sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Você já comprou o download do último Radiohead?

Eu já. Por módicos US$ 9 é possível se fazer o download de The King of Limbs. É só entrar em http://www.thekingoflimbs.com/DIUSD.htm. Sou a favor de ajudar os criadores: precisam de dinheiro, como nós. E não é muito. Agora, se você quiser, já vi que tem “de grátis” por aí.

Estou ouvindo ainda. Por enquanto, estou achando o penúltimo In Rainbows bem superior. Está disponível um vídeo também. Quer ver? Está aqui.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Manhã de carnaval à cubana

Uma das mais belas músicas brasileiras é Manhã de Carnaval. Foi composta por Luís Bonfá para o filme Orfeu Negro, em 1959. A maioria das músicas compostas para o filme foram de Tom Jobim e Vinícius, mas a de Bonfá foi a que se tornou mais conhecida.

Em uma pesquisa de anos atrás, se não me engano, os compositores brasileiros mais gravados fora do país são Antônio Carlos Jobim e Ivan Lins. No reperório jazzístico, pelo menos, isso é fato. Sem falar de Jobim, aparentemente, Ivan Lins tem mais prestígio lá fora do que aqui. Suas músicas foram interpretadas por Sarah Vaughan, Dianne Reeves, Jane Monheit, Neena Freelon, Carmen McRae, Denny Zeitlin, Shirley Horn, Ran Blake, Geoff Keezer e Steve Kuhn (cito apenas as contidas nos CDs que eu tenho). Como diria certa personagem de novela, “não é brinquedo, não.”

Outros compositores como Djavan, Marcos Valle, Milton Nascimento e Luiz Bonfá estão entre os bem- representados no mercado americano. Não contando Ary Barroso, Dorival Caymmi e Zequinha de Abreu (Tico-Tico no Fubá), Bonfá e Jobim são os primeiros a ganhar certa notoriedade com a eclosão da bossa nova. Bonfá foi, inclusive, um dos primeiros a mudar-se para lá. Outros foram Laurindo de Almeida, Tom Jobim, João Donato, João Gilberto, Astrud Gilberto, Moacir Santos, Bola Sete, Eumir Deodato, Flora Purim, Marcos Valle e Sérgio Mendes, que explodiu com o seu Brasil ’66. Um contingente enorme de percussionistas emigraram, casos de Paulinho da Costa, Naná Vasconcelos, Do Um Romão, Eumir Deodato e Cyro Baptista. Esses dominaram por muito tempo os polls dos melhores segundo a crítica.

Há belas gravações pátrias de Manhã de Carnaval. Os destaques são as de Agostinho dos Santos e João Gilberto. Lá fora foi gravada por Caterina Valente, Modern Jazz Quartet, Jack Wilkins, Toots Thielmans, Ray Brown e Jimmie Rowles, Stan Getz, Patricia Barber, Lee Konitz, Susannah McCorkle, Dexter Gordon, Al DiMeola, Paco de Lucia, John McLaughlin, Tuck and Patti, George Cables, Paquito D’Rivera, Gonzalo Rubalcaba, Quincy Jones, Tete Montoliu, Johnny Smith, Jacintha, Cassandra Wilson e John Lewis.

Los Zafiros, em Moscou, 1965
Peculiar é a interpretação de Manhã pelo grupo vocal cubano. Seguindo os moldes de formações vocais como os Platters (no Brasil, tivemos os Golden Boys), Los Zafiros, formado em 1962.

Conjuntos vocais não eram novidade na década de 1960. Antes, bem antes, existiram as Andrew Sisters, The Four Freshmen e os Hi-Lo’s. Em Cuba, antes da ascensão de Fidel Castro, ainda na época de Fulgêncio Batista, e o país era paraíso dos cassinos e “quintal” dos EUA, havia um conjunto vocal conhecido, constituído apenas de mulheres, o Cuarteto d’Aida. Mais nos moldes do Platters e menos dos conjuntos vocais de inspiração mais jazzísticas, surgiram Los Zafiros, que segundo a lenda, teve esse nome por conta de um anel de safira que Néstor Milí, um dos criadores do conjunto (nem chegou a fazer parte dele, sendo mais um dos mentores), usava e foi vendido para custear as roupas que usariam nas apresentações.

O coração do conjunto eram Ignacio Elejalde, que cantava em falsete (um pré-Ney Matogrosso), El Chino, Kiki (Leoncio Morúa), e Miguelito. Os quatro faziam as vozes e Manuel Galbán tocava violão e guitarrra e era o diretor musical. Foram sucesso imediato em Cuba e passaram a excursionar frequentemente em outros países, “coincidentemente”, quase todos da Cortina de Ferro (tocaram em Paris e em Berlim).

O sucesso pesou. Irresponsáveis e beberrões, o único ajuizado, era Galbán. E assim, o conjunto foi se esfacelando. Ignacio Elejalde morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral, quando tinha 39 anos; Kike morreu de cirrose hepática; Chino teve uma série de problemas de saúde que afetou sua voz e a vista, e faleceu em com 56 anos. Miguelito era o que bebia menos. Sobreviveu e mudou-se para Miami em 1993 e trabalha como músico.

Na ativa, sobrou Manuel Galbán. Fez parte do Buena Vista Social Club e gravou um disco em que divide os créditos com Ry Cooder, Mambo Sinuendo (2003).

Uma nota final. Quando excursionavam na Europa, apresentaram-se no Olympia de Paris. Chino conta que os Beatles resolveram ficar mais uma semana na cidade para vê-los. Ficaram encantados com a voz de Ignacio e até examinaram sua garganta. “John Lennon conversou um tempão comigo. Ele tocou meu cabelo. Eu toquei nos seus cabelos. Eles eram realmente uns cavalheiros”, disse Chino em uma entrevista, em 1991. Parece fantasiosa; será verdade?

Ouça Manhã de Carnaval – ou Canción de Orfeo – com Los Zafiros. Preste atenção na abertura e na voz de Ignacio. No fim da gravação, não podia faltar, tem uma batucada, daquelas, mas nem tudo é perfeito nesse mundo.




Há um registro no YouTube de Los Zafiros cantando Cuando lo conocí. É de uma apresentação na TV, em 1960.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Chopin dá uma boa definição do que é música

Lendo o artigo “Romance em ré bemol”, de João Marcos Coelho, em O Estado de S. Paulo (25/12/2010) leio uma frase atribuída a Chopin em carta dirigida a um de seus amores – condessa Delfina Potocka – que parece ser uma boa definição do que é música: “Os sons existem antes das palavras; a palavra é apenas a modificação de um som. As palavras criam a linguagem, mas os sons criam a música. E a arte de manipular o som é chamada de música. Nossos mais profundos sentimentos se expressam não em palavras, mas na música”.

Por essa razão, é sempre complicado verbalizar impressões sobre uma música com palavras.

Chopin, por Nadar
Na época em que estava no ginásio, por interesses não estritamente musicais, fui à apresentação de uma amiga que estudava piano no Conservatório Dramático e Musical, a escola mais tradicional em São Paulo, pelo menos, naquele tempo, situado num prédio antigo na Avenida São João. Tocou, se a memória não me trai, uma das Polonaises. Por desconhecimento ou preconceito, Chopin ficou meio que no limbo dos meus gostos: simplesmente, achava que a música do polonês era coisa de meninas: visão distorcida de quem pouco conhecia de música. Nem consigo lembrar dos compositores que me atraíam nesse tempo; Bach, talvez, por influência de um amigo que, de tão fanático, às vezes assinava grafando o nome do alemão.

Quando fui realmente despertado para a música erudita, minhas preferências iniciais recaírem nos “modernos”: Debussy, Bártok e Stravinsky. À medida que fui ouvindo mais, fascinei-me pelos lieder de Schubert, pela música cantada de Mahler (Canção da Terra, Kindentotenlieder, Rückert-Lieder) e de Richard Strauss. E, claro, os três “B”s: Bach, Beeethoven e Brahms.

Já tinha minhas atenções despertadas para a música de Chopin depois de ter assistido ao documentário L’amour de la vie – Arthur Rubinstein, de Gérard Patris e François Reichenbach, no Cine Lumière, SP (sobre Rubinstein e o filme, leia http://bit.ly/efA2Lq e http://bit.ly/hlhQeR). Mas, aquela sensação de nocaute, tive quando comprei os Noturnos na interpretação do pequeno gigante chileno Claudio Arrau. O que disponibilizo, é um dos Noturnos. Primeiras impressões são sempre fortes. Depois de ter ouvido Nelson Freire, Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini, Maria João Pires, a de Arrau continua como a preferida.


Noturno nº 20, com Claudio Arrau.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O “sou novo aqui” de Gil Scott-Heron

O título I’m New Here é ótimo. Serve como comentário de um grande intérprete que andou desaparecido e esquecido por muitos anos. “Desaparecido” por ter sido, em 2001, condenado a três anos de prisão por posse de cocaína. Foi solto em 2002, mas em 2006 foi novamente condenado de dois a quatro anos a serem cumpridos na New York State Prison por ter fugido do Centro de Reabilitação de Drogados.

Gil Scott-Heron continua fumando
Parece barra-pesada, não? Esse destino, no entanto, não foi exclusividade de Gil. Vários músicos passaram alguns anos no xilindró pelas mesmas razões: Joe Pass, Art Pepper, Hampton Hawes, dentre outros (todos músicos de jazz). Notícias sobre os descaminhos de músicos atuais como Amy Winehouse, Britney Spears e Pete Doherty, do Libertines, estampam os jornais e sites. Há uma conexão da droga com a música que é atávica. A arte, por si, é subversiva, e andar “fora da linha” faz parte.

Não são poucos os que se recuperaram e puderam continuar a contribuir para a arte da música. Joe Pass, Hawes e Art Pepper, depois de saírem da cadeia, levaram suas carreiras adiante. No rock, Eric Clapton é o exemplo melhor de que, “limpos”, não perderam a veia criativa. Alguns, mesmo continuando a tocar, tornaram-se “farrapos humanos”, apesar de alguns lampejos esporádicos de criatividade, como o trumpetista Chet Baker. Outros foram ceifados por acidentes de percurso e morreram relativamente jovens, caso de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Charlie Parker.

Aparentemente, Scott-Heron continua tão bom quanto antes. Seu recente I’m New Here é um petardo. Curto e grosso: em trinta e poucos minutos – essa é a duração do disco – mostra serviço. Além do título irônico do CD, aparece fumando um cigarro na capa. Isso que é atitude! Num universo tão politicamente correto, é incorreto ser visto fumando. Gil continua a desafiar o establishment. Ser usuário de drogas é um desafio ao establishment na medida em que é proibido por lei o seu consumo. Por isso, esteve preso. Mas, vejam, eu fumo, e ninguém tem nada a ver com isso. O poeta e músico, ao engajar-se na luta pelos direitos dos afro-descendentes, nos anos 1960, por justiça, desafiava um poder estabelecido.

Esse conceito do que é politicamente correto é uma coisa um tanto nebulosa. Não se deve chamar o negro de negro ou crioulo, não é correto vestir-se com peles de animais em extinção, mas ser desleal com seus pares, desrespeito pelo próximo e sociopatia não estão entre os comportamentos “incorretos”. Quando acontece uma catástrofe como a das mortes causadas pelas chuvas na região serrana do Rio, entre o fim do ano e início de 2011, acontece uma corrente de solidariedade com doações e corações sensibilizados pela desgraça alheia ou pelo cão que fica sem dono, e com isso, É um modo bem particular de sentir-se em paz fazendo o bem ao próximo que está bem distante. Ao próximo que está perto, vale xingá-lo, maltratá-lo etc. Por essas e outras, é bem discutível estabelecer o que é certo e o que é errado. Basta lembrar que Hitler tinha pendores artísticos – pintava –, gostava de animais e era vegetariano. Havia uma boa dose de correção política nessas ações.

Ouça I’ll Take Care of You, composição original de Brook Benton. Lindíssima.



Ouça as músicas de I’m New Here.