Em um dos posts anteriores comentei sobre o impacto da criação do selo ECM, por Manfred Eicher. Foi tão significativo que, se não me engano, a PolyGram, apressou-se em lançar alguns títulos no Brasil. Assim, pudemos conhecer músicos hoje consagrados, como Pat Metheny, Gary Burton, John Surman, Jan Garbarek, Carla Bley, Steve Swallow e muitos outros.
Um dos músicos virou um caso de amor, de minha parte; dele, com certeza, não. Depois de décadas, alimentado por essa paixão, pude vê-lo ao vivo em uma noite fria de São Paulo, no Teatro Sesi-SP, eu mais uns gatos pingados, 50 ou 60 espectadores. Era um dia chuvoso, além de gélido, fora que o show foi pouco divulgado. John Surman veio para divulgar “Invisible Threads” (ECM, 2028), com o brasileiro Nelson Ayres e o vibrafonista americano, radicado em Oslo, Noruega, Rob Waring. Dei uma de tiete, puxei um papo envergonhado depois do show e ainda aproveitei para tirar uma foto com ele.
Foram dois os LPs com participação de Surman lançados no Brasil: “Upon Reflection” (1980), solo dele em overdubs nos sopros e teclados, e “First Meeting” (ECM 1980), de Miroslav Vitous, com ele, o pianista Kenny Kirkland e Jack DeJohnette na bateria. “Miroslav Vitous Group” (1981) foi o segundo, com a mesma formação, e ainda um terceiro: “Jounrey’s End” (1983)). Neste, John Taylor substitui Kirkland.
John Surman, na minha opinião, é o melhor no sax barítono e na clarineta baixo de todos os tempos. Menos presente na cena musical, hoje, morando em Oslo, perdeu o posto de melhor saxofonista barítono, que manteve por décadas, pela revista Downbeat. O terceiro instrumento no qual se destaca é o sax soprano, além da competência em criar climas sonoros nos teclados eletrônicos. Seu estilo é inconfundível. Por essa razão, logo identifiquei onde o tinha ouvido antes: em “Extrapolation” (Polydor, 1969), de John McLaughlin. Comentei isso com ele na noite em que apresentou-se em São Paulo. Disse que muitos de seus fãs falam o mesmo. Sua presença é marcante neste álbum. No ano em que saiu “Extrapolation” já tinha lançado na Grã Bretanha seu primeiro disco como líder.
First meeting. É a primeira reunião de Miroslav Vitous e John Surman. Ao piano, o talentoso Kenny Kirkland — quem conhece a obra de Sting sabe que foi membro de sua banda, junto com outro músico do jazz, Branford Marsalis — e Jack DeJohnette na bateria. Todas as composições são de Vitous, com exceção da música-título, uma criação coletiva.
Pelo começo, iniciada com o piano de Kenny Kirkland, “Silver Lake” é uma preparação ao que ouviremos. É um número com um colorido excepcional, e solos bem distribuídos: o piano discreto mas essencial, solos dramáticos de Vitous com o arco, Surman no saxofone soprano e a bateria politonal do grande DeJohnette. O breve solo de Kirkland no final da faixa é uma preciosidade. Pena que tenha morrido tão cedo, em consequência do consumo de drogas ilícitas.
“Beautiful Place to”, bem melancólica, sem a bateria, é inteira com solo de Surman no soprano e Vitous tocando com arco em uníssono em vários trechos, sobre acordes discretos de Kirkland. A próxima, “Trees”, não entra na minha seleção das preferidas.
“Cycle” é a primeira em que Surman toca clarineta baixo. O início é com ele e o, mais uma vez, o belíssimo piano de Kirkland. Vitous e DeJohnette entram logo depois. O tcheco é um mestre no arco. Tem um estilo único, inconfundível. DeJohnette também tem um estilo original. Por tocar piano também — e bem — sua capacidade de criar sonoridades na bateria o diferencia da maioria dos bateristas. Outros que têm essa capacidade de produzir sons polifônicos por meio de suas baquetas são Paul Motian e Thomas Strønen.
A seguir vem a música título. Destaca-se aqui o sax soprano de Surman nos solos. A seguinte, sem dúvida, é um dos destaques. “Concerto in Three Parts” é um solo de Vitous. É, com certeza, um dos que melhor tira partido do arco no contrabaixo. “You Make Me So Happy” é uma boa conclusão para esse primeiro encontro desses grandes músicos.

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