quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Brad Mehldau e Kevin Hays ao piano

Depois de alguns projetos que fugiam de uma linguagem mais estritamente jazzística, com as gravações recentes realizadas por duas cantoras líricas – Renée Fleming e Ann Sofie von Otter –, o solo Elegiac Cycle e Highway Rider (nesse álbum duplo, os arranjos para orquestra de câmara são do pianista), foi lançado em 2011 um disco de duo com o também pianista Kevin Hays. Não estou considerando o CD/DVD Live in Marciac, lançado no início de 2011, por este ser um álbum ao vivo.

Música para dois pianos ou a quatro mãos são comuns. Até entre iletrados musicais “rola” um Frère Jacques em residências que têm um piano na sala: quem nunca tocou?. Não era diferente no século 18 ou 19. As tão populares reuniões que se davam (deve ocorrer ainda, creio) em volta de um violão não são muito diferentes das que aconteciam em torno de um piano-forte, um cravo ou um piano. Schubert, Brahms, Mozart, Fauré e Rachmaninov não se furtaram em compor nesses dois formatos. E não faltam intérpretes especializados. Exemplos: Katia e Marielle Labèque, Lyubov Bruk e Mark Taimanov, Alfons e Aloys Kontarsky. Nem me refiro às duplas ocasionais como Daniel Barenboim e Georg Solti (ambos excelentes na batuta e no piano), Nelson Freire e Martha Argerich, ou Radu Lupu e Murray Perahia. No jazz, também, não chegam a ser incomuns os encontros de bons pianistas. Não me deixam mentir Herbie Hancock e Chick Corea, e nem Tommy Flanagan e Hank Jones.

Como nem sabia da existência do CD Modern Times, ao vê-lo na livraria Ateneo, de Buenos Aires, minha atenção se deveu à presença do nome de Brad Mehldau. Confesso minha ignorância quanto a Patrick Zimmerli; considerando-se as letras em que os nomes estavam grafados na capa, o disco era de Zimmerli, sendo Brad Mehldau e Kevin Hays os executantes (se bem que, pode-se considerar o efeito gráfico da perspectiva: mais próximo, maior). Mesmo assim, resolvi comprar e, depois, tinha adorado a capa com um detalhe de Classic Landscape, de Charles Sheeler, do acervo da National Gallery of Art, Washington.

Na primeira audição, já me senti atraído pela energia dos dois pianos – Mehldau no canal direito do estéreo, e Hays no esquerdo. De “prima” as que mais me chamaram a atenção foram Lonely Woman, de Ornette Coleman, e um trecho de Música para 18 Músicos (Music for 18 Musicians), do minimalista Steve Reich. Essas obras sempre estiveram entre as minhas favoritas, antes mesmo de ouvi-las nesse CD. Qual um Corinthians x Palmeiras, achava Reich o máximo e Philip Glass chato. Lembro de tê-lo visto, no início dos anos 1990, no Centro de Convenções do Anhembi, São Paulo, e ter dormido. Hoje, meus juízos sobre Glass não são tão radicalmente negativos; inclusive, no CD, está registrado um trecho de seu Quarteto de Cordas nº 5, que é bem bom. Agora, Ornette Coleman é Ornette Coleman (sobre sua apresentação em São Paulo, em 2011, leia em “A luz de Ornette Coleman”).

Nesses discos diferenciados em que Brad participa nunca falta um texto extenso no encarte. Em Modern Music não é diferente. Ficamos sabendo então que os dois pianistas são amigos há tempos e Zimmerli é o “terceiro homem” do projeto. Saxofonista, inicialmente, pendeu para a composição. Nas peças do disco, os pianistas seguem uma partitura – escritas por Zimmerli. Como nas sonatas de música erudita, há trechos (cadenzas) em que o intérprete tem a liberdade de improvisar. A grande riqueza desse disco, além da inegável competência dos pianistas, são os arranjos. Vibrantes e sofisticados, são ricos melodicamente e uma experiência única. As quatro composições de Zimmerli (Crazy Quilt, Generatrix, Celtic Folk Melody, e Modern Music), Unrequited (Mehldau), Elegia (Hays) e as anteriormente citadas de Steve Reich, Philip Glass e Ornette Coleman, formam um caleidoscópio de cores, climas e momentos de puro deleite musical.

Ouça Lonely Woman. Preste atenção no arranjo.

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