Um grande feito de Diana Krall foi o de trazer milhões de ouvintes ao universo do jazz, ou mais genericamente, ao que chamam de “Great American Songbook”. Outros, como Harry Connick, Jr., este no início de sua carreira, e Michael Feinstein, com repertório voltado aos grandes compositores americanos do século 20, nem chegaram perto de sua popularidade.
Krall começou estimulada pelo contrabaixista Ray Brown e de seu professor, o pianista Jimmy Rowles. Depois de se lançar no Canadá pelo selo Justin Time, foi contratada pelo selo americano Impulse. Desde então, ganhou a crítica, por sua maestria ao piano, muito influenciada pelo estilo de execução de Nat King Cole. Para o público menos afeito ao jazz, o que chamou atenção foi o seu lado cantora. Coincidência: King Cole grande pianista, teve vários seguidores, como o genial Oscar Peterson, mas ficou famoso como cantor. Suas vozes são únicas, inconfundíveis. Ambas são cálidas, sensuais, Cole no seu registro de barítono e Krall, no de contralto.
Casamento e filhos. Para a surpresa de muitos, Diana Krall casou com Elvis Costello, do universo do rock, em 2003. Quem duvidava que não fosse durar, enganou-se também. Estão juntos até hoje. Mais surpreendente ainda: preferiram sair de uma metrópole e irem morar em na pequena Nanaimo, cidade natal dela, a 50 e poucos quilômetros de Vancouver, na Columbia Britânica. Com filhos gêmeos adolescentes, Diana e Elvis têm uma vida de casal padrão, principalmente, nesses tempos de pandemia, impossibilitados de fazerem apresentações ao vivo.
O título do penúltimo álbum de Diana é “Turn Up the Quiet” (Verve, 2017) é bem apropriado à vida que estava e continua vivendo. O álbum é seu último trabalho com o produtor Tommy LiPuma, colaborador de vários discos desde “Only Trust Your Heart” (1995).
“This Dream of You”, o recém lançado álbum, pode ser considerado uma continuação do anterior. São gravações que não estavam prontas em 2017. Ainda bem que existia esse material. Nesses tempos de isolamento social foi possível concluí-las. E não pense que por serem “sobras” de gravação são descartáveis. É um novo álbum, mesmo sendo um “to be continued” de “Turn Up the Quiet”.
A diversidade das formações resultam em belos resultados. Em “But Beautiful”, “That’s All”, “Almost Like Being in Love” e “Singing in the Rain” a banda é aquela que conhecemos bem: Anthony Wilson na guitarra, John Clayton no contrabaixo e Jeff Hamilton na bateria, e ela no piano. Conhecem-se tão bem que tocam por telepatia. Tudo é perfeito sem grandes esforços.
A outra formação é composta por Marc Ribot na guitarra, Stuart Duncan no violino, Tony Garnier no contrabaixo e Karriem Riggins na bateria: “Just You, Just Me” e “How Deep Is the Ocean”. Com o acréscimo de Randall Krall, temos ”This Dream of You”, a música título, de Bob Dylan.
Ouça “How Deep Is the Ocean”.
Em um único número — “There’s No You” — o trio é completado pelo brilhante Christian McBride e Russell Malone, guitarrista excepcional, que tocou nos primeiros álbuns de Diana. É um dos destaques do disco, justamente, pela guitarra de Malone e a grande qualidade dela como cantora. Que voz! Com a maior simplicidade, nos envolve.
McBride e Malone participam também de “Autumn in New York”, aqui com um arranjo orquestral matador do mestre Alan Broadbent. Cabe ao mesmo Broadbent, desta vez ao piano um dos destaques do álbum: “Don’t Smoke in Bed”. Amo essa música. Agradeço por poder ouví-la na voz de Diana, apesar de a minha preferida continuar sendo a de kd lang, e não a de Nina Simone. Um segundo duo matador é “I Wished on the Moon”, com John Clayton, seu baixista de longa data.
O vídeo oficial de “Autumn in New York”.
Agora é sentar, abrir um vinho e sonhar.
Ouça o álbum.

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