quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Um geninho chamado Vitor Araujo

Com certo atraso, vou falar de um rapaz chamado Vitor Araujo. Depois de ler no “Guia Livros Discos Filmes” da Folha (27/10/2012) o “5 perguntas para Vitor Araujo”, assinado por Manuel da Costa Pinto, fiquei bem curioso. Com pouco mais de 20 anos, o rapaz faz uma música entre o pop e o erudito.

Na primeira resposta, Vitor escreve sobre o conceito do álbum A/B: “Na minha forma de ver, existe unidade no disco. Consigo perceber que ele desenha um sentimento que aparece fortemente em todas as faixas – porém, claramente, olha para este sentimento de formas diametralmente opostas, antagônicas, por assim dizer. Sinto o disco como uma gradação, sinto uma narratividade. No ‘lado A’, existe um se deparar sobriamente com o sentimento de solidão; no ‘lado B’, uma dificuldade incrível de gerir tal sentimento e uma descrença na realidade. Cada um vai ter sua própria sensação, pois o ato de absorver um produto artístico está profundamente ligado a experiências individuais, como elas reverberam dentro de si.”

Perguntado sobre o que pesa mais, “o repertório erudito, o instrumental de Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal ou o registro pop”, responde: “Difícil dizer. Acho que A/B tem exatamente essa dificuldade em se ater a uma vertente específica. Prefiro conter em mim os meus estudos de Villa-Lobos, minha observação dos instrumentistas geniais e minha paixão desenfreada pelo Radiohead.”

Por fim, ao ser perguntado sobre a “relação entre Nietzsche citado no encarte e as dedicatórias das músicas a Modigliani, Renoir, Zé Celso, Bukowski, Tarantino e Angeli, entre outros”, responde que “o texto de Nietzsche contém em palavras muito do que eu tenho a dizer no disco através das melodias, das harmonias e, principalmente, pela forma como ele está organizado. As homenagens são para os artistas que me inspiraram fortemente em músicas específicas.”

Vai lá que vale a pena. O rapaz é bom.

Veja a brilhante interpretação de “Paranoid Android”, do Radiohead. O priemiro instrumentista a gravá-la foi o jazzista Brad Mehldau. Desde então, faz parte das apresentações dele. O de Vitor Araújo é excepcional. Confira.




Vitor toca “Asa Branca”.




Como é uma repostagem, veja Vitor na faixa de “Canto 3”, do álbum “Levaguiã Terê”, de 2016.




“Toque no. 1 (Rondó Fálcigo) é a primeira do álbum.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A agonia de Vini Reilly

Vini Reilly, a guitarra do Durutti Column
A considerar-se a estatística de Álvaro Pereira Júnior em sua coluna na Folha de S.Paulo (sáb. 19/1/2013), sou um dos 0,0001% dos que conhece e ouve Vini Reilly. Deixando esse “exagero” de lado, não são tão poucos os que já ouviram — ou ouviram falar — da banda Durutti Column. Na verdade, é uma banda de um homem só: Reilly. É certo que o percussionista Bruce Mitchell toca com ele há muito tempo. Não participou do primeiro — The Return of The Durutti Column (1979) —, apenas. O som básico da banda é a guitarra e a percussão, com o acréscimo eventual de teclados (tocados por Reilly), violinos e violas, trumpetes e alguns vocais femininos.

A inspiração para o nome foi Durruti Buenaventura, anarquista e nome importante da Guerra Civil Espanhola. Há uma diferença na grafia do nome do revolucionário: em vez do “r” dobrado, dobrou-se o “t”. Desconheço se o erro foi proposital; e também é impossível relacionar sua música extremamente melancólica com a atuação “guerreira” da Coluna Durruti.

Uma boa definição das características da música do Durutti Column está contida em um parágrafo do texto de APJ: “O som de Vini Reilly, primordialmente um guitarrista, costuma ser chamado de pós-punk. Mas essa é só uma definição cronológica. Musicalmente, ele não tem nada a ver com as outras bandas desse período. Durutti Column incorpora os violões do flamenco, alguns climas de jazz e de música ambiente. É um esforço e tanto chamá-lo de rock.”

A banda de Reilly surgiu na onda de várias que surgiram no bojo da Factory. Esta e a 4AD foram as gravadoras que mudaram o cenário da música britânica no fim da década de 1970 e nos anos 1980. Além do som diferente, as concepções gráficas revolucionárias das capas de Peter Saville e Vaughan Oliver, foram marcantes e inovadoras. A Factory lançou o Joy Division, o New Order, Happy Mondays e A Certain Ratio. A 4AD teve em seu plantel a Bauhaus, This Mortal Coil, Dead Can Dance e o Cocteau Twins.

O “não se sinta ignorante se não conhecer – 99,9999% da humanidade estão no mesmo barco”, a APJ, ao se referir a Reilly, é mais uma “licença jornalística”. Cem por cento dos ouvintes da rádio Eldorado já ouviram Tomorrow, uma das mais belas canções do Durutti Column. Nas ocasiões em que era obrigado a utilizar algum carro que não fosse meu — nos dias de rodízio ou quando estava na oficina — por não poder ouvir os meus CDs preferidos, sintonizava nessa emissora e, não sei se era coincidência: tocavam com frequência Tomorrow e Island, do King Crimson, duas músicas incomuns em uma programação de rádio. Alguém lá era fanático pelo Durutti Column. Havia um programa, se não me engano, em que a vinheta era um trecho de alguma música da banda.

Ouça Tomorrow. Na letra diz que “tudo o que queria era o seu tempo, e o tudo o que você me deu foi amanhã […] e amanhã nunca chega.” É uma síntese do que é o som de Reilly. Triste, muito triste, não é aconselhável ouvi-lo num domingo melancólico. É um risco para os suicidas.




A fragilidade de Vini não está contida apenas na sua música. Ele é a personifiçação da fragilidade. Anoréxico, apresentava-se pouco ao vivo, pois ficava esgotado. Escrevo no passado porque não ouvia mais falar dele. Só agora, por meio da coluna de Álvaro Pereira Júnior, fico sabendo de um post do The Guardian relatando que um sobrinho de Reilly escreveu no site oficial da banda pedindo doações para ajudá-lo pois não tinha dinheiro nem para comer e pagar o aluguel. Na matéria intitulada “The Durutti Column's Vini Reilly is struggling? Music owes him help” é dito que nos últimos tempos Reilly sofreu três colapsos, sem especificar de qual tipo. É uma pena. Seria para qualquer ser humano, ainda mais para um gênio musical como Vini.

Quando “descobri” o Durutti Column, por meio dos amigos Renato Mello e o Fábio Golfetti, esses discos eram difíceis de serem encontrados. Graças a Deus existia uma loja chamada Bossa Nova, lá no centro da cidade, em uma galeria da rua Sete de Abril, São Paulo. Era o ponto de parada quase diária do editor Luiz Schwarz — antes de se tornar expert em música erudita, era seu “ponto de parada” na hora do almoço — e de Kid Vinil. O Pardal, atendente da loja, sempre dava ótimas dicas. Era o melhor lugar para se encontrar discos da 4AD e da Factory. Lá comprei o meu primeiro Durutti — Another Setting (1983) —, o primeiro Cocteau Twins, o primeiro A Certain Ratio e o primeiro Dead Can Dance. As capas eram primorosas, como disse. Possuir aqueles LPs era uma dádiva. Eram trabalhos de arte que poderiam ser enquadrados e pendurados na parede.

Depois do primeiro, queria ter todos. Comprei os anteriores The Return of Durutti Column, LC e Without Mercy. O amigo Renato tinha conseguido comprar um chamado Amigos em Portugal (1983), lançado pela Fundação Atlântica, em Portugal. Que inveja tive dele! Nos anos posteriores, nas viagens ao exterior, fui garimpando (não eram fáceis de achar) seus títulos em CD. O primeiros que encontrei — Domo Arigatô e Valuable Passages (este, uma coletânea) —, foi em Tóquio. Os treze CDs do Durutti Column que possuo foram comprados em viagens para fora. Ainda no tempo dos LPs, alguns álbuns da Factory — Joy Division, New Order, por exemplo – foram lançados no Brasil. Veja você: nem  só de porcarias vivíamos.

Veja Vini Reilly e Bruce Mitchell em Jacqueline.




Veja e ouça a belíssima The Room.




The Missing Boy.




Sketch for Summer é a primeira faixa de The Return of the Durutti Column. Esta e a anterior fazem parte do show Domo Arigatô.