em frente dos seus olhos/ […]/ Algumas lições não chegam facilmente/ Esse é o preço que temos de pagar.”

A letra original, em inglês:
Well I'm buckled up inside/ It's a miracle that I'm alive/ I do not think I can survive/ On bread and wine alone/ To think that I could have fallen/ A centimeter to the left/ Would not be here to see the sunset/ Or have myself a time/ Well why do the hands of time/ So easily unwind/ Some lessons we learn the hard way/ Some lessons don't come easy/ That's the price we have to pay/ Some lessons we learn the hard way/ They don't come right off and right easy/ That's why they say some lessons learned we learn the hard way/ Remember the sound of the pavement/
World turned upside down/ City streets unlined and empty/ Not a soul around/ Life goes away in a flash/ Right before your eyes/ If I think real hard well/ I reckon I've had some real good times/
Well why do the hands of time/ So easily unwind/ Some lessons we learn the hard way/ Some lessons don't come easy/ That's the price we have to pay/ Some lessons we learn the hard way/ They don't come right off and right easy/ That's why they say some lessons learned we learn the hard way.

Ouça Some Lessons.



Leia outros textos sobre Melody Gardot.
Melody Gardot é o máximo: http://bit.ly/XNvf1T
É hoje o lançamento de The Absence: http://bit.ly/VAjDc9

terça-feira, 29 de maio de 2012

É hoje o lançamento de The Absence, o novo álbum de Melody Gardot

Sofrimento faz coisa, mas não faz bem à saúde. É, porém, boa fonte inspiradora para canções. As formas (ou os jeitos) de se sofrer são muito parecidas, quase arquetípicas e, imagino que, por isso, canções tristes, as chamadas “torch songs”, fazem tanto sucesso: as pessoas se veem nelas. Ao se ouvir Gloomy Sunday, por exemplo, impossível não pensar naquela melancolia que nos acomete quando se aproxima o fim dos domingos. Ou, quem não passou por sentimentos parecidos com os narradas por Edu Lobo em Pra Dizer Adeus (Ah, pena eu não saber/ Como te contar/ Que o amor foi tanto/ E no entanto eu queria dizer/ Vem/ Eu só sei dizer/ Vem/ Nem que seja só/ Pra dizer adeus”), ou tenha sentido o mundo se acabar como em Canção em Modo Menor, de Antônio Carlos Jobim (“Porque cada manhã me traz/ O mesmo sol sem resplendor/ E o dia é só um dia a mais/ E a noite é sempre a mesma dor/ Porque o céu perdeu a cor/ E agora em cinzas se desfaz.”)? Melody Gardot, em seu pouco tempo de carreira, mostrou-se ótima intérprete de “torch songs”. (leia o post passado – “Melody Gardot é o máximo” –, e http://bit.ly/KLItEp)

Em The Absence, com lançamento marcado para hoje, 29 de maio, Melody, apesar do título – “ausência” – parece mais feliz e anda flertando bem com a música brasileira; tem até música chamada Iemenjá. Tem batucada, violões que lembram nossos conjuntos de choro. Há uma música cantada em português (sotaque brasileiro), e outra, que se chama Lisboa. Com tantos elementos da nossa terra e da terrinha, não é mera coincidência que a produção seja de Heitor Pereira. Para quem está estranhando o nome, lembre-se de Simplesmente Complicado e Melhor Impossível. Não, ele não contracena com Alec Baldwin nem com Jack Nicholson; é autor da trilha sonora dos dois filmes. Heitor tornou-se músico requisitado pelos lados de Hollywood. Outro refresco: com o nome cunhado como Heitor TP, foi guitarrista da banda de Mick Hucknal, o Simply Red, por boas temporadas.

Gardot apresentou-se em 2010, em Portugal, na turnê de lançamento de You’re My Only Thrill. Ficou encantada com Lisboa. Pelas notas de pré-lançamento, o CD foi inspirado pelas ruas de Lisboa, praias do Brasil, paisagens do Marrocos e Buenos Aires.

É um disco mais alegre que triste, Gardot fez um disco mais “pra cima”. Confesso minha predileção pelas canções sofridas de Melody. Prefiro-a triste a alegre: o sofrimento sempre foi melhor inspiração para uma infinidade de intérpretes. Mais que português, é um álbum com espírito brasileiro, responsabilidade, imagino, do produtor brasileiro.

Mesmo sendo “pra cima”, o lado sombrio está sempre presente; faz parte dela. Quando predomina a dor, Melody é soberana. É o caso de So We Meet Again My Heartache. Por enquanto, é a minha preferida. Ouça.




Impossible Love é um meio tango; If I Tell You I Love começa lembrando um fado; Goodbye inclina-se para o tango, com direito a um belo Hammond, um piano e um trumpete com surdina meio à antiga. My Heart Won’t Have It Any Other é outro destaque, com violões bem brasileiros, uma orquestração cheia de matizes, com uma bela colcha de cordas e notas esparsas de sopros. Iemenjá, que fecha o disco é meio-brasileira, meio-latina, meio-mambo, meio-Novos Baianos. Gardot solta um “É na Bahia, Iemenjá”. Para os de cá cheira à apelação. Mas, tá perdoada.

Ouça Goodbye.




Melody Gardot antecipa o CD no programa de Jools Holland cantando Mira, a primeira do CD.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Melody Gardot é o máximo

Estilo é o que não falta a Melody Gardot
Circula pela internet um disco de Melody Gardot chamado FIP Radio France 2009-9-10. Procuro no site da Amazon e não o encontro. Deve ser um “bootleg”; chamam-se assim ainda discos piratas? Nas décadas de 1960 e 70, os tais “bootlegs” eram vendidos a preço de ouro (naquele tempo, a cotação do precioso metal era bem mais alta do que é hoje) e, normalmente, eram gravações feitas em shows de maneira precariíssima em fitas cassetes. Valiam mais pelo ineditismo. Para se ter uma ideia, os que nem sabem o que eram gravadores de fita cassete, o seu telefone celular grava com qualidade dez vezes maior.

É um show, evidente, em Paris, provavelmente. Como Melody tem apenas dois discos lançados e tudo o que fez até agora é bom, a seleção é de primeira. Uma coincidência: os dois CDs, comprei-os em Paris, em duas ocasiões diferentes; vejo pelos “jewel boxes” pois, como os franceses têm que ser diferentes em tudo, as “caixinhas” possuem cantos arredondados e possuem até um fecho de pressão. Disseram que o fazem como forma de proteger a indústria local. Não sei se alguém teve a oportunidade de tentar escrever em um teclado de computador francês. No mundo todo convencionou-se à forma chamada “qwerty”, que corresponde às primeiras letras da esquerda para a direita, mas os franceses, como disse, são diferentes. Tente comprar um DVD francês e veja no que vai dar. Outro detalhe: quando comprei o primeiro, na Virgin da Champs-Élisées, tinha certeza de que estava adquirindo o disco de uma francesa, ainda mais pelo nome “Gardot”, foneticamente, semelhante ao “Bardot” de Brigitte.

A primeira é Worrisome Heart e a segunda, é The Rain. Até o fim dos meus dias, vou ficar (muito) emocionado ao ouvir essa composição de Melody. Às vezes, me faz lembrar de Nina Simone. Na voz doída, impossível não pensar na sua tragédia pessoal: quando tinha 19 anos, foi atropelada andando de bicicleta e, hoje, anda apoiando-se em uma bengala, em consequência de danos na bacia e na espinha, além de ter ficado com um problema de intolerância com a luz, sendo obrigada a usar óculos escuros (leia http://bit.ly/Kmg0Ck).

Gardot sabe interagir com a plateia. Fala em francês, em inglês, conta histórias, faz juras de amor ao público, brinca com o sotaque russo (acho que é isso mesmo) da avó, conta passagens de sua vida, sobre sua mãe e de seu nascimento. Fala da gratidão que tem pela mãe. Pelo que Melody fala, é filha de mãe solteira, que tinha três empregos para se sustentar. Simpaticíssima.

Além das composições dos discos solos, canta alguns standards que não gravou, como Smile (essa era uma que a mãe cantava) e Caravan, de Juan Tizol e Duke Ellington; a outra, Somewhere Over the Rainbow, gravou no seu segundo CD. Para confirmar que Melody lembra Nina Simone, na sua composição Love Me Like a River, abre com os versos iniciais de Wild Is the Wind, uma das canções emblemáticas interpretadas pela legendária cantora. “Love me love me/ Say you do/ Let me fly away/ With you”, são os versos iniciais desse clássico; Love Me Like a River começa com “Love me like a river does/ Cross the sea/ Love me like a river does/ Endlessly/ Love me like a river does/ Baby, don‘t rush you’re not a waterfall”. “Me ame como um rio/ Querido, não se apresse, você não é uma cachoeira”. Lindo, não? É o que você vai ouvir.



A outra que você ouve é Ain’t No Sunshine. É um clássico do anos 1970 (é de 1971), de Bill Withers. Ouça a original, com Bill.



A de Melody.



Vamos aguardar o CD – The Absence –, que será lançado no dia 29 de maio. Enquanto isso, assista ao teaser. É um making of da capa.






sexta-feira, 29 de abril de 2011

As “sophisticated ladies” de Charlie Haden

Um início como esse é infalível. Melody Gardot canta If I’m Lucky (Edgar De Lange e Josef Myrow). É uma intérprete que vai se firmando com muita propriedade. Tem uma voz envolvente, é dramática na medida certa, como algo prestes a explodir, mas não explode; contém-se. [sobre ela, leia em http://bit.ly/gkVOri]

A próxima é o que dá o plot do CD: Sophisticated Lady, instrumental. É pessoal: tenho algum problema em relação ao saxofone de Ernie Watts; confesso minha dificuldade de gostar de seu sopro; acho meio despersonalizado. As referências de juventude – paixões pela trinca Lester Young/ Coleman Hawkins/ Ben Webster – atrapalharam em avaliações posteriores quanto aos tenores. Preconceito é preconceito; quem não os tem? A outra “bronca” era com Norah Jones. Deixei de ter. A bronca, creio, foi mais pela forma de que foi “vendida” para o público. Norah tem aquela voz que parece cantada por alguém que está deitado do seu lado numa noite calma de meia-estação. Seu Ill Wind, em vez de ser “ill”, é suave. Sem ser uma crítica, Norah é um pouco monocórdica. É seu jeito de cantar e, pronto.

Charlie Haden começou tocando, em 1957, com o pianista Hampton Hawes, porém tornou-se conhecido tocando com o revolucionário Ornette Coleman. O baixista é um artista multidirecional: foi, ou é free, modal, country folk e – sem isso serem gêneros –, marxista, engajado (foi expulso de Portugal por ter falado mal do ditador António Salazar num Festival de Jazz em Estoril, quando este senhor governava com mãos de ferro), e nostálgico: tem a ver com alguma coisa ser nostálgico e ser marxista ao mesmo tempo? Desculpe-me pela ironia: ser marxista e nostálgico não é um pleonasmo?

O lado nostálgico de Haden é o Quartet West (CH, baixo; Alan Broadbent, piano; Ernie Watts, sax tenor; Larance Marable, bateria – no começo foi Billy Higgins), criado em1987. Para quem gosta de música dos anos 1930-50 é um prato cheio. Os discos lançados são aulas magistrais de bom gosto. Os arranjos de Broadbent mesclam o som do quarteto com o da orquestra. São, basicamente, baladas. Haden e o pianista inseriram trechos de registros antigos de cantoras como Billie Holiday e Helen Forrest, e os resultados são pra lá de interessantes. Com frequência, somos levados a montar um cinema imaginário noir ouvindo as músicas do Quartet West, visualizando louras de olhares esgazeados e homens com seus costumes impecáveis envoltos por névoas, em jogos visuais de claros/escuros.

Nos primeiros, as cantoras eram “ressuscitadas” e mixadas nas performances do Quarteto. Sophisticated Ladies é o segundo em que há cantoras vivas convidadas. O primeiro foi Art of the Song (1999), com as participações de Shirley Horn – já morreu – e Bill Henderson. No recente, além das duas citadas acima, há Cassandra Wilson cantando My Love and I; Ruth Cameron, mulher de Haden e cantora ocasional, com Let’s Call It a Day; Diana Krall (Goodbye); e a cantora lírica Renée Fleming (A Love Like This).

Reconheça-se que Art of the Song é mais estruturado, mas esse último não deixa de ser um belo disco. De um tempo para cá, resolveram falar mal de Diana Krall – muita gente odeia aquelas que ficam muito conhecidas e caem demais no gosto popular –, mas é ainda uma cantora classuda e, pronto. Outra classuda é Cassandra Wilson, convenha-se, apesar dos rompantes experimentalistas em seus discos solo. O tom grave de sua voz é pura presença e pede silêncio quando a ouvimos. A melhor surpresa, no entanto, é Renée Fleming. É ela que vamos ouvir.





Ouça Melody Gardot cantando If I’m Lucky.




Para a felicidade dos brasileiros, o CD foi lançado aqui.