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| Motian em ação |
Fico sabendo da morte de Paul Motian pelo blogue da Lúcia Guimarães, de O Estado de S. Paulo, ocorrido em 22 de novembro. Tinha 80 anos e, segundo a nota, sofria de um problema na medula óssea. Lúcia diz que uma vez cometeu “o mau passo de pedir a ele uma declaração sobre mais uma temporada no Vanguard”.
Assisti a uma dessas apresentações que, costumeiramente, fazia com o saxofonista Joe Lovano e com o guitarrista Bill Frisell. Era uma formação interessante. Lançaram alguns CDs pela ECM. Sem o contrabaixo, a “alma” rítmica era a bateria; O som de Frisell é uma história específica: parece som havaiano — se é que isso existe —, sem deméritos, lembra aquelas mulheres dançando vestidas com sarongues coloridos. “Atirou” para todos os lados: tocou com músicos mais ligados ao avantgarde, como Don Byron, brasileiros, fazendo som “mexicano”, como Vinícius Cantuária, e em muitos — e coloque-se muito — dos álbuns que lançou, seu jazz pende para a música folk e country americanas. O saxofonista Joe Lovano, dos três, é o cara “mais jazz”. Passou a chamar atenção quando já não era mais um garotinho, porém, a partir daí, “desembestou”: grava um disco atrás do outro e há anos está entre os melhores tenoristas, com justiça.
Uma observação: é tão bom assistir às apresentações no Village Vanguard! É um lugar pequeno, em dois níveis, que dão para o palco montado em uma das pontas da sala. Enquanto se espera para entrar, vemos os músicos chegando, pedindo “com licença” para passar no meio dos que estão na fila. Estávamos lá e, de repente, passa um senhor franzino, de óculos e com um gorro, numa noite quente de fins de agosto: era Paul Motian.
A primeira participação de que tenho notícia de Motian é na do lendário trio de Bill Evans; o terceiro era ninguém menos que Scott LaFaro, morto bem jovem. Dias antes de morrer, em 1961, num acidente automobilístico, havia gravado Sunday at The Village Vanguard e Waltz for Debby. Foi o suficiente para entrar na história como um dos maiores baixistas de todos os tempos. Chales Mingus o odiava: é o suficiente, não? Pura inveja.
A outra formação excepcional da qual Motian participou foi a da banda de Keith Jarrett. Como solista, além de gravar alguns pela ECM, fez outros pela também alemã Winter & Winter (caracteriza-se pelas embalagens diferenciadas), JMT (que deve ter sido, não tenho certeza, o embrião da Winter & Winter, pois era comandada por Stefan Winter), e pela italiana Soul Note. Nunca parou.
Paul Motian (pronuncia-se “moriân”, e não “môchian”, como costumeiramente se falava, pois era de origem armênia) não é um baterista por excelência, desses como Elvin Jones, Max Roach ou Art Blakey. Sua “potência” não está no ritmo; está mais numa certa polirritmia que é só dele. Os discos que assinou como líder sempre se caracterizaram pela diversidade. Uma das formações mais interessantes foi a que tinha dois guitarristas. O “mau passo” a que Guimarães se refere foi quando perguntou-lhe, por telefone, sobre a temporada no Village em que estava “tocando com Lovano e Frisell”. Silêncio glacial do outro lado da linha. ‘Você quer dizer, eles estão tocando comigo’ corrigiu o baterista.” Lucia disse que foi a entrevista mais curta que jamais fizera.
Relevando um pouco a possível arrogância de Motian, façamos uma homenagem a esse instrumentista ímpar, que tocou até morrer.

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