quarta-feira, 25 de maio de 2011

A compulsão de Orson Welles

Não sou especificamente um fã de filmes de tribunal. Há uma legião de apaixonados por séries de televisão e filmes abordando julgamentos. É o perfeito ambiente para excelentes textos, discursos de defesa e de acusação e para o exercício da razão e da ética.

Mesmo assim, confesso minha paixão por dois filmes. Um deles, que até virou peça de teatro, é Doze Homens e uma Sentença (Twelve Angry Men, 1957), dirigido por Sidney Lumet, falecido recentemente, e Estranha Compulsão (Compulsion, 1959), de Richard Fleischer, e tem como um dos protagonistas o sempre brilhante Orson Welles.



Além do belo roteiro, a direção fotográfica é brilhante. O preto e branco é realçado em luzes típicas dos filmes noir, em claros/escuros vigorosos. A história, para quem não viu o filme (foi lançado no Brasil e tem boa qualidade apesar de ser da Magnus Opus, distribuidora que, a exemplo da Continental, Cinemax e da Cult Classics, não primam pela boa procedência de seus produtos e costumam cobrar caro), é sobre a história de dois rapazes endinheirados dispostos a cometer um crime imaginando que não serão pegos. A polícia, no entanto, chega aos culpados por conta de um óculos que cai do bolso de um deles. Para defendê-los, contratam um velho advogado bêbado e ateu – é ele, Orson Welles.

Ciente da culpa dos dois, Jonathan Wilk quer livrá-los da morte por enforcamento. É um dos mais brilhantes discursos contra esse tipo de pena. Transcrevo aqui:

O promotor público riu quando eu falei sobre fantasias de crianças, mas o que ele sabe da infância? O que eu sei? Será que algum de nós não foi culpado, de certa forma, por um ato delinquente em nossa juventude? Quantos homens não estão aqui hoje, advogados, congressistas e juízes, até mesmo promotores públicos que não foram culpados de algum ato selvagem na juventude? E as consequências não foram muito grandes e não fomos apanhados por pura sorte, mas isso foi algo diferente. Isso foi um ato maluco de duas crianças doentes que pertencem a um hospital psiquiátrico. Eu preciso discutir isso? Há algum homem com uma consideração decente sobre a vida humana com um pouquinho de coração que não entenda isso? Dissemos que foi uma morte a sangue frio porque eles planejaram e esquematizaram. Sim, mas aqui estão oficiais de estado, que, por meses planejaram, esquematizaram e trabalharam para tirar a vida desses garotos. Falando em esquemas, Excelência, fiquei obcecado com esse sentimento de ódio e de raiva. Andei enfrentando isso, batalhando mesmo, quase ficando louco. E, quanto à história desse crime e castigo? Através dos séculos nossas leis se modificaram. Até hoje o homem olha para trás com horror com os enforcamentos e matanças do passado. Foi provado que, quanto menores as penas bárbaras, os crimes são menos frequentes. Preciso dizer para Vossa Excelência que crueldade só gera crueldade? Cada líder religioso que serviu de exemplo nos ensinou que, se há um modo de matar o mal, não é matando os homens. Se há um modo de destruir o ódio e tudo o que o acompanha, não é através do mal, do ódio e da crueldade, mas através da caridade, amor e compreensão.

[…] O mundo levou muito, muito tempo para chegar onde está hoje. Excelência, se enforcar esses meninos, estará voltando para o passado. Eu apelo para o futuro, não apenas por esses garotos, mas por todos eles, por todos os jovens. Apelo não não por essas duas vidas, mas pela própria vida, para um dia superarmos o ódio com amor e aprendermos que toda a vida vale a pena ser salva, e que a piedade é o maior atributo do homem. Sim, apelo para o futuro neste tribunal. Apelo para o amor.



Judd (Dean Stockwell) e Arthur Straus (Bradford Dillman) são penalizados com a prisão perpétua, mas ficam inconformados por não terem sido condenados à morte. Os dois, ao saírem do tribunal, fitam com ódio o advogado.
Jonathan Wilk diz a eles:
— Eu não esperava que caíssem de joelhos e agradecessem a Deus por isso.
— Deus? Isso soa muito estranho vindo de você, senhor Wilk – responde Judd.
— Uma vida inteira de dúvidas e interrogatórios não significa necessariamente que cheguei a uma conclusão final.
— Pois eu sim, e Deus não tem nada a ver com isso – retruca.
— Tem certeza, Judd? Nesses anos que virão, talvez se encontre perguntando se não foi a mão de Deus que derrubou seus óculos. E se Ele não fez isso, quem fez?

Veja a cena da defesa de Wilk. Estranhamente, os nomes no trecho disponível no YouTube são diferentes.



Trailer do filme.

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