terça-feira, 29 de novembro de 2011

Mi Buenos Aires Querido

Eu e Zelia Duncan temos algo em comum: fomos furtados em Buenos Aires na semana do feriado do dia da proclamação da República. Ela teve sua bolsa surrupiada por uma senhora grávida dentro de uma doceria, e eu, a carteira com três cartões de crédito, cerca de 700 pesos e, dor maior, minha carteira de identidade tirada (nunca perdi) quando tinha 13 anos, no metrô entre as estações Uruguay e Callao. Ainda bem que, no hotel, ficaram o passaporte e um cartão de crédito.

Nem fiquei tão chateado com a perda dos cartões e dinheiro, se bem que sempre nos sentiremos vilipendiados. A percepção de que alguém lhe surrupia o que foi conquistado à custa de trabalho é horrível mesmo.

Em relação ao furto, que nunca tinha acontecido comigo nas dezenas de viagens para fora do País, até hoje, primeiro, pensei que “há sempre uma primeira vez”, a segunda, é uma breve reflexão sobre o destino. O que me fez estar naquela hora, naquele vagão?

Antes de sair do hotel me perguntei por que estava andando há dias com quatro cartões. Tirei um deles e deixei-o sobre a mesa. Nunca gostei de usar o metrô de Buenos Aires. Nas cinco vezes que fora à cidade sempre preferi andar a pé ou me locomover com táxis, bem mais baratos que os brasileiros; desta vez, por sugestão de quem viajava comigo, resolvi usar o metrô. Quando o trem chegou na estação, em vez de pegar o vagão mais próximo, preferi pegar o posterior, que parecia menos cheio. Percebi algo estranho ao me sentir “ammassado” por dois marmanjões de mais ou menos 1,80 m de altura. Quando o trem parou na estação de Callao, pus as mãos nos bolsos, por desconfiança mesmo. Automaticamente agarrei no braço de um dos que imaginei pudesse ser o ladrão e lhe disse algo do tipo “você me roubou” – em português –, nervoso que fiquei. Ele abriu os braços dando a entender que não fizera nada e saiu tranquilamente. Saímos também, um tanto atônitos, para ver o que faríamos. Um senhor que saiu junto nos disse que percebera que eram três ou quatro homens os ladrões. Tudo bem, posso estar errado, mas fiquei com uma impressão difusa quanto a esse senhor, imaginando-o cúmplice. Por que saiu do trem e, em vez de sair para a rua, ficou por lá, aparentemente, pelo próximo? O último “acaso” foi a de que na noite anterior tinha sacado alguns pesos no caixa eletrônico. Se não tivesse feito, o prejuízo teria sido de pouco mais de 200 pesos.

A conclusão a que cheguei foi a de que as coisas acontecem tão circunstancialmente que, quando têm de acontecer, acontecem. O amigo Adilson Rocha brincou referindo-se ao tango Por Una Cabeza. No clássico de Carlos Gardel, o apostador de corridas de cavalo perde “por uma cabeça”. Fui roubado por um vagão: se tivesse tomado o que estava mais próximo, não teria sido furtado.

Vedder, o líder do Pearl Jam
Pearl Jam em Buenos Aires. Em razão de os ingressos custarem bem menos na Argentina, e também de os assentos serem numerados (estou velho para ficar em pé na pista; a última “experiência” foi no show de Paul McCartney, neste ano, na ala vip e, mesmo assim, achei cansativo), preferi juntar show com passeios, sempre aprazíveis na cidade portenha. A parte civilizada é a de que os “assentadores” o levam até o lugar comprado, serviço que não deve existir nos estádios brasileiros. A parte ruim foi a de que o show se deu no estádio de La Plata, uns 60 quilômetros distante da capital. Aí entra a “aventura”: pegamos um ônibus na estação Retiro, que nos deixou, uma hora e meia depois, no ponto mais próximo do estádio. Depois de caminharmos bem uns três quilômetros, por uma via coalhada de vendedores com suas churrasqueiras fumegantes de morcillas e pedaços de carne, refrigerantes e cervejas, e acidentadas, ora de terra, ora de calçadas quebradas e trechos ermos, chegamos ao estádio com o show iniciado. Os “assentadores” nos levaram até nossos lugares, respeitosamente, vagos. Há alguma coisa de mais civilizado na Argentina! Nem vou discutir onde podem não ser mas, aparentemente, há sensação de maior civilidade e menos violência que no Brasil (veja, não estou esquecendo que fui furtado).

A apresentação da banda foi ótima. O espetáculo mesmo, foi o da plateia, acompanhando e cantando junto. Considerando-se que o Pearl Jam existe desde 1990 e a média de idade do público era entre os 20 e os 30 anos, é surpreendente. Eddie Vedder disse, no estádio de La Plata, que foi na Argentina que encontrou os seus mais ardorosos fãs. Será que disse a mesma coisa em São Paulo? Não é “a minha banda”, conheço bem os primeiros discos, bem menos os mais recentes, mas gosto muito da trilha sonora de Na Natureza Selvagem (Into the Wild), filme de Sean Penn, porém, esse é um disco solo de Vedder. O, agora, senhor dos “blue sad eyes” tem uma voz muito especial. Cativa e é um tanto melancólica. A sensação é que a “suprema felicidade” é apenas a de seus fãs.

Pearl Jam toca Mother, de Roger Waters.




Mi Buenos Aires Querido. Se essa minha breve estada em terras argentinas não foi das mais felizes, nem por isso, será a última. Gosto da cidade e da terra que gerou tantos gênios como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar (é belga de nascimento), Astor Piazzolla (apesar de nascido em Mar del Plata, passou boa parte da infância e adolescência em Nova York, no Little Italy), e Daniel Barenboim (judeu de origem asquenaze, nasceu em Buenos Aires, com menos de 10 anos deixou o país, apesar de continuar ligado às raízes portenhas).

Daniel Barenboim gravou um disco excepcional com o genial bandonionista Rodolfo Mederos em 1996 pela gravadora Telarc. Fazem parte das escolhidas, El Dia Que Me Quieras, de Gardel, e várias de Astor Piazzolla em interpretações emocionantes.

Para quem não conhece o Mi Buenos Aires Querido, de Daniel Barenboim, desfrute-o, e os que a conhecem, idem.

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