Mark Lanegan é um quarentão quase cinquentão e fez parte do Screaming Trees, grupo de Seattle, cidade onde nasceu Jimi Hendrix e palco do movimento grunge. É só lembar de Nirvana, Alice in Chains e o mais longevo Pearl Jam. A revolução foi diluída no tempo. Da fase da voga, ficaram alguns clássicos definitivos de Kurt Cobain – Smells Like Teen Spirit e Come As You Are.
Mark juntou-se a Isobel Campbell, que fez parte do Belle & Sebastian até 2006. Gravaram Ballad of the Broken Sea em 2006 e em 2008 fizeram um outro: Sunday at Devil Dirt, e agora, há pouco, lançaram Hawk. Quem aparece mesmo é Mark com sua voz áspera e soturna. A voz de Isobel funciona mais como um backing vocals. As composições, entretanto, na maioria, são dela; talvez por isso, seu nome apareça em primeiro lugar nos discos; ou, quem sabe, por cavalheirismo de Mark.
Quando decidiu pela carreira musical, Leonard Cohen tinha quase 30 anos. Antes, tinha publicado três livros de poemas e um romance no país natal, Canadá. Mudou-se para os EUA e conseguiu ter duas músicas – Suzanne e Dress Rehearsal Rag – gravadas pela cantora folk Judy Collins. Serviu como passaporte para sua entrada no mundo musical norte-americano. Em 1967, ano seguinte, participou do Newport Folk Festival e chamou a atenção do produtor John Hammond. Resultado: foi contratado pela CBS, a mesma gravadora de Bob Dylan.
Songs of Leonard Cohen, o primeiro, era composto de canções “lamentosas”, apropriadas para o tom melancólico de sua voz. Mas nessa época, não era tão grave como é atualmente. Décadas de consumo de cigarros e de outros aditivos tiraram o viço da juventude de sua voz, que foi ficando bem grave: de barítono virou baixo E é esse o Cohen de grande sucesso popular, provavelmente maior do que o que tinha em fins dos anos 1960.
Ao se ouvir Mark Lanegan cantando é inevitável lembrar-se do bardo canadense. Alguns outros, também. Por que não Tom Waits? Mais que todos, é o paradigma do cantor de voz grave, “rasgada”. Ninguém melhor que ele, talvez. Ou a do australiano Nick Cave? Há algo de grave no que cantam, literalmente.
No quesito “aspereza da voz”, Tom Waits é hors concours, sem dúvida. Closing Time, o disco de estreia, é de 1973, pela gravadora Asylum. Ou, quem sabe, Joe Cocker? Em 1969, no Festival de Woodstock, fez uma apresentação arrasadora cantando With a Little Help from My Friends. Diziam que a razão da voz “rascante” de Cocker era por conta do excesso do álcool e da canabis. Coincidência ou não, a carreira do inglês naufragou devido a esses excessos. Ressurgiu cantando You Are So Beautiful, em homenagem à princesa Diana: triste fim.
Antes de todos os citados, existiu Louis Armstrong. Mas não há como compará-lo. Apesar da voz áspera, não era soturna como a Waits, Cohen ou Lanegan.
Ouvindo mais vezes e esquecendo um pouco de Cohen (é que, por um momento, quando ouvi Seafaring Song, a canção que abre o álbum Sunday at Devil Dirt, pensei que era um clone do canadense), passo a gostar mais da combinação de sua voz grave com a de Isobel, que me lembra, de vez em quando, uma cantora da década de 1990, Mazzy Star, de quem nunca mais ouvi falar.
Ouça e veja os dois em Who Built the Road.

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