quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sophie Milman, a cantora que veio do frio

In the Moonlight, o mais recente de Milman
Com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, abriram-se as portas para a exportação massiva de mulheres para trabalharem na prostituição – só na Ucrânia, um dos países da antiga república, são mais de 50 mil – e de talentos musicais, fora o Femem, aquele grupo de mulheres que fazem topless para protestar contra qualquer coisa – o aquecimento global, a exploração de mulheres, a violência doméstica, Silvio Berlusconi, matança de ursos –, em resumo, contra qualquer coisa, que é um dos produtos de exportação mais vistosos da Ucrânia. O Brasil que espere: Inna Shevchenko, líder do grupo, está querendo montar um protesto em nossas terras contra a exploração e prostituição de crianças e adolescentes.

No terreno do jazz, o músico mais conhecido é o jovem pianista Eldar Djangirov, nascido no Quirquistão. Habilidosíssimo, abusa da técnica; cansa um pouco: sua apresentação no Brasil tocando só foi de uma chatice ímpar. No terreno pop, a moscovita de origem judaica, Regina Spektor é destaque. Cantora, compositora, é uma das top ten atual; sou fã (leia e ouça duas performances matadoras de Spektor em http://bit.ly/Kj9oH5). A terceira, que veio dos Montes Urais (você que frequentou as aulas de geografia, já deve ter ouvido falar dessa região), e de quem falei na semana passada, é Sophie Milman (http://bit.ly/IWrIIK).

Disse que tenho ouvido bastante Milman. Ando focado no seu mais recente CD, Into the Moonlight. Chama a atenção os nomes envolvidos: arranjadores como Alan Broadbent, Gil Goldstein e Rob Mounsey, os pianistas Gerald Clayton e Kevin Hays, o baixista Larry Grenadier, Lewis Nash na bateria, Randy Brecker no flugelhorn, Chris Potter no saxofone tenor, Gregoire Maret na gaita, e os guitarristas/violonistas Romero Lubambo e Julian Lage. E, orbitando, Matt Pierson, produtor de discos de Joshua Redman, Brad Mehldau e Jane Monheit.

Sophie Milman, apesar de parecer fazer mais sucesso do Canadá do que nos EUA e, por isso, não muito conhecida, é uma intérprete firme, afinada e, além de tudo, bela, item que anda valorizado no mercado fonográfico, inclusive na música clássica. Sophie inicia o disco com um Do It Again (G. Gershwin/Buddy DeSylva) de respeito. A voz é quente e envolvente (a expressão em inglês “warm” é a melhor definição, o que, em português, soa redutor e sonso). A peteca não cai na seguinte – Oh Look at Me Now. Em Moonlight é acompanhada por uma orquestra, um piano ocasional em saboroso caldo bossa-nova. Speak Low é Speak Low: difícil estragar. Em alguns momentos, lembra (um pouco só) Helen Merrill. O mood de ’Till There Was You é absolutamente delicioso: o violão calmo de Julian Lage, o acordeão tocado por Gil Goldstein (faz um belo solo no final) de fundo, bela marcação de baixo. É uma das melhores do disco.

O início é um solo de trumpete. De novo, um mood bossa-nova, com aquele tapete sonoro de cordas que lembra belos arranjos de Claus Ogerman e Johnny Mandel, fazem a delícia para os ouvidos mais delicados quando canta Watch What Happens. Novamente acompanhada pelas cordas, Milman ataca de Prelude to a Kiss, de Duke Ellington. Bom, aí chega a vez de Ces Petit Riens, de Serge Gainsbourg. Foi cantada lá, muito longe, por Françoise Hardy. Mais recentemente, Stacey gravou em Breakfast at the Morning Tram (2007). É excepcional como qualquer coisa que essa americana radicada na Inglaterra faz (sobre Stacey, leia: http://bit.ly/L3ygSA, http://bit.ly/KKE8yf, http://bit.ly/IXq3MC, http://bit.ly/JcltNm, http://bit.ly/KKErZK). A de Milman tem o acordeão de Goldstein e é meio abolerada e muito boa. Ainda prefiro a de Kent, mas não é demérito nenhum dizer isso, e, depois, sou fã de carteirinha da mulher de Jim Tomlinson (sobre ele, leia: http://bit.ly/JdmiJg).

É inimaginável pensar que uma canção como Ces Petit Riens pudesse combinar com Feist. Mas não é que So Sorry, da cantora pop canadense combina como sequência? Essa também cabe nos destaques. A voltagem não cai quando canta Detour Ahead, Let Me Love You e Daydream. A moça tem classe; faz a gente pensar em Peggy Lee e Helen Merrill: Sophie é da linhagem das cantoras brancas. Para terminar e para o deleite dos “brazucas”, canta No More Blues, mais conhecida como Chega de Saudade, com a letra de Jon Hendricks. Aqui, Sophie remexe com as cadeiras. Em Take Love Easy, de 2009, a moça “balançava” bem, mas essa é conversa para uma outra oportunidade.

Veja Milman, em Do It Again.



Ouça a bela So Sorry, de Feist.

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