quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A luz de Ornette Coleman

Nas situações mais inesperadas ocorrem as coisas mais inusitadas. O quarteto de Ornette Coleman se apresentava no Sesc-Pinheiros, SP, e, subitamente, acabou a luz. Não sei se a queda de energia aconteceu no teatro ou na região. A música foi interrompida, de chofre, e acenderam-se as luzes de segurança. A plateia ficou em silêncio, como os músicos. De repente, Ornette começa a tocar, acompanhado do baixo acústico e sons discretos da bateria. Lonely Woman interrompeu o silêncio e o público, como que hipnotizado, apenas ouvia o som e não podia vê-los. Foi um momento mágico. Essa é para não esquecer.

Belo paletó, Ornette
O disco mais famoso e conhecido – e nem tão ouvido – é Free Jazz – A Collective Improvisation by The Ornette Coleman Quartet. Representou uma revolução em 1961, quando foi lançado. São dois quartetos tocando cada um em um dos canais do disco: no esquerdo, o saxofonista, Don Cherry no trumpete, Scott La Faro no baixo e Billy Higgins na bateria; no direito, o grande Eric Dolphy na clarineta baixo, Freddie Hubbard no trumpete, Charlie Haden no baixo e Ed Blackwell na bateria. É um bando de figurões. O propósito era de que o som fosse resultado de uma improvisação coletiva, free, como explicitava o título. Uma pintura de Jackson Pollock, um dos mestres da action painting ilustrava o miolo do LP.

Mesmo que esse disco represente o lado free do jazz, Ornette não foi tão radical quanto outros que surgiram concomitante ou posteriormente como o pianista Cecil Taylor, Albert Ayler ou Anthony Braxton. Mas o que vale é o significado simbólico desse disco, como uma ruptura numa época em que os músicos de jazz se viram “pressionados” pela nascente onda do rock e porque a arte, no fundo, a pintura, a literatura ou a música necessitam dessas renovações para evoluir e enriquecer suas linguagens.

Tampouco, quer dizer que não tenha sido radical. Na verdade, Coleman sempre foi uma dessas figuras inquietas da música. Em 1977, lançou Dancing in Your Head, cujo tema é repetido indefinidamente e sem interrupção por mais de 25 minutos. É bem diferente do som que os “eruditos” Steve Reich e Philip Glass propunham. Ambos, cuja música era rotulada também de minimalista, faziam uma música climática, hipnótica. Com Ornette era barulho mesmo, algo como uma música circular, sem algum propósito mântrico: o tema é energicamente martelado em nossos cérebros por uma banda composta por duas guitarras, baixo e bateria. Midnight Sunrise, a composição que completa o disco, é uma música tocada com os Músicos Mestres de Joujouka, do Marrocos.

Se alguns que o conhecem esperavam que ele surgisse com um vistoso paletó cheio de cores ou azul acetinado, viram um Coleman sóbrio vestido em um costume preto risca de giz. O restante da banda é relativamente jovem. Mesmo seu filho Denardo, o baterista, que toca desde os doze anos com o pai (um veterano, então), o mais velho, é um jovem de 56 anos, mas aparenta uns vinte a menos. No programa, constaram várias composições conhecidas como The Sphinx, Chronology, Peace, Song X e Turnaround, mas não seguiram a ordem que constava no programa. Não sou um especialista no repertório de Ornette como o amigo Sieiro, que deve conhecer tudo dele e de uma enormidade de músicos avant garde. Não consegui reconhecer vários temas apresentados no domingo. Uma que não conhecia chamou-me a atenção pelo fato de sua introdução ser o primeiro movimento da Suite nº 1 para cello de Johann Sebastian Bach. Constava no programa uma música chamada Bach. Devia ser essa. Bem dito: no início, era Bach, depois, puro Ornette.

Saindo do teatro, encontramos os semáforos quebrados nas proximidades da Rua Pinheiros e Teodoro Sampaio com a avenida Brigadeiro Faria Lima. A pane elétrica foi no bairro e não no teatro, quem sabe causada por Coleman tocando um tema “elétrico” demais; no exato momento em que acabou a luz e acenderam-se as de segurança.

Ouça o clássico Lonely Woman:

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