terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Louca me chamam Gal Costa e Dinah Washington

Simplesmente, Gal
Em Caras e Bocas, tremendo disco de Gal Costa, o poeta e (grande) tradutor Augusto de Campos foi parceiro de Carl Sigman, Bob Russell, Irving Mills, E. de Lange, Duke Ellington e Bob Dylan. Suas incursões são sempre benvindas. Foi sempre genial traduzindo poetas difíceis como Stephane Malarmé e o americano superlativo e.e. cummings, mas sempre teve olho para manifestações consideradas menos nobres como a poesia provençal ou a música popular brasileira (é autor do fundamental Balanço da Bossa e Outras Bossas, Editora Perspectiva, 1974). A tradução – ou versão – de composições do cancioneiro popular existe desde sempre. Basta lembrar de All of Me, que virou Disse Alguém, na versão do multitalentoso (aventurou-se pelas rádios, foi redator de programas de TV e de uma coluna de turfe em O Globo, e compositor, em preciosas parcerias, de clássicos como De Conversa em Conversa, Pra Que Discutir com Madame e Tintim por Tintim) Haroldo Barbosa. Essa prática se disseminou em versões, às vezes pavorosas, de sucessos populares da música internacional, cantadas por Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Ronnie Von e Os Fevers, em que, por exemplo, Girl, de Lennon & McCartney, virava Meu Bem. Não cabe ao Brasil, porém, a exclusividade de criar versões de sucessos em inglês na língua pátria.

Não foram meros acasos suas versões contidas em Caras e Bocas (Philips, 19xx). Foi partícipe ao ver incorporado um poema de John Donne traduzido por ele, em música de Péricles Cavalcanti, ser cantada por Caetano Veloso (Elegia). O namoro de Caetano com o concretismo foi bem sério e inúmeras interações aconteceram, como no poema Pulsar, de Augusto de Campos, ou em composições de Caetano Veloso como Batmacumba (parceria com Gilberto Gil), em que a letra faz o desenho da letra “K”, Relance (1973), De Palavra em Palavra e Júlia Moreno (ambos no álbum conceitual Araçá Azul, 1972), Asa (“Pássaro um/ Pássaro pairando um/ Pássaro momento um/ Pássaro ar/ Pássaro pousa/ Pássaro repousa/ Pássaro som/ […[/ Passa voou/ Passa avoou/ Pássaro par.), do disco Joia (tinha acento agudo no “O” naquele tempo), de 1975.

Soa sempre estranho ouvir uma canção com a qual estamos acostumados com as sonoridades da língua em que foi composta (tento imaginar My Way cantada em japonês). São os casos de Solitude, de Duke Ellington, Crazy He Calls Me, de Carl Sigman e Bob Russell, e It’s All Over Now, Baby Blue, que virou, na versão de Campos, Negro Amor (é ousado esse título para algo que, traduzido, seria “Agora está tudo acabado, baby blue”). A tradução de Crazy He Calls Me foi mais fácil: “Louca me chamam”. Já “solitude” é uma palavra tão específica, que não houve outro jeito: continuou “solitude”. Na versão, sim: “solitude” virou “solidão” (“Nessa solidão/ Eu choro/ As horas que não tocam mais/ Nessa solidão/ Devoro”).

Dinah canta um espetacular Crazy He Calls Me
Lembro que, na época do lançamento de Caras e Bocas – 1977 –, estava em Salvador. Quando somos jovens, os discos “encarnam” na gente; não parávamos de ouvir (nesse tempo se dizia “ouvi o disco até furar”; explicação: o som era produzido pela agulha de diamante sobre a superfície de vinil, e ocorria um desgaste por atrito mesmo) os lançamentos, se os tivéssemos à mão. Na casa em que ficamos tinha esse disco de Gal. Todo mundo lá cantava de cor (bem que podia ter um acento agudo aqui para soar foneticamente correto, mas o “cor” vem de “coração”, segundo um amigo) o disco todo. As que mais adorava eram, justamente, Louca Me Chamam, e a última Um Favor, de Lupicínio Rodrigues. “E refletindo um segundo/ Resolvi pedir ao mundo/ Que me fizesse um favor/ Para que eu não mais chorasse/ Que alguém me ajudasse/ A encontrar meu amor/ […]/ Quem puder gritar que grite/ Quem tiver apito, apite/ Faça esse mundo acordar/ Para que onde ela esteja/ Saiba que alguém rasteja/ Pedindo pra ela voltar.” Maravilhoso. Ouvir Lupicínio, às vezes, faz mal, mas é sempre maravilhoso.


O melhor Crazy He Calls Me. A coisa do “melhor” será sempre uma discussão. Os fãs mais fanáticos de Billie Holiday poderão até dizer que não sei de nada, mas minha preferida é a de Dinah Washington. Não é possível se esquecer a de Anita O’Day. Até onde eu sei, Gal Costa é a única a ter cantado Louca Me Chamam.

Dinah Washington canta Crazy He Calls Me.




Gal Costa canta Louca Me Chamam.




A letra de Louca Me Chamam, por Augusto de Campos.

Eu moverei montanhas/ Sei mover montanhas/ Se ele assim quiser, moverei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor, eu sei/ Eu andarei no fogo/ Sei andar no fogo/ Se ele assim quiser, andarei/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor serei/ Como luar que move a palha/ Me abala o seu olhar/ A música eu sei cantar/ A mágica eu posso ensinar/ Eu te darei pra sempre/ Digo para sempre/ Te darei a chave do céu/ Louca me chamam/ Sim, sou louca/ Louca de amor sou eu

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