sexta-feira, 27 de maio de 2011

Estou mais velho que Paul McCartney

Depois do recorde de público no estádio do Maracanã, Paul McCartney dessa vez se apresentou em um lugar bem menor: o Engenhão, para 45 mil pessoas. Saem ganhando os espectadores. O efeito catártico não é menor devido ao público mais reduzido. Ele sabe como cativar seus eternos fãs. Bem, eterno é Paul. Com quase 70 anos, esbanja energia. No dia em que chegou foi andar de bicicleta no aterro do Flamengo, e no seguinte ao da primeira apresentação, saiu para velejar.

Com um bocado de anos a menos, confesso, não aguento mais ver um show por mais de seis horas em pé – incluindo a espera e a duração da apresentação. Nem o fato de ter ficado na ala chamada “prime”, onde podia ver as rugas de Paul sem o uso de binóculos, me animaria a repetir a experiência. Vi U2, Rolling Stones e The Police sentado, um pouco longe, no setor das numeradas. A melhor foi a do trio de Sting, que assisti no estádio do River Plate, em Buenos Aires. Tudo muito civilizado: acesso fácil, transporte barato, com direito até de uma pessoa levá-lo até ao lugar marcado e passar um pano antes de nos acomodarmos. Não dá para aguentar vendedores de bebidas passando com enormes caixas de isopor empurrando todo mundo, gritando nos seus ouvidos, além de conversas alheias, alegria desmedida e animação, sincera ou não, à espera de que seu ídolo surja no palco, gente desrespeitosa que te empurra por melhor visão. Não sou como o ex-ditador João Figueiredo que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao dos humanos, mas é dose sentir odores epidérmicos diversos, mal cheirosos sempre, tão ou mais que o dos hot-dogs misturados ao fedor de cerveja quente. É tudo alegria para alguns, mas certo martírio sentir partes do corpo a reclamar do desconforto de ficar em pé por tanto tempo com gente te empurrrando ou eclipsando sua visão. O desconforto é apenas minimizado pelo fato de você estar vendo ao vivo um dos seus ídolos da adolescência.

Depois de um interminável cineminha de quinta mostrando imagens diversas e alguns alarmes falsos – luzes e fumaça–, entra Paul com um paletó azul claro de dar inveja a Roberto Carlos cantando Hello Goodbye. É claro: delírio. A próxima é Jet, dos tempos de sua banda posterior aos Beatles – The Wings. E o setlist é o mesmo do show no Chile, absolutamente igual. O público embevecido nem deve saber disso; extasia-se com as frases de praxe em português e tudo parece tão espontâneo; as brincadeiras devem ser semelhantes, só fico a pensar se pegou uma camisa da seleção chilena como fez com a camisa canarinho nº 10 no Engenhão.

A hora do na na na
No primeiro bis começa com Day Tripper, para esquentar. Vem Lady Madonna e conclui com um emocionante Hey Jude, em que o público folhas com um “NA” impresso para acompanhar o refrão “na, na… na na na, Hey Jude”. Voltam para o segundo bis – até nisso foi exatamente igual à apresentação em Santiago do Chile – e ataca com o infalível Yesterday. Depois de um “you wanna rocksome more?” ou qualquer coisa parecida, ataca um enérgico Helter Skelter e emenda com um não menos maravilhoso Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e fecha com The End, do álbum Abbey Road. Só Beatles no fim. No silêncio do quarto de hotel, depois do show, sobra um zumbido intermitente nos ouvidos: são os ecos de Paul e sua banda.


Helter Skelter.



Toda vez que Paul pegava o bandolim ou o cavaquinho – cavaquinho?, é isso mesmo?, não sei se existe isso na Inglaterra – lembrava de uma das minhas preferidas de Paul – Bycicles/Junk. Ouça numa versão inusitada cantada pela mezzo-soprano Anne Sofie von Otter com Elvis Costello. Para quem não conhece, aqui está.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A compulsão de Orson Welles

Não sou especificamente um fã de filmes de tribunal. Há uma legião de apaixonados por séries de televisão e filmes abordando julgamentos. É o perfeito ambiente para excelentes textos, discursos de defesa e de acusação e para o exercício da razão e da ética.

Mesmo assim, confesso minha paixão por dois filmes. Um deles, que até virou peça de teatro, é Doze Homens e uma Sentença (Twelve Angry Men, 1957), dirigido por Sidney Lumet, falecido recentemente, e Estranha Compulsão (Compulsion, 1959), de Richard Fleischer, e tem como um dos protagonistas o sempre brilhante Orson Welles.



Além do belo roteiro, a direção fotográfica é brilhante. O preto e branco é realçado em luzes típicas dos filmes noir, em claros/escuros vigorosos. A história, para quem não viu o filme (foi lançado no Brasil e tem boa qualidade apesar de ser da Magnus Opus, distribuidora que, a exemplo da Continental, Cinemax e da Cult Classics, não primam pela boa procedência de seus produtos e costumam cobrar caro), é sobre a história de dois rapazes endinheirados dispostos a cometer um crime imaginando que não serão pegos. A polícia, no entanto, chega aos culpados por conta de um óculos que cai do bolso de um deles. Para defendê-los, contratam um velho advogado bêbado e ateu – é ele, Orson Welles.

Ciente da culpa dos dois, Jonathan Wilk quer livrá-los da morte por enforcamento. É um dos mais brilhantes discursos contra esse tipo de pena. Transcrevo aqui:

O promotor público riu quando eu falei sobre fantasias de crianças, mas o que ele sabe da infância? O que eu sei? Será que algum de nós não foi culpado, de certa forma, por um ato delinquente em nossa juventude? Quantos homens não estão aqui hoje, advogados, congressistas e juízes, até mesmo promotores públicos que não foram culpados de algum ato selvagem na juventude? E as consequências não foram muito grandes e não fomos apanhados por pura sorte, mas isso foi algo diferente. Isso foi um ato maluco de duas crianças doentes que pertencem a um hospital psiquiátrico. Eu preciso discutir isso? Há algum homem com uma consideração decente sobre a vida humana com um pouquinho de coração que não entenda isso? Dissemos que foi uma morte a sangue frio porque eles planejaram e esquematizaram. Sim, mas aqui estão oficiais de estado, que, por meses planejaram, esquematizaram e trabalharam para tirar a vida desses garotos. Falando em esquemas, Excelência, fiquei obcecado com esse sentimento de ódio e de raiva. Andei enfrentando isso, batalhando mesmo, quase ficando louco. E, quanto à história desse crime e castigo? Através dos séculos nossas leis se modificaram. Até hoje o homem olha para trás com horror com os enforcamentos e matanças do passado. Foi provado que, quanto menores as penas bárbaras, os crimes são menos frequentes. Preciso dizer para Vossa Excelência que crueldade só gera crueldade? Cada líder religioso que serviu de exemplo nos ensinou que, se há um modo de matar o mal, não é matando os homens. Se há um modo de destruir o ódio e tudo o que o acompanha, não é através do mal, do ódio e da crueldade, mas através da caridade, amor e compreensão.

[…] O mundo levou muito, muito tempo para chegar onde está hoje. Excelência, se enforcar esses meninos, estará voltando para o passado. Eu apelo para o futuro, não apenas por esses garotos, mas por todos eles, por todos os jovens. Apelo não não por essas duas vidas, mas pela própria vida, para um dia superarmos o ódio com amor e aprendermos que toda a vida vale a pena ser salva, e que a piedade é o maior atributo do homem. Sim, apelo para o futuro neste tribunal. Apelo para o amor.



Judd (Dean Stockwell) e Arthur Straus (Bradford Dillman) são penalizados com a prisão perpétua, mas ficam inconformados por não terem sido condenados à morte. Os dois, ao saírem do tribunal, fitam com ódio o advogado.
Jonathan Wilk diz a eles:
— Eu não esperava que caíssem de joelhos e agradecessem a Deus por isso.
— Deus? Isso soa muito estranho vindo de você, senhor Wilk – responde Judd.
— Uma vida inteira de dúvidas e interrogatórios não significa necessariamente que cheguei a uma conclusão final.
— Pois eu sim, e Deus não tem nada a ver com isso – retruca.
— Tem certeza, Judd? Nesses anos que virão, talvez se encontre perguntando se não foi a mão de Deus que derrubou seus óculos. E se Ele não fez isso, quem fez?

Veja a cena da defesa de Wilk. Estranhamente, os nomes no trecho disponível no YouTube são diferentes.



Trailer do filme.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Expressionismo visual de Mãe e Filho, de Sokurov

Registrei, faz um tempo, alguns frames de Mãe e Filho, de Aleksandr Sokurov, devido a sua riqueza plástica. São dramáticas, com algo de expressionista, com efeitos interessantes pelo uso de distorções visuais. Não lembro direito da história (há um texto muito bom sobre o filme do cantor e compositor Nick Cave; leia em http://bit.ly/mz854W).

Como é Sokurov, é paradão. Quem quer ação “está” no lugar errado. Dos que assisti dele, Arca Russa é o mais “movimentado”, feito numa tomada só. A mãe está à beira da morte e pede ao filho que a leve para fora de casa para um passeio. Evidentemente, pelo seu estado, carrega-a no colo. paro por aqui.