Com um bocado de anos a menos, confesso, não aguento mais ver um show por mais de seis horas em pé – incluindo a espera e a duração da apresentação. Nem o fato de ter ficado na ala chamada “prime”, onde podia ver as rugas de Paul sem o uso de binóculos, me animaria a repetir a experiência. Vi U2, Rolling Stones e The Police sentado, um pouco longe, no setor das numeradas. A melhor foi a do trio de Sting, que assisti no estádio do River Plate, em Buenos Aires. Tudo muito civilizado: acesso fácil, transporte barato, com direito até de uma pessoa levá-lo até ao lugar marcado e passar um pano antes de nos acomodarmos. Não dá para aguentar vendedores de bebidas passando com enormes caixas de isopor empurrando todo mundo, gritando nos seus ouvidos, além de conversas alheias, alegria desmedida e animação, sincera ou não, à espera de que seu ídolo surja no palco, gente desrespeitosa que te empurra por melhor visão. Não sou como o ex-ditador João Figueiredo que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao dos humanos, mas é dose sentir odores epidérmicos diversos, mal cheirosos sempre, tão ou mais que o dos hot-dogs misturados ao fedor de cerveja quente. É tudo alegria para alguns, mas certo martírio sentir partes do corpo a reclamar do desconforto de ficar em pé por tanto tempo com gente te empurrrando ou eclipsando sua visão. O desconforto é apenas minimizado pelo fato de você estar vendo ao vivo um dos seus ídolos da adolescência.
Depois de um interminável cineminha de quinta mostrando imagens diversas e alguns alarmes falsos – luzes e fumaça–, entra Paul com um paletó azul claro de dar inveja a Roberto Carlos cantando Hello Goodbye. É claro: delírio. A próxima é Jet, dos tempos de sua banda posterior aos Beatles – The Wings. E o setlist é o mesmo do show no Chile, absolutamente igual. O público embevecido nem deve saber disso; extasia-se com as frases de praxe em português e tudo parece tão espontâneo; as brincadeiras devem ser semelhantes, só fico a pensar se pegou uma camisa da seleção chilena como fez com a camisa canarinho nº 10 no Engenhão.
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| A hora do na na na |
No primeiro bis começa com Day Tripper, para esquentar. Vem Lady Madonna e conclui com um emocionante Hey Jude, em que o público folhas com um “NA” impresso para acompanhar o refrão “na, na… na na na, Hey Jude”. Voltam para o segundo bis – até nisso foi exatamente igual à apresentação em Santiago do Chile – e ataca com o infalível Yesterday. Depois de um “you wanna rocksome more?” ou qualquer coisa parecida, ataca um enérgico Helter Skelter e emenda com um não menos maravilhoso Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e fecha com The End, do álbum Abbey Road. Só Beatles no fim. No silêncio do quarto de hotel, depois do show, sobra um zumbido intermitente nos ouvidos: são os ecos de Paul e sua banda.
Helter Skelter.
Toda vez que Paul pegava o bandolim ou o cavaquinho – cavaquinho?, é isso mesmo?, não sei se existe isso na Inglaterra – lembrava de uma das minhas preferidas de Paul – Bycicles/Junk. Ouça numa versão inusitada cantada pela mezzo-soprano Anne Sofie von Otter com Elvis Costello. Para quem não conhece, aqui está.

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